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2 INSTITUTOS FEDERAIS DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA

2.3 O Lulismo (2003-2011) e a reconfiguração da RFEPT

entraves para a sua identidade assim como para a adoção de um marco legal consolidado (BRASIL, 2007). Por fim, optamos por finalizar a seção com uma alusiva metáfora do modelo, retirada da tese de Moraes (2016, p.8) - o “filho-síntese” das universidades:

Este é certamente o filho que todo pai gostaria de ter. Um filho que sabe fazer tudo – e fazer bem feito! Não importa o quanto pareça difícil atuar em todos os níveis e em todas as modalidades da educação nacional. Aos pais, com seus olhos ingênuos, pode parecer que este filho esteja demorando um pouco para aprender “tudo” o que lhe foi objetivado. Permanecem na certeza de que todas as tarefas serão realizadas. Estranham, contudo, quando os filhos – ao começarem a falar – lhes digam que, com tantas coisas a fazer, não sabem bem por onde começar. Estranham mais ainda quando, um pouco mais maduros, lhes dizem que não querem fazer tudo o que os pais mandaram, que preferem fazer só o que gostam.

2.3 O Lulismo (2003-2011) e a reconfiguração da RFEPT

Na perspectiva de Frigotto e Ciavatta (2003. p.121), o “fracasso do liberalismo tardio de Cardoso” propiciou a vitória de Lula nas eleições em 2002. A esperança que se desenhava era a de inversão de direção e a ultrapassagem da era Cardoso de modo a recuperar ou, quiçá, construir e dilatar a face pública do Estado brasileiro e torná-la efetivamente democrática para que se constituísse formuladora e coordenadora de políticas que garantissem os múltiplos direitos sociais e subjetivos aos que, até então, eram excluídos. No âmbito da EPT, o desafio que se colocou foi a mais ousada Reforma no segmento, cuja materialização tem nos IFs sua maior expressividade.

Os IFs, diferentemente dos CEFETs, foram criados sob uma única Lei, o que assegura a institucionalidade de uma nova estrutura, apta a articular educação profissional e tecnológica em todos os seus níveis de forma clara e inequívoca em toda a Rede formalmente constituídas. Esta é a única diferença legal entre Universidades e IFs (IFS, 2017). Com a reestruturação e posterior expansão da RFEPT, a exemplo do que ocorreu no histórico centenário da Rede (existência de escolas técnicas federais), os

CEFETs não foram extintos, já que as instituições tiveram autonomia para decidirem em suas instâncias colegiadas a aceitação ou recusa da transição. A maior parte dos CEFETs optou por se transformar em IF (transição em bloco), embora algumas unidades tenham recusado. O CEFET MG, por exemplo, justificou sua recusa pautado em sua estrutura universitária, com intenções de tornar-se universidade (CEFET MG, 2018), a exemplo do que ocorreu com a Universidade Tecnológica do Paraná39 (BRASIL, 2005).

A criação da Lei n° 11.892/2008 tornou os IFs a referência na RFEPT e, todas as demais instituições criadas a partir deles, passaram a seguir o seu modelo de organização (OTRANTO, 2011). Porém, em 2003, anteriormente à implantação dos IFs, foi adotada uma política de expansão da Rede, e que teve continuidade nos governos Lula e Dilma. Otranto (2011 p.2) denominou este processo como “pavimentação do caminho para a implantação de tal Reforma”.

A política de criação dos IFs iniciou-se, portanto, em 2003, com a elaboração do Plano Plurianual do Governo Lula (PPA 2004-2007), “quando foram definidos os objetivos do planejamento governamental” (SANTOS, 2018. p.114). A constatação presente no PPA era a de que “havia um grande contingente da população brasileira retornando às salas de aula, em idade tardia, para cursar o ensino médio” (SANTOS, 2018. p.114). Esta demanda era justificada pela conjuntura do mundo do trabalho que requisita escolaridade dos trabalhadores para ocupações que antes não o faziam, o que acarretou num alto número de jovens desempregados no país. Para Santos (2018), foi neste quadro de demandas da esfera produtiva que foram definidas as políticas de educação e de qualificação para o trabalho, cuja pretensão almejou ampliar a oferta de educação profissional e articulá-la às políticas nacionais de geração de emprego, trabalho e renda.

Foi com base nas diretrizes expressas no PPA 2004-2007, que o então Ministro da Educação Tarso Genro, em março de 2004, deu os primeiros passos para instituir a política de expansão da oferta de educação profissional, ao elaborar o projeto de lei que viria a se constituir no grande marco da ampliação da RFEPET (SANTOS, 2018.p.115).

39 Esta transição se deu sob o resguardo da Lei n° 11.184, de 7 de outubro de 2005, que dispõe sobre a transformação do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná em Universidade Tecnológica Federal do Paraná e dá outras providências.

