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O manejo do material: as novas sensibilidades

CAPITULO 3 – AS MITOLOGIAS DA APARÊNCIA (RE)ARQUITETURANDO

3.4 O manejo do material: as novas sensibilidades

Nesse tópico, a ênfase será dada às plantas-baixas que se referem à adequação sanitária da cidade263 (ligação de água e esgoto) em casas residenciais e comerciais. A ideia

261 BEGUIN, François. As maquinarias inglesas do conforto. In: Revista Espaço e Debates, São Paulo, Ano 11, nº 34, p. 41, 1991.

262 Idem, ibidem. p 45.

263 Segundo Câmara, até mais ou menos 1924, a cidade não contava com gabinetes sanitários higienizados. Eram primitivas sentinas no fundo dos quintais. No mesmo ano, os médicos deram início às intimações para a construção de gabinetes com fossas. Instalações com caixas de descarga, na verdade, só apareceram a partir de

foi perceber como se deu a implantação dos serviços de esgotamento sanitário, com as ligações de água encanada e de esgoto, a partir de 1937, quando foram iniciados os trabalhos, na gestão do governador Argemiro de Figueiredo, do tão aguardado “Abastecimento D’Agua e Saneamento de Campina Grande”.264

Assim, buscamos problematizar como se projetaram as vantagens em torno desse dispositivo em relação ao abastecimento mais antigo, o sistema de carregadores de água, pois permitiu uma análise da reorganização de um serviço que pode operar de forma sensível nos hábitos domésticos e extra-domésticos e “são favorecidos gestos e hábitos cujos efeitos sobre a preservação da saúde são constatados (sic) controla-se a circulação de pessoas privatizando a circulação da água.”265 A inserção do encanamento no ambiente doméstico permitiu a incorporação de novas sensibilidades no âmbito do privado.

No conjunto do material, os anos 1938/1939/1940 emergiram como o período em que os imóveis da cidade foram levados a se adequarem ao sistema de água encanada e esgotamento sanitário. Para a aquisição desse benefício havia um escritório específico para a realização desse serviço que pertencia ao senhor Otílio de Sousa – “Escritório de Engenharia Sanitária com engenheiro responsável Nestor Moreira Reis, situado a Rua Praça João Pessoa n. 120” 266.

Os requerimentos, em folha de papel timbrado e com a marca d’água do escritório, eram encaminhados para a Prefeitura com vistas à obtenção da devida aprovação e licenciamento, conforme exemplo abaixo:

1930 e somente foram se generalizando depois do serviço de água e esgoto. Cf. Datas Campinenses. Campina Grande: Ed. Caravela, 1998. p. 100.

264 Sem autor. O Abastecimento D’Agua e Saneamento de Campina Grande. A Voz da Borborema, 28 de julho de 1937. p. 1. n°. 4.

265 BEGUIN, François. As maquinarias inglesas do conforto. In: Espaço e Debates. São Paulo, Ano 11, nº 34, p. 45,1991.

266 Na parte posterior do projeto de instalação hidráulica dos imóveis há a referência ao escritório de Otílio de Sousa como prestador daquele serviço.

Imagem nº 21: Requerimento de instalação domiciliária de água e esgotos. Acervo: APPMCG, ano de

1939. 267

A imagem é composta por documento utilizado pelo escritório de Engenharia Sanitária, o qual Otílio de Sousa, engenheiro, era o responsável pela implantação dos serviços de água e esgotos na cidade para pedidos de licenças e execução dos serviços de instalação em residências e casas comerciais. O projeto de água encanada para a cidade de Campina Grande teve seus inícios no ano de 1937. O jornal A Voz da Borborema do ano supracitado, nos meses de junho a dezembro apresentou muitas crônicas sobre o projeto de implantação da água encanada na cidade. Esse projeto foi encampado pelo governador Argemiro de

267 Fundo do Ministério de Viação e Obras. Requerimento de licença para execução de projeto para instalação domiciliário de água e esgotos, pedido em 30 de setembro de 1939.

Figueiredo268, interventor no estado paraibano e oriundo da política campinense. Para a realização de uma obra de tal envergadura foi contratado o escritório de engenharia sanitária de Saturnino de Brito, responsável por inúmeros projetos de execução hidráulica em vários estados brasileiros e o engenheiro José Fernal como executor do trabalho em Campina Grande.

