1 Custodópolis: usos e práticas sócio-espaciais
1.3 O lugar: histórias vividas e histórias contadas
Quem transmite suas lembranças é, na verdade, um mediador entre gerações. É alguém que se percebe como conhecedor das transformações porque as viveu e seus depoimentos são uma apreensão das mudanças sociais, como as que estão aparentemente nas marcas da cidade, nas relações de trabalho, na família e nas relações de gênero (BARROS, 2006, p. 7).
A proposta é apresentar histórias vividas e contadas por moradores do bairro de Custodópolis que, a partir de suas reconstruções narrativas, deixaram emergir modos de ‘convivialidade’ que desenham a trajetória de vida das pessoas e do lugar.
Aqui, a narrativa ganha destaque como uma forma de organização da experiência humana, a partir da qual é estruturada a vida social do bairro.
Trata-se de articular experiência e relato, numa interação que permita compreender como as pessoas vão construindo o sentido do lugar. Partindo do pressuposto de que “contar histórias é uma prática social, uma atividade histórica e culturalmente situada” (Ibid, p. 119), o que se quer ressaltar é o
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quanto a narrativa é uma instância privilegiada na constituição da memória e da experiência.
No contato com as pessoas do bairro foi possível se aproximar das práticas sociais, por meio de histórias contadas.
O passado narrado carrega uma opinião: uma lembrança é uma perspectiva sobre o vivido. Por meio dela o memorialista aparece aos demais. A arte de narrar envolve a coordenação da alma, da voz, do olhar e das mãos. É como uma performance em que a palavra associada à ação, permite ao homem mostrar quem ele é (FROCHTENGARTEN, 2005, p. 372).
Para contar histórias, a pessoa organiza as ideias, nomeia as vivências e as integra a outras representações ( FROCHTENGARTEN, 2005, p. 374).
Por isso, a memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, mas não se confunde com ela, afirma Halbwachs (2006, p. 69).
Quando a memória é uma sequência de acontecimentos não tem mais por suporte um grupo, o próprio evento que nele esteve envolvido ou que dele teve consequências, que a ele assistiu ou dele recebeu uma descrição ao vivo por atores e expectadores de primeira mão [...], então o único meio de preservar essas lembranças é fixá-las por escrito em uma narrativa (Ibid, p. 101).
Em suas análises, Halbwachs (op. cit., p. 53) aponta para a discussão das identidades territoriais, ao afirmar que há uma relação entre memória e lugar, pois “não há memória coletiva que não se desenvolva num quadro espacial”, e enfatiza também o caráter dinâmico da memória coletiva, na medida em que ela está sempre se modificando, em razão da inserção dos indivíduos em outros grupos sociais. A convivência se nutre de comunicações entre grupos, que são marcados por referências distintas de espaço e tempo. Sua visão é que o homem enraizado conserva heranças do passado e isso não significa uma atitude meramente saudosista. Ao reconstruir suas raízes, as pessoas ressignificam as construções dos antepassados e as tradições, revestindo-as de novo significado.
Simone Weil (1996) chama a atenção para o fato de que seria inútil
[...] voltar às costas ao passado para só pensar no futuro. É uma ilusão perigosa acreditar que haja aí uma possibilidade. A oposição entre o futuro e o passado é absurda. O futuro não nos traz nada não nos dá nada; nós é que para construí-lo, devemos dar-lhe tudo, dar-lhe nossa própria vida. Mas para dar é preciso ter, e não temos outra vida, outra seiva senão os tesouros herdados do passado e digeridos, assimilados, recriados por nós. De todas as necessidades da alma humana, não há outra mais vital, que o passado (p. 418).
Em seu trabalho, Weil (op. cit.) faz referência ao passado como fonte
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de inspiração para iniciativas. Partindo dessa ideia, o passado não é aqui pensado como objeto contemplativo e reacionário, mas como lócus de produção cultural de uma coletividade.
O ser humano tem uma raiz por sua participação real, ativa e natural na existência da coletividade que conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro (p. 411).
Os pressupostos das reflexões aqui contidas partem da compreensão dinâmica e plural do bairro, resultado de usos e práticas diferenciadas do lugar e de disputas simbólicas, mediadas pelas narrativas de seus habitantes.
Para além de um ideal de unidade, o bairro se constitui na ‘convivialidade’
de elementos materiais e simbólicos. Portanto, pensá-lo de modo estático e uniforme, e apreendê-lo sob modelos convencionais de observação, não garante sua compreensão como lugar do vivido, onde as experiências individuais e coletivas se imbricam, na medida em que alimentam práticas que contribuem para informar a imagem do local.
