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O MARAM como um movimento socioterritorial

No documento RICARDO LUIS DE FREITAS Uberlândia - MG 2015 (páginas 183-190)

4 O MOVIMENTO DOS ATINGIDOS PELA REFORMA AGRÁRIA DE MERCADO MARAM E SUAS CONTRIBUIÇÕES AOS MUTUÁRIOS DO

4.1 O MARAM como um movimento socioterritorial

Os estudos sobre os movimentos sociais têm sido realizados por diferentes áreas das ciências humanas, especialmente aquelas ligadas à Sociologia e às Ciência Política. É fato que os sociólogos têm oferecido contribuições importantes para a compreensão

desses grupos sociais no que tange à transformação da realidade em que se encontram inseridos.

A geografia tem contado também com estudos que proporcionam leituras sobre o espaço geográfico e as construções que os movimentos imprimem no território. Para tanto, novas interpretações vêm sendo lançadas acerca do surgimento dos movimentos, bem como, análises que consideram os diferentes recortes temporais, a geografia da luta, ou seja, as ações empreendidas nos mais variados espaços e escalas.

Na Ciência Geográfica, estudos recentes partem da construção de dois conceitos: movimentos socioespaciais e movimentos socioterritoriais (Fernandes e Martin, 2004; Fernandes, 2005a; Pedon, 2009). Compreendendo que a geografia da organização dos movimentos socioterritoriais e suas estratégias de luta transformam a configuração do território, seja ele no espaço rural e/ou urbano.

Para entendermos esses conceitos, é fundamental termos claro que partimos do pressuposto de que a organização do movimento socioterritorial MARAM se dá a partir da construção do território. Este movimento socioterritorial exerce o poder mediante suas ações ante o que consideramos de elementos resultantes das contradições do desenvolvimento do capital. Pedon (2009) esclarece que

O movimento socioterritorial pode ser considerado como uma forma de organização da classe trabalhadora, tendo por base os grupos populares ou as camadas populares excluídas e subordinadas. [...] No campo, os trabalhadores rurais lutam pelo direito de acesso a terra, pela sua permanência e por melhores condições de seu uso, para, a partir dela, reproduzir as condições de sobrevivência. Na cidade, o objetivo é o acesso à moradia, lócus da dinâmica familiar, do descanso e da intimidade; não obstante, na cidade também se desenvolve a luta pelo espaço do trabalho, como é o caso das ocupações de fábricas. (PEDON, 2009, p. 183).

Estamos de acordo com Pedon (2009), ao relatar que o movimento socioterritorial é o resultado das condições de exclusão e subordinação em que estão mantidos determinados grupos sociais. Ao se organizarem para lutar por uma determinada causa, eles estão nesses embates para garantirem a existência do território e almejam, por meio de suas ações, obter melhores condições de utilização, para assim conseguirem manter- se nesses espaços de vida.

É importante retomarmos que o movimento socioterritorial MARAM surge em meio à fragilidade das associações de trabalhadores perante a resolução da dívida do financiamento da compra da terra e para a construção de infraestrutura. A exclusão a que foram submetidos foi o limite para que uma nova realidade pudesse ser criada.

O autor supracitado, em suas pesquisas ao fazer referência sobre os movimentos socioterritoriais rurais, analisa a estrutura organizativa do MST. É necessário sinalizarmos que há uma diferença considerável quanto às ações do MARAM. Este movimento não luta para o acesso à terra, pelo contrário, suas ações estão direcionadas à construção de condições para se ter melhoria nos territórios em que os camponeses já estão inseridos. Enquanto o MST luta para ter o acesso à terra por meio das ocupações, visando à alteração na estrutura fundiária e garantindo, assim, sua territorialização. O MARAM, por sua vez, surge como resultado da territorialização do capital, pelo qual os camponeses foram inseridos nesses territórios de modo precário (HAESBAERT, 2003), por meio do projeto BT.

Remetemo-nos a ideia do que Haesbaert (2003) denominou de territorialização precária e de como as diversas dimensões que compõem o território cultural, político e econômico, influenciam no desenvolvimento do território. É na dimensão econômica que recai a fragilidade dos territórios criados pelo projeto BT. As mais diversas limitações encontradas nesses empreendimentos perpassam pelas restrições econômicas, sejam elas relacionadas aos poucos recursos destinados à produção, o pagamento da dívida crescente, a necessidade de trabalhar fora do empreendimento para manter o sustento das famílias e as dificuldades na produção e trabalho coletivos e o abandono dessa política pública pelo Estado.

