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O MDB e o jornal

No documento Daniel Trevisan Samways (páginas 126-131)

3. O Debate e a crítica nas linhas de jornal

3.4. O MDB e o jornal

Em 1966 o governo federal extinguiu os partidos políticos, criando o bipartidarismo, com um partido da situação, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), e outro de oposição, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Na cidade de Irati, porém, o partido de oposição, só seria articulado em meados de abril de 1971. Orreda seria um dos fundadores do partido e teria também em seu jornal um espaço para a divulgação das idéias do MDB. Para Orreda, “democracia com partido único é apelido.

Os teóricos da Revolução sabem que o MDB é necessário ao regime. Eis a sabedoria das lideranças nacionais, não fechando todas as válvulas do processo político.”255 A presença do deputado Maurício Fruet na cidade, marcaria o início das articulações para que o novo partido fosse fundado. Porém, na visão de Orreda, o partido era visto como algo que

254 O Debate. 17/01/1971.

255 O Debate. 18/04/1971.

ajudaria a situação a governar melhor, não como um partido que poderia sim, substituir a situação, colocando em prática outros ideais, pois seria difícil vencer as eleições. Seria então, o tônico vitalizador da cidade, nas palavras de Orreda.

Não seria tarefa fácil, porém, criar o partido. Para Orreda, mesmo entendendo que a criação de um partido de oposição tenha sido um lance de sabedoria do regime, não fechando todas as portas como o fez o regime argentino, e que tanto ARENA quanto MDB seriam apenas legendas para possibilitar candidaturas, não constituindo-se em verdadeiros partidos, havia, por certo, em Irati, “a dificuldade para a instalação do diretório do MDB, demonstrada pela ausência de homens disponíveis para livremente aderir, evidencia o domínio e a atuação da ARENA em todos os setores de atividades, impedindo que uns e outros, definindo-se, venham incompatibilizar-se e prejudicar seus interesses.”256 Em uma cidade do interior, não se caracterizava em tarefa fácil enfrentar os mandatários locais, que dominavam a política e se agrupavam no então partido da situação. A criação de um partido de oposição seria um sinal de afronta a esse poder, mesmo que o discurso fosse de conciliação. Estava se criando um novo espaço de discussão política, o qual, por certo, diminuiria o poder da ARENA na cidade.

O partido seria criado apenas em janeiro de 1972, após eleger sua executiva, tendo Jorge Abib como presidente e Orreda como secretário. A partir da criação do partido, o jornal seria um veículo de denúncia do MDB, além de fazer campanha para as eleições a prefeito a se realizarem naquele ano.

Logo após a criação do partido na cidade, duas matérias foram veiculadas na capa de O Debate, ambas contendo a frase “MDB DENUNCIA”. A primeira, intitulada

“Deputados Iratienses entregam a PR-4”, denunciava a mudança do traçado da PR-4, entre Relógio e Pitanga, a qual viria a beneficiar a cidade, porém, com a aprovação dos deputados iratienses, Emílio H. Gomes, João Mansur e Antônio Lopes Júnior, a estrada seria desviada, prejudicando a cidade de Irati, ainda mais com as disputas da já citada BR-277. O jornal cobrava explicações dos deputados, e afirmava em letras maiúsculas, que

“TRABALHEMOS PARA QUE NÃO TENHAMOS QUE IR EMBORA.”257 Não se pode esquecer, que uma matéria na capa, com letras negritadas e com frases em letras maiúsculas, adquire um aspecto muito mais agressivo, do que uma matéria no interior do jornal, com fontes pequenas. A diagramação do jornal, a posição e a forma de se publicar

256 O Debate. 06/06/1971.

257 O Debate. 13/02/1972.

uma matéria, pode dizer muito sobre a intenção do veículo de comunicação. O mesmo texto pode ser diferentemente recebido devido a forma como é publicado.

