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Capítulo 3 A crítica ao discurso da flexibilização

3.2. O “market clearing” e o “mercado de trabalho”

Como visto no capítulo 1, para os teóricos do mainstream e os economistas austríacos, o mercado de trabalho assumiria um papel central na definição não só do próprio nível de empregos da economia, mas também responsável pelo bom funcionamento da economia. Esse mercado teria não só uma autonomia em relação aos outros, mas o poder de determinar a

atividade econômica, o nível de emprego etc. Porém, para Keynes (1988), existe uma hierarquia dos mercados na determinação de emprego e renda, e essa seria a decisão de investimentos por parte dos capitalistas que determinaria o nível de emprego, e não a variável oferta de trabalho seria a independente: desconectar o problema do desemprego das variáveis macroeconômicas daria resultados parciais de uma análise e daria certo peso ao mercado de trabalho na determinação do emprego que o mesmo não tem70. Para esse autor não são as escolhas individuais que definem a natureza – voluntária ou involuntária – do desemprego, mas sim condições sistêmicas. Para Keynes (1988), o “problema” da rigidez dos salários ou direitos sociais poderiam, ao contrário, ajudar a aquecer a demanda através do consumo e assim a criar mais empregos. O “pleno emprego” poderia ser alcançado com o aquecimento econômico, se necessário com intervenção estatal, através das chamadas políticas de emprego, definidas no capítulo anterior, em oposição às “políticas de mercado de trabalho”, que atuariam na demanda agregada. O desemprego só seria um problema “grave” se representasse uma distância muito grande do “pleno emprego”, i.e., em um momento de depressão, que exigiria a intervenção do Estado para regular e salvar o mercado. E, para Marx, existe uma assimetria na relação trabalhador e capitalista, em que o capitalista pode escolher entre todo um exército de reserva e o trabalhador precisa vender sua força de trabalho, pois está separado dos meios de produção e precisa sobreviver. Deste modo, o trabalhador, para Marx, não estaria em condições de ditar os parâmetros para a contratação, mas teria que ajustar-se àquilo que lhe fosse oferecido. O exército de reserva seria utilizado para disciplinar a classe trabalhadora. Evidentemente, a intervenção do Estado, o aumento do poder de barganha dos trabalhadores ou a qualificação dos trabalhadores poderia alterar a balança de poder. Para Marx, o desemprego seria então algo intrínseco ao capitalismo, já que os trabalhadores estão separados dos meios de produção. Inclusive, o desemprego seria algo que ajudaria os capitalistas e a dinâmica do capital, por fornecer mão de obra barata e que aceite piores condições de trabalho, aumentando a valorização do capital. Marx então discordaria da “centralidade do mercado de trabalho” na definição do nível de emprego e da economia como um todo.

Baccaro e Rei (2007) mostram evidências empíricas de que não existe relação entre rigidez das leis do trabalho e desemprego, pois esses níveis dependem das políticas econômicas

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Para os pós-keynesianos, as decisões dos capitalistas no que se refere ao emprego não são tomadas com base no mercado de trabalho, pois o mesmo não tem em si nenhum poder de determinação do nível de emprego, apresentando-se assim a questão da hierarquia dos mercados (Ferreira, Levy e Fracalanza, 2009).

(como a taxa de juros e outras políticas monetárias) e das condições macroeconômicas do país, o que demonstra que a suposta supremacia das “políticas de mercado de trabalho” em detrimento das políticas de emprego é questionável. Os autores demonstram que, se o problema do desemprego fosse causado pelas instituições de proteção ao trabalho (como na Europa), elas teriam que ter se transformado radicalmente e inclusive ganhado força nas décadas de 80 e 90 para explicar o aumento do desemprego na Europa. Porém, o que podemos perceber não seria na verdade um contínuo abrandamento da regulação? E o caso de países com menos flexibilização que nos EUA e com taxas de desemprego mais baixas que o mesmo? Este é um ponto apresentado também por Keller e Seifert (2002, apud Kallabis, 2011): “As pesquisas comparativas mostram os resultados gerais fracos da desregulação do mercado de trabalho sobre a geração de empregos” (:91). Mas, a falta de efeitos sobre o emprego seria, muitas vezes, atribuída à baixa densidade das medidas de desregulação e à falta de sintonia entre elas, um argumento que tornaria impossível a refutação empírica dessas teses.

Aceitar uma diminuição dos salários, da proteção social ou das garantias dos trabalhadores pode ser benéfico para os mesmos ou representaria uma perda no plano político e social, com uma maior exploração e subsunção do trabalho aos interesses do capital? A quem serve, verdadeiramente, manter uma classe trabalhadora explorada, subjugada e sob a perspectiva de que não há perspectivas?

