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CAPÍTULO 2 METODOLOGIA

2.2 O Museu Arqueológico da Região de Lagoa Santa

2.2.1 O MARLS na gestão do Parque Estadual do Sumidouro

No site do IEF73 são listados os seguintes atrativos do parque: gruta da Lapinha, circuito

Lapinha, Escalada, Casa Fernão Dias, Trilha do Sumidouro, Trilha da Travessia e o Museu

Peter Lund (inaugurado em 2012, bem próximo à gruta da Lapinha). O MARLS apesar de

inserido no contexto do parque não é citado como "atrativo" e tem ficado à margem das políticas de gestão do IEF.

Na realidade, a situação do museu não foi definida durante o processo de implantação do PESU e permanece ainda sem uma decisão final. O destino do imóvel pertencente à família Bányai, e do acervo − os artefatos arqueológicos pertencentes à União, cujo órgão responsável é o IPHAN −, não foram deliberados deixando uma lacuna que acabou gerando conflitos. No processo ficaram indeterminadas importantes questões tais como: o imóvel (Castelinho) seria desapropriado? Indenizado? Demolido? O acervo seria direcionado para qual Instituição? Qual a opinião da população local? Como ficaria a história construída a mais de quarenta anos entre o Castelinho e a comunidade? O Museu poderia ser tombado? Como adequar as mudanças à tradição local?

Uma das ações dentro da gestão do governo de Antonio Anastasia, para valorização do PESU, foi a construção do Museu Peter Lund em 2012. O local foi projetado para receber parte do acervo coletado por Lund e enviado na época à Dinamarca. Estima-se que 12 mil

peças despachadas pelo naturalista dinamarquês estejam hoje no Museu Real de Copenhague.

O Museu Peter Lund foi inaugurado em 21 de setembro de 2012 e sua construção tem cerca de 1.850 m². Fica a 100 metros da gruta da Lapinha, bem próximo ao MARLS. Dispõe de duas salas apresentando o Plano de Manejo do Parque, sala multiuso para projeção de

115 filmes, realização de palestras e workshops. No último piso ficam duas salas sendo que em uma delas está o acervo vindo do Museu de História Natural da Dinamarca − 80 artefatos fósseis −, cedidas em regime de comodato, pelo período inicial de três anos. A sala de exposição foi climatizada atendendo as exigências do governo dinamarquês (REVISTA VIRTUAL DE LAGOA SANTA, 2012)74.

Paralelamente à construção deste museu (FIG. 42) reformou-se também a praça em frente à gruta. Foram retirados os quiosques de uso público e as barraquinhas que vendiam artesanato e comidas típicas. Uma grade com um portão foi inserido para controle de entrada na gruta da Lapinha. (FIG. 43 e 44).

Figura 42 - Museu Peter Lund

a) O Projeto. Fonte: LAGOA SANTA, 2012

b) O Museu Peter Lund. Fonte: Arquivo pessoal, 2013

Figura 43- Praça Antes da reforma e depois da reforma. Fonte: Lagoa Santa ( 2013)

74 http://www.lagoasanta.com.br/gruta/receptivo_lapinha_pedra_fundamental05_09.htm. Acesso em 10 de

dezembro de 2015.

b) a)

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Figura 44 - Imagens aéreas do PESU, tomadas na visita técnica dos cursos de Geografia e Turismo da UFMG. Fonte:: Paolo Cassano (BH Drones) e acervo do Projeto Manuelzão (2016).75

Estas alterações não foram bem recebidas pela comunidade. As doceiras, os artesãos e a comunidade se sentiram excluídos do espaço. O espaço já era tradicional e muitas pessoas iam ao local apenas para fazer um lanche. Nas terras mineiras a tradição do bom café, bolos e rosquinhas é marcante. Um exemplo é o Café no Beco, que desde 2001, movimenta o centro histórico da cidade de Diamantina nos domingos pela manhã. O Beco da Tecla, local onde este evento se realiza, se tornou ponto de encontro da população, músicos, artesãos e turistas. Na simplicidade e no carisma mineiro, o café é servido em barraquinhas e as quitandeiras locais vendem seus petiscos. Todos os que lá passam vivenciam a tradição, e o evento se torna também fonte de renda para a comunidade diamantinense, sendo um modelo de ação de sustentabilidade, cultura e turismo.

