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O magistrum operum e o experimento de Cajueiro Seco

3 ACÁCIO GIL BORSOI: O ARQUITETO-ARTÍFICE

3.3 O magistrum operum e o experimento de Cajueiro Seco

No início de 1963, com apoio do Governo do Estado de Pernambuco Borsoi foi convidado para chefiar o Departamento de Construções da Liga Social contra o Mocambo, uma iniciativa com a finalidade de prover edificações adequadas às camadas mais pobres que aumentavam cada vez mais no Recife, devido ao êxodo rural. Borsoi não tinha experiência com habitação popular, pois até então havia projetado predominantemente para a elite pernambucana (SOUZA, 2008, p. 152). Diante do convite, ele vê a chance de desenvolver outro nicho de atividades, o da habitação social de inclusão popular59. De acordo com o próprio Borsoi (2001), o projeto muda radicalmente sua forma de ver arquitetura, como deixa claro em entrevista a Souza (2008, p. 156-157):

O negócio foi tão explosivo, recebi carta de Israel, da Índia, a Lina publicou na revista dela, Mirante das Artes. O Lacerda mandou a Sandra Cavalcanti incógnita para ver aquilo que tava dando repercussão nacional. Teve aquele congresso da Quitandinha (SHRu) que nós fomos e foi uma repercussão explosiva. (Em entrevista por Souza em ago. 2006).

Lina Bo Bardi escreveu em 1967 que Borsoi enfrentou a situação „mínima‟ da habitação considerando a „realidade existente‟ através de uma experimentação com a primitiva técnica da taipa, e não de solução material e plástica voltada para o que Bardi (1967) denomina ser “[…] querida pelos teóricos abstratos do problema da casa popular”. Em relação à experimentação de Borsoi com a taipa, como

59 É importante apontar que o projeto de Cajueiro Seco é citado como de profunda repercussão social e é debatido profundamente na esfera política da reconstrução urbana. Para mais informações sobre esse aspecto de Cajueiro Seco, consultar a segunda e a terceira partes da dissertação Reconstruindo Cajueiro Seco: Arquitetura, política social e cultura

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citada por Bardi, vale o empréstimo do termo arcaico „magistrum operum‟ (mestre de obra), empregado pelo historiador Eduardo Carreira para qualificar Villard Honnecourt (1997 [1210-1230], p. 10). Assim como Honnecourt, Borsoi age não somente como arquiteto que concebe de maneira abstrata mas como um autêntico magistrum operum, que compreende o passo a passo necessário para que a mão de obra sob sua responsabilidade consiga resolver o problema da construção da maneira mais fácil possível. A solução em taipa empregada por ele em Cajueiro Seco ultrapassa o simples uso de uma técnica para resolver um problema, pois o arquiteto estuda a fundo os princípios da concepção e construção e propõe uma série de componentes pré-fabricados que tornam possível a racionalização de montagem de um sistema que até então sempre fora tratado de forma bastante artesanal, primitiva. A aproximação entre a mão de obra e o arquiteto foi citada por Gregotti (1996) como um fator claramente tectônico, e o domínio das técnicas e do material por parte de Borsoi aponta exatamente para esse mesmo percurso. Além disso, segundo Pfammatter (2008, p. 286), a década de 1960 foi marcada por esse claro retorno às tradições locais no cenário internacional.

Aqui cabe contextualizar a técnica geral da taipa para que seja possível entender um pouco mais sobre a decisão de Borsoi. A taipa (chamada na Europa de tabique ou bauge) é uma das técnicas mais antigas praticadas em diversas partes do planeta (RIBEIRO, 2003, p. 63). A técnica veio ao Brasil pelos portugueses no século XVI com base na experiência geral e oriental indiana, no entanto, soluções semelhantes em pau a pique já utilizadas no Brasil de forma mais primitiva pelos ameríndios60 (BERTRAN, 2000, p. 2).

