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Capítulo 2. A Metodologia de Ensino

2.1 O Método de Ensino na Formação do Jogador

O método de ensino diz respeito ao caminho, aos procedimentos, a forma como o professor organiza e dirige a aula. Trata-se do como ensinar, e leva em consideração os procedimentos didático-pedagógicos utilizados para o ensino.

O ensino dos jogos desportivos coletivos11 (JDC) tem sido discutido nos últimos 50-60 anos. Desde os trabalhos de Parlebas (1996), Mahlo (1969), Bayer (1992), entre outros, tem-se estudado métodos de ensino mais adequados. O que se evoluiu desde então, do ponto de vista do papel do professor e do aluno, é que o ensino dos JDC deveria permitir, ao aluno, uma intervenção ativa, com vivência de situações-problemas em qualidade e quantidade, no qual cada indivíduo constrói seu conjunto de habilidades motoras. O professor, por sua vez, deve propor tarefas que provoquem os alunos a encontrar soluções para atingir o objetivo do jogo, ao mesmo tempo que leva o aluno a compreensão das suas escolhas e assimilação das vivências motoras e cognitivas, sabendo que tais tarefas devem ser situações análogas às vivências do jogo regulamentado, possíveis de serem reconhecidas pelos jogadores durante o jogo (Bayer, 1992).

Embora o ensino a partir das situações análogas justifique a utilização desse método, outra abordagem prevalece no ensino dos JDC. No estudo de Rink (1993) apud Nascimento (2010), foi verificado que treinadores de futsal, basquetebol e handebol utilizam grande parte de sua aula destinada ao ensino de fundamentos técnicos variados e, sobretudo, sem oposição. No estudo de Lopes e Silva (2009), foi demostrada que em três escolas avaliadas, nas categorias sub-5 a sub-15, foi evidente a importância dada ao método analítico técnico e físico no planejamento. Em outro estudo realizado na Espanha, foi constatado que o esporte segue, ainda, um modelo de ensino tradicional, valorizando o aprendizado da técnica e com um modelo diretivo por parte do Professor (Espada et al., 2013). No Brasil, o cenário é o mesmo, o método compartimentado (analítico) ainda permanece com maior prevalência no ensino dos JDC (Scaglia, 1999).

11jogos desportivos coletivos: optou-se por utilizar o termo advindo de Portugal, jogos desportivos coletivos

É natural que a mente humana tenda a simplificar as informações que lhe são transmitidas para que seja facilitado o seu entendimento e para que o indivíduo possa utilizá- las de maneira lógica e racional. Esta forma de se pensar, de certa forma permeia a sociedade em que vivemos de tal forma que ao interpretarmos frequentemente as situações com uma visão reducionista estaremos desconsiderando as influências que o nosso ponto de vista recebe e ao mesmo tempo exerce sobre os mais variados elementos que constituem determinado contexto (Morin, 2006). O método analítico no ensino dos JDC tem essa característica: a de fragmentar, selecionar as partes, treiná-las a fim de atingir um modelo e tornar a reuni-las no jogo, já que é necessidade e natureza deste.

Quando Morin (2006) cita que essa forma reducionista de se pensar permeia a sociedade, faz-me pensar que o método de ensino contribui para a proliferação de tal maneira de pensar e agir sociologicamente. Ou seja, o método de ensino, seja ele dos JDC ou de qualquer outra área, pressupõe o perfil do aluno egresso, no caso dos JDC, reflete não só no tipo de jogador, mas também no tipo de pessoa a qual estou formando.

Kunz (2003), cita que:

“Ao escolher trabalhar com o conhecimento já pronto, tem-se como produto final jovens obedientes, submissos, acríticos, trabalhadores, condizentes com as regras do jogo” (Kunz, 2003).

Kunz (2003) caracterizou uma aula do método analítico e a comparou com a linha produção de uma fábrica, através das seguintes semelhanças:

• É uma prática instrumentalizadora; • Voltada a repetição de gestos técnicos; • Previsível, monótona;

• Não é voltada a reflexão sobre o significado do seu próprio movimento; • E também não é voltada à reflexão do seu próprio contexto (o jogo, a

equipe, o esporte, a cultura, a sociedade, o planeta, o universo, etc.).

Logo, é preciso investigar o método de ensino, não somente para defender um ponto de vista de uma abordagem ou de outra, mas sim para nos fazer refletir que o problema deve ser visto de uma macroscópica visão. E isso quer dizer que o que não é só a competição sobre qual método de ensino é melhor para ensinar a decidir-agir, mas sim: “qual o perfil de adultos queremos formar no futuro” (Kunz, 2003). Características como, obediência,

padronização, falta de autonomia para decidir, falta de criatividade, não reflexão e visão hierárquica das relações humanas, são características que se estendem por diversos setores sociais, são comportamentos que, quando aprendidos no esporte, refletirão nos demais setores que o indivíduo interagir.

Nesta visão do processo de ensino, precisamos que as pessoas que vamos formar sirvam ao bem comum, ao coletivo, que tenham organização e equilíbrio em meio a tantas situações adversas e de risco que terá na vida, mas que, embora hajam para o coletivo, busquem o valor de ser criativo e imprevisível, mas sempre partindo de uma organização coletiva. É esse o modelo de jogador e pessoa que podemos formar.

Entretanto, a abordagem sistêmica-complexa passa por um período de compreensão e não é o modelo que vigora no ensino do futebol, talvez por alguns dos motivos elencados a seguir:

• É de mais difícil compreensão, organização e aplicação;

• Pouco difundida no ensino universitário, o que dificultou a expansão dessa abordagem na formação de Professores, sobretudo nas décadas de 60, 70, 80;

• A forte influência das modalidades individuais, que tinha a premissa de um ensino analítico, no ensino dos JDC foi superior à abordagem sistêmica- complexa;

• A tecnologia avançava, mas com abertura de possibilidades de estudos à questões reduzidas às partes, por grande influência cartesiana na concepção de pesquisa e ciência; diferentes de alguns modelos complexos de investigação utilizados recentemente (abordagem bioecológica).

Dessa forma, pensando no perfil do egresso, o método de ensino deveria basear-se em uma (re)forma de pensar sistêmica-complexa, garantindo que o ambiente do jogo seja capaz de ser a fonte de todas as vivências necessárias para que o jogador seja a pessoa que pretendemos formar.

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