2 ESBOÇANDO A MODERNIDADE
2.2 O Mar, Sensível Diferença!
No início do século XX, em Florianópolis, a primeira estação balneária conhecida era a Praia de Fora, onde atualmente acha-se a Avenida Beira Mar Norte ou Avenida Rubens de Arruda Ramos. Os “capitalistas” que tinham casas naquele sítio, como mostra o jornal O Estado, em 191197, eram: “Schutel, Vilela, Alves de Brito, Trompowsky, Pamplona, Vinhas e Hoepcke”. Todavia, não se tratavam propriamente de casas de praia, eram moradias que sinalizavam uma diferenciação social, uma vez que, nas imediações do centro da cidade, como na Praça XV e no cais do porto Rita Maria, as águas eram insalubres, além de serem moradia dos populares.
Estudos de higienistas98 dão conta de que os habitantes da Ilha de Santa Catarina, na época dos primeiros anos do século XX, possuíam práticas consideradas atualmente insalubres em relação ao mar. Os moradores jogavam dejetos humanos nas águas, de acordo com um “código de postura” que indicava o horário adequado para que tais procedimentos fossem levados a cabo pelas famílias. Por muito tempo, as casas foram construídas com os fundos voltados para a praia e aí se despejava toda a sorte de detritos. O mar atrás de casa era
97 Jornal O Estado, Florianópolis, setembro 1911, p. 86.
98 A atual historiografia compreende a implantação do Regime Republicano como um projeto modernizador para
a sociedade brasileira enquanto reestruturação social que aglutinaria uma nova postura dos citadinos em relação à cidade. A implantação do sistema republicano, para os idealizadores do projeto, implicaria a ruptura com o antigo sistema imperial, levando em conta novos hábitos e valores. Sobre esse tipo de abordagem em Florianópolis, pode-se consultar especificamente.
FERREIRA, SÉRGIO L. O banho de mar na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Editora das Águas, 1998. ARAÚJO, Hermetes R. de. A Invenção do Litoral: reformas urbanas e reajustamento social em Florianópolis na Primeira República. 1989. Dissertação (Mestrado em História) - PUC, São Paulo, 1989.
usualmente ocupado como um local particular das famílias. Tanto que, ainda no fim do século XIX, precisamente em 1889, o Dr. Remédios Monteiro, um amigo do escritor Virgílio Várzea, lhe enviou uma carta, onde dizia o seguinte:
Se as casas da Praia de Fora, na sua parte litoral, tivessem todas a frente para o mar e não os fundos, maculando assim o padrão moderno das atuais construções do bairro – o panorama dessa praia recordaria o famoso golfo de Nápoles na Itália meridional.99
A percepção do médico viajante sugere que Florianópolis ainda não havia mergulhado na modernidade percebida em outros centros urbanos, especialmente da Europa Ocidental. De fato, a população de Florianópolis não havia despertado para o uso do mar de maneira diferente do que se apresentava até a virada do século XIX para o século XX. Como demonstrou o historiador Sergio Luiz Ferreira, outrora, o banho de mar em Florianópolis constituía, muitas vezes, uma prática condenável:
No século XIX, quando Florianópolis ainda se chamava Desterro, o mar não era lugar de banhos. Pelo contrário, tal prática provocava escândalos [...] No dia onze [...] em alto dia foram lavar-se na Praia de Fora, quatro pessoas [...] o inspetor de quarteirão os fez ver que o Art. 86 do Código de Posturas Municipais lhes proibia semelhante abuso.100
As casas construídas na Praia de Fora, como se pode ver, continham certa distinção social em relação às demais partes da cidade. Eram posicionadas de maneira que o mar tivesse uma função diferente da atualidade. Havia os piqueniques que ocorriam desde o início do século XX, como atesta o jornal Terra Livre, de 1919: “um piquenique de rapazes e moças em Canasvieiras [...] hão de ter grande alegria de conhecerem um magnífico trecho dessa ilha101”, o que não implica admitir que esses jovens estavam em trajes de banho a nadar no mar,
99 VÁRZEA, Virgílio. Santa Catarina – A Ilha. Florianópolis: IOESC, 1994, p.39.
100 FERREIRA, Sérgio L. O banho de mar na Ilha de Santa Catarina. Florianópolis: Editora das Águas, 1998,
p.25.
envolvidos pelas águas cálidas daquele trecho privilegiado. As populações litorâneas no Brasil levaram um bom tempo para adquirir o hábito de freqüentar a praia com outra finalidade, se não apenas os afazeres relacionados ao trabalho.