3.2.1.O

PAPEL DOS SALÁRIOS NO MARKET CLEARING

Os teóricos da flexibilização argumentarão que é necessária a flexibilização dos salários, impostos e benefícios sociais para que o mercado possa se ajustar. O ataque ao salário mínimo, aos salários de base e outros parâmetros seria fundamental para o ajuste macroeconômico. Porém, garantir certa estabilidade nos salários não pode ajudar a economia, mantendo a demanda agregada? Não é com os salários que se mantêm os lares dos trabalhadores? A variável salário não é a grande responsável pela renda familiar das classes trabalhadoras? A força de trabalho pode ser tratada como uma mercadoria qualquer ou está necessariamente atrelada a seu portador, o trabalhador? O trabalhador, como ser humano, não tem certos direitos?

Além disso, permitir a flexibilidade aumenta a heterogeneidade entre os trabalhadores e a dispersão salarial, sendo a última inclusive um dos objetivos da flexibilização. A questão que

se apresenta é que se a dispersão salarial – como apresentada no capítulo 1 - for muito grande, corre-se o risco de se apresentarem working poor, isto é, trabalhadores ativos que não recebem um salário digno para se sustentar. O salário é a garantia da sobrevivência do trabalhador e sua família, não podendo ser tratado como uma simples variável na maximização dos lucros. Sobre esse ponto e a mercantilização da força de trabalho, voltaremos a tratar mais adiante.

3.2.2.A

SOFISTICAÇÃO DO DISCURSO DA FLEXIBILIZAÇÃO

Os modelos novo-keynesianos, apresentados no capítulo 1, são uma sofisticação das teorias liberalizantes, mas mantêm as mesmas bases, dando resultados mais “sofisticados” porém essencialmente os mesmos: a aposta pesada continua sendo na desregulamentação dos salários, diminuição do poder dos sindicatos combativos, aumentar a flexibilização dos mercados. Isso pode ser visto pelas soluções dadas às problemáticas apresentadas no capítulo 1: i) para os problemas de salário-eficiência, poder-se-ia tercerizar a mão de obra ou aumentar a transparência na economia; ii) para os problemas de barganha salarial, diminuir o poder dos sindicatos combativos, permitir negociações mais descentralizadas, no nível da empresa, aumentando a pressão sobre os trabalhadores; iii) para o problema de contratos implícitos, permitir a baixa dos salários em momentos de crise para diminuir o desemprego. Logo, como vemos, os resultados acabam por fornecer os mesmos resultados e as mesmas forças sociais para favorecer o capitalista em detrimento do trabalhador.

Parte-se de uma premissa de que também as vagas existem, mas que os trabalhadores não tomam conhecimento. De forma semelhante, programas de requalificação dos desempregados ou de agências de emprego também assumem que existam vagas, porém o problema seria a falta de correlação entre as habilidades dos ofertantes e demandantes de trabalho. Em ambas situações, concebe-se o desemprego em seu conceito friccional (Ferreira, Levy e Fracalanza, 2009).

O termo desemprego involuntário, em sua nova roupagem, decorre, em grande medida, de problemas informacionais e concorrenciais do mercado de trabalho. Frente a estas circunstâncias, de forma alguma excepcionais, trabalhadores e demandantes da força de trabalho, agindo de forma auto-interessada e absolutamente racional acabam por provocar distorções no sistema de preços, o que explica o afastamento destes mercados das condições (e virtudes) do equilíbrio competitivo” (Ferreira, Levy e Fracalanza, 2009:73).

Dessa forma, a flexicurity poderia funcionar em espaços (países) específicos, com sistemas de proteção social específicos. Se generalizá-los para um espaço relativamente homogêneo e já dotado de certa estrutura de proteção social que é a Europa (considerando a variedade encontrada no mundo) gerou políticas “pró-mercado” (Kallabis, 2011), desestruturação da regulação social (Hyman, 2005) e dominância do capital financeiro, quais são as garantias reais que essa proposta pode trazer aos trabalhadores em termos de garantias sociais? Novamente, a “sofisticação” da teoria sob as mesmas bases gera o mesmo resultado na prática: o discurso da manutenção da coesão social é quase que somente utilizado para diminuir os efeitos do discurso da flexibilização.

A manutenção das bases científicas utilizadas não permite que tais teorias cheguem ao problema na raiz do sistema e que critiquem o sistema capitalista em si, conservando a vigência das categorias utilizadas por Marx na análise do mesmo.

3.3.

A

FLEXIBILIZAÇÃO COMO ESTRATÉGIA PARA AMPLIAR A EXTRAÇÃO DE MAIS

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