Desse modo, no intuito de estabelecer uma aproximação com o lugar e seus habitantes, buscou-se seguir o seguinte percurso metodológico:
Observação direta (reconhecimento da área geográfica, percorrendo-se as ruas do bairro e registrando-se por meio de fotos e abordagens, algumas características deste cenário), levantamento de documentos sobre a história do bairro (reportagens publicadas, atas de reuniões, panfletos, fotos), visitas técnicas (estabelecimentos comerciais, igrejas, Grêmio esportivo, Escola de Samba, Associação de moradores, sedes de programas sociais), entrevistas livres (com moradores mais antigos, representantes de instituições) e conversa informal (com moradores e donos de comércios).
Essa investigação foi realizada por pesquisadores do GRIPES, na ocasião da construção do Diagnóstico Socioambiental da Comunidade. Do contato com as pessoas e com o lugar, foi possível extrair matéria-prima para elaboração dos itens que se seguem neste capítulo. As falas são identificadas no texto por letras em itálico e/ou aspas e refletem o relato de entrevistas, conversas informais, registros/depoimentos, em fontes documentais, sobre a história do lugar.
A perspectiva meramente descritiva dos itens 1.3.1 e 1.3.2 é proposital, com o objetivo de permitir ao leitor acompanhar a trajetória do lugar a partir dos agenciamentos práticos da vida cotidiana, sem interferências (tanto quanto possível) de aportes teóricos, referenciados no item 1.3.3 deste capítulo.
Com as narrativas e o resgate da memória coletiva do bairro, o que se buscou foi analisar o modo como a ‘convivialidade’ foi sendo tecida, numa conexão direta de influência das pessoas sobre o lugar e do lugar sobre as pessoas. Verificou-se que na reinterpretação de um passado de características
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rurais, o presente se configura e imprime novos valores e modos de viver, e conviver, aos moradores do lugar.
Entre histórias vividas e contadas, o lugar se desenha e revela sua identidade, tornando possível encontrar o fio que liga a apropriação do lugar aos significados a ele atribuídos. Trata-se de apreender essas vivências que teceram histórias. E foi assim que tudo começou...
1.3.1 Da “Cidade de Palha” às “Terras de Custódio”
Num lugar cercado por mato, brejo e lagoa, cortadores de cana se reuniam à espera de caminhões que os levassem para as lavouras das usinas canavieiras da região de Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro.
Esse espaço, transformado em ponto de encontro desses trabalhadores, foi por eles, pouco a pouco, apropriado.
Desbravadores, seu Policarpo e seu José, montaram uma vendinha para atender aos trabalhadores que ali ficavam. Sempre frequentada, era um convite para o convívio e contribuía para encurtar a demora da espera, com café e muita prosa. Estes artigos não faltavam no estabelecimento, tinham em quantidade para “dar e vender”. Com clientela garantida, mais tarde, seu Zezé montou um açougue. O comércio surgia de mansinho e o lugar, que antes servia apenas de ponto de encontro de trabalhadores, foi também se transformando em local de comércio e moradia.
Alguns trabalhadores que moravam em áreas afastadas, ou aqueles que não tinham onde morar, se acomodaram no entorno daquele lugar.
“Pegavam um pedacinho de terra e ficavam”, e construíam suas casas em meio ao improviso. Utilizavam barro, bambu, folhas de palmeira ou sapé. “As casas tinham palha no lugar de telha.” Vista do alto, parecia uma “Cidade de Palha”.
Nascia uma localidade, que ninguém soube contar exatamente em que período surgiu, mas estima-se que por volta das décadas de 1920/1930.
Havia nesta comunidade um senhor chamado Custódio Siqueira. Ele era médico, por isso o chamavam de Doutor. “Era dono de tudo.” Proprietário de terras na comunidade resolveu transformá-las em lotes, vendidos “baratinho”, “com pagamento facilitado”. Se alguém não tivesse no mês dinheiro para pagar, ele falava: “depois você me dá”. As áreas loteadas ficaram conhecidas como “Terras de Custódio”.
Na memória dos antigos habitantes, Custódio reaparece com um
“homem muito bom e simples, que entrava na casa dos moradores, tomava cafezinho e atendia os pobres”. A narrativa deu ênfase a um sujeito de posses e prestígio, chamado de Dr. Custódio, que, além de médico, era “metido”
em política. Nostalgia e saudade se misturam nas lembranças de sua morte:
“Ele morreu na Praça São Salvador em cima de um coreto, discursando para ser
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prefeito18” e “no enterro dele tinha muito pretinho. Eram todos, afilhados dele”.
