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O lugar da reportagem

No documento DAYANE DO CARMO BARRETOS (páginas 35-40)

Ao argumentar sobre a impossibilidade de se narrar o acontecimento em sua plenitude, Leal (2011, p. 107) afirma que “ao prometer acontecimentos, o jornalismo oferece, então, histórias, que se constituem, na melhor das hipóteses, como modos de construção de realidades”. Ao pensarmos o panorama de mudanças que o jornalismo contemporâneo vivencia, o desenvolvimento de novas formas de analisá-lo, levando em conta novos parâmetros, torna-se indispensável. Considerando-se que nessa investigação propomos uma visada por meio do sujeito e da relação entre os sujeitos, devemos olhar para a produção desses sujeitos jornalistas de forma a tensioná-la ao máximo em busca de rastros que nos auxiliem na compreensão das outras dinâmicas possíveis para a prática jornalística que desvele subjetividades. Segundo Leal (2011, p. 106-107), “o jornalismo e seus modos de fazer e narrar são instâncias que mobilizam tanto a produção de significado, ou seja, a circulação de informação, como outras dimensões de sentido”. Como “sentido” aqui o autor compreende a amplitude do conceito, de que faz parte a percepção, a afecção, a sensibilidade e a

significação. Assim, a narrativa jornalística não traz consigo somente informação, mas toda uma gama de sentidos que deve ser considerada.

Nesse esteio, a dimensão estética das produções jornalísticas ganha importância, pois é ela que diz da dimensão sensível e das possibilidades de constituição de lugares de experiência para os sujeitos envolvidos no processo de construção de narrativas jornalísticas (LEAL, 2011). Para abarcar essas dimensões, a produção jornalística deve ser capaz de se apropriar da realidade e dos sujeitos de forma complexa, ampla e contextualizada, que não se deixe moldar completamente pelos imperativos do tempo e do espaço próprios do jornalismo diário produtor de notícias. Encontramos essas características potenciais em uma modalidade privilegiada de produção: a reportagem.

Além disso, ao permitir e proporcionar em potência uma abordagem ampliada, processual, que inclua os aspectos os quais cercam o acontecimento ou o tema em questão, bem como suas reverberações, o jornalista é capaz de explorar as diversas dimensões de sentido possíveis no jornalismo. A reportagem possibilita um alargamento das fronteiras temporais do tema tratado, além de uma maior contextualização. Segundo Cremilda Medina (1988), a ela propicia um enriquecimento das linhas de tempo e espaço, uma vez que “enquanto a notícia fixa o aqui, o já, o acontecer, a grande reportagem abre o aqui num círculo mais amplo, reconstitui o já no antes e depois, deixa os limites do acontecer para um estar acontecendo atemporal ou menos presente” (1988, p. 134). Ao buscar conformar esse fluxo do estar acontecendo, há uma maior abertura para uma verticalização da abordagem.

Lima (2009), outro estudioso sobre o assunto, insere a reportagem no âmbito do jornalismo interpretativo devido a sua “abordagem multiangular, para uma compreensão da realidade que ultrapassa o enfoque linear, ganhando contornos sistêmicos no esforço de estabelecer relações entre as causas e as consequências de um problema contemporâneo” (LIMA, 2009, p. 21). A causalidade sugerida pelo autor não diz respeito a uma relação simplista de causa e consequência, mas sim a uma causalidade múltipla de efeitos que seria abarcada pelo repórter da forma mais ampla possível, visando dar conta da complexidade dos fenômenos que promovem rupturas no cotidiano dos sujeitos. É sob esse viés de reportagem que serão problematizadas as posições das jornalistas, considerando as especificidades da produção de cada uma delas, suas escolhas e motivações durante a investigação e a escrita dos seus relatos.