O mergulho no mar, o ato de ser engolido pela água é observado pelo historiador francês Alain Corbin102 como sendo uma prática recomendada por médicos Europeus no fim do século XVII e início do século XVIII, quando a melancolia, doença típica de alterações do comportamento, afetava a alta sociedade da época. O freqüentar a praia para o banho de mar, ou seja, entrar de corpo e alma na água mostrou ser uma pratica inventada103em determinado momento da história da ascensão da burguesia moderna. O autor destaca que o ciceronismo presente na corte de Luís XVII, de certo modo, sobrepujou a melancolia na França. Isto é, os hábitos das festividades, nas classes sociais abastadas, teriam efeito amenizador da solidão e das tensões percebidas pela elite. Contudo, na Inglaterra, a melancolia disseminou-se muito mais entre os aristocratas. Nesse sentido, o banho de mar que até então era considerado, na Europa, “distração imoral própria do povo sem educação104", passou a conter recomendação médica.
Segundo os estudos de Corbin, um dos únicos historiadores a debruçar suas pesquisas tendo por foco a praia como fenômeno social, o mar passou a representar uma “válvula de escape”. O ato de se deixar envolver pelas águas do mar, a imersão do corpo através do mergulho nas águas oceânicas seriam as soluções para a superação da melancolia. Baseando-se em relatos médicos da época, o autor constrói sua narrativa considerando que esta nova forma de lazer recomendada por médicos para aliviar as tensões e apatias típicas dos citadinos “desgostosos da cidade tornada pegajosa”105 poderia simbolizar a cura definitiva para a melancolia e outras doenças da época, pois consideravam enfraquecidos os homens
102 CORBIN, Alain. O território do vazio: a praia e o imaginário ocidental. São Paulo: Cia das Letras, 1989. 103 Ibidem, p. 385.
104 Ibidem, p. 71. 105 Ibidem, p. 72.
moradores das cidades invariavelmente presos a seus cômodos afazeres urbanos e em desarmonia com a natureza. A recomendação médica não se prestava apenas aos melancólicos, mas aos demais habitantes das cidades recomendava-se que o mar possibilitaria: “a cura [para as] crianças raquíticas, devolver cor para as jovens, esperança às mulheres estéreis, regularização do ciclo menstrual, e por fim, única medicação eficaz no caso de neuroses”106.
No período medieval europeu, quando a teologia cristã predominava a mentalidade da época, o mar provocava medo porque representava o desconhecido. Contudo, durante o Antigo Regime, “as redes de sociabilidades e o ritual de hospitalidade que se manifestam no seio da elite culta e viajante [possibilitou] descobrirem-se a si mesmo na Europa das Luzes”107. Isto é, o ócio para meditação, comum à filosofia antiga, anterior ao cristianismo, veio em substituição ao ócio “anunciador da modernidade laboriosa do fim de semana108”, no dizer de Corbin. Assim, o Renascimento italiano teria sido decisivo para o ressurgimento e afirmação do lazer à beira-mar no mundo ocidental. Foram os filósofos do Renascimento que, inspirando-se em fontes clássicas, desenvolveram uma nova maneira de estar à beira-mar para a contemplação. Seguindo as reflexões de Corbin, na Grécia e Roma, muito especialmente em Roma, onde teriam se multiplicado as estações balneares durante o Império Romano do Ocidente, privilegiava-se a meditação à beira-mar e o relaxamento nas águas.