Pessoa de referência para a localidade, “suas” terras, ao serem loteadas, foram se tornando terras de tantos outros, como: Hipólito Sardinha, José Dias Nogueira, Sr. Nicodemos, Vicente, Zé Laurindo... Uma comunidade que se alargava naquele entorno e, pouco a pouco, foi construindo um modo de vida, que se tornou orgulho para os antigos moradores.
Nas lembranças dos mais velhos19, o registro de que Hipólito Sardinha era dono de uma padaria e do Cine Teatro Primor, o primeiro de Guarus:
“Ele queria alegrar o povo [...], trazia artistas, show de música, colaborava com o teatro amador.”
José Dias Nogueira, conhecido como Zezé Simão, foi um dos primeiros comerciantes do local. Seu espírito de liderança foi lembrado pelos moradores, que o homenagearam como nome de praça. Homem de característica pública, “plantou as primeiras árvores da praça, providenciou sua iluminação, organizou a comunidade na luta pela água encanada, mobilizou ajuda às famílias atingidas pela enchente de 1966”. Em 1962, foi candidato a vereador, mas não conseguiu se eleger. E houve quem questionasse: “Afinal, como pode, um homem de tamanco ser eleito?” Responsável também pela fundação do Esporte Clube Come Gato, tornando-se o primeiro técnico do time, cuja origem do nome se justifica pelas comemorações, ao final das partidas, em que bebiam e comiam “churrasco de gato” por ele oferecido.
Senhor Nicodemos era a alegria dos domingos. Muitos se
“desdobravam durante a semana pra ganhar umas moedinhas pra alugar suas bicicletas”. Vicente era responsável pela Quadrilha Caipira. E Zé Laurindo pela Folia de Reis. Não faltava também fado, jongo e capoeira. Além disso, era comum a vizinhança se reunir nas noites de lua e as crianças brincarem na rua. Não tinha luz e nem medo, porque não tinha perigo. “Cada um puxava sua luz da pracinha [...] depois vieram os postes de madeira.”
Tinha circo, tourada e gente de longe para assistir. “Nas touradas as pessoas colocavam cadeiras em volta, às vezes o touro escapulia e, era aquela confusão.” Na lembrança, a saudade de um tempo onde as pessoas sempre encontravam um jeito para se divertir, seja “nos bailes nas casas, nos matinês da pracinha e do cinema ou no concurso de Rainha do Grêmio”.
Uma das comemorações mais esperadas, e anunciada com fogos, era a festa da padroeira do bairro, Nossa Senhora da Conceição, que durava uma semana. E reunia barraquinhas, jongo, corridas rústicas e cavalhada. Outra atração relembrada eram as corridas de cavalo, que aconteciam na rua da raia, hoje batizada como Poeta Marinho.
Na memória dos antigos moradores, apesar da pobreza, a saudade daquele lugar pequeno, alegre e movimentado. Um território onde se misturavam as almas e as coisas (MAUSS, 1974). Ao se consolidar como
18 A morte de Custódio Siqueira tem registro na obra de Waldir P.
de Carvalho (1991), intitulada “Campos depois do Centenário”.
19 Embora as entrevistas com antigos moradores (Fase 1 do Projeto
“Cidade de Palha”), tenham sido realizadas entre homens e mulheres, os personagens locais rememorados foram do sexo masculino. Possivelmente, por possuírem uma representação mais ligada à vida pública. Isso se verificou, também, em entrevista realizada com a esposa do Sr. José Dias Nogueira (nome da praça do bairro), que pouco conhecia sobre a história do lugar e a vida pública do esposo, concentrando sua narrativa no âmbito doméstico, das vivências familiares.
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bairro, Custodópolis assume características próprias de um espaço urbano, o que contribui para alterar antigas formas ‘convivialidade’ e os usos e práticas do lugar.
1.3.2 Custodópolis
Da Cidade de Palha, as Terras de Custódio deram origem ao bairro mais antigo de Guarus: Custodópolis. Para os antigos moradores, o nome não poderia ser outro: uma homenagem ao Dr. Custódio Siqueira, dono das terras loteadas.
