• Nenhum resultado encontrado

PARTE I – Investigação

1. Enquadramento teórico

1.4. O lugar do provérbio nos Programas Oficiais do Ensino Básico e

1.4.4. O lugar do provérbio no Programa de Espanhol Nível de

Como seria de esperar, verificamos muitos pontos em comum entre o PLEE e o Programa de Espanhol, nível de continuação para o 10.º ano (doravante PENC10.º), pelo que muitos dos comentários previamente tecidos relativamente à análise do PLEE se aplicarão também às considerações que faremos sobre este programa. Para evitar redundâncias, salientaremos apenas os aspectos que nos parecem mais relevantes e aqueles que são distintivos.

A língua é, de novo, valorizada «como instrumento privilegiado de comunicação, como espaço de apropriação/expressão do eu e como instrumento para representar a realidade e apropriar-se dessa mesma realidade» (PENC10.º, 2002: 3). Assim, pelas razões já expostas no ponto anterior (1.4.3.), consideramos totalmente pertinente a integração dos provérbios nas aulas de LE, uma vez que estes têm sido, ao longo de gerações, um meio para representar a realidade observada e, consequentemente, uma forma de transmitir a cultura de um povo.

Também o contraste entre provérbios na LM e na LE fomenta o contacto entre as duas culturas, promovendo ambas, pelo que a sua utilização em aula responde ao objetivo elencado no programa, conduzindo o aluno à perceção de que a sua cosmovisão não é única.

O PENC10.º considera, com justeza, que o facto de o Português e de o Espanhol serem línguas próximas poderá constituir «um factor de facilitação que estimula a motivação e o sucesso» (PENC10.º, 2002: 5) e, face a esta explicitação, de novo reiteramos que o reconhecimento de provérbios semelhantes entre as duas línguas poderá «estimular a confiança e a motivação para comunicar na língua estrangeira» (PENC10.º, 2002: 11). A este propósito, Florence Detry defende que:

(…) en el plano cognitivo, la LM representa una poderosa reserva de competencias y conocimientos lingüísticos previos que pueden alimentar el proceso de generación de hipótesis y contribuir a facilitar la resolución de los problemas y/o interrogantes planteados por la LE. (2012:102)

O aluno sentir-se-á claramente mais seguro e mais à-vontade para comunicar na LE reconhecendo que há uma grande variedade de conhecimentos que possui da sua LM que lhe facilitarão essa comunicação. Acreditamos, portanto, que verificar que as duas línguas partilham provérbios pode contribuir para criar «uma atitude positiva face à nova língua e cultura» (PENC10.º, 2002: 27). Naturalmente, somos igualmente conscientes de que é necessário levar os alunos a trabalhar e refletir sobre as diferenças, «assim como fomentar estratégias pessoais de aprendizagem que favoreçam a superação das inevitáveis interferências» (PENC10.º, 2002: 5).

Tal como já se verificava no PLEE, o PENC10.º advoga também que se devem criar, nas aulas, «situações de comunicação tão autênticas quanto possível» e que não se pode «negligenciar a comunicação real imposta pelo mundo exterior» (PENC10.º, 2002: 24). Para além disso, defende que «os alunos, na aula, devem realizar tarefas significativas, como as que se realizam na vida quotidiana, que os levem a adquirir os elementos linguísticos necessários à sua execução» (PENC10.º, 2002: 23). Dadas estas orientações e a já referida riqueza parémica da Língua Espanhola, não nos parece que devamos, de forma alguma, eliminar os provérbios do seu ensino.

Uma das finalidades do PENC10.º é, por outro lado, «implementar a utilização dos media e das novas tecnologias como instrumentos de aprendizagem, de comunicação e de informação» (2002: 6). Ora, tal como referimos anteriormente, existe uma crescente utilização dos provérbios nos meios de comunicação e, por isso, a sua aprendizagem é imprescindível se pretendemos que os alunos entendam estes textos. A própria internet disponibiliza atualmente uma assinalável variedade de páginas dedicadas a provérbios, que os alunos poderão consultar na concretização de atividades, como, por exemplo, a recolha de provérbios relacionados com uma determinada temática. Deste modo, o trabalho com provérbios pode também fomentar a utilização deste recurso tecnológico cada vez mais presente na vida dos discentes.

Quanto aos objetivos gerais estabelecidos pelo PENC10.º, salienta-se o alargamento da «competência comunicativa adquirida no ciclo anterior, de forma a usar apropriada e fluentemente a Língua Espanhola nas variadas situações de comunicação». Ora, ao integrarmos os provérbios nestas aulas, subscrevemos a afirmação de María Teresa García Muruais:

(…) me parece casi imprescindible la enseñanza de estas combinaciones fijas, que

situaciones, y cuyo conocimiento (receptivo y productivo) contribuye a la mejora de la

competencia comunicativa y sociolingüística. (1997: 363)

O PENC10.º salienta também a importância dos «documentos ditos “autênticos”» (2002: 33), dando como exemplos programas de televisão e de rádio, artigos da imprensa sobre temas atuais e anúncios publicitários, entre outros. Como temos vindo a afirmar ao longo deste relatório de estágio, os provérbios surgem cada vez mais na imprensa e, como parte integrante da Língua Espanhola, podemos apreciá- los igualmente em séries e filmes, bem como em publicidades radiofónicas.

Neste nível de ensino, recomenda-se ainda que os alunos leiam e apresentem aos colegas uma obra, com o objetivo de os levar a «apreciar textos literários actuais adequados ao seu nível e interesse» (PENC10.º, 2002: 9). Por este motivo, dada a frequente utilização dos provérbios também nos textos literários, a qual já está patente na mais representativa obra da literatura espanhola, Dom Quixote de La Mancha15, de Miguel de Cervantes, e a recente revitalização que dos mesmos se tem verificado, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, parece-nos impensável não os abordar em aula de ELE.

Finalmente, no que diz respeito à expressão oral, o programa sugere que os alunos participem em debates previamente preparados para exporem e justificarem as suas ideias. Neste sentido, sendo a função argumentativa uma das que mais se atribui ao provérbio, os estudantes encontrarão aí um excelente recurso que poderão incorporar na sua argumentação.

Para concluir, cabe ainda salientar que tanto o PLEE como o PENC10.º reconhecem que um programa deve conter «flexibilidade e abertura que permitam corresponder às necessidades e interesses dos alunos» (PLEE, 1997: 6; PENC10.º, 2002: 5). Desta forma, embora não haja uma referência direta aos provérbios nestes programas, eles deixam, contudo, abertura para que o professor os insira na prática pedagógica, retirando deles o melhor proveito.

15 Confrontar BARBADILLO DE LA FUENTE, María Teresa (2006): «Presupuestos didácticos para la

Como se pode depreender da análise dos programas vigentes, embora se atribua uma enorme relevância ao património cultural e se enfatize a necessidade de divulgação e de preservação da nossa cultura, deles não consta nenhuma referência aos provérbios. Concordamos, contudo, com Leonor Melo (2002: 103) que entende que «qualquer programa, ou manual, por bem desenhados e aplicados que se apresentem, serão sempre susceptíveis de melhoramento». Tendo os programas acima analisados uma essência descritiva e não prescritiva, cabe ao professor aproveitar o campo de possibilidades que lhe é deixado para incluir o provérbio como estratégia para a concretização dos objetivos neles elencados.