Existem várias aplicações da técnica da taipa, entre elas a taipa de pilão, a taipa de sopapo, a taipa de sebe e a taipa de mão (variação da técnica utilizada por Borsoi). Esta última consiste em comprimir o barro molhado com pés, mãos, animais ou outro meio até adquirir a consistência necessária; em seguida, é feito o enchimento em entrelaçados de madeira semelhantes aos empregados no pau a pique (Fig. 126-127) (WEIMER, 2005, p. 261-262). Após a secagem do barro, devido à evaporação da água, aparecem fissuras nas paredes, que podem ser maiores ou menores, devido à dosagem de água. A dosagem é um dos grandes segredos dos grandes artífices da taipa, que conseguem erigi-la com o mínimo de fissuras possível. Como meio de acabamento, é comum as vedações verticais receberem uma camada de barro mole para esconder as fissuras, ou um revestimento de argamassa de terra aditivada com excremento bovino, ou mesmo uma argamassa de cal e areia bem fina, sendo esta última opção a mais utilizada, devido à qualidade de proteção contra intempéries (RIBEIRO, 2003, p. 64).

60 É importante entender que ambos empregavam a técnica de forma semelhante com diferentes formas de uso, enquanto a solução hindu trabalha com uma planta quadrangular e com o fogão num dos cantos. A solução ameríndia é predominantemente circular e o fogão se encontra no centro, mas a técnica de utilização do material é bastante similar.

125 Fig. 126: Croqui de um sistema estrutural tradicional em pau a pique. Fonte: RIBEIRO, 2003, p. 64.

Fig. 127: Detalhe de um sistema simplificado de taipa de mão, em que o sistema estrutural de pau a pique leva manualmente o revestimento de barro que pode ser caiado posteriormente. Fonte: VAN LENGEN, 2008, p. 381.

A utilização da taipa para a realidade nordestina é bastante vantajosa em virtude do clima, pois o barro não cozido nas vedações verticais conserva as propriedades do solo. Bertran (2000, p. 3) apontou que mesmo nos mais árduos momentos de estiagem, a umidade interna de uma casa de barro é bastante amena, pelo fato de que a ação mecânica do sol sobre as paredes impulsionam a umidade armazenada pelas garoas e friagens noturnas nas paredes para dentro da casa. Em consequência dos benefícios e da facilidade de mão de obra, a taipa é muito empregada no nordeste brasileiro (Fig. 128).

Fig. 128: Exemplo de uma casa vernácula no município de Paudalho-PE concebida com a técnica da taipa de mão, as fissuras aparecem por causa da evaporação da água. Foto: CANTALICE II.

De acordo com os desenhos originais de Cajueiro Seco, percebe-se como uma solução tipicamente vernácula como a taipa, normalmente tratada de forma bastante artesanal, foi tratada por Borsoi com um processo inédito de pré-montagem que viabiliza a construção em larga escala do bairro. O sistema pode ser subdividido em seis fases principais, a saber: a primeira se dá através de pré-fabricação dos componentes de coberta, vedação, estrutura e higiene; a segunda diz respeito à montagem do sistema estrutural da edificação; a terceira diz respeito ao encaixe das grelhas de vedação vertical; a quarta se dá através da montagem dos barrotes e do assentamento das telhas de palha; o quinto diz respeito ao encaixe das portas, janelas e demais elementos pré-moldados de higiene; e o sexto diz respeito ao agregado da taipa e consequente acabamento. Nos parágrafos seguintes, o processo será aprofundado um a um.

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A primeira fase diz respeito à pré-fabricação dos componentes. Eles são montados in loco numa linha de montagem coletiva, na qual todos os moradores participam do processo. Nesse caso, Bierrenbach (2008, p. 52) reforça que esse é um dos princípios básicos da autogestão de obras na realidade primitiva indígena: enquanto o homem monta, as mulheres e as crianças tecem e vedam com barro a edificação. E é isso que ocorre em Cajueiro Seco.

