2.3 Doze anos no poder: de Lula a Dilma
2.3.3 O Lulismo
O Lulismo nasce no Brasil ainda no primeiro mandato de Lula, sendo
o encontro de uma liderança, a de Lula, com uma fração de classe, o subproletariado, por meio do programa cujos pontos principais foram delineados entre 2003 e 2005: combater a pobreza, sobretudo onde ela é mais excruciante tanto social quanto regionalmente, por meio da ativação do mercado interno, melhorando o padrão de consumo da metade mais pobre da sociedade, que se concentra no Norte e Nordeste do país, sem confrontar os interesses do capital. (SINGER, 2012, p. 10)
Singer (2012) ainda afirma que o Lulismo também decorre do antilulismo. O antilulismo está concentrado no Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), afastando a antiga classe média48 de Lula e do PT, criando uma polarização na política brasileira que não
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Utilizamos o termo antiga classe média para designar a classe média que existia antes do governo Lula. Após o governo Lula, surgiu no Brasil uma nova classe média que engloba, além da antiga classe média, as pessoas beneficiadas pelos programas de inclusão do governo.
é de cunho ideológico, ou seja, capitalistas versus comunistas, mas sim entre pobres e classe média. Os números apresentados em seu livro mostram que, em 2006 e 2010, houve uma nítida separação entre o voto dos mais pobres e o dos ricos e que, nas eleições anteriores, havia uma coerência ideológica, apesar da baixa escolaridade média do eleitorado: os de esquerda, que possuíam rendas maiores e maior nível de escolaridade votavam no PT. Já os que se colocavam como de direita, entre os quais os de baixa renda, em partidos mais conservadores. Ele conclui sua linha de raciocínio do seguinte modo:
Em suma, penso que no lulismo a polarização se dá entre ricos e pobres, e não entre esquerda e direita. Por isso, a divisão lulista tem uma poderosa repercussão regional, e o Nordeste, que é mais pobre, concentra o voto lulista. Daí, igualmente, termos maioria tucana de São Paulo para o Sul, e petista do Rio de Janeiro para o Norte. Isso significa que o lulismo dilui a polarização esquerda/direita porque busca equilibrar as classes fundamentais e esvazia as posições que pretendem representá- las na esfera política. (SINGER, 2012, p. 20)
A base do Lulismo, segundo o autor, foi a relação criada por Lula com os mais pobres. Esses, beneficiados por um conjunto de medidas criadas para melhorar sua condição de vida, retribuíram com apoio maciço, fervoroso e fiel, a partir da eleição de 2006. Por outro lado, a crise do ―mensalão‖ foi o pivô do afastamento da classe média alta. Inverte-se, assim, o que aconteceu em 1989. Naquele ano, Lula havia sido derrotado pelo voto dos mais pobres, que votaram em Fernando Collor e, entre a classe média, ele havia alcançado maioria.
Em entrevista concedida após aquele pleito, Lula afirmava: ―A verdade nua e crua é
que quem nos derrotou, além dos meios de comunicação, foram os setores menos esclarecidos e mais desfavorecidos da sociedade [...]. Nós temos amplos setores da classe média com a gente — uma parcela muito grande do funcionalismo público, dos intelectuais, dos estudantes, do pessoal organizado em sindicatos, do chamado
setor médio da classe trabalhadora‖.
Consciente do peso eleitoral dos ―mais desfavorecidos‖, acrescentava: ―A minha
briga é sempre esta: atingir o segmento da sociedade que ganha salário mínimo. Tem uma parcela da sociedade que é ideologicamente contra nós, e não há por que perder tempo com ela: não adianta tentar convencer um empresário que é contra o Lula a ficar do lado do trabalhador.
Nós temos que ir para a periferia, onde estão milhões de pessoas que se deixam
seduzir pela promessa fácil de casa e comida‖. (SINGER, 2012, p. 34, grifo do
autor)
Como explica Chauí (2013, p. 128 ) ―De modo geral, utilizando a classificação dos institutos de pesquisa de
mercado e da sociologia, costuma-se organizar a sociedade numa pirâmide seccionada em classes designadas como A, B, C, D e E, tomando como critério a renda, a propriedade de bens imóveis e móveis, a escolaridade e a ocupação ou profissão. Por esse critério, chegou-se a conclusão de que, entre 2003 e 2011, as classes D e E diminuiram consideravelmente, passando de 96,2 milhões de pessoas a 63,5 milhões; ja no topo da pirâmide houve crescimento das classes A e B, que passaram de 13,3 milhões de pessoas a 22,5 milhões. A expansão verdadeiramente espetacular, contudo, ocorreu na classe C, que passou de 65,8 milhões de pessoas a 105,4 milhões. Essa expansão tem levado a afirmação de que cresceu a classe média brasileira, ou melhor, de que teria surgido uma nova classe média no país‖.
