Capítulo I - O LUTO
I.1 A MORTE COMO TEMA CENTRAL
I.1.5 O lugar da morte hoje
“Coração, porque tremes? Vejo a morte, Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!...E devo então dormir com ela?
Se ela ao menos dormisse mascarada!”37
Em nossa cultura não há espaço para pensar sobre a morte. Encontramos, principalmente nos grandes centros urbanos, uma realidade que se caracteriza por silenciar qualquer sinal de dor ou sofrimento. Mascarada, a morte hoje só é percebida quando está ligada à perda de uma figura de afeto38. No restante, ela se encontra banalizada, fruto de uma impotência que não condiz com a idéia de conquista de felicidade e sucesso difundida em todos os meios de comunicação.
Estamos preocupados com perfeição e nada pode sair do nosso controle. A realização, a felicidade e o progresso são pré-requisitos para a nossa aceitação. Hoje, em um momento cada vez maior de detenção de conhecimento e controle dos efeitos prejudiciais que nosso organismo possa sofrer, a fragilidade vivida diante da perda de uma pessoa ou da morte anunciada por uma doença é contrária à onipotência do nosso saber.
No séc. XX, segundo Nuland39, a sociedade expulsou a morte para proteger a vida. Não há sinais que uma morte ocorreu, ela não pertence à pessoa, esta perde a responsabilidade e a consciência do morrer. O importante hoje é que a morte passe desapercebida. Considerada suja, feia, a morte deve ficar escondida. Surge vitoriosa a medicalização que pode “limpar” o indivíduo desta sujeira (a morte), salvando-o. E a mentira justifica-se para poupar aquele que amamos da realidade da morte. A morte é um fracasso, expressa impotência ou imperícia, valores não admitidos em nossa
37 AZEVEDO, Álvares de, Noite na Taverna e Poemas Escolhidos de Lira dos Vinte Anos, São Paulo, Moderna, 1994.
38 É importante observar que, embora este assunto não será aprofundado nesta pesquisa, que perdas de figuras públicas são observadas e os ritos fúnebres são estimulados e contam com a participação de um grande número de pessoas.
39 Cf. NULAND, Sherwind , Como morremos: reflexões sobre o último capítulo da vida, Rio de Janeiro, Rocco,1995.
sociedade hoje. Kovács afirma: “O triunfo da medicalização está, justamente em manter a doença e a morte na ignorância e no silêncio.”40
Perto da morte, o paciente é um incômodo para o vivo, que deverá ser cuidado por um hospital, pois a própria vida hoje dificulta o cuidado com o doente. A doença, a dor, o processo de morte são ocultados da sociedade que não os suporta, há uma exigência de controle das emoções. É a morte estéril, aquela que não contamina o vivo.
O quarto do moribundo passa a ser um quarto de hospital, onde a solidão é maior, pois regras precisas, ditadas pelo corpo médico, devem ser seguidas para a suposta recuperação do doente, que necessita de repouso. A morte não é mais um evento público. O momento da morte não é mais natural, é uma decisão médica, o moribundo não pode mais administrar seu fim. A morte é retirada da sociedade, aumentando a nossa dificuldade em lidar com ela, distanciando-a da vida.
“Hoje, o homem melhor protegido contra a possibilidade de fixar a hora da morte é o paciente atacado por moléstia grave.
A sociedade, agindo por intermédio do sistema médico, decide quando e após quais indignidades e quais mutilações ele morrerá. A medicalização da sociedade pôs fim à era da morte natural. O homem ocidental perdeu o direito de presidir o ato de morrer. A saúde, ou o poder de enfrentar os acontecimentos, foi expropriada até o último suspiro. A morte técnica saiu vitoriosa sobre o trespasse. A morte mecânica conquistou e aniquilou todas as outras mortes.”41
Esta morte, que não sabemos se ocorreu ou não, é uma tendência nos grandes centros urbanos. A cidade de São Paulo, local de origem do Centro Espírita que será o objeto desta pesquisa, é considerada como uma das maiores cidades da América Latina e acaba por se aproximar bastante da realidade descrita acima.
40 KÓVACS, Maria Júlia, (org.), Atitudes diante da morte, visão histórica, social e cultural, In: O desenvolvimento humano e a morte, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1992, p.38.
41 ILICH, Ivan, A expropiação da saúde: Nêmesis da medicina, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1975, p.187.
Oficialmente católico desde seu descobrimento, é o pluralismo religioso que mais caracteriza o Brasil. Pierucci42 afirma que, hoje, mais que um país católico, o Brasil é um país cristão. Há um número crescente de igrejas cristãs, como as protestantes, pentecostais e neopentecostais. No entanto, as religiões de transe (ou de possessão), como o espiritismo Kardecista43 e as religiões afro-brasileiras, exercem grande influência cultural , embora sejam numericamente minoritárias quanto aos seus seguidores.