O referido projeto, oriundo do Poder Executivo, passou a tramitar na Câmara dos Deputados, a partir de 23 de março de 2004 sob a denominação de PL nº 3.584/2004. Tinha como objetivo promover a alteração da redação do § 5º do art. 3º da Lei nº 8.948, de 8 de dezembro 1994. O referido parágrafo foi inserido neste artigo quando da aprovação da Lei nº 9.649, de 27/5/1998, com o objetivo claro de proibir qualquer ação isolada do Governo Federal no sentido de expandir a educação profissional, na medida em que tal ação somente poderia ser concretizada mediante parcerias com estados, município, instituições vinculadas ao setor produtivo e organizações não governamentais (SANTOS, 2018. p.115. Grifo nosso).

Após vinte meses de tramitação no Congresso Nacional, o PL nº 3.584/2004 foi aprovado na íntegra e convertido na Lei nº 11.195/2005, sancionada pelo Presidente da República em 18/11/2005. Neste sentido, o artigo 5º da Lei nº 8.948/1994 passou a ter a seguinte redação:

A expansão da oferta de educação profissional, mediante a criação de novas unidades de ensino por parte da União, ocorrerá, preferencialmente, em parceria com Estados, Municípios, Distrito Federal, setor produtivo ou organizações não governamentais, que serão responsáveis pela manutenção e gestão dos novos estabelecimentos de ensino [Grifo nosso].

A legislação no governo FHC, na prática, estagnou a rede federal, causando um grande prejuízo para o país. Somente em 2005, ocasião na qual o governo Lula substituiu a referida lei pela de número 11.195, na qual o termo “preferencialmente” substituiu o “somente”, houve, como de fato constatamos, os avanços da expansão da Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica, vindo a lei a se constituir em um marco desse desenvolvimento.

Em 2005, o presidente Lula anunciou o Plano de Expansão da RFEPT. Para Pacheco, Pereira e Sobrinho (2010) esta ação representou marco40 do rompimento com o

40 Este marco se deu, propriamente, com a publicação da Lei nº 11.741 de 2008. Esta Lei “altera os dispositivos da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para redimensionar, institucionalizar e integrar as ações da educação profissional técnica de nível médio, da educação de jovens e adultos e da educação profissional e tecnológica” (BRASIL, 2008). Assim,

projeto de EPT herdado do governo Cardoso. Esses autores, de forma alvissareira, destacam ainda que “se, de 1909 a 2002, o número de escolas destinadas a essa modalidade da educação não ultrapassou 140 unidades, até 2010 a meta é chegar a 354 unidades” (PACHECO; PEREIRA; SOBRINHO, 2010, p. 73).

O reestabelecimento da oferta do ensino médio integrado se deu por meio do Decreto n° 5.154/200441, mantidas as modalidades concomitante e subsequente. No que concerne o ensino médio integrado, Fernando Haddad, então Ministro da Educação (2005 a 2012), ressaltou em conferência, a integração do ensino médio à educação profissional como dever do Poder Público Estadual e Federal (BRASIL, 2006). Para o Ministro, depois de revogado o Decreto n° 2.208/9742, “não se pode impor o ensino médio integrado, porém, é possível fomentar, induzir e apoiar as iniciativas que busquem tal integração”.

Se continuarmos emitindo diploma de técnico de nível médio que não traduza a real competência profissional, nada estará sendo mudado. Estaremos, sim, reproduzindo o engodo do passado e entregando um pseudotécnico à sociedade. Nem as empresas nem as cooperativas reconhecerão aquele diploma, tampouco vai o jovem sentir-se preparado para o desafio profissional, por ser um mero portador de diploma (BRASIL, 2007. p.38. Grifo nosso).

o ensino técnico passa a ser ofertado em três modalidades: integrado, concomitante e subsequente. O

ensino integrado conta com uma única matrícula para a formação básica e formação profissional. Nesta modalidade os conteúdos são trabalhados de forma conjunta, integrando os saberes técnicos e propedêuticos, de tal modo a conduzir o aluno à habilitação profissional técnica de nível médio. Na modalidade concomitante, os alunos têm duas matrículas, uma para a educação básica e outra para a educação profissional, podendo ocorrer na mesma instituição ou em instituições distintas. A modalidade subsequente é oferecida a alunos que possuem o ensino médio completo, portanto, cursam apenas as disciplinas de formação profissional.

Na visão de Negreti (2016), nos cursos concomitantes e subsequentes não há articulação entre as disciplinas propedêuticas das profissionalizantes. Assim, o mérito de tal legislação foi ter criado a possibilidade de

integração no ensino médio. A pesquisa de Zatti (2016) revelou que o modo subsequente é favorável à

qualificação profissional, sobretudo, àqueles que estão excluídos do mercado de trabalho. Já o modelo concomitante foi considerado inadequado pelos professores, levando em conta a perspectiva da educação emancipatória, isto é, trata os saberes de forma fragmentada o que dicotomiza a educação técnica e a propedêutica.

