O sacrifício, associado ao gasto improdutivo, é o exemplo mais
paradigmático do que venha a ser uma atitude contrária ao que se espera do
homo oeconomicus. O rito sacrificial é reduzido a um momento de mercado. Mas por que gera tamanho mal-estar falar de “sociedade” com Deus
nos como um grito de inconformismo contra outras misturas “impuras”, no
limite, “irracionais”: o sagrado aproximando-se do econômico de uma forma
jamais vista até então. Um fato talvez imperdoável à nossa herança cristã e à
nossa tradição moderna, racional, que não perdoa combinações espúrias.
Considerando a rejeição do “homem moderno” por tudo aquilo que
implique uma ameaça à razão e à moral, como o retorno do sacrifício por
exemplo, não estaria aqui um dos prováveis motivos que explicariam uma
certa repulsa do dito “homem moderno” pela teoria da dádiva? Mas a questão
parece complicar-se, pois, embora haja tamanho mal-estar ao se falar de
sacrifício nas sociedades modernas capitalistas, alicerçadas no princípio da
produtividade, ele sobrevive para além do domínio religioso. Bataille chama a
atenção para o fato dos atos sacrificiais aparecerem, hoje, encobertos pelo
nome de consumo capitalista (associado ao ato de consumir ou destruir
através do consumo). Ao que parece, existem certos sacrifícios que são mais
“tolerados” do que outros, ou talvez “menos ilegítimos”. Crítico feroz da
modernidade, o autor ironiza também o sacrifício da fortuna com despesas
sociais improdutivas, leia-se, festas, espetáculos e jogos: “uma certa evolução
da riqueza, cujos sintomas têm o sentido da doença e do esgotamento, chega
a uma vergonha mesquinha. Os representantes da burguesia adotaram uma
atitude retraída: a ostentação de riquezas faz-se agora entre quatro paredes,
conforme convenções deprimentes e cheias de tédio. E relembrando Mauss:
“em nossas massas como elites, a despesa pura e irracional é prática
corrente; é também característica de alguns fósseis da nossa nobreza”
(Mauss, 1974, p. 176).
improdutivos, ainda que eles assumam novas formas, pois os homens,
isolados ou em grupo estão totalmente envolvidos em processos de despesa,
embasados no princípio da perda. Tal princípio seria característico dos
“estados de excitação” ou “estados tóxicos”, que ele define como impulsos
lógicos e irresistíveis para a rejeição dos bens materiais ou morais que teria
sido possível utilizar racionalmente. Quais seriam as razões dessa busca, que
parece impressa no ser humano, fazendo mesmo parte de sua natureza?
Conforme o autor, existe um impulso em busca da “intimidade” ou da
“imanência”, presente tanto nos homens do mundo antigo quanto nos do
mundo moderno. Associada a um estado “como água dentro d’água”, a
“imanência” “opõe-se” ao “mundo real”, visto como um mundo caído, marcado
pela objetividade vazia dos úteis. No “mundo real”, os objetos estão distantes
das realidades que o constituem e mesmo de seus próprios fins, o que traria
em si o desejo de nascimento do mundo da “imanência” (Bataille, 1975, p. 44).
Embora se negue o sacrifício ou o puro desperdício, ele continua
existindo, senão no consumo de bens, ao menos entre quatro paredes. A idéia
de efervescência parece aqui crucial. Como diz Durkheim, “é preciso nos
colocarmos em contato com fontes de “energia religiosa” da mesma forma que
para aquecer um corpo ou para eletrizá-lo colocamo-lo em contato com uma
fonte de calor ou de eletricidade” (Durkheim, 1989, p. 497). Essa “urgência”
da dádiva para que o social não se desintegre, faz com que ela não se torne
anacrônica, mas que, ao contrário, sobreviva, ainda que assumindo novas
formas.
Por que as pessoas trocam, por que elas sacrificam? Godbout
“Para se ligar, para se conectar à vida, para fazer circular as coisas num sistema vivo, para romper a solidão, sentir que não se está só e que pertence a algo mais vasto, particularmente a humanidade, cada vez que se dá algo a um desconhecido, um estranho que vive do outro lado do planeta, que jamais se verá. Por isso eu dizia que a dádiva é o que circula a serviço do laço social, o que o faz aparecer, o alimenta. Desde os presentes para os amigos e familiares até a doação por ocasião de grandes catástrofes naturais, a esmola na rua, a doação de sangue, é fundamentalmente para sentir essa comunicação, para romper o isolamento, para sentir a própria identidade. Daí o sentimento de poder, de transformação, de abertura, de vitalidade que invade os doadores, que dizem que recebem mais do que dão, e muitas vezes do próprio ato de dar. A dádiva seria, então, um princípio consubstancial ao princípio vital, aos sistemas vivos” (Godbout, 1998, p. 49).
Parece haver uma maior condescendência quando os sacrifícios
dizem respeito a outros domínios, como, por exemplo, o carnaval, as festas
profanas, embora todos envolvam gastos, muitas vezes grandiosos, que
visam simplesmente a satisfação no momento imediato. Sem esquecer que
são momentos em que o acento da relação é posto na aliança, na comunhão,
no contato “efervescente”. Mesmo na esfera religiosa, é interessante perceber
que certos cultos afro-brasileiros realizam rituais sacrificiais e nem por isso
tem sido travada uma verdadeira guerra santa contra eles. Sacrifica-se à
Divindade, mas a Divindade das sociedades de mercado, o que é um
verdadeiro sacrilégio.
Hoje, se a economia adquiriu certa autonomia em relação às demais
esferas sociais e o dinheiro foi re-significado, é possível pensar em algumas
questões. Como, por exemplo, por mais que a economia corresponda ao
locus dominante de produção simbólica, dependendo da esfera, do momento,
do “contexto relacional” em que o dinheiro apareça, é possível utilizar outros
significado. Ele pode, sem contradições, adquirir uma aura mágica e ser
sacrificado, tornando-se um mediador por excelência entre os homens e a
Divindade.
Nosso objetivo ao final desta pesquisa é mostrar que a dádiva