O projeto de trazer água encanada para Campina Grande teria sido um dos grandes trunfos do governo estadual. Argemiro de Figueiredo constituiu uma campanha em torno dos benefícios da água encanada na cidade, atribuindo-a a uma vitória do seu governo. Ele soube capitalizar como ninguém a execução das obras. O jornal A Voz da Borborema, dirigido por seu irmão Acácio de Figueiredo, foi muito importante na construção da imagem de político benemérito e associado aos benefícios do projeto da água encanada para esta cidade, essa pauta em conformidade com o que já foi discutido anteriormente.

O requerimento acima está grampeado à cópia da planta arquivada na Prefeitura de Campina Grande. A planta-baixa da casa residencial a ser contemplada com o serviço de água encanada continha a localização do imóvel, referência ao proprietário e a data na qual o desenho teria sido confeccionada. Além disso, o desenho mostrava qual o enfoque do trabalho: o encanamento e esgotamento sanitário. Os cômodos do imóvel privilegiados para essa leitura são o banheiro e a cozinha. Nessas duas dependências encontramos os objetos que no nosso entender são responsáveis por mudanças das sensibilidades: os sifões, as calhas, caixa de gordura, pias etc. que são elementos que possuem a função de não permitir que os odores nauseabundos e as águas servidas não permanecessem no ambiente doméstico.

Esses requerimentos permitiram visualizar que a instalação de água e esgotamento sanitário redimensionou a relação estabelecida com a água, com o cuidado de si. Ao aproximar tanto a cozinha quanto o banheiro para o interior de casa, percebemos a ocorrência uma mudança profunda no olfato, na convivência com os desejos, na relação com o banho. Segundo Beguin, várias pesquisas precisaram a aplicabilidade do sistema sanitário e sublinharam a interdependência dos componentes de utilização da água e evacuação da mesma.

268 Severino Cabral Filho constrói uma análise pertinente sobre como o governador Argemiro de Figueiredo agenciou uma imagem de benemérito e de amor incondicional a sua cidade natal, Campina Grande. Segundo Cabral Filho, “A modernidade e os seus agentes também constroem os seus mitos”. Ao longo de sua administração Figueiredo buscou lidar com uma imagem de um “chefe político moderno” para tanto buscou conferir a si uma imagem de homem que não se contentava apenas em atender em seu gabinete, mas um administrador extramuros, ou seja, para aquele o “administrador moderno é aquele que, no cotidiano, supera a rotina palaciana”. Segundo leitura do autor, Argemiro de Figueiredo era o próprio garoto propaganda de seu próprio governo e realizações. O projeto de água encanada e esgotamento sanitário atestam esse exercício. O Jornal a Voz da Borborema entre os meses de julho de 1937 a dezembro do mesmo ano atestam essa posição.

A utilização da água como instrumento de limpeza e evacuação dos dejetos graças ao banheiro está diretamente ligada aos dutos de esvaziação como uma invenção que utilizou cálculos a respeito da velocidade da água nas canalizações, “a forma e as dimensões dos dutos, os diversos procedimentos de filtragem e de distribuição de água sob pressão vão interferir diretamente nos hábitos dos citadinos.”269 Pois “a água corrente a domicílio permite ganhar tempo, economizar forças, evitar o caminho que é preciso percorrer sempre para buscar água fora”.270 Assim, são as economias de tempo, de energia (…). Mais água, um interior fácil de limpar, aerar e aquecer, é isto que abre o caminho para novas práticas. ” 271 Essa economia de tempo e de energia construíram um ambiente propício a emergência de novas sensibilidades.

Segundo João Luiz Máximo da Silva, a transformação espacial e material das casas em conjunto com os equipamentos técnicos propiciaram novas demandas ao ambiente doméstico, em especial a cozinha. Nesse sentido, o autor enfatizou que os engenheiros tiveram um papel importante nesse processo, pois desenvolveram novas formas de organização espacial. “A padronização e racionalização da habitação e de seus componentes visava a uma transformação radical da casa, em especial da cozinha, e se apoiava tanto no desenvolvimento de novos equipamentos quanto nos estudos de racionalização do trabalho doméstico” 272 Ainda segundo Luiz Maximo, a preocupação dos engenheiros e arquitetos era articular um novo tipo de moradia, que deveria “induzir a um novo tipo de comportamento social”.