Atualmente a lanchonete e a lojinha do Museu Peter Lund encontram-se fechados. Érica Bányai disponibilizou um espaço ao lado do MARLS para venda de salgados (FIG. 45). Instalou também na sua recepção um pequeno frigobar e expõe doces da região para venda aos visitantes. Certamente é necessário que a gestão do PESU invista mais neste setor, valorizando os costumes da região.

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Figura 45 - Localização das barraquinhas ao lado do MARLS. Fonte: arquivo pessoal, 2016.

A grade e o portão instalados eram inconvenientes também para os visitantes do MARLS. Apesar do portão não ficar trancado (permanecia apenas fechado), intimidava o livre acesso, gerando inclusive, dificuldades na venda de ingressos. Na foto (43) fica explícito a ambiguidade da situação − a placa de "Bem Vindos ao Museu da Lapinha" sobre a grade e o portão fechado ao lado −. Através de uma ação da Promotoria Pública de Lagoa Santa, o portão foi retirado em 2015 (FIG. 46). No processo consta:

Chegou ao conhecimento do Ministério Público de Minas Gerais que a Gruta da Lapinha padece de algumas irregularidades e ilegalidades, sendo elas: 1 - Venda casada de ingressos para visita á Gruta da Lapinha e ao Museu Peter Lund. 2 - Cobrança de ingresso no valor de R$ 10,00

(dez reais) para os interessados que desejarem usufruir da Praça da Gruta (colocação de grade no entorno). 3 - Cobrança para

visitação do Museu Peter Lund (LAGOA SANTA, 2015, grifo nosso). A grade bloqueia também a entrada de caminhões. Recentemente, o fornecimento de água do MARLS foi cortado devido a problemas da Copasa, e o Museu não conseguiu receber água do caminhão pipa da prefeitura de Lagoa Santa, pois este não conseguiu passar pelo vão livre existente. Este incidente aconteceu em abril de 2006.

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Figura 46 - Entrada atual, após retirada do portão. Fonte: arquivo pessoal (2016)

A preservação do MALRS foi resultado da intervenção do Ministério Público Federal, através da Procuradora da República Zani CajueiroTobias de Souza, que reconheceu o valor da instituição e apoiou a Associação dos Amigos do Museu Arqueológico da Região de Lagoa Santa (AMAR), promovendo o tombamento municipal do museu. Segundo a Procuradora a incerteza sobre o futuro do Museu perante os órgãos Estaduais e Federais competentes, motivou buscar na legislação municipal medidas de proteção.

A pressão antrópica no vetor norte acabou tirando do papel a regularização fundiária do Parque do Sumidouro. E qual não foi a nossa surpresa quando, após sinalizar com a celebração de um acordo entre IPHAN, IEF e MPF, através do qual a autarquia federal seria cessionária do espaço e manteria o museu, justamente por reconhecer o valor de seu acervo e de sua reserva técnica, o governo do estado mudou de posicionamento, indicando que o Museu da Lapinha não fará parte da

Rota Lund. Além disso, não esclareceu se iria mantê-lo, e o nosso receio

era de que o imóvel viesse a ser demolido, o acervo retirado, ou ambos (TOBIAS, 2013, grifo nosso).

