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O mínimo de existência e outros fundamentos constitucionais

Fundamentos da Proteção do Mínimo de Existência

2. Fundamentos da proteção do mínimo de existência

2.3. O mínimo de existência e outros fundamentos constitucionais

Na sua vertente positiva, os direitos fundamentais implicam que o Estado crie e respeite as condições que permitam a efetiva realização dos mesmos. Na sua vertente negativa, os direitos fundamentais determinam que o Estado não possa tributar a parcela de rendimentos indispensável à satisfação das necessidades vitais

198 NABAIS, JOSÉ CASALTA, O Dever Fundamental de Pagar Impostos – Contributo para a Compreensão Constitucional do Estado Fiscal Contemporâneo, op. cit., p. 561.

199 NABAIS, JOSÉ CASALTA, O Dever Fundamental de Pagar Impostos – Contributo para a Compreensão Constitucional do Estado Fiscal Contemporâneo, op. cit., pp. 561-562.

200 MIRANDA, JORGE/MEDEIROS, RUI, Constituição Portuguesa Anotada, op. cit., p. 80.

MIRANDA,JORGE, Manual de Direito Constitucional,Tomo IV, op. cit., p. 200.

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do contribuinte – v.g. manter a vida, a saúde, a integridade – isto é, a parcela de rendimentos que constitui o mínimo de existência201-202.

Seria desprovido de justificação que o Estado, através do seu poder fiscal, tributasse os rendimentos essenciais à sobrevivência do contribuinte e do seu agregado familiar quando os mesmos não sejam relevadores da sua capacidade contributiva. Tal implicaria que, além de se tributar o titular de rendimentos não reveladores da existência de capacidade contributiva, a tributação em causa “ainda agravasse a sua penúria”203.

Como acabámos de ver, a dignidade da pessoa humana implica que a todos sejam proporcionadas condições mínimas de sobrevivência. Isto implica a não tributação da parcela de rendimentos necessária à salvaguarda do mínimo de existência, tal como a dignidade da pessoa humana exige. Assim, não é de estranhar que JOÃO

SILVA RODRIGUES justifique o mínimo de existência com base no direito à vida204. Deste modo, de mãos dadas com a dignidade da pessoa humana, o mínimo de existência só será respeitado se todos puderem viver com dignidade. Para que tal seja possível, tem de ser salvaguardado o mínimo de existência e reconhecido, inclusive, o direito a reclamar ao Estado as prestações essenciais que se revelem indispensáveis para viver condignamente.

Nesta sequência, a eventual existência de um direito à sobrevivência, enquanto direito de personalidade, análogo aos direitos, liberdades e garantias foi

201 LEITECAMPOS,DIOGO/LEITECAMPOS,MÓNICA, Direito Tributário, op. cit., p. 133.

202 Também o artigo 25.º, n.º 1, da DUDH determina que “Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade”.

Nos termos do artigo 16.º, n.º 2, da CRP, a DUDH projeta-se nas nossas normas constitucionais

“moldando-as e emprestando-lhes um sentido que caiba dentro do sentido da Declaração ou que mais dele se aproxime”, MIRANDA,JORGE, Manual de Direito Constitucional, Tomo. IV, op. cit., p. 166.

Deste modo, podemos chamá-la à colação para complementar os direitos constantes da Constituição, MIRANDA,JORGE, Manual de Direito Constitucional, Tomo IV, op. cit., p. 169.

203 RIBEIRO, TEIXEIRA, Lições de Finanças Públicas, 4.a Edição, Coimbra, Coimbra Editora, 1991, p. 223.

204 RODRIGUES,JOÃO PEDRO SILVA,“Algumas reflexões sobre a não tributação dos rendimentos essenciais à existência como um direito fundamental”, op. cit., pp. 15-16.

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questionada por VIEIRA DE ANDRADE205. No entanto, tendo em conta que o direito à vida é um direito indissociável das pessoas físicas, dos indivíduos, e incompatível com a natureza das pessoas coletivas206, mais uma vez, não poderá fundamentar o mínimo de existência sob pena de não permitir a aplicabilidade do mesmo às pessoas coletivas. Tal como reconhecemos no ponto anterior, o princípio da dignidade da pessoa humana, ao exigir que todos tenham direito a sobreviver dignamente, implica que seja reconhecido o direito a dispor de condições mínimas para sobreviver, tal como o referido princípio implica. O Estado fica incumbido, deste modo, de assegurar a sobrevivência a todos os seus cidadãos não podendo lançar mão do seu poder tributário para exigir o pagamento de impostos deixando-os “despidos” da parcela de rendimentos indispensável para que possam sobreviver com dignidade207. Neste sentido, uma vez que a dignidade da pessoa humana “exige condições económicas de vida capazes de assegurar liberdade e bem-estar”208, o Estado deve, v.g., estabelecer e atualizar o rendimento social de inserção209 e estabelecer garantias especiais do salário210.