Em pesquisa, Hunter e Power (apud SINGER, 2012) verificaram que, nas três primeiras vezes que disputou a presidência, Lula recebia mais votos entre os eleitores com maior nível de escolaridade, principalmente nos estados mais industrializados e urbanos, no Sul e Sudeste, enquanto que os mais pobres e menos escolarizados votavam na direita. O realinhamento só ocorreu após Lula assumir o governo. Com os escândalos, Lula perdeu intenções de votos entre alguns eleitores, mas compensou e os substituiu com o voto de pessoas que nunca haviam votado nele antes.
Coimbra (apud SINGER, 2012) afirma que a base para a aprovação do governo e a decisão da eleição em 2006 foi o aumento no poder de consumo dos eleitores de baixa renda. Eles passaram a ter acesso a bens e serviços antes só possíveis à classe média ou média alta, seja em produtos como alimentos, material de construção ou em celulares, DVDs, cruzeiros e passagens aéreas.
O popular que havia ficado fora de moda, seja pela retórica neoliberal, ao centro, seja pelo conteúdo de classe, à esquerda, está de volta. Diferentemente da
experiência peessedebista, o ―Real do Lula‖ veio acompanhado de mensagem que
faz sentido para os mais pobres: a de que pela primeira vez o Estado brasileiro olha para eles, os deserdados, e, portanto, se popularizou. Eis o motivo de o ex-presidente
insistir que ―nunca na história deste país...‖.
Irritados, os supostos ―formadores de opinião‖ não percebem que Lula não está se dirigindo a eles e martelam a tecla de que a história não começou com Lula, o que é verdade. Contudo, ouvido vários degraus abaixo, o bordão adquire sentido distinto: Nunca na história dos mais humildes o Estado olhou tanto para eles. (SINGER, 2012, p. 46, grifo do autor)
Com o lançamento do Bolsa Família, a partir de setembro de 2003, teve início uma melhora gradual e real na condição de vida dos mais empobrecidos. O Bolsa Família teve uma enorme quantidade de recursos a ele destinados: em 2004, recebeu verba 64% maior do que antes e, em 2005, 24%; atendia 3,6 milhões de famílias e, em dois anos, passou a atender 8,7 milhões; seu orçamento foi multiplicado por treze entre os anos de 2003 e 2006: pulou de 570 milhões para 7,5 bilhões de reais. Perto do pleito de 2006, alcançava 11,4 milhões de famílias. O Bolsa Família, segundo Singer (2012), teve grande influência nos votos dados a Lula em 2006.
Mas não foi apenas o Programa Bolsa Família o responsável pela mudança de vida e pela fidelidade e amor dos mais pobres. Houve também o aumento real do salário mínimo de 24, 25% no primeiro mandato, o uso do crédito consignado por aposentados a partir do ano de 2004, a diminuição de preços da cesta básica e uma série de programas como Luz para Todos, regularização das propriedades quilombolas, construção de cisternas no semiárido, maior
acesso à educação, dentre outros. Todas essas ações, em conjunto, resultaram na diminuição da pobreza a partir de 2004.
Em 01 de outubro de 2010, a edição n° 646 da revista Época foi praticamente toda dedicada a reportagens sobre Lula. Em um delas, intitulada O presidente e o mito, a jornalista mostra a história do casal José João e Luzimaria (ARANHA, 2010, p. 1):
Uma pequena amostra da mitificação da imagem de Lula pode ser encontrada na sala recém-mobiliada de Luzimaria Silva Nascimento, de 32 anos, moradora de Caetés, o município-sede da região rural onde o presidente nasceu e viveu até os 7 anos de idade. Ela é decorada com dois sofás novos, uma luminária ainda no plástico, um conjunto de mesa de centro, mesa de canto, um armário e um rack que serve de suporte para a TV e o som. Tudo comprado em muitas parcelas ao longo dos últimos anos. A sala foi pintada de três cores: amarelo, lilás e azul. Atrás da TV, em um dos quadros pendurados na parede lilás, vê-se uma fotomontagem com Luzimaria, seu marido, José João do Nascimento, e uma imagem de Lula ao centro.