Para compreender essas mudanças nos comportamentos, analisemos um conceito que está ligado a estas mudanças: o conforto. O significado da palavra nos permite os seguintes entendimentos: nova força, novo vigor, bem estar, comodidade e aconchego. O conforto de morar na cidade está ligado às formas aconchegantes de habitar determinado espaço ou não. No caso aqui, a casa. A casa foi um dos espaços importantes onde se constituíram mudanças nos hábitos e comportamentos através da leitura possível de seus aspectos mais técnicos e físicos. Essas transformações desembocaram no que nomeamos de mudanças de sensibilidades.

Quando se discute mudanças nas sensibilidades, de forma genérica se lida com livros de educação, com os manuais de bom comportamento, mas não se tem levado em conta que essas intervenções também estiveram no lado mais prático, mais técnico, mais estruturante.

269 BEGUIN, François. As maquinarias inglesas do conforto. In: Espaço e Debates. São Paulo, Ano 11, nº 34, p. 42, 1991.

270 Idem, ibidem. p. 48. 271 Idem, ibidem.

272SILVA, João Luiz Maximo da. Cozinha Modelo: o impacto do gás e da eletricidade na Casa Paulistana. São Paulo: Edusp, 2008. p. 96.

Mas também elaborar-se uma residência ou prédio comercial, nas plantas-baixas essas mudanças puderam ser inseridas tanto nas representações da fachada como no seu aspecto interno, a estrutura; a concepção interna dos imóveis nos permitiu uma leitura do cotidiano ou da topografia dos costumes. Permitiu-nos inclusive traçar o perfil social a quem pertencia tal desenho ou planta baixa.

Abaixo, temos dois exemplos extremos de plantas que nos possibilitam pensar essa relação com as sensibilidades:

Imagem nº 22: Requerimento de construção de casa de taipa com fachada e primeira sala em tijolos

em 24/05/1938 em nome de Joanna Batista dos Santos; Acervo: APPMCG, ano 1938.

Esse esboço apresenta o desenho pertencente a uma pessoa com baixo poder aquisitivo. É desenhada de forma rústica, sem as técnicas que fundamentam uma planta-baixa. Em papel comum indica-se a sala, quarto, corredor e mais uma sala, mais uma vez

provavelmente a cozinha e o banheiro se localizavam fora da construção principal. Aparece a escala de 1/100 e foi mantida a legenda que apontava para a construção de taipa e tijolo. Era provável que a frente fosse de alvenaria e o resto da construção de taipa. Nesse exemplo específico (mas existem muitos mais), não se pode trabalhar com a noção de conforto dando ênfase a grandes espaços. Analisando a inserção das mudanças de sensibilidades notou-se que o mais importante era a habitação, era o morar. Para esse extrato social já se constituía um privilégio possuir onde morar.

O diálogo com a historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna, que refletiu sobre a história do conforto na cidade de São Paulo nos anos de 1950, foi importante para se pensar a dimensão do conforto e do desconforto. Para a autora, o conceito de conforto tanto pode ser observado nas classes mais abastadas como nas solicitações populares de “salubridade urbana e bem-estar”. Ao estudar a noção de conforto ela pôde perceber que o mesmo adquiriu ao longo do tempo significados e funções que puderam revelar uma dimensão muito prática da vida citadina. E “a história do conforto é também, aquela da produção e do consumo de produtos capazes de suscitar sentimentos por vezes inusitados (...) ganha corpo uma sensibilidade avessa a odores outrora considerados naturais dentro das moradias e nos seus quintais”.273

Um estudo sobre a história do conforto pode trazer à tona a categoria da mudança que ocorreram “nas maneiras de morar, de conceber o espaço urbano e, também relacionar-se com os objetos técnicos...”274 A autora recrudesce aos anos de 1870 na cidade de São Paulo para perceber como a inserção da higiene do corpo, da casa, dos locais públicos e privados passaram a ser sinônimos de conforto. Na sua pesquisa localizou em anúncios publicitários que a palavra conforto estava ligada a ideia e qualidades de “ser limpo” e “honesto”, enquanto nas casas abastadas, conforto significava “possuir o gás de rua ou gás acetileno para iluminação, poços com bombas nos quintais, chaminés para a cozinha, revestimento de azulejos para as paredes, a privada inglesa com sifão...”.275 Portanto, a ideia de conforto assumia significados vários dependendo da classe social a qual se estivesse fazendo uma leitura.