Considerado como um povo religioso, o brasileiro está imerso em uma diversidade cultural e religiosa, característica específica de sua formação. Somado a este fato, há grandes diferenças sócio-econômicas no país e até mesmo nos próprios estados, que revelam realidades muito diferentes entre si. Como resultado, é possível encontrar em algumas cidades, principalmente no interior dos estados, regiões que estão sob forte influência da religião católica, onde cultos e ritos ainda encontram-se preservados e, nos casos de morte, ainda funcionam como um meio de integrar o ocorrido.
Por outro lado, nos grandes centros urbanos, o poder médico e o predomínio da razão trouxeram ao nosso imaginário a crua realidade do fim, a dessacralizando a morte e, como conseqüência, os antigos ritos foram perdendo o sentido. Nosso século é marcado pela negação da morte e de tudo que a cerca. O mistério não é mais só do além morte, mas também dos acontecimentos que antecedem e que rodeiam o momento da morte. Tudo é feito para que nos mantenhamos afastados deste que é considerado um terrível momento. As crianças são poupadas e distanciadas do fato, os velórios devem ser curtos, os enterros são evitados e a morte ocorre oculta, na maioria das vezes, dentro de um hospital ou de uma instituição de saúde que julgamos estarem mais preparados para enfrentar a situação.
A realidade social de um grande centro, como São Paulo, contribui para o ocultamento do morrer. Os enterros são providenciados rapidamente, devido a questões pertinentes, tais como: não é recomendável, frente à real violência da cidade, que se
42 Cf. PIERUCCI, Antônio Flávio, Apêndice: As religiões no Brasil, In: GAARDER, Jostein, HELLEM, Victor, NOTAKER, Henry, O livro das religiões, São Paulo, Cia. das Letras, 2000, p.281.
43 Segundo dados do Censo Demográfico, ano:1991, fonte IBGE, o número de pessoas declaradas espíritas foram 1.644.354 em todo Brasil, sendo que a maior parte, 1.585.119, encontram-se na zona urbana e, 59.235 na zona rural. Em São Paulo estão 560.548 espíritas, sendo que 547.830 nas zonas urbanas.
passe a noite em um velório; os compromissos de trabalho são priorizados; existem grandes dificuldades com o trânsito; os custos; a burocracia; a moradia em apartamento que dificulta o velório em casa (um caixão não passa pelo elevador, sem falar no tamanho dos apartamentos), entre outros.
Para nós, pertencentes ao século XX, momento em que os cultos e ritos que nos auxiliavam frente à morte perderam o sentido, basta entregarmos o nosso terror aos médicos e hospitais, em quem projetamos nosso desejo interno de onipotência e controle da morte e, ao mesmo tempo, onde vivemos toda a nossa impotência e falta de controle sobre a vida.
Estamos negando a morte, mas sabemos que culturalmente somos impelidos a integrá-la de alguma forma mediante o universo simbólico (rituais, mitos, símbolos, entre outros). A morte é assimilada como um fracasso, algo que precisa ser banido de nossa história. Mas, o sofrimento mobiliza a ação do inconsciente, possibilitando a reorganização da personalidade. Negamos a morte e algo dentro de nós parece nos empurrar para uma busca de sentido cada vez maior.
Cada vez mais, não há lugar para a morte nos grandes centros, não há sinais da sua presença na vida cotidiana. A morte encontra-se na sombra, reprimida no inconsciente como uma “mãe terrível”.44 Podemos passar a vida inteira acreditando na nossa imortalidade e sermos surpreendidos pela morte quando esta chegar, mas podemos ser incomodados pela angústia, por um vazio interior, que cobra a reflexão sobre este outro lado da vida, pela busca de um sentido para estarmos aqui. A perda de alguém que amamos, cujo vínculo dava sentido a nossa vida e cuja a ausência provoca uma intensa dor, retira a morte da sombra, torna concreto o limite da vida, reclama um lugar para a morte.
44 A “mãe terrível”, também chamada de dragão-mãe, mãe-sarcófago, a devoradora de carne humana, ou Matuta, mãe dos mortos, a deusa da morte. É um tema, segundo Jung, muito encontrado na mitologia pelo mundo todo. É um monstro que absorve a criança novamente, a suga para dentro depois de tê-la feito nascer, vive a espera, de boca escancarada, nos Mares do Ocidente e quando um homem se aproxima ela se fecha sobre ele, e é o fim. Cf. JUNG, Carl Gustav: A vida simbólica, Obras Completas,vol.18/1, Rio de Janeiro, Vozes, 1997, p.104.