A Rota Lund citada por Tobias (2013), é um projeto elaborado pelas secretarias do Meio

Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, de Cultura e Turismo, denominado Rotas das Grutas Peter Lund, cujo objetivo é impulsionar o desenvolvimento regional através do turismo,

valorizando e demarcando os locais por onde o naturalista, pesquisador Peter Lund passou. O Parque Estadual do Sumidouro pertence ao programa (FIG.47), porém como a situação do MARLS não está ainda definida perante aos órgãos estadual e federal, a instituição não é contemplada na rota. O programa pretende promover o desenvolvimento regional com a estruturação de um roteiro nacional e internacional, pautado em elementos naturais e

119 culturais da região cárstica nos municípios que englobam a rota das grutas de Lund: Lagoa Santa, Pedro Leopoldo, Sete Lagoas e Cordisburgo.

Figura 47 - Mapa da Rota das Grutas Peter Lund Fonte: MG (2015)76

Recentemente foi lançado um edital da primeira Parceria Público-Privada (PPP) em áreas de preservação ambiental do Brasil. A licitação do projeto irá selecionar um parceiro privado para gerir as três regiões que compõem a Rota das Grutas Peter Lund. Tivemos a oportunidade de participar de uma audiência na Procuradoria Pública Federal, presidida pela Dra. Zane Cajueiro, ocorrida em 14 de março de 2014, com a participação de integrantes do IEF, responsáveis pela PPP, integrantes da AMAR, professora YacyAra Froner e Érika Bányai. Alguns proprietários de terras na região do PESU já resolveram a situação fundiária. Mas a propriedade da família Bányai ainda não foi contemplada, fato que implica consequências negativas ao patrimônio cultural inserido no contexto. Para esta situação cabe a reflexão:

Como os museus e instituições de patrimônio vem trabalhando com o tema da alteridade? Uma vez entendido que o conceito de cultura, e por extensão, o de diversidade cultural formulados no contexto dos estudos antropológicos deslizaram do campo propriamente acadêmico para serem apropriados por políticas públicas e por instituições no campo da memória, como tem se dado na sociedade contemporânea, esse processo de identificação, registro e preservação da chamada memória

76Disponível em http://www.agenciaminas.mg.gov.br/noticias/rota-das-grutas-peter-lund-e-uma-viagem-no-

120 do outro? O que tem sido considerado "digno" de ser preservado? para onde apontam as políticas públicas na equação "museus, patrimônio e diferenças culturais"? Qual o papel dos museus e das constituições

de patrimônio enquanto espaço de mostra das diferenças culturais na época da globalização? (ABREU, 2007, p.114, grifos nosso). No caso específico do MARLS, apesar do empenho da direção do museu, da AMAR, dos moradores e do MPF, a instituição sofre uma conotação negativa quanto a sua qualificação na área do Parque. No final das contas quem sai em prejuízo é a própria comunidade e o patrimônio cultural. O reflexo das ações de gestão do PESU perante ao MARLS, é comprovado pelo quadro 10 que apresenta o número de visitantes de 2003 a 2015

Quadro 10 - MARLS: Número de visitantes por ano

Ano 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015

visitantes 4.300 4.800 5.100 9.030 10.500 10.100 11.230 9.108 18.774 15.921 8.307 9.773 11.750

Fonte: BÁNYAI, 2016.

O número de visitantes foi crescendo gradativamente, com um aumento substancial nos anos 2011 e 2012, em consequência do trabalho desenvolvido por Érika Bányai no agendamento das visitas do Parque neste período. O MARLS era incluído na divulgação e agendamento. Em 2013, com a sua saída deste setor, a visitação caiu consideravelmente. A redução no número de visitantes prejudica financeiramente a instituição que se sustenta com a venda de ingressos, R$ 3,00 por pessoa. Do número de visitantes apresentado no quadro 10, não foram descontados as cortesias para crianças até 5 anos, moradores da comunidade Lapinha, motoristas e guias de grupo. Com o valor arrecadado é que se mantém os custos administrativos, manutenção do acervo, do edifício e demais necessidades da instituição. Pouca visitação acaba significando poucos recursos a investir na gestão museal.