Constatamos que esse conforto favoreceu a emergência de outras sensibilidades em relação aos cheiros, ao dormir, ao alimentar-se, ao banhar-se, pois segundo Sant’anna:

273 SANT’ANNA, Denise Bernuzzi de. História do Conforto na Cidade de São Paulo. In: Anos 90. Porto Alegre. n. 14, Dez/2000. p. 162.

274 Idem,. ibidem. 275 Idem, p. 163.

(...) com o comércio de banheiras, duchas, bidês, torneiras e com a massificação do sifão, por exemplo, ganha corpo uma sensibilidade avessa a odores outrora considerados naturais dentro das moradias e nos seus quintais. 276

A invenção desses novos objetos permitiu a emergência de outra lógica de comportamentos perante atividades já tão incorporadas no cotidiano das pessoas. Essa economia do cotidiano permitiu-nos pensar nessas outras sensibilidades. Portanto, banheiras, sifões, água encanada, vasos sanitários, descargas, pisos azulejados, azulejos nas paredes, pias, caixas de gordura permitiram que outros comportamentos surgissem mediante os novos preceitos de higiene que na prática tomavam forma quando da elaboração dos imóveis nas cidades.

Em Campina Grande, no ano de 1939, segundo Câmara, foi “iniciado o serviço d’água e esgotos da cidade, com sete chafarizes e cerca de trinta instalações sanitárias em domicílios”.277 No arquivo público da prefeitura localizamos estas instalações. Essas plantas baixas de instalação hidráulica contém uma riqueza de detalhes técnicos que permitem confeccionar uma leitura em direção à emergência dessas novas sensibilidades a partir de um aparato técnico. A ideia foi pensar de forma prática como essas sensibilidades emergiram no campo da vida privada, no íntimo, através das resignificações dos comportamentos no cotidiano e da resignificação de determinados espaços na cidade. Portanto, os projetos de encanamentos e esgotamento sanitários nos permitiram caminhar nessa direção. A foto abaixo mostra as instalações de encanamento de água na planta-baixa do imóvel:

276 Idem, p. 162.

Imagem nº 23: Planta-baixa com projeto de instalação hidráulica para o senhor Alberto Santos,

Imagem nº 24: Mesmo documento da imagem nº 23 em perspectiva aproximada.

Acervo: APPMCG.

As plantas-baixas de projetos hidráulicos permitem que visualizemos os materiais utilizados nas instalações. Em geral, apenas os cômodos que receberão as instalações de encanamento de água são representados na planta com mais destaque. No caso desse exemplo: pia, caixa de gordura, lavatório com sifão, pia com ventilação são indicados no desenho. Esse aparato técnico em espaços como a cozinha e banheiro transformaram os comportamentos das pessoas, pois a presença da água encanada, de caixas de gorduras que mudaram as relações históricas que se estabeleceram com a forma de sentir odores que emanavam das águas servidas em cozinhas e banheiros e de se ter água na cozinha em depósitos e que depois passou a ser encanada.

Os projetos eram acompanhados por um pedido de licença encaminhado a Prefeitura Municipal a figura do senhor Prefeito. A solicitação era conduzida com o projeto de planta- baixa, o pedido de saneamento do imóvel e a localização do imóvel. O imóvel referido acima, pertencente ao Sr. Azarias Marcelino, há duas datas prováveis: 4-4-1939 e outra de depósito

de cópia na prefeitura 4-5-939. Na imagem aparece o laudo de aprovação do projeto para o mesmo ser realização sem alterações.

Segundo Edmundo Rodrigues278, o projeto arquitetônico tanto contempla o aspecto “primordial” de concepção como também é por meio dele que se obtém junto aos órgãos municipais a licença de construção da obra. Nesse projeto tem-se a planta baixa do imóvel a ser construído que é o desenho que fornece o maior número de informações sobre a edificação a ser construída e os cortes A-B, cortes transversal e longitudinal da edificação. Nos projetos encontrados no arquivo da prefeitura de Campina Grande que se referem às instalações hidráulicas e sanitárias têm-se os cortes A-B. Nelas é possível observar a presença de materiais como: sifão e sifão auto-ventilado, vasos sanitários, descargas, presença de azulejos nas paredes dos banheiros e no piso279.