Conforme o IBGE (Censo demográfico de 2002/2010), o bairro pertence à Zona Norte, e só é visto em conjunto com os vizinhos: Parque Novo Mundo (setores 34, 35, 36, 37, 38 e 39), Parque Bandeirantes (setores 69, 70, 71 e 72) e Parque São Domingos (setores 73,74 e 75).
A Lei 6.305, de 27 de dezembro de 1996, é responsável por esta classificação, ao propor a divisão geográfica da cidade de Campos dos Goytacazes/RJ, delimitando e denominando os bairros, de acordo com a Lei Orgânica Municipal.
Ao tomar como referência o Perfil 2005, Custodópolis aparece como parque.
Mapa 1: Campos dos Goytacazes/RJ - 2005
Fonte: GRIPES. Cidade de Palha: diagnóstico preliminar. Campos dos Goytacazes: [s.n.], 2008, p.30.
Dados do Código de Endereçamento Postal (CEP) apontam para a composição de Custodópolis, no desenho das 20 ruas, a seguir:
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Avenida Santa Rosa Estrada Nogueira Praça José Dias Nogueira Rua Romualdo Peixoto Rua Poeta Marinho Rua Pedro Cardoso Rua Patrício Menezes Rua Mário Bárbara Sobrinho Rua Júlio Armond
Rua Hipólito Sardinha Rua Alcides Vieira Maciel Rua Altino Campos Rua Ary Ribeiro Vaz Rua Carlos Bruno
Rua Doutor Custódio Siqueira Rua Godofredo de Carvalho Rua Adolfo Porto
Travessa Projetada A Travessa Projetada B Travessa Projetada C
Para a Federação das Associações de Moradores de Campos (FAMAC), Custodópolis é constituído pelas seguintes ruas:
1. Avenida Santa Rosa
2. Praça José Dias Nogueira (ou Praça 8 de dezembro) 3. Rua Romualdo Peixoto
4. Rua Poeta Marinho 5. Rua Pedro Cardoso 6. Patrício Menezes 7. Rua Júlio Armond 8. Rua Hipólito Sardinha 9. Rua Carlos Bruno 10. Rua Adolfo Porto 11. Rua Jácio de Alvarenga
12. Rua Irmã Djanira de Moraes (Rua do Beco ou Proletário) 13. Rua Operário Valdir Manhães
14. Rua Alfredo Rodrigues
15. Rua Valdarino (continuação da Travessa Nossa Senhora da Conceição) Não há consenso sobre os limites do bairro entre os mapas oficiais.
Só na versão dos antigos moradores foi possível apreendê-lo espacialmente.
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“Só tem 3 ruas aqui: Júlio Armond, Poeta Marinho e Patrício Menezes. A Carlos Bruno já é (Parque) Novo Mundo.”
“Custodópolis é esse pedaço aqui. É só esse miolo (Rua Júlio Armond, Patrício Menezes, Hipólito Sardinha e Carlos Bruno).
Pra lá é Santa Rosa, Morro de Fátima...”
“Custodópolis é pequeno mesmo, vai até ali a baixada.”
(GRIPES, 2008, p. 31).
Para melhor apresentar o bairro, o morador Valdeci Nunes optou por desenhá-lo.
Mapa 2: Mapa do bairro desenhado por um morador
Fonte: GRIPES. Cidade de Palha: diagnóstico preliminar. Campos dos Goytacazes: [s.n.], 2008, p. 31.
As pessoas que emprestam nomes às ruas nem sempre têm suas histórias conhecidas pelos moradores. Para eles, a escolha é “coisa de política”, de “gente da Prefeitura”. Recordam de um tempo quando os nomes de rua eram uma homenagem, de fato, àqueles que contribuíram para as “melhorias do bairro”, como é o caso de Dr. Custódio Siqueira, que se tornou nome de rua, e de José Dias Nogueira, nome da praça principal.
Além disso, era comum atribuir às ruas nomes ligados aos usos e práticas do lugar, como no caso da rua da raia, onde aconteciam as corridas de cavalo. Embora hoje a rua seja identificada como Poeta Marinho, conserva tal representação na memória de antigos moradores. Há quem ainda recorde que, antes de ser Poeta Marinho, a rua também já teve o nome de prof. Gentil de Castro Faria, um professor do Colégio Batista e dono de terras no bairro.
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O fato é que “no início as ruas não tinham nome direito” (GRIPES, 2008, p. 32) e eram os moradores que as identificavam com alguma referência que lhes faziam sentido, como no caso da Travessa Nossa Senhora da Conceição, uma reconhecida homenagem à padroeira do bairro.