―Para mim, ele é um pai‖, diz Luzimaria, ao se referir ao presidente. Em 2002, ela
prometeu, caso Lula ganhasse a eleição, que subiria de joelhos uma pedra de 600 metros. Prometeu e cumpriu. No topo, acendeu um maço de velas. Seu marido, José João, diz que Lula foi emoldurado junto na foto com o casal porque o presidente também teria cumprido sua parte da promessa de melhorar a vida da família. Na casa onde moram com mais cinco pessoas, ainda há cômodos em que as paredes estão descascando e os lençóis são usados como portas. A sala pôde ser equipada porque o preço da comida caiu, a aposentadoria de Nascimento subiu e Luzimaria passou a ganhar o benefício do programa Bolsa Família – R$ 80 – para a filha de 3 anos.
Foto 1 – João José e Luzimaria
Fonte: Aranha (2010, p. 2)
De acordo com Aranha (2010), em Pernambuco, estado em que Lula nasceu, e, principalmente, em cidades no interior do estado, é comum encontrar foto de Lula nas casas. As pessoas adoram Lula, acendem velas e rezam por ele. Singer (2012) afirma que, para encontrar fervor lulista, é preciso ir até o interior do Nordeste e conversar com pessoas que experienciaram a mudança de vida proporcionada pelo governo, como Luzimaria e José João.
Na expectativa de que o programa de inclusão continue a ser cumprido, os mais pobres apoiam Lula, enquanto os menos pobres que, segundo Singer (2012), encaram o discurso lulista como falso e aproveitador, pois acreditam que foi através do dinheiro que lhe foi tirado com os impostos que Lula adquiriu tamanho sucesso, unificam-se em torno do PSDB, em busca da restauração do seu status quo ante.
Afinal, ele bancaria o ―bom pai‖ com recursos alheios. Além disso, o estilo de vida
pequeno-burguês é ameaçado pela ascensão do subproletariado. A presença de consumidores populares em locais antes exclusivos, como aeroportos, diminui o status relativo de quem antes tinha neles exclusividade. No espaço público, a classe
média tradicional brasileira começa a ser tratada como ―igual‖, e não gosta da
experiência. (SINGER, 2012, p. 119, grifo do autor)
No que diz respeito aos mais pobres agraciados pelos programas do governo, Singer (2012) os classifica como subproletariado. Os subproletários são aquelas pessoas superempobrecidas, que vivem na miséria, na informalidade e cuja renda mensal chega até um salário mínimo per capita e, ainda, pela metade dos que recebem, no máximo, dois salários mínimos per capita. São pessoas exploradas pela classe média como subgente. São as empregadas domésticas, os ambulantes, os lavadores de carros, os que vivem na informalidade. Sua origem remete ao período da escravidão. Ao longo do século XX, o subproletariado não conseguiu incorporar-se à condição de proletariado, ―reproduzindo massa miserável permanente e regionalmente concentrada‖ no Norte e, principalmente Nordeste do Brasil. Já entre os estados do Sul e Sudeste, Singer (2010) afirma que os que mais se aproximam do Norte e Nordeste são Minas Gerais e Rio de Janeiro. O autor destaca que, ao tocar na questão da miséria, o Lulismo está relacionado ao que ele chama de questão setentrional: uma política na qual os próprios excluídos sustentavam a exclusão.
O lulismo provocou um deslocamento na identificação do eleitorado com o PT: se ao longo de sua história o partido perdia a simpatia dos segmentos de baixa renda e escolaridade, atingindo, segundo Meneguello (1989), um público diferenciado, pertencente a estratos mais favorecidos da população, a partir de 2002, o movimento inverso acontecia.
Há nítida percepção do sentido da transformação do PT na afirmativa do então presidente do partido, Ricardo Berzoini, em março de 2008: ―Hoje o PT tem uma força no Nordeste que há quinze anos nem sonhava ter. Em regiões onde o impacto das políticas do governo foi menor, muitas vezes o questionamento ético supera a
força das realizações. Depende muito da região e do estrato social‖. (SINGER, 2012,
O PT, seguindo a mesma direção do Lulismo, torna-se, então, o ―partido dos pobres‖, ganhando a simpatia, admiração e voto do subproletariado. Defendendo, simultânea e paradoxalmente, reformas estruturais profundas e estabilidade econômica, propriedade social dos meios de produção e respeito aos contratos, um discurso anticapitalista e o apoio às grandes empresas, coexistem no PT dois partidos diferentes num mesmo corpo partidário.