Os sifões presentes tanto nas pias da cozinha como nas pias de banheiro ou mesmo nas banheiras permitiam o encanamento conduzir as águas servidas de um pavimento mais alto para um mais baixo, ou seja, de forma muito prática eles encaminhavam as águas utilizadas tanto da cozinha quanto do banheiro para a rede de esgoto. As relações de sensibilidade mudaram por que se deixou de ter um comportamento para introjeção de outro, ou seja, ao invés de se armazenar as águas na cozinha e no banheiro, elas passara a serem oferecidas via torneiras, descargas e ‘chuveiros’. No momento de se desfazer das águas servidas os equipamentos utilizados: pias com sifões e caixas de gorduras ligadas aos encanamentos que conduziriam as águas servidas para o esgotamento sanitário da cidade.

À medida que os imóveis foram sendo equipados com essa parafernália de aparelhos outros comportamentos foram surgindo mediante os odores. Emergiu junto a essa parafernália técnica uma nova economia de tempo e de intimidade, já que, não se gastava mais tempo em buscar água ou pagar para ser pega. Constituiu-se uma nova dinâmica que surgiu na cozinha e nos banheiros advindas de uma crescente industrialização e crescimento técnico.

Segundo Reis Filho, dos anos de 1940 a 1960, o Brasil passará por uma intensa atividade de industrialização e consequentemente de urbanização. Desta forma, a arquitetura moderna procurará se alinhar com os recursos oferecidos pelo sistema industrial que despontava. Segundo o autor280, ocorrerá um vertiginoso avanço técnico e econômico, acompanhado de profundas mudanças sociais. Os problemas de implantação da arquitetura

278RODRIGUES, Edmundo. Técnicas de Construções. In:

http://www.ufrrj.br/institutos/it/dau/profs/edmundo/Cap%EDtulo1b-Planejamento.pdf . p. 9- 17.

279 APPMCG – Viação e Obras – Licenças de construção e reformas para as ruas e nome. Ano: 1939. Caixas nº 16 e 17. Planta-baixa em nome de Zacarias Marcelino, imóvel situado a Rua Bento Viana nº 57.

280 O marco dessas mudanças seria o projeto do edifício – sede do Ministério da Educação, situado no Rio de Janeiro.

urbana seriam enfrentados pelos arquitetos com elevado grau de consciência e responsabilidade. Destaca-se, desse período, a incorporação de aspectos nacionais, ou seja, “empregavam-se agora plantas nacionais, reconstituíam-se aspectos da própria natureza do País.”281

De forma mais técnica e pontual, não se trata apenas do uso do concreto nas construções, mas da substituição dos materiais importados por materiais fabricados pela indústria brasileira e todas essas mudanças se refletiram na arquitetura e nos materiais utilizados na indústria de construção civil:

Janelas, portas, luminárias, ferragens, louças sanitárias ou elementos de decoração como cortinas e móveis, tapetes e objetos de adorno, seriam aos poucos influenciados por uma renovação geral do gosto, cujas origens podem ser encontradas no movimento de arquitetura contemporânea e cujos efeitos alcançariam até mesmo os objetos de utilidade doméstica mais eminentemente influenciados pelas tradições, como talheres, louças e, de certo modo, o vestuário.282

Ainda segundo Reis Filho, as alterações espaciais daquele momento refletiam tanto a democratização da vida quanto a organização do espaço que se modificavam e tratavam de valorizar a vida familiar “como uma unidade”. Nesse sentido, o autor mostrou que salas, dormitórios, banheiros, vestiários, passagens ou escadas sofreriam o que nomeia como um reexame que “os livraria do desprestígio anterior”, ou seja, esses espaços ganhariam atenção na construção do espaço destinado ao vivido. Ainda mostra que as tarefas domésticas realizadas manualmente seriam superadas pela crescente industrialização do país com o fornecimento de “equipamento mecânico de uso domiciliar e iria encontrar nas proporções de nossa arquitetura contemporânea, as fórmulas mais adequadas à reorganização da vida nas residências, com menores recursos de mão de obra.”283

As principais concepções arquiteturais do período consistiam em substituir as imensidades de divisórias nas casas por algo mais enxuto ou por uma unidade básica, algo que