Sem desconsiderar indicadores estatísticos oficiais do IBGE, e do Almanaque de Campos de 2008, na composição de Custodópolis, será priorizada, na análise qualitativa, a versão dos moradores, na medida em que a proposta aqui desenhada não é apreender o “território em si”, mas o “território usado”, aquele que “é o chão mais a identidade”, conforme destacado por Milton Santos (2006).
Desse modo, três ruas paralelas identificarão o bairro de Custodópolis.
São as ruas Júlio Armond (e seu prolongamento com a Av. Santa Rosa), a rua Patrício Menezes e a rua Poeta Marinho, todas compreendidas nos trechos situados entre as ruas Hipólito Sardinha e Romualdo Peixoto, cortadas pelas transversais: Adolfo Porto, José Dias Nogueira, Travessa Nossa Senhora da Conceição (e sua continuação Valdarino), Pedro Cardoso e Rua C.
Dados do Censo 200020 do IBGE apontam para uma população estimada em 8.399 moradores. No entanto, o espaço considerado como Custodópolis é controverso. Apesar da imprecisão em termos de delimitação geográfica e, consequentemente, populacional, o bairro é a expressão de uma localização vulnerável no contexto da cidade. No entanto, ainda que o cenário apresente um quadro de pobreza e riscos, é no entorno desse lugar que os moradores driblam as incivilidades a que estão expostos, e constroem seus modos de vida e pertencimento.
Em 2008, o enredo do G.R.E.S União da Esperança cantou Custodópolis como sendo “um bairro que encanta por ser humanitário”.
Exaltado por “seu comércio ativo, onde tudo se tem: esporte, educação, praça de lazer, projetos sociais, festas religiosas, bois-pintadinhos e muito mais”. O bairro cantado é um motivo de orgulho para os moradores, que garantem: “a pessoa sai aqui a qualquer hora e encontra o que quiser”.
É no entorno da Praça José Dias Nogueira, numa mistura de atividades de comércios e serviços, que Custodópolis se desenha. Tem “supermercado, farmácias, açougues, bares, sorveterias, Lan Hause, hortifruti, depósito de bebidas, loja de fotos, roupas, brinquedos, artigos para o lar, material elétrico e ferragens, locadora de DVDs, posto de combustível, consultório odontológico, brechó de roupas usadas, sapateiro” (GRIPES, 2008, p. 37).
O prédio de maior destaque da praça é a igreja de Nossa Senhora da Conceição. Em termos religiosos, a Igreja Católica e a Igreja Batista são as referências mais antigas do lugar. Atualmente, o bairro também conta Grupo Espírita, Igreja da Renovação, Comunidade do Amor de Deus, Igreja União com Cristo e Assembleia de Deus, entre outras. Destas expressões
20 O Censo 2010 não divulgou dados da população estimada por bairro.
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religiosas, a Igreja Batista é, para os moradores, um exemplo por sua prática de “distribuição de alimentos, remédios, passagens e pequenas reformas nas casas dos mais carentes” (GRIPES, 2008, p. 47).
A queixa dos católicos é a falta de iniciativa da Igreja, quando se recordam dos festejos da padroeira, suas novenas e procissão. “Hoje só tem procissão. Passa pelas ruas aquela filinha curta, fraca.” Para os antigos moradores, as mudanças ocorridas na comunidade rompem com seus valores e tradições.
Hoje, o padre diz que “não pode fazer festa profana”. Além disso, “atualmente não existe festa de rua por causa da violência. É muita bebedeira e muita droga”.
A maior preocupação é com os filhos e netos. “Tem criança de 10 anos vendendo droga e com arma na cintura.” “Hoje morre uma criança e amanhã já tem outro no lugar.” “Quando o meu filho era pequeno, as crianças dos vizinhos brincavam com ele lá em casa. Hoje ele está com 16 anos e não tem quase ninguém vivo daquela época.” Para os mais antigos, a violência instalada tornou-se uma realidade difícil de conviver: “Há 60 anos tinha um crime, chocava. Hoje, estão matando como matam mosquito. É muito crime e 90% é droga. Na minha rua tem um ponto. O pessoal desce tudo para comprar.” (GRIPES, 2008, p. 50).
Na fala de um morador, a violência tornou-se também o motivo da baixa frequência nos eventos promovidos pela Escola de Samba União da Esperança (fundada em 1958 e referência no bairro). Além da violência, a diversidade dos modos de vida de seus atuais participantes incomoda os antigos moradores e frequentadores. Em suas versões, atualmente “as famílias não participam muito”, porque “antes era só família. A diretoria saía pra pegar as moças em casa e depois ia levar. Agora está tudo bagunçado” (Ibid, p. 41).
