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O Marquês de Custine

No documento Arca russa, arca da memoria (páginas 103-107)

Nesta passagem do filme aparece a maior parte dos detalhes sobre a vida real deste Marquês francês oriundo do século 19.

- Canova quase se casou com minha mãe. - Sua mãe era uma escultora?

- Sim. Em Roma.

- Em Roma? Sua mãe, uma escultora…

Segundo declarações do próprio diretor, Alexander Sokurov, publicadas em jornais estrangeiros à época do lançamento de “Arca Russa”, o Marquês seria a representação de um personagem histórico, real: Astolphe-Louis- Léonor, ou o Marquês de Custine. Astolphe, nascido em 1790, foi um aristocrata, diplomata e escritor francês. Participou do Congresso de Viena, em 1815, integrando o corpo diplomático francês, conforme o próprio personagem do filme afirma nesta passagem e fez uma longa viagem pela Rússia em 1839. Escreveu poesia e romances, porém seus trabalhos nunca receberam muita atenção de seus compatriotas. Seus relatos sobre uma viagem a Espanha foram elogiados por Balzac, que o encorajou escrever sobre outras partes da Europa, como Itália e Rússia.

Na década de 1830 Alexis de Tocqueville publicou “Democracia na América”, onde no último capítulo do livro escrevia que no futuro Estados Unidos e Rússia seriam grandes potências mundiais. Influenciado pelo livro o Marquês de Custine decidiu empreender uma longa visita à Rússia. Mais tarde Astolphe foi chamado por vários historiadores franceses como o “Toquecville da Rússia”, pelas previsões sobre o futuro poderio russo e pela veemência com que defendeu um governo liberal no país dos czares.

Os relatos de sua viagem pela Rússia e de suas impressões sobre o país estão no livro “Império de um Czar: uma jornada pela Rússia eterna”105. Ele zombava dos russos pela sua aparência européia, mas que escondia na verdade a alma asiática. Criticava São Petersburgo por ser criação de apenas um homem e não resultado de espontâneas forças históricas e sociais. Escreveu que a Rússia seria uma grande potência se a capital voltasse a

105 Título traduzido por Fábio Roberto Porto Silva. Não publicada em português. O nome da edição em inglês

ser Moscou. Criticava, sobretudo, a nobreza e o czar, naquele momento Nicolau I, de terem apenas um “verniz” europeu e civilizado, sobre uma natureza selvagem. Em suas palavras, os russos eram “ursos treinados”106. Mas, ao mesmo tempo, admitia a possibilidade de que Nicolau I tivesse uma boa índole, já que era partidário de idéias como o fim da servidão e da criação de uma Constituição, haja visto o grande esforço empregado pelo Ministério da Educação de seu reinado para espalhar um sistema de educação que atingisse todas as categorias sociais e alcançasse a partes mais remotas do Império. O Marquês de Custine acreditava que o czar se comportava como um déspota apenas por ser esse o comportamento esperado dele.

“Vim aqui para ver um país, mas o que eu vejo é um teatro... Os nomes são os mesmos, como os de qualquer outro lugar... Na aparência tudo acontece como em qualquer outro lugar. Não há nenhuma diferença, a não ser pelo início, no alicerce das coisas.”107 “Não repreendo os russos por serem o que são. Eu os repreendo pelo seu desejo de aparecer ser o que na verdade nós, europeus, somos... Eles estão muito menos interessados em serem civilizados, do que em nos fazer acreditar que são civilizados... .”108 Enquanto passam pelo corredor da Galeria de Pintura Antiga, a fala do Marquês revela que sua mãe quase se casara com Canova. A mãe do Marquês de Custine, Delphine de Sabran, realmente tivera um relacionamento de amizade com Canova, mas nas pesquisas para este trabalho não encontrei nenhuma fonte que indicasse que tivessem sido amantes. Outro traço do personagem real é a religiosidade. Astolphe era um ardente religioso e monarquista. No Prefácio ele escreve que foi à Rússia em busca de argumentos contrários ao governo representativo e voltou de lá como um grande partidário da Constituição.109

“Meus movimentos despertaram incrível curiosidade entre os russos à minha volta, o que evidentemente me preocupou por ser um empecilho aos meus comentários e me fez achar

106 Traduzido por Fábio Roberto Porto Silva. KENNAN, George. The Marquis de Custine and his Russia in

1839. Princeton: Princeton University Press 1971.

107 Traduzido por Fábio Roberto Porto Silva. Ibid. 108 Traduzido por Fábio Roberto Porto Silva. Ibid. 109 Traduzido por Fábio Roberto Porto Silva. Ibid., p. 23.