Essas situações fazem parte dos diferentes territórios do BT, no entanto os camponeses buscam meios alternativos para que possam manter, mesmo mostrar que em bases precárias, a sua vontade de permanecer como um sujeito ativo na produção do território. Como demonstrado, a maneira problemática em que os mutuários do BT foram territorializados se reflete como um dos elementos do surgimento desse movimento socioterritorial. Para Fernandes (2005),

Todos os movimentos produzem algum tipo de espaço, mas nem todos os movimentos têm o território como trunfo. Existem movimentos socioespaciais e movimentos socioterritoriais no campo, na cidade e na floresta. Para evitar mal-entendidos com relação a nosso pensamento, enfatizamos que movimento social e movimento socioterritorial são um mesmo sujeito coletivo ou grupo social que se organiza para desenvolver uma determinada ação em defesa de seus interesses, em possíveis enfrentamentos e conflitos, com objetivo de transformação da realidade. Portanto, não existem “um e outro”. Existem movimentos sociais desde uma perspectiva sociológica e movimentos socioterritoriais ou movimentos socioespaciais desde uma perspectiva geográfica. (FERNANDES, 2005, p. 31).

As disputas em que os movimentos socioterritoriais estão inseridos, nas diferentes escalas, é o que torna legítima a existência de um movimento. Embora possa ter sua origem em uma base local/regional, suas ações terão influência nas diferentes escalas territoriais desde o município, ao estado da federação, o país, e, até mesmo ter, repercussão internacional.

É imprescindível observarmos que, geralmente, os movimentos socioterritoriais buscam se contrapor a determinada ordem vigente, considerando que a própria articulação do movimento por nós estudado, o MARAM, se deu em um momento de crise em vários empreendimentos do BT e que os camponeses não se sujeitaram a ficar a mercê das situações de dificuldades.

É precisamente essa invisibilidade do Estado em relação às demandas que são apresentadas, é que este grupo, ao partir para o embate, tenciona a transformação desses territórios. Ou seja, são os próprios sujeitos sociais que protagonizam ações de revitalização dessas áreas. Compreendemos que o movimento socioterritorial não almeja apenas exercer o domínio sobre essas áreas, eles partem para o enfrentamento pretendendo a conquista de melhorias sociais, tais como produção e comercialização de alimentos para a geração de renda, defendem a permanecia nessas áreas como espaço de vida, demandam por instrumentos que possam viabilizar o pagamento da dívida da terra e a intensa busca por aparelhos sociais, como escolas e serviços básicos de saúde. Afirmamos, seguramente, que isso só será possível por meio do embate realizado pelo MARAM, enfrentando a burocracia estatal e a falta de interesse do Estado em querer resolver esses descompassos.

As diferentes escalas de disputas são as bases para a territorialização do movimento, uma vez que as demandas advindas do território em nível local são, essencialmente, oriundas de carências elementares. É na escala local que são observadas com mais detalhes as contradições presentes nesse processo. Para Gohn (2012),

[...] não bastam ter carências para haver um movimento. Elas têm de se traduzir em demandas, que por sua vez poderão se transformar em reivindicações, por meio de uma ação coletiva. O conjunto deste processo é parte constitutiva de formação de um movimento social. (GOHN, 2012, p. 250).

A territorialização precária em que os camponeses estão inseridos não se restringe apenas à fragilidade ou à inexistência de equipamentos sociais, embora isso seja um elemento importante e que contribui para acentuar o problema. As falhas existentes no projeto, tais como a falta de assistência técnica, a ausência de uma entidade do Estado,

que possa se responsabilizar por essa política pública, tornam precário esse território. Acrescentamos, também, que a precariedade se insere na ausência de autonomia que os sujeitos encontram para a construção desses territórios.

A articulação das associações foi construída com base nos interesses dos grupos dominantes localmente, sendo necessária sua criação apenas para uma etapa do processo de desenvolvimento do projeto. Esses camponeses não tinham uma formação política no que se refere, a dimensão do projeto BT. Reconhecemos isso, pois o marketing (elemento do embate no território imaterial) desenvolvido por parte do governo federal e os arranjos que estavam sendo organizados, ao mesmo tempo, em escala local, permitiram que centenas de camponeses se introduzissem no projeto. Estamos de acordo com Fernandes (2005), ao afirmar que

O território é uma fração do espaço geográfico e ou de outros espaços materiais ou imateriais. [...] A partir desse princípio, é essencial enfatizar que o território imaterial é também um espaço político, abstrato. Sua configuração como território refere-se às dimensões de poder e controle social que lhes são inerentes. (FERNANDES, 2005, p. 27).

Isto posto, compreende-se que, ao mesmo tempo em que a disputa se dava no campo do confronto de posições antagônicas à efetivação do BT, a trama que o poder político exercia na escala local era o que fortalecia o poder desse grupo com a intencionalidade de implantar o BT.

Por conseguinte, os grupos interessados em inserir o BT nas diferentes regiões e estados do país utilizaram-se de uma narrativa persuasiva para, assim, descontruir a reforma agrária, ou seja, a concorrência dos grupos dominantes localmente utilizando a imaterialidade do discurso como instrumento de enfrentamento contra os camponeses organizados em movimentos socioterritoriais. As propagandas feitas pelo governo federal recorreram a informações descontextualizadas, mas fascinante o bastante para criar uma atmosfera em que surgiria uma nova fase para agricultura camponesa por meio desse novo programa.