Além de escreverem grandes reportagens, todas as jornalistas analisadas neste trabalho produziram livros-reportagem. Nas palavras de Lima (2009, p. 26), “o livro-reportagem é o veículo de comunicação impressa não-periódico que apresenta reportagens em grau de amplitude superior ao tratamento costumeiro nos meios de comunicação jornalística periódicos”. Segundo o autor, esse maior grau de amplitude pode ser entendido tanto no âmbito horizontal, de extensão, quanto no que diz respeito a um maior aprofundamento do tema. Fora a amplitude, o livro-reportagem, ainda que tenha a linguagem jornalística proeminente, possibilita uma maior liberdade na construção narrativa do tema ou acontecimento, evidenciando o seu caráter autoral, explorado aqui a partir da perspectiva do sujeito narrador.

Assim, reportagens veiculadas em mídia impressa ganharam sua versão em livro, com um maior aprofundamento, como é o caso das produções de Daniela Arbex, o Holocausto Brasileiro (2013) e Cova 312 (2015). Há também propostas específicas que já são produzidas tendo o livro como formato, como o livro-reportagem para crianças Malala – a menina que queria ir à escola (2015) da jornalista Adriana Carranca.

Dessa forma, segundo Lima (2009, p. 40), “se cabe ao jornalismo informar e orientar, cabe a seu subsistema, o livro-reportagem, informar e orientar com profundidade.” (LIMA, 2009, p. 40). Não que este seja o único formato que permita esse aprofundamento, ou que todos os livros-reportagem apresentem tal profundidade, mas as características do livro- reportagem possibilitam o jornalista de explorar a complexidade do que propõe abordar.

As reportagens de fôlego veiculadas em mídia impressa ou digital, os livros- reportagem e os documentários são capazes de desvelar tanto sobre o mundo atual quanto sobre os modos como o jornalismo contemporâneo articula saberes, sentidos e promovem rupturas. Essa potência se deve a uma maior liberdade dada a esse gênero, o que possibilita uma imersão na realidade social, gerando uma maior contextualização, além de promover o caráter criativo da escrita, o que viabiliza produções de maior cuidado narrativo e leitura mais prazerosa.

Seguindo essa linha, se com a internet corremos o risco de termos nossos jornalistas transformados em profissionais genéricos da informação (NEVEU, 2010), preocupados somente com a velocidade em que a informação chega até o receptor e em “copiar” e “colar”, as grandes reportagens demonstram a importância de sujeitos jornalistas que desejam e têm a capacidade de escrever grandes histórias, desvendar processos e dar voz à diversidade.

2. O narrar e o outro

Narrar é um modo de constituir vínculos (MARTINO, 2016). A partilha de sentidos propiciada pela narrativa revela-se tanto da prática jornalística como da relação entre os sujeitos na sociedade. Voltar o olhar para a construção da narrativa jornalística, refletindo o sujeito que narra, a sua afinidade com os personagens e com as vozes que trata e o leitor, que, de alguma forma, já está presente no ato de narrar, permite pensá-la enquanto parte de um processo dinâmico que envolve não só a construção textual, mas também o processo comunicativo como um todo, levando em conta os sujeitos envolvidos e o contexto histórico- cultural.

Para Leal (2013, p. 28), “narrar é estabelecer um modo de compreensão do mundo, de configurar experiências e realidades, de comunicar-se com o outro”. Assim, é impossível desvincular o ato de narrar da experiência dos sujeitos e, em contrapartida, essa experiência encontra-se em consonância direta com a temporalidade de que trata. No caso do jornalismo, o presente, e ampliando o espectro de abordagem, o próprio contemporâneo.

A afirmação de Leal (2013) também chama atenção para outro ponto: a importância da narrativa na construção da nossa experiência de mundo. Ao narrar é possível dar significado às nossas vivências. Ao eleger a narrativa como objeto possibilita-se aquilo que Leal (2006) chama de olhar narrativizante, “fazendo emergir as formas de articulação do cotidiano” (LEAL, 2006, p. 22). Dessa forma, para além de uma análise que abarque a estrutura do relato, os personagens e as vozes, o estudo da narrativa revela algo sobre as relações entre esferas culturais, políticas, ideológicas e, porque não, afetivas, que se instauram no cotidiano. “Um olhar narrativizante constitui-se como um modo de se perguntar sobre experiências, saberes, mundos e forças presentes na mídia, na rua, na vida.” (LEAL, 2006, p. 27).

