3.8. Ando um pouco acima do chão
3.8.3. O lugar do eu
O eu dá a entender desde o início do poema estar fora do seu lugar. Porque não é pássaro, o seu lugar é o chão, mas anda um pouco acima dele. Ao sair do seu lugar natural e ir para o lugar próprio dos pássaros, arrisca-se tal como estes a ser atingido, embora não se saiba por quê ou por quem. Este é um risco deliberadamente e conscientemente corrido, também não se sabe porquê. O eu dá a entender estar em fuga, porque tem medo do peso morto, deixando por esclarecer que peso seja esse, acrescentando apenas que equivale a um ninho desfeito. Ou seja, o peso morto é também um lugar, que se desfaz se nele se permanecer mais do que convém, porque é um lugar limitado no tempo, sem capacidade para continuar a proteger para além desse tempo. E não só não pode continuar a proteger como, tendo-se tornado um lugar desfeito, passou a ser, em si mesmo, um lugar perigoso porque a instabilidade e a indefinição tomaram conta dele. Em suma, embora o ninho desfeito pareça um lugar, deixou de o ser, é apenas a memória de um tempo gasto e irreversível. É, agora, praticamente um lugar assombrado onde não é possível permanecer-se por ter perdido a sua anterior consistência. O eu aparece assim em fuga de um lugar de sombras e de morte, razão pela qual tem de ficar ligeiramente acima do que morre.
O eu nunca fica, contudo, verdadeiramente em lugar algum, pois está apenas
ligeiramente acima do que morre, apenas um pouco acima do chão, um pouco na palma
da mão, um pouco acima da transfusão do poema, um pouco no interior do que arde. Dir- se-ia que as suas forças ou o seu engenho não lhe permitem ficar inteiramente e seguramente onde quer que seja, mas apenas um pouco. Se o eu procurava um lugar seguro onde se pudesse refugiar do que o assusta, é obrigado a constatar que nunca está realmente seguro porque não conseguiu afastar-se do que o poderá a qualquer
momento e sem aviso atingir, pelo facto de nunca pertencer verdadeiramente a lugar algum.
Na verdade o eu abandonou o seu lugar natural mas não encontrou um lugar a que possa chamar seu. Estando apenas um pouco em qualquer lugar, está simultaneamente nele e fora dele, talvez ainda no seu lugar anterior, o ninho desfeito, ao qual continua preso por um peso morto. Visto assim, o eu aparece como rasgado entre duas forças e dois impulsos. Não está morto mas não está verdadeiramente vivo, ainda pode ser atingido pela sombras da morte.
Mas o eu não só se colocou acima do chão, colocou-se também numa encosta, um lugar que permite avistar o que fica em baixo, tal como fazem os pássaros ao levantarem voo, e que permite também olhar em frente sem que a visão seja obstruída por obstáculos à sua frente. Talvez, por isso, nesse lugar inclinado possa receber, sem oposição, o alimento de que tem necessidade, a palavra que é como pão. Contudo, mesmo neste lugar, continua a não estar completamente, pois está apenas um pouco na palma da mão. A palma da mão parece-se de certo modo a um ninho com o que tem de aconchegante e confortável. É um lugar quente e doce, que transmite uma ideia de ternura, mas uma vez mais não é um lugar verdadeiramente seguro porque se a palma da mão se fechar sobre si mesma poderá esmagar o que estiver dentro, ou, pelo menos, retê-lo no seu interior roubando-lhe a liberdade. Talvez por isso dela o eu diga que é uma palma da mão que
divide, o que agrava a sua insegurança, compelindo-o a decidir de que lado ficar, já que o
seu lugar deixou de ser o todo que era anteriormente. O eu, que já estava dividido por não estar inteiramente em lugar algum, tem agora apenas metade de um lugar para se situar, porque a mão que aparentemente veio em seu auxílio procedeu a um corte e lhe deixou apenas uma parte do lugar disponível.
O eu está portanto num lugar incerto e indefinível e talvez por isso se refugie dessa indefinição ameaçadora no mundo das palavras, vertendo nelas o seu sangue — E verto
o sangue para dentro das palavras. Mas mesmo aí não está verdadeiramente a salvo
porque elas não são um verdadeiro lugar onde se possa situar e por isso é forçado a andar acima delas — Ando ligeiro acima do que digo. E insiste nessa ideia quando diz —
Ando um pouco acima da transfusão do poema. E também não chega ao domínio do
verbo, tem de ficar nos seus subúrbios — Ando humildemente nos arredores do verbo. Uma vez mais não está em lado nenhum.
Assim só pode dizer de si mesmo que é um Passageiro num degrau invisível sobre a
terra, porque o seu lugar não se vê, é invisível, é apenas uma etapa, um degrau que não
se sabe aonde leva. Contudo, quando aqui chega, o eu está finalmente sobre a terra, e já não acima dela, como anteriormente. E embora este degrau seja invisível não sendo, por isso, possível ter-se a certeza de se estar nele, por estar sobre a terra, é um lugar real e pode ter árvores e estas árvores podem dar fruto, é o lugar das árvores com fruto.
Mas a incerteza continua a perseguir o eu, pois as árvores estão sempre sujeitas a ficar no meio dos incêndios. Não se sabe de onde vieram estes incêndios que apanharam o eu quando ele parecia estar finalmente em terreno seguro, deixando-o de novo um
pouco, desta vez no interior do que arde. Estes incêndios reduziram ainda mais o já
acanhado espaço do eu e tiraram-lhe o ar de que necessitava para viver deixando-o com a sensação de se estar a apagar.
Ou seja o eu, colocou-se acima do seu lugar natural, fez uma série de tentativas, mas não conseguiu fazer seu nenhum outro lugar, ficou sempre apenas um pouco onde quer que fosse. O eu acaba, por isso, sem lugar para si, distante do ninho mas sem se ter conseguido transferir nem que fosse para o poema.