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CAPÍTULO II – EM BUSCA DE UM CAMINHO: a teoria crítica e a pesquisa em educação

2.1 O método de pesquisa e seus procedimentos

Ao delinear o referencial teórico-crítico, faz-se necessário definir qual a matriz que norteará a escolha do tipo de pesquisa e os procedimentos metodológicos que viabilizarão o diagnóstico e prognóstico do objeto em estudo.

Entre os eixos epistemológicos da pesquisa educacional, optamos pelo materialismo histórico e dialético. A escolha deste método, o método de base materialista-histórica, traduz uma posição ontológica, epistemológica e uma práxis. Exemplo desta o é a importância da estrutura econômica das relações de produção o entendimento das relações sociais, ao estabelecer que dialética, historicidade e totalidade são categorias centrais para qualquer

análise em razão dos diversos aspectos sociais, que são dinâmicos, contraditórios e relacionados entre si e ao ter a prática social como critério de verdade.

O materialismo histórico e dialético, método proposto por Marx, rompeu com as correntes anteriores, ao ultrapassar a compreensão do fenômeno e propor, sobretudo, a transformação no modo de produção e, consequentemente, da organização social e política. Além disso, para compreender a matéria, este método constitui estudo minucioso das condições de vida das pessoas e de suas formações.

Para Marx, a tarefa da teoria é

[...] (i) proporcionar uma explicação adequada e empiricamente controlada das estruturas que produzem os fenômenos que se manifestam na vida sócio-econômica, muitas vezes em oposição ao modo espontâneo como aparecem; (ii) que essas estruturas são ontologicamente irredutíveis e normalmente defasadas em relação aos fenômenos que geram, reconhecendo dessa maneira a estratificação e diferenciação da realidade; (iii) que sua representação correta no pensamento é dependente da transformação crítica das teorias e concepções preexistentes, inclusive (em parte) das que são praticamente constitutivas dos fenômenos em estudo; (iv) que o processo de conhecimento científico é uma atividade prática, laboriosa (na dimensão intransitiva), que permanecem ´fora da cabeça, tal como antes´.(Apud BOTTOMORE, 2001, 58).

O autor propõe um método científico que dê conta desses aspectos e aponta para a pesquisa científica o esforço de transformação do mundo, para que ele fique mais adequado aos interesses da coletividade dos seres humanos. Pesquisa científica é aqui compreendida

[...] fundamentalmente como um ato de trabalho sobre a realidade objetiva. [...] consiste em conhecer o mundo no qual o homem atua. [...] sendo um ato de trabalho, a pesquisa científica é sempre produtiva [...].[...] faz-se sempre dirigido por uma finalidade [...](PINTO

apud SANFELICE, 2005, 87).

Sendo a pesquisa dialética em educação considerada um ato de trabalho produtivo e o objeto em si cognoscível, Sanfelice (2005, 89) ensina que o objeto constitui sempre movimento, ou seja, a forma de ser dos seres e fenômenos é estar sempre em mudança,

portanto, de já ter sido o que foram, de estarem sendo o que são e de estarem produzindo o que serão.

Além do desafio de compreender o objeto em movimento, o campo de pesquisa em educação é complexo, portanto, impossível de ser apreendido em sua totalidade. Este limite revela que toda pesquisa nesta área é considerada uma parte do todo, um conhecimento relativo e não absoluto, o que não suprime a possibilidade de conhecer de fato ou a viabilidade de um conhecimento verdadeiro.

Como instituição que promove a educação formal, a escola está inserida num meio que a determina, e entretanto, esta determinação é relativa, pois o indivíduo, na sua relação com outros homens e ou com o meio, pode intervir, reconhecendo e modificando a estrutura do modo de produção em curso na constituiçao de uma outra forma de organização social e escolar.

Na qualidade de método, Marx (apud LOMBRADI, 2005, XI) diferenciou o método de exposição do método de pesquisa,

A investigação tem de apoderar-se da matéria, em seus pormenores, de analisar suas diferentes formas de desenvolvimento, e de perquirir a conexão íntima que há entre elas` depois desse trabalho, ´é que se pode descrever [...] o movimento real´.

