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CAPITULO II - CRÉDITO DOCUMENTÁRIO: ASPECTOS GERAIS

2.1. O mandato

Por meio desta figura o solicitante de crédito e o banco celebram um contrato pelo qual o segundo deles, atuando como mandatário do solicitante, tem a obrigação de pagar ao beneficiário (geralmente o vendedor) o preço combinado em troco da entrega de documentos.140

O CCB regulamenta esta operação no art. 653, onde menciona: “Opera-se mandato quando alguém recebe de outrem poderes para, em seu nome, praticar atos ou administrar interesses.” Antigamente, como explica BERTOLDI, o Código Comercial brasileiro (art. 140) distinguia entre o mandado mercantil e o civil, fato que não ocorre desde a entrada em vigência do novo CCB, pois a regulamentação como se viu linhas acima, não faz menção a alguns dos casos. Mas, é sabido que o mandado analisado pelo direito comercial é a aquele donde o mandante trate temas próprios de suas atividades comerciais.141

A característica principal desta figura é a “representação”, ou seja, atuar por conta e nome de outra pessoa praticando todos os atos como se esses fossem praticados pelo mandante,

142 cabe ressaltar que a revogabilidade é inerente a este contrato, podendo sem embargo, estipular-se numa de suas cláusulas sua irrevogabilidade.143 Além da revogabilidade, a onerosidade144

140 SIERRALTA, A. Operaciones de..., p. 34.

é outra de suas

141 BERTOLDI, Marcelo M. e RIBEIRO, Márcia Carla Pereira. Curso avançado de direito comercial, p. 787.

142 MARTINS, Fran, Contratos e obrigações comerciais, p. 248.

143 COSTA, L. O crédito..., p. 138.

144 O CCB, no seu artigo 658 assinala: “O mandato presume-se gratuito quando não houver sido estipulada retribuição, exceto se o seu objeto corresponder ao daqueles que o mandatário trata por oficio ou profissão lucrativa”; entretanto, explicam Bertoldi e Ribeiro, “Se para o direito civil o mandato presume-se gratuito, para o direito comercial o mandato necessariamente deverá ser oneroso”. (BERTOLDI, M. e RIBEIRO, M. Op. cit., p. 787).

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características, o que traz como conseqüência, em caso do descumprimento no reembolso por parte do mandante, o direito da retenção por parte do mandatário.145

As tentativas de assimilar o crédito documentário à noção de mandato tiveram origens no ano de 1925, na Itália, conforme explica COSTA, a Corte Suprema achou conveniente esclarecer as relações jurídicas que existiam nesta instituição, pois, devido ao seu surgimento, produto das necessidades do comércio, isto não tinha sido feito com anterioridade. É assim que a sentença de 16 de junho de 1925 afirmava que: “a substituição da solvabilidade do banqueiro por aquela menos certa do tomador do crédito dá a segurança necessária ao beneficiário,” além disso, agregava: “o banqueiro assume, em relação ao beneficiário, um direito direto, cujo ascendente lógico e, podemos dizer histórico, encontra-se nas relações entre o banqueiro e o tomador do crédito, mas com uma causa independente,” conforme continua explicando COSTA: “a Corte Suprema italiana concluiu que o banqueiro, ao assumir uma obrigação em seu próprio nome, mas por conta do tomador do crédito, age sempre como mandatário, embora não haja representação”.

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Num sentido similar, o Tribunal Supremo Espanhol em sentença de 20 de maio de 2008 afirma:

Certamente, a relação entre ordenante e emissor deve ser qualificada como relação de mandato, em mérito da qual este se obriga frente ao mandante a emitir uma promessa abstrata de pagamento, e frente ao terceiro a pagar se forem cumpridos os termos do crédito, caracterizada pela sua natureza mercantil.147

145 COSTA. L. O crédito..., p. 139-140.

146 COSTA, L. O crédito..., p. 140.

147 “Ciertamente, la relación entre ordenante y emisor debe calificarse como relación de mandato, en méritos de la cual éste se obliga frente al mandante a emitir una promesa abstracta de pago, y frente al tercero a pagar si se cumplen los términos del crédito, caracterizada por su naturaleza mercantil”.

(ESPANHA. Tribunal Supremo. Crédito Documentario: Doctrina Jurisprudencial. Recurso:

1233/2001. Madrid. “D, Federico” versus “Cipquisa S.A.”, “D. Luis María”, “D. Franco”, “Banco Central Hispanoamericano S.A.” y “D. Juan Alberto”. Relator: Jesús Corbal Fernández. Sentença de 20 de maio de 2008). Disponível na Internet em:

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É assim que parte da jurisprudência tenta achar uma explicação para o mecanismo do crédito documentário, excluindo a representação do mandato, mas como é cediço a representação é uma característica fundamental deste,148 portanto, se estar-se-ia deformando tanto os princípios do mandato como do crédito documentário.149

Outro ponto a considerar é o referente à autonomia da operação do crédito em relação ao contrato comercial originário. Nesse sentido, se adotada a idéia do mandato, os prováveis problemas que se poderiam originar no contrato de compra e venda podem ser alegados contra o beneficiário, portanto, se o banqueiro tiver qualquer dúvida em relação à execução do contrato comercial de base, diferiria o pagamento ao beneficiário.

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SIERRALTA, ao seu turno, ensaia outra diferença em relação a estas duas figuras, é a relacionada à extinção do contrato. No mandato a obrigação se extingue – além de outras formas – pela revogação.

151 Isto não é possível no crédito documentário, porque este não é intuito personae; ou seja, o suposto mandante pode ser qualquer banco ou pode ser substituído; o que não acontece no mandato que tem natureza intuito personae, portanto revogável em qualquer momento, pois alguma mudança no estado das pessoas traria como conseqüência sua extinção.152

Como se pode concluir, as diferenças existentes entre ambas as figuras são notórias após analisar as suas características, por tanto tentar achar a natureza do

148 MARTINS, F. Contratos e obrigações..., p. 248.

149 COSTA, L. O crédito..., p. 140-141.

150 COSTA. L. O crédito..., p. 142.

151 Já o artigo 682 do CCB assinala que esta se dá em quatro hipóteses: (i) pela revogação ou pela renúncia; (ii) pela morte ou interdição de uma das partes; (iii) pela mudança de estado que inabilite o mandante a conferir os poderes, ou o mandatário para os exercer; e (iv) pelo término de prazo ou pela conclusão do negócio.

152 SIERRALTA, A. Operaciones de..., p. 36; ver também: COSTA, L. O crédito..., p. 145.

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crédito documentário na teoria do mandato é inadequado pela incompatibilidade que existe entre estas.153