Na segunda matéria intitulada “Pedroso trabalha e associação fecha”, fazia-se referência a Associação de Pais e Professores da Casa Escolar Trajano Grácia e de seu presidente João Maria Pedroso. A associação sob direção de Pedroso, realizou diversos feitos, como instalação de luz elétrica, construção da cantina, aquisição de terreno para a construção de um novo prédio, dentre outros feitos, quando a associação foi dissolvida pelo inspetor regional de ensino, Gui Xavier. A velha desavença entre Orreda e Xavier retomava assim nas páginas do jornal, agora com a chancela do MDB, que denunciava o caso.

O posicionamento de crítica ao poder local em determinados momentos, levou o grupo empresarial ligado ao prefeito Edgard Gomes, a sair do quadro de anunciantes do jornal. A empresa Companhia de Fósforos Irati, uma das maiores anunciantes, com espaço de mais de meia página, deixava o quadro no final do ano de 1971, enviando correspondência ao diretor e proprietário do jornal, afirmando que não poderia permanecer como anunciante em um jornal que estava criticando a administração municipal.258 Aqui se evidencia que as relações entre imprensa e o poder político podem assumir disputas que muitas vezes não ficam claras aos leitores, ou nem mesmo acabam sendo conhecidas por eles. Pressões econômicas sobre a imprensa constituem-se em duro golpe ao funcionamento de um jornal, que também possui suas despesas financeiras e sem anúncios acaba por encontrar grande dificuldade para continuar suas atividades.

Nas eleições de 1972 Orreda, saía candidato a prefeito pelo MDB, e passou a publicar na capa do jornal em letras grandes “Para prefeito e vice-prefeito, Orreda e Danclise”, indicando o terceiro quadrinho da cédula. Em agosto do mesmo ano começava a circular semanalmente e junto com O Debate, o informativo A Hora, para informar a população sobre as eleições a se realizarem em novembro. Na primeira edição, um apelo afirmando que “Governar é aumentar a renda do povo”, lembrando a necessidade de se pensar no povo na hora de lançar uma candidatura. Sendo um meio de divulgar a campanha de Orreda, A Hora, afirmava que o candidato do MDB possuía esquema de governo, que estava pautado principalmente na questão do desenvolvimento do município. O esquema era composto de 39 pontos, priorizando investimentos nas áreas de

258 Entrevista com José Maria Orreda em 25/07/2007.

industrialização, rural e educacional. O lançamento do jornal foi notícia no Canal 4, no programa Show de Jornal, e no jornal O Estado do Paraná, os quais elogiavam a criação de um informativo específico para a publicidade política, sendo Irati, a única cidade brasileira a realizar tal feito.259

Se a idéia inicial do partido era apenas ajudar no desenvolvimento do município, colaborando com a situação, não acreditando que pudesse realmente chegar ao poder, isso se mostrou o oposto quando do período eleitoral. No suplemento A Hora, além dos textos informativos sobre a política eleitoral, a ironia se fez presente. Na coluna “O Time”, editado por Salustiano, a ironia era a marca registrada, contando com a presença de charges, o que foi uma grande novidade, aumentando o teor da crítica. Com pequenas frases do tipo, “troque o partido do seu marido. Com o MDB tudo será melhor.” “O MDB acabou com o chá de comadre da política iratiense. O progresso vem aí.” Ao lado de uma charge de um pequeno bezerro, a charge “Se você votar na ARENA, como esse da esquerda, cuide-se para não ser assado pelo Basílio numa 5 ª. feira qualquer.” O slogan da campanha apontava para a mudança, “É hora de mudar. O MDB é o tempo novo que você espera.”