O primeiro componente tratado de forma totalmente racionalizada foram os painéis de pau a pique, confeccionados com peças de madeiras emparelhadas e com o sistema de ripagem de aproximadamente 15 cm escalonados em ambos os lados. Os limites dos painéis possuem medidas de 65 cm por 227 cm. Borsoi escolheu essa medida por causa das peças de madeira tradicionais que vem das madeireiras com cerca de 300 cm. No segundo momento, as peças são levadas a uma fôrma de madeira, que as assenta de modo padronizado. Uma vez que o assentamento é feito e as ripas são distribuídas no painel, este segue para ser mergulhado numa solução oleosa desenvolvida para impermeabilizar a estrutura e prevenir contra a ação do inseto vulgarmente conhecido como „barbeiro‟, portador da doença de Chagas (Fig. 129).

Fig. 129: Detalhe do sistema de montagem dos painéis de pau a pique, Cajueiro Seco, Acácio Borsoi, 1963. Fonte: BORSOI, 2006, p. 76.

Ainda na primeira fase, ocorre a pré-fabricação do sistema de coberta que é racionalizado a partir da solução artesanal da amarração de palha. As palhas são cortadas com 145 cm, amarradas e postas numa mesa niveladora cujo objetivo é fazer a amarração dos feixes a partir da tecelagem, em seguida é dada uma mão de selante para reforçar a estrutura da coberta, principalmente para os períodos chuvosos, só então elas são enroladas para serem armazenadas (Fig. 130). Além disso, as peças sanitárias (pias, bacia sanitária e fossa séptica) são pré-moldadas em concreto e recebem uma impermeabilização à base de epóxi em que se possui contato direto com a água (Fig. 131).

127 Fig. 131: Detalhe das peças de higiene, Cajueiro Seco, Acácio Borsoi, 1963. Fonte: BORSOI, 2006, p. 76.

A segunda fase diz respeito ao sistema estrutural da edificação. Seguindo o princípio mais elementar da armação semperiana, o sistema é confeccionado a partir de madeiras de seção circular, frequentemente utilizada para estroncas; no entanto, bem alinhadas com medidas preconcebidas e fixadas diretamente sobre o barro batido que servirá de piso (Fig. 132). O assentamento é efetivado através de 9 peças principais, sendo as centrais maiores em altura, pois sobre elas descansa a viga da cumeeira. Aqui é curioso apontar que, assim como Laugier afirmou, o princípio básico do conceito da cabana primitiva pode ser observado (Fig. 3), pois a solução vernácula de Cajueiro é nada mais que a confecção de uma estrutura humana que, por meio de amarração dos barrotes, consegue suportar uma coberta para proteger o homem do frio, do calor e das demais adversidades.

Fig. 132: Vistas da armação estrutural, Cajueiro Seco, Acácio Borsoi, 1963. Fonte: BORSOI, 2006, p. 75.

A terceira fase diz respeito ao encaixe do sistema pré-moldado de pau a pique das vedações verticais internas e externas da casa. Vale salientar que essa fase já é individual e não mais coletiva, pois a ideia da planta é trabalhada em cima de um papel quadriculado (Fig. 104) pela família que ali habitará da forma que lhe for mais conveniente (BIERRENBACH, 2008, p. 50). A ideia de Borsoi aqui parece ter

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sido a de deixar as pessoas elaborarem suas soluções de locação de peças (portas de janelas) e de soluções espaciais, permitindo assim uma identificação do usuário com o processo de construção de seu hábitat. Dessa forma, ele abriu mão da visão unilateral do arquiteto e se comportou como um magistrum operum. Voltando às vedações verticais, elas são pensadas dentro de uma lógica de montagem que se amarram na armação estrutural de modo que os painéis fazem o fechamento em sua completude e as janelas podem se abrir acima deles (Fig. 133-134), pois são pré-moldadas com o mesmo módulo de 65 cm. Aqui vale citar o princípio básico de vestimenta de Semper, no qual a vedação funciona como uma pele independente das estroncas estruturais; no entanto, após o encaixe dessa pele, o acabamento dado posteriormente passa uma noção de unidade intrínseca, apesar de não possuir características estruturais.