Ao mesmo tempo em que o Estado e os seus diversos agentes atuaram na escala local para a efetivação desse novo programa de acesso à terra por meio do financiamento, os camponeses, a partir do momento em que começaram a ter conhecimento sobre as reais condições do projeto BT, foram em busca de ajuda e apoio para que pudessem sair da condição de dificuldades e conflitos vividos por aqueles que ali estavam.

A ação de empreender esforços na tentativa de encontrar soluções para os problemas que estavam enfrentando é que podemos identificar como a gênese do MARAM. Começa-se, assim, a construção dos espaços e territórios em que os sujeitos tomam para si a responsabilidade de alterar a conjuntura. Para Fernandes (2005),

Portanto, a partir do momento que nos propomos a realizar uma análise geográfica dos movimentos, além da preocupação com as formas, ações e relações, é fundamental compreender os espaços e territórios produzidos ou construídos pelos movimentos. Esses espaços são materializações, se concretizam na realidade, em lugares diversos, espaços múltiplos, e é possível mapeá-los de diferentes modos, contribuindo com leituras geográficas. Neste sentido, todos os movimentos são socioespaciais, inclusive os socioterritoriais, pois o território é construído a partir do espaço (Lefebvre, 1991). Os movimentos socioterritoriais para atingirem seus objetivos constroem espaços políticos, espacializam-se e promovem espacialidades. (FERNANDES, 2005, p. 30 – 31, grifo nosso).

Para que todo esse conjunto de ações possa ser realizado, é necessário que o movimento socioterritorial possa ter clareza daquilo que consideramos como demandas, que, posteriormente, se transformam em uma pauta de reinvindicações materializando-se as intenções e os desejos daqueles que fazem parte dessa organização. Ponderamos que o MARAM, ao iniciar suas primeiras reuniões, conforme relatam suas lideranças, deixa claro, para todos os mutuários do BT, que a questão central a ser debatida se concentra, especialmente, nas dificuldades enfrentadas para o pagamento da dívida. Este é o tema sob o qual se principia a organização do movimento.

Aproximamos da leitura de que o MARAM possa ser interpretado como um movimento socioterritorial, sendo a dívida a questão central de conflitos nos territórios. A partir desse pressuposto, inúmeras ações são desencadeadas, culminando na criação desse grupo social como um movimento.

Outras reinvindicações, mediante a realização de encontros sucessivos, seriam incluídas na agenda de ações. E todos os outros elementos que compunham o movimento voltados à conquista do progresso do território. É possível perceber que a diferença desse movimento socioterritorial reside nesse ponto, pois, enquanto os movimentos sociais rurais, em sua maioria, concentram suas ações na conquista de novos territórios por meio das ocupações de terra, os camponeses ligados ao MARAM, ao contrário, já estão no território, mesmo que de modo precário, almejando o seu desenvolvimento.

Ao nos referirmos que a territorialização dos camponeses mutuários do BT fora inseridos de modo precário, estamos nos baseando na premissa de que a sua situação, até os dias atuais, permanece de modo instável, uma vez que não são donos da terra, os

serviços de assistência técnica são insuficientes ou inexistentes, e os camponeses têm dificuldades para compreenderem as normas burocráticas do projeto. Enfim, são situações que deixam esses territórios indefinidos perante o controle dos mutuários.

A luta deste movimento é para que os mutuários do BT, na região do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, possam conquistar a soberania sobre o território abandonado pelo Estado. O esforço do movimento é o de tentar romper com os limites impostos pela burocracia estatal, assim como levar ao surgimento de uma nova realidade. Conforme Pedon (2009),

Os movimentos socioterritoriais são organizações que surgem em momentos de inquietação social. Dado o caráter excludente da sociedade capitalista, sempre há aqueles que se recusarão a ficar pacatos diante da própria situação, daí a natureza social da conflitualidade. As ações ensejadas pelos movimentos representam um momento do conflito social pertinente à sociedade atual. (PEDON, 2009, p. 191).

A conflitualidade presente no momento do surgimento do MARAM, como apresentado, está sobre a estrutura do projeto em que se impossibilitava o pagamento da dívida, bem como a permanência dos camponeses no empreendimento, para que pudessem retirar o sustento da família. O descompromisso do Estado em atender as demandas dos camponeses mutuários do BT culminou na crise no interior de cada unidade do projeto.

É no processo de identificação de um determinado, ou de determinados conjuntos de problemas antagônicos, que os sujeitos no movimento de fazer histórico buscam a construção de possibilidades e condições materiais para a superação daqueles e a transformação de suas realidades. (RAMOS FILHO, 2013, p. 98).

A formação desse e de qualquer outro movimento se dá a partir do momento em que se tornam evidentes os diferentes problemas que precisam ser enfrentados, e essa organização estimula o processo de ação. No caso do MARAM, o incentivo e o direcionamento da luta por eles empreendida, se deu a partir das reuniões e encontros realizados pelas entidades ligadas ao desenvolvimento do projeto na região, tais como, as prefeituras, EMATER – MG, AMVAP, no entanto, nesse primeiro momento, não tiveram êxito.

4.2 O contexto de criação do MARAM e a formação das Associações do Banco da

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