O mesmo se aplica em relação aos rendimentos que cada cidadão obtém. Se cada cidadão é detentor de rendimentos que poderão ser alvo de tributação, então devem ser-lhe proporcionadas condições mínimas que lhe permitam dar continuidade à fonte que origina os rendimentos que obtém. Assim, facilmente se compreende que a tributação dos rendimentos resultantes do trabalho não possa abranger a parcela de rendimentos indispensáveis para a existência humana deixando o titular dos mesmos sem condições para continuar a auferir os rendimentos de que necessita para viver. Não é, deste modo, com surpresa que o artigo 59.º da CRP211 consagra o direito dos trabalhadores “à retribuição do trabalho, segundo a quantidade, natureza e qualidade, observando-se o princípio de que para trabalho igual salário igual, de forma a garantir uma existência

205 VIEIRA DE ANDRADE, JOSÉ CARLOS, Os direitos fundamentais na constituição de 1976, Coimbra, Almedina, 2009, p. 203, nota 28.

206 MIRANDA,JORGE/MEDEIROS,RUI, Constituição Portuguesa Anotada, op. cit., p. 502.

207 Neste sentido, vide RODRIGUES, JOÃO PEDRO SILVA, “Algumas reflexões sobre a não tributação dos rendimentos essenciais à existência como um direito fundamental”, op. cit., p. 16.

208 MIRANDA,JORGE/MEDEIROS,RUI, Constituição Portuguesa Anotada, op. cit., p. 88.

209 Art. 59. º, n. º 2, al. a), da CRP.

210 Art. 59.º, n.º 3, da CRP.

211 O artigo 59.º, da CRP, tendo natureza análoga aos direitos, liberdades e garantias, goza do regime constitucional consagrado para estes, através do artigo 17.º da CRP.

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condigna”. Assim, o referido artigo não pode deixar de ser salientado nesta sede dado que não se compreenderia que o Estado estabelecesse um rendimento mínimo tendo em conta as necessidades do trabalhador e, ao mesmo tempo, lançasse mão do seu poder tributário para subtrair esse rendimento a título de pagamento de imposto212. Como bem ilustra o pensamento de MOSCHETTI, tal como a riqueza intangível deve ser proporcionada, esta não pode ser retirada213.

Contudo, note-se que não estamos perante duas realidades coincidentes: a função do rendimento social de inserção não é estabelecer o montante do mínimo de existência mas sim a regulação do mercado de trabalho214. Deste modo, o montante reconhecido a título de rendimento social de inserção poderá ser-nos útil aquando da atribuição do quantum a título de mínimo de existência mas nunca enquanto critério definidor do mesmo.

É ainda de referir que, não raras vezes, a solidariedade social é referida como fundamento do mínimo de existência. Tal como reconhecido no artigo 1.º da CRP, Portugal é uma República solidária215. Enquanto Estado de Direito Democrático fundado na dignidade da pessoa humana, o Estado português deve constituir uma sociedade de bem-estar “enquanto realização da justiça e da solidariedade sociais”216. A solidariedade social apresenta-se, assim, como princípio integrante do núcleo axiológico da conceção do Estado português enquanto Estado de Direito Democrático. Ao vincular quer a sociedade, quer todos os cidadãos no combate às dificuldades individuais que cada um possa sentir, a solidariedade social visa garantir, através de discriminações positivas, que todos possam viver dignamente, tal como a dignidade da pessoa humana impõe. Por outro lado, a solidariedade

212 Neste sentido, vide RODRIGUES, JOÃO PEDRO SILVA, “Algumas reflexões sobre a não tributação dos rendimentos essenciais à existência como um direito fundamental”, op. cit., p. 19.

213 MOSCHETTI, FRANCESCO, El princípio de capacidad contributiva, Madrid, Instituto de Estudios Fiscales, 1980, p. 269.

214 Neste sentido, vide, MOLINA, PEDRO HERRERA, “Capacidad económica y sistema fiscal”, Presente y furuto de la imposición directa en España, Valladolid, Lex Nova, 1997, p. 138.

Salientando que para funcionar como parâmetro para o mínimo de existência teria de ser efetuada tal parameterização pelo legislador, vide MILLÁN,EMILIO CENCERRADO, El Mínimo Exento en el Sistema Tributário Español, op. cit., p. 160.

215 Salientando que a ideia de solidariedade pode ser encontrada na Antiguidade Clássica, ao lado da noção de amizade, tendo alcançado uma dimensão religiosa com o cristianismo, maxime com a noção de caridade, vide NABAIS, JOSÉ CASALTA, Por uma liberdade com responsabilidade:

estudo sobre direitos e deveres fundamentais, Coimbra, Coimbra Editora, 2007, p. 134.

216 OTERO, PAULO, Vinculação e liberdade de conformação jurídica do sector empresarial do Estado, Coimbra, Coimbra Editora, 1998, p. 13.