que eu era mais importante do que supunha. Passei a ficar atento e cuidadoso, pelo perigo que à minha franqueza poderia me expor. Não ousando enviar cartas pelo correio, guardei minhas anotações escondidas com extremo zelo, como se fossem papéis suspeitos.”110 “Durante minha passagem, pude fortemente sentir o grande destino deste povo, o último a

surgir no antigo teatro do mundo.”111 “Os russos vêem a desaprovação como traição. Consideram qualquer verdade inconveniente uma mentira. Não notam quanto há de admiração por trás das minhas aparentes críticas. Quanta tristeza há sob meus comentários mais severos. (...) Se me resignasse às suas injustiças não publicaria estas cartas. [Os russos] Podem acusar, mas me absolverão em sua consciência. Qualquer russo de boa fé levará em consideração as dificuldades que tive que superar, e me congratulará pelo sucesso e presteza com a qual fui capaz de predizer os traços básicos de sua personalidade sob a máscara política que lhes desfigura a face por tantos séculos.”112

* * *

O Marquês de Custine morreu em 1857 em Paris. Durante sua estadia na Rússia escreveu que as pessoas lhe pareciam atores. Sobre o vazio do espaço público de São Petersburgo anotou: “A primeira vez que houver uma massa na cidade, ela será aniquilada. Em uma sociedade organizada desta maneira, aglomeração e multidão significaria uma revolução”113. A percepção do Marquês de Custine sobre o despotismo que ele observou na Rússia de 1839, referindo-se à “polícia da imaginação”, ou “censura da imaginação”, e descrevendo o povo russo como “autómatas voluntários”, são facilmente visíveis no posterior regime soviético. As semelhanças entre Rússia czarista e stalinista são inevitáveis, mas, hoje, o livro de Custine superou o caráter profético que ganhou durante os anos da Guerra Fria para situar-se, como provavelmente seja de fato sua

110 Traduzido por Fábio Roberto Porto Silva. Custine, Marquis de. “Journey of our time: the russian journals

of the Marquis de Custine”. p. 24.

111 Traduzido por Fábio Roberto Porto Silva. Ibid., p. 25. 112 Traduzido por Fábio Roberto Porto Silva. Ibid., p. 26. 113 Traduzido por Fábio Roberto Porto Silva. Ibid., p. 112.

relevância, como um sofisticado relato de viagem e uma precisa representação do fascínio que a Rússia despertava na Europa Ocidental do século 19, além de uma avaliação da tirania russa sob o olhar de um aristocrata liberal e refinado, em um contexto posterior à Revolução Francesa.

O avô do Marquês lutou na Revolução Americana e nas batalhas francesas após a Revolução de 1789. O avô, bem como o pai de Astolphe, apesar de simpáticos à causa revolucionária, vinham do seio da nobreza e por isso ambos foram guilhotinados no Terror em 1793. Nesse período, Delphine, sua mãe, foi presa e aos três anos de idade Astolphe ficou sob os cuidados dos criados. Mais tarde, ele escrevera que os empregados raramente lhe dirigiam a palavra, a não ser para dizer do destino de seus pais. “Nunca vou esquecer da expressão do terror nos meus primeiros anos de vida no mundo”. A figura materna seria decisiva na formação de sua personalidade. Ela lhe assegurou uma educação refinada114. A obra do Marquês de Custine é um dos documentos mais preciosos já escritos por um viajante estrangeiro à Rússia.

“Muito do que ele escreveu ainda é verdade. (...) Não há dúvida de que na Rússia de hoje tempos distintos existem simultaneamente. Elementos do feudalismo, do capitalismo primitivo e do socialismo. Isso vale tanto para a vida do povo quanto para as autoridades. A Rússia se distingue pelo fato de que, no plano temporal, uma multiplicidade de épocas históricas convivem. Apesar de vivermos no século 21, estamos também vivendo no século 18, 19 e 20 (...) O livro do Marquês de Custine não expressa sempre a história concreta ou a realidade completa. (...) Mais do que usar o livro como ponto de partida para criticar os hábitos ou o Estado russo, usei o livro como inspiração para criar um personagem. (...) Custine foi o mais interessante dos viajantes que visitaram à Rússia, porque se percebe em seu texto tratar-se de um personagem de grande amplitude.” 115

114http://www.oxonianreview.org/issues/2-2/2-2-3.htm

115 Entrevista concedida por Alexandre Sokurov a John Hartl publicada em 02 de fevereiro de 2003 no jornal

No documento Arca russa, arca da memoria (páginas 103-107)