Fig. 133: Montagem da vestimenta em pau a pique. Fonte: BORSOI, 2006, p. 77. Fig. 134: Vista frontal da vestimenta em pau a pique. Fonte: BORSOI, 2006, p. 76.

A quarta fase se dá através da montagem do sistema de solução de cobertura da casa. As terças são dispostas acima do sistema estrutural com distância entre 45 cm e 50 cm. A primeira terça, da cumeeira, é de seção circular, enquanto que as seguintes alternam entre terça emparelhada e circular, de forma que a fixação da palha trançada da coberta sempre se fixa sobre uma terça de seção circular na parte mais alta. Por causa da proximidade das terças e do peso do elemento de vedação, não são necessários caibros e ripas. Em termos de vedação, são utilizados três rolos para cada água da coberta e eles se sobrepõem algo em torno de 1/3, ou seja, 48 cm. Essa sobreposição acentuada se dá principalmente para evitar o refluxo de água e para reforçar a fixação da palha nas terças. Para a fixação do sistema são utilizados pregos e arames e uma cumeeira em „V‟ na parte superior (Fig. 135). O princípio básico de economia e praticidade dos meios esta claramente expressa na solução, a noção de roof semperiana, da tentativa de se fechar, e proteger, da maneira mais prática possível pode ser encontrada nesse telhado que é reflexo de uma cultura vernácula nordestina.

129 Fig. 135: Croqui demonstra montagem do sistema da coberta em palha trançada. Fonte: BORSOI, 2006, p. 76.

A quinta fase diz respeito ao encaixe das portas, janelas e demais elementos pré-moldados que são fixados dentro da modulação estabelecida, mas que sempre descansa diretamente nas hastes laterais dos painéis pré-moldados de pau a pique (Fig. 136-137). A janela possui um sistema de abertura tipo bandeira na parte superior do tipo máximo-ar, solução muito usada nas construções vernáculas do Nordeste e que permite a renovação do ar, conferindo privacidade. E por fim, a sexta fase diz respeito ao agregado da taipa e consequente acabamento de forma tradicional, em que foi possivelmente empregada a argamassa de areia com acabamento em cal.

Fig. 136: Imagens com o sistema métrico dos três tipos de abertura, janela tradicional, janela alta e porta. Fonte: BORSOI, 2006, p. 76.

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A casa de taipa pré-fabricada de Borsoi foi levada por estudantes e técnicos de sua equipe para o Congresso Internacional da União Internacional dos Arquitetos – UIA que aconteceu em 1963, em Havana, Cuba (SOUZA, 2008, p. 268) (Fig. 138). A relevância da iniciativa se deu principalmente pelo fato de Borsoi divulgar uma construção tão primitiva e tradicional diante de tantos trabalhos contemporâneos ali expostos. Tal exposição lembra até mesmo a cabana primitiva caribenha da Exposição Internacional de 1851 (Fig. 13), que foi utilizada por Semper para possibilitar um entendimento do fenômeno da arquitetura em sua essência (SEMPER, 1989 [1869], p. 29).

Fig. 138: Matéria sobre a casa de taipa de Borsoi na UIA, publicada pelo Diario de Pernambuco em 1963. Fonte: SOUZA, 2008, p. 268.

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Ao entender-se o sistema de montagem, o contexto social e a reflexão sobre uma tecnologia tradicional utilizada no caso de Cajueiro Seco, entende-se que Borsoi se aproximou de certo primitivismo construtivo, absorvendo características da região e se aproximando dos princípios tectônicos de Hübsch (1828) e de Müller (1830).