Apesar da existência de escolas e creches da rede estadual, municipal e particular, os dados do Diagnóstico Comunitário apontam para a existência de analfabetismo e falta de cursos noturnos e supletivos, além de pouco envolvimento dos moradores e das instituições com a comunidade. Em tempos de aparente indiferença, o espírito comunitário se manifesta. O proprietário de um açougue, filho de José Dias Nogueira (nome da praça principal), instalou um serviço de alto-falante em seu estabelecimento – e ali anuncia seus produtos, dá avisos de “nascimentos, mortes, missas, comunica perdas de documentos. Para o povo é tudo de graça, mas para os políticos, têm preço” (Ibid, p. 46).
O que não parece ter preço é o futebol. O time “Come Gato” tornou-se Grêmio em 1974. Legalizado, participa da Liga Campista de Desportos, promove regularmente jogos, e tem uma escolinha de futebol que atende às crianças do local, além de funcionar também como entidade filantrópica,
“por prestar ajuda material e ceder seu espaço para festas, reuniões, velórios, campanhas de vacinação” (Ibid, p. 47). O Grêmio é um dos principais locais de lazer e sociabilidade do bairro.
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Todo domingo tem pagode na quadra da União da Esperança, mas na narrativa de alguns moradores “o ambiente não é recomendado para os que gostam de respeito” (Ibid, p. 41). A praça, que na opinião dos mais antigos era um bom local de “convivência e entretenimento”, tornou-se um lugar ocupado pela “molecada” e, depois de recente reforma, os quiosques a transformaram em ponto de encontro “dos que vivem para beber”, “nem mesmo para as crianças o espaço é destinado”. À noite ela é motivo de preocupação, devido à falta de segurança do bairro, e à ausência de policiamento – apesar da existência de uma delegacia de polícia civil que, na opinião dos moradores, não é sinal de proteção. Houve relato de que “mataram gente em frente à delegacia” (GRIPES, 2008, p. 51). Provas de incivilidade são também os
“pegas de motos”, que acontecem aos sábados, na avenida principal do bairro. Motivo de preocupação para muitos moradores, os bailes funk, que acontecem no Club di Roma, atraem jovens de outras localidades, tornando a comunidade mais vulnerável com a presença desses OUTROS.
A falta de segurança é apenas uma das marcas de vulnerabilidade do lugar. Ao percorrer suas ruas, os moradores seguem seus desenhos irregulares, convivem com um tráfego intenso de veículos e com calçadas ocupadas, negando a prioridade aos pedestres. Driblam a água que “desce de uma rua e volta por outra”, a retratar a falta de saneamento básico, sentem o mau cheiro do lixo acumulado, encontram animais que transitam livremente e arriscam-se com a falta de iluminação de algumas áreas. O cenário dearriscam-senhado é, para eles, “uma vergonha”, e, se por um lado, culpam o descaso do poder público;
por outro, sabem que os próprios moradores também contribuem para o agravamento de tais condições.
Insegura e desprotegida é a vida desses moradores. São homens que enfrentam a realidade do desemprego ou de ocupações informais, de pouca remuneração, e mulheres, em sua maioria, que se dedicam a atividades domésticas, seja em suas casas, ou na casa dos “outros”. O fato é que a pobreza sempre existiu, tanto no passado quanto no presente, porque Custodópolis é terra de “um povo sacrificado, sofrido” (Ibid, p. 10). E isso é possível de ser identificado nas habitações precárias, no baixo nível de escolaridade, na falta de saneamento e na alimentação insuficiente. Além disso, a pobreza na comunidade vem alcançando outras dimensões como o elevado índice de
“gravidez na adolescência e a não responsabilização dos pais, a dependência química, a violência e abuso sexual”. (Ibid, p. 58).
Herdeiros de algumas dessas condições de vulnerabilidades, alguns moradores tornam-se alvo dos poucos programas sociais existentes no bairro: o CRAS21 e o Espaço do Trabalho II. O segundo oferece cursos de geração de renda como de manicure, cabeleireiro, culinária e artesanato22. A relação entre interesses, necessidades dos moradores e os cursos oferecidos
21 CRAS - Centro de Referência de Assistência Social.
22 Cursos oferecidos pelo Espaço do Trabalho II voltados preferencialmente para mulheres.