Em outras palavras, o método de pesquisa busca compreender a matéria na sua relação com as formas de desenvolvimento, seguido do método de exposição que busca descrever o movimento real.

Considerando, portanto, que o desenvolvimento de um objeto de estudo também é histórico e socialmente determinado, e que nós, pesquisadores, também somos tributários das ideias e da educação escolar recebidas, optamos pelo estudo de caso. Dentre os procedimentos de coleta de dados recorremos ao levantamento bibliográfico da literatura referente às categorias de análise, fundamental para o entendimento do objeto.

A análise documental baseia-se na análise de documentos da escola em estudo, a citar: relatório anual, ata de reuniões, regimentos, projeto político pedagógico – PPP, gestão integrada do desenvolvimento da escola – GIDE, entre outros. Os documentos normativos como leis, portarias e pareceres e as diretrizes expressas em políticas, programas e projetos para a escola de ensino médio também se consubstanciaram como objeto de análise. Os documentos foram coletados e analisados, tendo como foco o PPP, função social, gestão da escola, trabalho educativo ou escolar e trabalho docente.

A pesquisa do tipo estudo de caso se justifica por ser fundamental apresentar uma unidade com limites bem definidos para análise. Tomamos, então, como instância singular, específica, uma escola pública estadual que atende ao ensino médio, o Liceu do Maracanaú.

Entre os procedimentos, Triviños (1987) sugere para o conhecimento do objeto: a)

contemplação viva do fenômeno, por observação e análise de documentos, captando a

qualidade geral do objeto estudado, possibilitando a identificação das principais características do objeto e o levantamento de hipóteses que guiarão o estudo; b) a análise do

relações sócio-históricas do fenômeno e a realidade concreta pelo da coleta de dados quantitativos e qualitativos, com a aplicação de questionários com discentes e docentes e realização de grupos focais com estudantes e entrevistas semiestruturadas com gestores e professores, observações etc; e, por fim, c) a realidade concreta do fenômeno, ao estabelecer os aspectos essenciais, seu fundamento, sua realidade e possibilidades, seu conteúdo e sua forma, o que nele é singular e geral, o necessário e o contingente com a descrição, classificação, análise, síntese e verificação das hipóteses etc.

As entrevistas foram realizadas com três representantes do núcleo gestor (direção, coordenação pedagógica e da gestão), cinco docentes atendendo ao seguinte perfil: que estão desde a fundação, são coordenadores de área, participam de projetos de iniciação científica e representam diferentes áreas do conhecimento. Os grupos focais reuniram 16 discentes do 3º ano do ensino médio no ano de 2007, nos turnos da manhã e da tarde. O perfil dos estudantes é composto por egressos, jovens que participaram de projetos científicos premiados, de atividades culturais, estagiários, entre outros. Foram aplicados um total 57 questionários, sendo 54 (cinqüenta e quatro) questionários com os estudantes e 03 (três) com corpo docente. Os representantes sindicais não se constituem como universo de pesquisa por não conseguirem elaborar um projeto para a escola de ensino médio, conforme relata Viana em sua pesquisa (2001). Representantes do sistema de educação, SEDUC, Centro Regional de Desenvolvimento da Educação - CREDE e Conselho de Educação do Ceará – CEC, também não foram privilegiados nas entrevistas por não se constituírem objeto e universo da pesquisa.

Em síntese, o objeto a ser analisado encontra-se como um fenômeno social a ser compreendido, portanto, mais perto da organização e estrutura da sociedade e da educação. Este problema nasce em determinado contexto, em relação com as transformações materiais e sociais, designadamente o trabalho, os instrumentos de trabalho, as relações sociais e a vida, mediatizado por interesses materiais diretos da classe. A posição teórica adotada procurou não fragmentar a teoria da prática, mas as compreende como partes de um todo e como critério de verdade procura ver o fenômeno numa perspectiva integrada (parte e o todo), para, então, apresentar sua diagnose e seu prognóstico da relação complementar e contraditória entre o projeto educativo, o projeto político- pedagógico, a gestão do trabalho escolar e o trabalho docente.

1ª PARTE

DOS PRIMEIROS PASSOS À CONSOLIDAÇÃO

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