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O Maneirismo

No documento rogeriaolimpiodossantos (páginas 39-42)

Para Serrão, o Maneirismo assinala

[...] a mais radical ruptura que a História de Arte já experimentou ao assumir-se em processo de rebelião deliberada contra as estruturas humanísticas que o Alto Renascimento havia organizado, e ao acentuar – pela primeira vez – uma consciente desarticulação do código clássico legado

pelos mestres renascentistas.73

Já Silva o define como

Tendência artística do século XVI, de raiz italiana e difundida depois na Europa transalpina, que inicialmente se desenvolveu a par do Gótico Tardio e das convenções renascentistas diluindo-se gradualmente no âmbito da arte barroca.74

Durante muito tempo o Maneirismo foi entendido como uma degenerescência do Renascimento. Somente no século XX com os estudos desenvolvidos principalmente por Dvorák o Maneirismo foi reabilitado, apesar de permanecer ainda os questionamentos com

71 SERRÃO, Vítor. O Maneirismo e o estatuto social dos pintores portugueses. Lisboa: Imprensa nacional –

Casa da Moeda, 1983, p. 32.

72 VILELA, José Stichini. Francisco de Holanda: vida, pensamento e obra. Lisboa: Instituto de Cultura e

Língua Portuguesa, 1982. Disponível em: http://cvc.instituto-camoes.pt/bdc/arte/062/bb062.pdf. Acesso em: 19 de mar. 2009, p. 13.

73 SERRÃO, op. cit., pp. 21-22.

relação ao pertencimento deste ao Renascimento ou como estilo posterior ao Alto Renascimento.

Serrão lembra que é de fundamental importância para o entendimento do Maneirismo enquanto produto cultural e artístico analisá-lo como fenômeno partícipe da complexa realidade histórica do século XVI europeu. Este período foi marcado pelo que este autor chama de ‘agudíssimas convulsões sócio-políticas’, e nestas convulsões inserem-se o saque de Roma pelas tropas do imperador Carlos V em 1527, e a matança ocorrida na noite de S. Bartolomeu em Paris em 1572. Este também é o século da crise religiosa provocada pelos movimentos da Reforma Protestante, da Contra-Reforma católica e pelo Concílio de Trento. No campo econômico, assiste ao surgimento do capitalismo monopolista. Além disso, as novas formas de movimentação e de concentração do poder econômico e a incrementação da produção agrícola por parte dos senhores feudais provocaram uma desestabilização do quadro sócio-econômico continental em virtude do aumento dos preços, da falência dos que dependiam dos serviços da terra e das insurreições camponesas75.

Segundo Serrão, os ideais renascentistas de serenidade perderam espaço diante do estado crítico de insegurança em que a Europa transitava em busca de uma revisão radical de valores. Um período tão conturbado não permitia que o homem encontrasse suporte nos conceitos humanistas “de equilíbrio, de normatividade e de ordem, de conciliação entre o homem e a natureza, de confiança humanística na razão, de repousante culto da harmonia e da ‘beleza regular’”76 que caracterizou o Renascimento.

O escritor e historiador da arte Arnold Hauser afirma que aquilo que entendemos como crise do Renascimento é na verdade uma crise do Humanismo, crise esta que colocou em dúvida o valor da síntese que tentava conciliar a herança da Antiguidade com a do Medievo moderando seus contrastes, ou seja, aquela síntese que colocava o homem e suas exigências espirituais no centro do universo77.

A crise do Renascimento começa com a dúvida de que sejam conciliáveis as exigências espirituais e as físicas, o pensamento da salvação e a busca da felicidade. Por isso, na arte maneirista – e é esta a sua peculiaridade – a representação do conteúdo espiritual não se resolve nas formas concretas,

75 SERRÃO, Vítor. O Maneirismo e o estatuto social dos pintores portugueses. Lisboa: Imprensa nacional –

Casa da Moeda, 1983, p. 25.

76

SERRÃO, op. cit., p. 27.

77 HAUSER, Arnold. O conceito de Maneirismo. In: ARGAN, G. C. História da arte italiana: De

mas é algo de tão particular, de tão irredutível a um aspecto material, que pode vir sugerido – e sempre apenas sugerido – exclusivamente em contrate com esse aspecto, em antítese a tudo quanto não é espiritual, transtornando

as formas e forçando os limites da matéria.78

Para Serrão, ao romper com o Renascimento, o Maneirismo nega o sentido naturalista e clássico e assume uma postura baseada na concepção da obra artística enquanto produto intelectual e não somente imitação da natureza79. Hauser lembra, porém, que a linguagem formal do Renascimento é mantida. “Permanecem intactos esquemas compositivos, ritmo linear, estrutura monumental e ostentação de dinamismo, majestosos tipos humanos e pretensiosas encenações”80, mas todos esses esquemas perdem o significado que tinham no período clássico.

Na nova arte que rompe com os princípios do Renascimento e do Humanismo a idéia consegue exprimir-se retorcendo, partindo, dissolvendo a matéria, a forma concreta, a aparência imediata; o espírito exprimi-se

graças à deformação da matéria.81

A linguagem formal é mantida, mas existe um contraste com relação aos impulsos que animam os artistas maneiristas. Estes artistas estavam conscientes das contradições da vida e, ao invés de mascarar ou silenciar essas contradições, optaram por acentuá-las e exacerbá-las. Pode-se entender nessa opção, o que Serrão entende como sendo a melancolia exacerbada refletida na obra desses artistas. Esta melancolia tinha origem

[...] na sua profunda insatisfação, na sua instabilidade afectiva, no seu acentuado espiritualismo, nas suas neurores e traumas – reveladora de toda uma mentalidade de crise, em que as personalidades individualizadas dos

homens de cultura se debatiam e se martirizavam. 82

78 HAUSER, Arnold. O conceito de Maneirismo. In: ARGAN, G. C. História da arte italiana: De

Michelangelo ao Futurismo. V. 3. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, p. 232.

79 SERRÃO, Vítor. O Maneirismo e o estatuto social dos pintores portugueses. Lisboa: Imprensa nacional –

Casa da Moeda, 1983, p. 28.

80

HAUSER, op. cit., p. 231.

81 HAUSER, Ibidem.

Esta conjuntura fazia dos artistas do maneirismo, na opinião de Serrão

[...] homens atormentados por toda uma realidade que lhes é adversa, que os envolve e atrofia, contra a qual se rebelam assumindo um comportamento

depressivo, lunático, neurótico, senão marginalizado [...].83

Por todas essas características Serrão entende a melancolia como uma das obsessões do Maneirismo e a personalidade conturbada de Michelângelo um modelo ideal.

Hauser não fala em melancolia, mas acredita que “tudo se manifesta em extremos contrapostos e só na sua paradoxal união se pode refletir o sentido da existência”84. Encerrando seu artigo, este autor afirma que cada forma artística segue em sua evolução a linha histórica e o ritmo geral do estilo, mas também obedece a premissas determinadas pela sua técnica, pelo seu passado e pela sua função social, por este motivo, as conexões com o Renascimento serão distintas dependendo do tipo de arte a ser analisado.

No documento rogeriaolimpiodossantos (páginas 39-42)

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