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social implica que não só a sociedade mas também cada cidadão sejam responsáveis por garantir que todos tenham o mínimo necessário para viver com dignidade devendo, deste modo, contribuir na medida da capacidade contributiva que cada um revele217. A contribuição para fazer face à despesa pública deve ser feita, por conseguinte, por aqueles que demonstrem ter capacidade contributiva nunca colocando em causa a parcela de rendimentos que corresponde ao mínimo de existência. Deste modo, tal como salienta FRANCESO MOSCHETTI,

“La aptitud para contribuir a los gastos públicos comienza sólo después de que hayan sido satisfechas las necesidades personales y familiares. Esto no sólo corresponde a un evidente criterio lógico, sino que se armoniza con el carácter solidario del deber: la contribución a los gastos públicos, precisamente por su carácter solidario, debe ser realizada por los que tienen, incluso en lugar de los que no tienen”218.

Assim, se ao Estado cabe garantir a satisfação das necessidades de subsistência que os seus cidadãos revelem219, então é-lhe ilegítimo tributar a parcela de rendimentos afeta à satisfação das necessidades vitais do contribuinte e do seu agregado familiar e, assim, incrementar a situação de carência de cada um.

Enquanto base dos direitos fundamentais, maxime dos direitos a prestações materiais que visam assegurar a defesa do mínimo de existência, a solidariedade social impede o uso egoísta e individualista dos rendimentos permitindo uma distribuição mais justa dos mesmos220.

Na decisão de 29 de maio de 1990, o Tribunal Constitucional alemão também reconheceu que nenhum contribuinte pode ficar “numa situação tal que tenha de

217 Defendendo que as ações voluntárias de solidariedade dos cidadãos, no sentido de ajudar os seus semelhantes, não correspondem a um dever jurídico mas sim a um dever moral, religioso ou cultural, assim como a atividade das instituições privadas que atuem com o Estado levando a cabo o cumprimento de tarefas que a este incumbe – visando um interesse económico, a atividade de filantorpia ou auxílio mútuo, por entidades sem fins não lucrativos, vide NETO, EURICO

BITENCOURT, O direito ao Mínimo para uma Existência Digna, Porto Alegre, Livraria do Advogado Editora, 2010, p. 110. Relativamente ao exercício de tarefas públicas por entidades privadas, vide GONÇALVES, PEDRO, Entidades privadas com poderes públicos, Coimbra, Almedina, 2005.

218 MOSCHETTI,FRANCESCO,El princípio de capacidad contributiva, op. cit., 267.

219 Vide artigo 64.º, da CRP.

220 NETO, EURICO BITENCOURT, O direito ao Mínimo para uma Existência Digna, op. cit., pp.

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reclamar por auxílio social para cobrir as suas necessidades mínimas como consequência do pagamento de impostos”221.

Por outro lado, também na decisão de 25 de setembro de 1992, o mesmo Tribunal reconheceu que

“a quantia do mínimo de existência depende da situação económica geral e da necessidade mínima reconhecida pela comunidade jurídica. O valorar destas circunstâncias cabe ao legislador, todavia, na medida em que estejam reguladas determinadas ajudas sociais [...] o mínimo isento não pode ser inferior a esses montantes”222.

Assim, os contribuintes não podem ser colocados numa situação que os obrigue a recorrer ao auxílio estadual para satisfazerem as suas necessidades vitais devido ao cumprimento do dever fundamental de pagar impostos. Mais uma vez reiteramos:

a tributação não pode incidir sobre a parcela de rendimentos necessária à satisfação das necessidades vitais – mínimo de existência – por ser considerada rendimento indispensável à sobrevivência, com dignidade, da pessoa humana. Por sua vez, tal como afirmam DIOGO LEITE CAMPOS e MÓNICA LEITE CAMPOS,

“com o aprofundamento do Estado social, a isenção do mínimo de existência tende a tornar-se uma isenção do médio de existência”223.

O caminho a seguir deverá ser o do aprofundamento do mínimo de existência abraçando, cada vez mais, necessidades que hoje não são consideradas vitais. O princípio da solidariedade social, lido em consonância com os outros princípios e direitos supra mencionados, maxime princípio da capacidade contributiva, é, por conseguinte, mais um válido elemento para que possamos perceber melhor a extensão do mínimo de existência não sendo, contudo o fundamento do mesmo224.

221 Decisão do Tribunal Constitucional alemão de 29 de maio de 1990, BVerfG 82, 60. Disponível em http://www.servat.unibe.ch/dfr/bv082060.html.

222 Decisão do Tribunal Constitucional alemão de de 25 de setembro de 1992, BVerfG 67, 153. Para uma análise mais detalhada desta sentença, vide FRÍAS,GARCÍA ÁNGELES, “El mínimo de existencia en el Impuesto sobre la Renta alemán”, Información Fiscal, n.º 3, 1994, pp. 51 e seguintes.

223 LEITECAMPOS,DIOGO/LEITECAMPOS,MÓNICA, Direito Tributário, op. cit., p. 133.

224 Relativamente à solidariedade enquanto fundamento do direito ao mínimo de existência nos casos em que prevalece sobre a posição do credor, vide ALEXANDRINO, JOSÉ DE MELO, A

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