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O lugar do sagrado − De um lugar para o outro

No documento Espaço em movimento: cenografia e circo (páginas 92-96)

Na continuidade das pesquisas e produções da Companhia, no intuito de lançar um olhar contemporâneo para a cultura popular brasileira e retratar o universo das tradições populares, que é parte inerente da formação do corpo brasileiro, surge o espetáculo De um lugar para o outro. A temática, ligada ao sagrado, se aproximava do arquétipo presente na figura de Exu, orixá da cultura afro-brasileira. Foi criado para ser uma jornada pelas várias facetas do orixá Exu, amplamente presente no imaginário e no cotidiano popular.

No espetáculo De um lugar para o outro, a experiência de ter José Possi Neto presente na criação permitiu à Companhia observar a presença do encenador como criador do espetáculo que, em sua atuação, diferente de um diretor, se apropriou e esteve presente em todos os aspectos do espetáculo: vídeos, figurinos e coreografia, iluminação, maquiagem, todos os detalhes passaram pelo encenador.

Estabelecendo um paralelo entre os conceitos de teatralidade e o papel do encenador, ao observar a forma como ele atuou na produção, temos uma visão integrada do espetáculo desenvolvida através de uma troca de conhecimentos entre os atores-performers e o encenador, o que possibilitou que as cenas criadas dialogassem no espaço da cena de forma fluida, entregando à plateia signos a serem decodificados, estabelecendo um ato consciente (FERNANDES, 2011, p. 17), tanto para os performers e o encenador, quanto para os espectadores.

O seu próprio título, De um lugar para o outro, já anuncia uma relação espaço, cena e tempo, e designa movimento e olhar, um modo de escritura cênica que está relacionado ao

espaço percorrido, a estórias contadas por meio da fisicalidade e a uma jornada entre o real (as ações) e o ficcional (aspectos ligados a um arquétipo), um trânsito constante entre esse corpo e essas estórias.

Figura 36 – Espetáculo De um lugar para o outro

Fonte: Companhia Cênica Nau de Ícaros. Foto: Cris von Ameln.

Nesse jogo do corpo e de uma cenografia que desenha o espaço estão presentes projeções numa tela semitransparente posicionada na boca de cena, que exibe por vezes símbolos e pegadas, e também imagens do personagem principal, um homem que caminha e atravessa diversos seres e situações que demonstram as várias facetas desse orixá Exu.

O diálogo dinâmico entre o mundo real e o fantástico resulta num espetáculo imagético, de uma estética brasileira, no qual a fusão de imagens e sensações encontra na composição do espaço aéreo a possibilidade de transcender os limites da cena.

Figura 37 – Espetáculo De um lugar para o outro: uso de cordas de alpinismo

Fonte: Companhia Cênica Nau de Ícaros. Foto: Henrique Lenza.

Com a utilização de cordas de alpinismo, tecido e lira, foram encontradas diferentes qualidades de movimentação, por meio de apoios invertidos e suspensões, que alteram a dimensão do espaço, os limites do equilíbrio e do desequilíbrio, provocando a sensação do risco e a alteração do eixo e do tempo do movimento.

A presença do risco para o ator-performer, que não é só físico, mas também artístico, constitui a performatividade dessa criação. Há um jogo repleto de riscos entre o olhar do espectador e o que é registrado na cena; as descrições das várias facetas do orixá Exu, da forma real como são representadas nas manifestações religiosas em que está envolvido, são reorganizadas e é instaurado um jogo com os códigos e as capacidades do espectador. Há uma desconstrução do real, que se pode identificar e observar na descrição de Josette Féral sobre as obras performativas:

Essa desconstrução passa por um jogo com os signos que se tornam instáveis, fluidos forçando o olhar do espectador a se adaptar incessantemente, a migrar de uma referência à outra, de um sistema de representação a outro, inscrevendo sempre a cena no lúdico e tentando por aí escapar da representação mimética (FÉRAL, 2008, p. 203).

O espetáculo é composto por diversas cenas e passagens pelo palco, como se houvesse diversas performances coladas umas às outras, nas quais as descrições do orixá estão permeadas pelas ações que o representam, uma sequência de movimentos que mostram diversas realidades, que desconstroem as anteriores, a cada apresentação de uma nova realidade, novos signos, sentidos e linguagens.

Ao final de uma das apresentações desse espetáculo, um espectador relatou para um dos integrantes da companhia que a cena que mais havia gostado tinha sido a “cena da vergonha”; e logo o ator-performer se perguntou: Mas qual é mesmo a “cena na vergonha”? Nesse momento, o olhar do espectador traduziu de forma inesperada uma das cenas, que era composta por dois atores-performers em pernas de pau, com uma indumentária representando figuras fantásticas e sagradas que, por meio de uma cenografia móvel (composta pelas próprias pernas de pau e por um bambu) possibilitavam ao personagem central do espetáculo, que estava com parte do corpo exposto, realizar suspensões e ser carregado. As figuras enormes diante do ator-performer criavam um jogo de dimensões e formas no espaço e tornavam a figura desse personagem pequena, diante desses seres fantásticos. Essa cena, que não havia sido nomeada e tinha imagens possíveis presentes, foi intitulada pela primeira vez pelo espectador de “cena da vergonha”, e esse olhar que assiste e invade os significados de quem realiza a ação pode ou não modificar sentidos e leituras. Representa uma liberdade criada pela teatralidade, que possibilita sair de lugares fixos e vedados, abrindo novas possibilidades e interpretações.

Figura 38 – Espetáculo De um lugar para o outro: uso de pernas de pau

Fonte: Companhia Cênica Nau de Ícaros. Foto: Henrique Lenza.

Considerando a utilização dos elementos de circo como materialidades da cena, principalmente quando no espaço da cena os aparelhos aéreos do circo se fundem aos corpos dos atores-performers, e esses elementos se misturam e desenham o espaço, o espetáculo De um lugar para o outro pode ser visto como uma obra performativa, na perspectiva

apresentada por Josette Féral: “As obras performativas não são verdadeiras, nem falsas. Elas simplesmente sobrevêm. […] De um lado, seu caráter de descrição dos fatos. Por outro, as ações que o performer ali realiza.” (FÉRAL, 2008, p. 203).

Figura 39 – Espetáculo De um lugar para o outro: projeção e acrobacia aérea

Fonte: Companhia Cênica Nau de Ícaros. Foto: Henrique Lenza.

No documento Espaço em movimento: cenografia e circo (páginas 92-96)