Cajueiro Seco se aproxima do princípio de Hübsch, de que a arquitetura deve emergir das condições materiais e sociais de seu tempo, principalmente quando as partes essenciais estão relacionadas às tarefas mais básicas da arquitetura, que variam de acordo com o clima, a cultura e o material (HÜBSCH, 1992 [1828], p. 66-69). Além disso, cabe citar o emprego do conceito hübschiano de tecnoestática a Cajueiro Seco, pois a obra demonstra uma intenção em beneficiar o olhar arquitetônico por meio da prática construtiva como um conjunto de ações que reflete sobre a tecnologia de um povo, de um local ou de uma cultura (Ibidem, p. 71-72, 79).

O princípio de Müller também pode ser empregado ao caso de Cajueiro, devido a sua visão de que a tectônica trabalha de acordo com as necessidades da vida e da mente humana. Além disso, Müller (1850 [1830], p. 299-300) afirmou que as estruturas arquitetônicas trabalham dentro de três aspectos principais: a forma de aplicação do material oferecido pela natureza, no caso, o barro e o madeiramento do pau a pique; o modus operandi que o homem deixa impresso na manipulação do material, no caso, a forma como Borsoi vê o material e o emprega; e o propósito construtivo da edificação que motiva o tipo de construção, no caso, a adoção da tradicional técnica de taipa, elemento motivador da realidade social de Cajueiro Seco.

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Vale aqui, ainda, empregar a ideia de artífice defendida por Sennett (2008) devido à forma que aborda a herança cultural. Borsoi se enquadra diretamente na visão do artífice de Sennett, principalmente quando afirma que os artífices devem possuir veia crítica e intelectual a fim de sentir e pensar sobre aquilo a ser construído, para que possam, através de novas técnicas e detalhes, fazer evoluir a concepção dos artefatos a serem produzidos com originalidade (SENNETT, 2008, p. 84). Um outro aspecto a ser considerado nos escritos de Sennett que se aproximam da obra de Borsoi é a reflexão acerca do „ofício da experiência‟ contido no movimento pragmatista61

. O ofício da experiência está relacionado com os fatos concretos no campo da ação e é entendido como a concepção artesanal ou ofício de pensamento. A concepção de produzir coisas artesanais, de acordo com Sennett, faz com que o artífice perceba melhor as técnicas e possa influenciar a maneira como ela, a técnica, se desenvolve na sociedade em geral (SENNETT, 2008, p. 319-323). O caso de Cajueiro Seco se mostra então como um importante passo na forma de Borsoi apreender a realidade através do ofício da experiência, típica dos artífices.

Nos aspectos citados acima, é importante compreender que a conexão entre concepção e o mundo resultante gera uma arquitetura com total sentido das necessidades culturais (BIERRENBACH, 2008, p. 49), o mundo resultante é entendido aqui como a realidade de construção e sua relação entre Borsoi e a mão de obra local (que se tratam dos próprios moradores). Nesse aspecto, Bierrenbach (2008, p. 51) afirma que o domínio da técnica e do detalhamento de Borsoi o transforma num coordenador-artesão, um mestre de obra que domina o ofício.

A importância de Cajueiro para Borsoi se cristaliza como uma experiência palpável de uma realidade construtiva regionalizada e limitada, com poucos recursos e com mão de obra que deriva do animal laborans de Arendt (2010 [1958]). Nesse aspecto, vale citar que a experiência de Cajueiro com as reflexões das viagens feitas por Borsoi entre 1959 e 1960 (Europa) e 1963 (América do Norte), onde teve contato com a sensibilidade construtiva do pós-guerra, fazem com que se forme – dentro do modus operandi do arquiteto – uma visão de arquitetura semelhante à de um magistrum operum ou à de um arquiteto-artífice. Essa posição faz com que Borsoi passe a enfatizar em sua arquitetura uma veia material que, consequentemente, o leva a se apegar, cada vez mais, as soluções construtivas e aos detalhes em sua arquitetura.