No transcorrer do século XIX, não se percebeu significativa alteração nas prescrições médicas em relação ao mar e aos usos da praia. Para Corbin, parece ter se firmado entre os médicos a utilidade terapêutica do mar, levando, inclusive, a ser criada a moda de praia. A partir de então, os médicos da época passaram a recomendar banhos de mar e temporada à beira-mar para aliviar angústias comuns observadas nas pessoas. Para tanto,
106 Ibidem, p.75. 107 Ibidem, p. 268. 108 Ibidem, p. 269.
“espera-se do mar que acalme as ansiedades das elites [...] mantendo a privacidade”109. É justamente nessa época que surgem as recomendações a respeito das moderações, ou seja, mesmo que aos citadinos fosse recomendada constante visita à praia com o objetivo de “dissolver” as angústias crescentes e ansiedades resultantes da vivência urbana, essa prescrição deveria ser tomada com moderação para que as pessoas não se expusessem demasiadamente ao sol. Assim, a atitude moderada em relação à praia levou a uma “regularização dos usos do mar”, no dizer do autor. Isto é, não se vai à praia para expor-se ao sol demasiado forte ou deitar-se na areia, mas sim para pequenos passeios à beira-mar, sem se expor demais. As recomendações médicas aliadas ao código de posturas em relação à praia fizeram surgir a moda típica de praia que, em grande medida, lembrava as roupas para ginástica.
A partir de pesquisas realizadas nos principais jornais em circulação nos primeiros anos do século XX, na cidade de Florianópolis, não se percebe a incidência de grupos de pessoas ou famílias freqüentadoras da praia, muito menos banhistas. As notícias específicas a respeito do litoral de Florianópolis, não deixando de lembrar que a atual área urbana da cidade significava, na época, as zonas de praia, resumem-se a notas de inaugurações, acidentes ou aglomerações festivas. Apenas em 30 de dezembro de 1940110 uma fatalidade mereceu nota no jornal O Estado. Consta que um certo funcionário de uma pensão existente na Rua Esteves Junior morreu afogado. Segundo a nota, com o intenso calor daquele dia de verão, o rapaz foi tomar banho de mar, atirando-se do trapiche que havia naquela redondeza. Não se sabe ao certo, mas suspeita-se de que não se tratava de um exímio nadador ou, sentindo-se mal, não conseguiu vencer as ondas. O fato é que nada se pode fazer para salvar a vida do banhista. Além desta nota, nenhuma outra que faça referência ao banho de mar na cidade de tantas
109 Ibidem, p. 89.
praias foi encontrada. O nadar no mar, rendendo-se a ele, não constava como uma prática tipicamente anunciadora de uma nova postura em relação à praia.
Consultando os antigos moradores de Canasvieiras a respeito da nova modalidade de diversão, o lazer à beira-mar, eles relembram que tal postura surgiu a partir de 1960, e alguns destacaram o estranhamento inicial diante dos adeptos do mar. Ao se referir aos primeiros banhistas, a senhora Maria Joana Alves comentou: “fico tola, fico tola, fico tola.” O senhor Júlio Pereira falou que “achava bonito aquilo, achava até graça”; e o senhor Carlos Mateus da Silva lembrou: “estranhei, credo! A gente queria pescar, ia pra lá [praia] deixava pilhas de peixe [depois de um certo tempo] tinha pilhas de gente”. A senhora Olga Pereira111 acrescentou que:
[...] eles fizeram aqueles bares, uma pouca vergonha, é por isso que eu quis sair, ali eles não respeitavam mais ninguém. Era uma pouca vergonha na praia [...] da nossa casa dava pra colocar um caniço na janela e pescar, quem tava tomando banho de mar eu tava vendo.
Os banhistas freqüentadores da praia Canasvieiras realmente lançaram moda no local, pois se percebe que, a partir dos relatos dos moradores mais idosos, especialmente aqueles nascidos entre as décadas de 20 e 30, que o banho de mar constituía uma prática incomum. As narrativas apontam que somente a partir de 1960 é que passou a ser comum o aparecimento de pessoas freqüentadoras da praia em trajes específicos e que se lançavam ao mar, algo que outrora nunca tinham visto. Logo, as gerações mais jovens, nascidas na comunidade, por volta da década de 40 ou 50, passaram a freqüentar, ainda que aos poucos, o mar do mesmo modo que os turistas.
111 A senhora Olga Pereira nasceu em 1925, em Canasvieiras. É casada e teve quatro filhos. Sempre morou nas
Figura 10 - Moças na Praia de Canasvieiras em 1960
Fonte: Acervo particular da família Andrade.
Figura 11 – Moças e rapazes na Praia de Canasvieiras em 1960
Figura 12 - Banho de sol em 1960. Ao fundo a praia de Canasvieiras
Fonte: Acervo particular da família Andrade.