Em Irati os candidatos da ARENA eram associados aqueles que possuíam grandes recursos para a campanha eleitoral, enquanto os do MDB possuíam um caixa apertado para tal. Na coluna “O Time”, duas charges, uma com um carro desgastado e outra com um carro novo, faziam alusão as duas campanhas. A que continha o carro mais antigo, afirmava que o carro fora conseguido por “intermédio de simpatizantes do MDB e a recuperação do veículo foi efetuada pelos membros do diretório iratiense.”260 Já o da ARENA, mostrava que o veículo fora doado com o tanque cheio e com os pneus recapados. Em outra charge na mesma coluna, um homem segurava um saco de dinheiro, e com o texto afirmando que “Ah! Nada como ser da ARENA, temos apoio total para a campanha eleitoral, é só sair pelo município distribuindo apertos-de-mão, abraços e beijinhos, simpatia, enfim.”261 Um texto de Júlio Marcos Bronislawski, na capa do jornal, intitulado “A Hora e a vez de Irati”, apontava para a crise pela qual passava o município, como a questão da BR-277, e a época de incertezas pela qual passava a cidade. Para o escritor era importante apoiar a candidatura do MDB, pois “é a hora de Irati e também de

259 A Hora. 03/09/1972.

260 A Hora. 17/09/1972.

261 Idem.

José Maria Orreda. Professor, íntegro, inteligente, conhecedor profundo dos problemas do município, perfeitamente integrado nos anseios da juventude e do povo, em sua eleição está a esperança de toda uma região que depende de Irati.”262 Orreda era visto como aquele que “vai mudar as coisas que queremos mudadas. Ele vai colocar Irati no lugar de destaque que há muito tempo já merece.”263 Na semana seguinte outro longo texto que ocupava mais da metade da capa do jornal, de autoria de Júlio Marcos, fazia campanha para a candidatura de Orreda.

Na edição que antecedia as eleições, outro texto de capa, agora de autoria do próprio candidato, apontava que o MDB poderia ganhar as eleições. Um dos pontos seria que “as elites não sabem ouvir as massas, os governantes não sabem ouvir o povo, resultando num conflito flagrante entre o povo e os governantes.”264 Uma possível associação entre o MDB e as massas era apresentada na mesma matéria, pois

Os operários, os trabalhadores e agricultores constituem a grande classe marginalizada na atual sociedade brasileira. O divórcio entre as massas e as elites é flagrante porque a elite dirigente há muito que não atende os anseios emergentes, não favorece a participação dos operários, trabalhadores e camponeses nas conquistas da civilização. A alta burguesia encontra-se falida, ela que se apoderou do poder com a Revolução Francesa em 1789.265

O MDB seria aquele que lutaria pelos interesses dessas classes mais despossuídas da sociedade, e teria em Irati o seu representante na pessoa de José Maria Orreda, e sua vitória, segundo o próprio, seria uma demonstração “de maturidade cultural dos iratienses, em decisão consciente, livre e soberana.”266

O resultado das eleições, mesmo com toda a campanha de O Debate e de A Hora, foi favorável a ARENA, atingindo com as duas chapas um total de 10.236 votos, contra 1.770 votos das duas chapas do MDB. O candidato vitorioso da ARENA era o médico Lourival Luiz Fornazari e assumiria o cargo no dia 31 de janeiro de 1973. A campanha empreendida pelo jornal de Orreda, demonstra que em momentos de efervescência no campo político, as paixões políticas podem aflorar, onde os atores sociais colocam-se em campos opostos, e, mesmo que num tom mais brando, ofendem-se, repudiam-se. A tão proclamada imparcialidade jornalística cai por terra em momentos de disputa política, onde os candidatos são apoiados ou rejeitados por um determinado jornal.

262 O Debate. 22/10/1972.

263 Idem.

264 O Debate. 11/11/1972.

265 Idem.

266 Idem.

Após as derrotas nas urnas em 1972, o MDB não estaria tão presente nas páginas de O Debate, principalmente pelo fato do período eleitoral ter terminado, o que diminuiria também o espaço que o partido teria para colocar suas propostas e suas críticas. A derrota expressiva, por certo, também afetaria os ânimos dos emedebistas.

No documento Daniel Trevisan Samways (páginas 126-131)