É, ao olhar para as narrativas buscando compreender o modo como elas se constituem, examinando os saberes a ela vinculados, como também o que os temas e personagens abordados dizem sobre as visibilidades em jogo no contemporâneo, que nos aproximamos da globalidade da prática jornalística em seu caráter relacional.

Desse modo, estudar a narrativa no âmbito do jornalismo é refletir sobre o todo que cerca essa produção, não apenas separadamente para o conteúdo, ou para o suporte, ou para os atores envolvidos. Leal (2013) destaca as características do fazer jornalístico que devem ser perscrutadas ao se pensar sobre suas produções: “sendo o jornalismo um fenômeno cultural, suas regras e procedimentos são marcados por valores, características e percepções que o

vinculam a tempos e espaços particulares” (LEAL, 2013, p. 26). É no cruzamento entre as instâncias do processo comunicativo e as tensões do mundo social que habita o saber promovido pela narrativa jornalística. Para analisar a narrativa jornalística, é necessário entendê-la como parte desse processo e não recortá-la do seu entorno. Em se tratando de jornalismo, o tempo e o espaço a que o conteúdo está atrelado são essenciais para sua compreensão.

Assim, temos que a escolha do modo de narrar não é gratuita, tampouco diz respeito apenas às escolhas do repórter ou às determinações da empresa jornalística, “tais procedimentos de escrita, antes de serem permanentes, neutros e a-históricos, estão articulados às tensões que regulam e perpassam o fazer jornalístico e que o inserem no tempo e na cultura” (LEAL, 2013, p. 26). É esse pensar ampliado de narrativa jornalística, ancorado na discussão anterior sobre o jornalismo, que serve como base para essa investigação.

Resende (2011) indica uma dimensão paradoxal da narrativa jornalística: basear-se no real e constituir-se através da linguagem. “Olhar para a narrativa significa enfrentar o dilema de saber que o discurso que obedece a lei de se referendar no real é também estruturado – e tecido – a partir do simbólico” (RESENDE, 2011, p. 125). Desse modo, é importante ressaltar que a linguagem, como já dito anteriormente, não contempla a realidade em sua totalidade exatamente por se constituir de material simbólico. Seguindo essa linha, pode-se concluir que a própria proposta dos estudos da narrativa parte da ideia de um compartilhamento de sentidos ao invés da transmissão de informação (RESENDE, 2011), muitas vezes atrelada à prática jornalística. É por meio das escolhas feitas pelo repórter, tanto durante a apuração quanto no momento da escrita, que o relato vai sendo construído e, assim, uma visão de mundo é partilhada com os leitores que dela se apropriam, transformando-a.

O jornalista como protagonista do ato, quando se reposiciona no lugar do humano, cria possibilidades de encontro. Articulando-se no tecido da vida, ele deixa, através do texto, de ocupar o lugar de dono da lei, para tornar-se um observador, tanto quanto o é aquele para quem escreve. (RESENDE, 2009, p. 38)

Ao se livrar do imperativo do retrato absoluto do real, uma vez que narrativas são tanto “devedoras de uma referencialidade como portadoras de simbólico” (RESENDE, 2011, p. 132), a narrativa jornalística liberta-se de uma perspectiva que a tratava enquanto sinônimo de “forma” para ganhar potencialidades, tornando-se “ação”. Ela é reveladora tanto dos mistérios por trás dos fatos como da necessidade de se construir diálogos; produz sentidos mais que efeitos (RESENDE, 2011). Já o jornalismo, por intermédio da narrativa, tem o papel

de “entrelaçar mundos e tecer redes com todos os percalços e potências de que este gesto se constitui” (RESENDE, 2011, p. 134).

No documento DAYANE DO CARMO BARRETOS (páginas 35-40)