41 Regulamenta o § 2º do art. 36 e os artigos. 39 a 41 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, e dá outras providências. O Decreto n° 5.154/2004 trouxe a esperada possibilidade de retorno do ensino profissionalizante ser integrado ao ensino médio. 42 O Decreto em questão impossibilitava a integração da modalidade profissionalizante com o ensino médio.

Precisamos transformar esse diploma de técnico de nível médio em algo que seja definitivamente efetivo, que mude a vida do estudante, do trabalhador e das empresas de uma maneira geral. Estas hão de perceber que aquele certificado, aquele diploma, é algo que efetivamente faz a diferença na produção, que aumenta a produtividade no trabalho, que concorre para melhores salários e que produz uma mudança de cultura no ambiente de trabalho (BRASIL, 2007. p.39).

As ações de expansão da oferta de educação profissional e tecnológica decorrem da publicação da Lei nº 11.195, de 18 de novembro de 2005, que deu nova redação ao § 5º do art. 3º da Lei nº 8.948/1994, facultando à União a possibilidade de executar ações de implantação de novas unidades de ensino técnico e/ou agrotécnico, com preferência para o estabelecimento de parcerias com estados, municípios, Distrito Federal, e com organizações do setor produtivo ou organizações não governamentais (ONGs), que seriam responsáveis pela manutenção e gestão dos novos estabelecimentos de ensino.

O Decreto 6.095/2007 pode ser considerado o marco inicial legal para a concretização da Reforma ao estabelecer a criação dos IFs e, as normas para a transformação das demais entidades da Rede. O Decreto explicita o projeto de organização de uma Rede Federal com uma nova engenharia organizacional que seria montada a partir da “agregação voluntária” das demais instituições ao modelo IF (OTRANTO, 2011. p.7).

As instituições de educação profissional foram “convidadas”, pela Chamada Pública MEC/SETEC 002/07, a aderir à nova instituição, no prazo de 90 dias. Em julho de 2008, deu entrada no Congresso Nacional a Mensagem 513, assinada pelo Presidente da República, encaminhando o Projeto de Lei 3.775, que daria uma nova conformação à rede federal e criaria os IFs. O Projeto foi aprovado em dezembro de 2008, dando origem à Lei 11.892 (OTRANTO, 2011. p.7).

Na visão de Moraes (2016. p.181. Grifo nosso):

a inserção do “nível” profissional (não previsto na LDB), que impele os IFs a ofertar cursos de qualificação de trabalhadores, é um avanço quando comparado à realidade experimentada pelos CEFETs, pois esta disposição possibilita a construção de uma identidade mais inclusiva.

Reconhecemos os avanços que o campo da EPT obteve no Lulismo. No entanto, procuramos não generalizá-los, tampouco negligenciar suas idiossincrasias. Há autores que criticam o momento da EPT no governo PT. Ramos (2019. p.4), por exemplo, acredita que o momento vivenciado pela EPT no lulismo representou a “certificação em massa do trabalhador” alinhado com as demandas do mercado. Para Arcary (2016), as reformas destas instituições se imiscuam a aspectos micropolíticos oriundos do governo petista que anunciava-se orientado com a esquerda, mas, que aplicava o núcleo duro de programas de seus adversários. Este contexto reflete em um cenário de intensificação e precarização de trabalho para as diferentes categorias que nele se inserem (ARCARY, 2016). Já, na visão de Sala (2020), embora no petismo tenha ocorrido um substancial crescimento das matrículas nas instituições públicas e federais, materializadas na criação dos Institutos Federais e na expansão das Universidades Federais, houve também, uma maior privatização tanto da educação profissional quanto do superior no país, tendo em vista que as matrículas nas instituições privadas cresceram em uma taxa superior que nas públicas. Para Sala (2020), na impossibilidade de encontrar um crescimento econômico sustentável e autônomo face à crise global do capital, associado às condutas do petismo em buscar uma conciliação de classes, engendrou a sua “substituição” por um governo notadamente neoliberal, com a posse de Michel Temer.

Na visão de Oliveira (2018), o processo de expansão, aliado à alteração de identidade das instituições federais de EPT, acabaram por engendrar um misto de desafios e incertezas diante do quadro de deficiências e dificuldades encontradas tanto na implantação das novas unidades como no processo contínuo de melhorias necessárias àquelas já em funcionamento. Ainda, segundo o autor, diversos questionamentos a respeito da manutenção dos padrões de qualidade e se o impacto de uma expansão de tamanha dimensão não se traduziria em precarização do desempenho das instituições de ensino profissional e tecnológico (OLIVEIRA, 2018). Considerados alguns dos avanços e críticas ao governo que criou os IFs, pensamos que compreender as “mudanças” da EPT no país passa necessariamente por sua Expansão, tópico abordado na próxima seção.