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“enfrentar o mundo”, o que significava garantir uma educação que permitisse sua inserção no mundo do trabalho. Alguns extratos de processos confirmam essa hipótese:

Márcia Cristina, mãe do menor Alberto filho de um soldado do Corpo de Bombeiros desta Capital morto durante a epidemia que assolou esta cidade no anno de 1918 não possuindo meios para a manutenção e educação de seu filho que conta 7 annos de idade vem requerer a V.

Exia. que se digne mandar internal-o em estabelecimento de onde possa sahir para ser útil á Pátria. (Petição Inicial – Processo nº. 2/27).

Baseado no resultado final das investigações por mim efetuadas, que vieram demonstrar não possuir a requerente de fls. 2, os necessários recursos econômicos para manter e educar o menor seu filho, que motivou o seu pedido de internação, alem do mesmo ser muito desobediente e de índole rebelde, o meu conceito é favoravel ao desejo daquela senhora, por julgar a internação do menor um amparo de inteira justiça. (Relatório da Investigação do Comissário de Vigilância – Processo nº.436/35)

Seu pedido se prende ao fato da menor ter alcançado idade de tomar uma educação especial, o que não pode manter a peticionaria, que luta com grande dificuldade econômica, visto, empregar-se como domestica em casa da família Cata-Preta, onde não pode ter a menor em sua companhia, bem como ter salario pequeno – (...) –, não podendo custear seus estudos. (Relatório da Investigação do Comissário de Vigilância – Processo nº. 23228/36)

Fica claro nos muitos processos abertos pelas mães das crianças, que elas, quase sempre, têm que manter a si e aos filhos sozinhas, sem a ajuda de um companheiro, por serem ou solteira, ou separada ou viúva, sendo a situação de pobreza a causa predominante nos pedidos de internação. Estas solicitações são feitas por mulheres que têm que trabalhar para garantir seu sustento e o de seus filhos, conseguindo empregos como doméstica, cozinheira, copeira, lavadeira, costureira ... enfim, no mercado semi-escravocrata de “funções destinadas à mulher”. Na maior parte dos casos, moravam com seus filhos em um só cômodo, ou na casa dos patrões ou em pensões e cortiços. Desta forma, viam-se mais cedo ou mais tarde colocadas em um impasse: ficavam com as crianças e passavam fome por falta de dinheiro, pois não conseguiam trabalho, ou iam trabalhar para obter alguma renda e não tinham onde deixar seus filhos. Um exemplo disto é o processo nº. 400/26, de petição inicial datada de 28 de junho de 1926, constando do seguinte texto:

Diz Estefânia, viúva, analfabeta, com 4 filhos menores, que, achando-se em extrema pobreza, para poder sustental-os, necessita que Vossa.

Ex. se digne providenciar para que seus dois filhos Alberto e Marcelo,

respectivamente com 10 e 12 annos de idade, sejam internados em um dos patronatos de menores existentes a esta cidade ou nos subúrbios.

Na investigação realizada pelo Sr. Joaquim da Silva Rosa – Comissário de Vigilância – a respeito da internação dos menores a pedido do Juiz Melo Mattos apensada ao processo no dia 23 de julho do mesmo ano, encontramos as seguintes informações:

A mãe dos menores, (...), não tem recurso algum e por isso não pode cuidar da educação dos referidos menores que necessitam receber instrucção afim de que se habilitem a futuramente ocupar qualquer emprego ou officio donde aufiram meos para a subsistência de sua mãe e irmãos.

Declarou ainda [a mãe] que está muito esperançada em conseguir abrigo para os menores em questão, porque assim sendo, poderá com mais facilidade trabalhar para o sustento e educação de Alexandre e Luis, que ficam em sua companhia.

Somente em 16 de outubro o Juiz, após encaminhar o processo para o Curador de Menores se manifestar, declarou “abandonados nos termos do n. III do art. 2o. do Dec. n.

16272, os menores (...) que ficam sob a protecção e vigilância deste Juízo”, sendo encaminhados para o Patronato Arthur Bernardes. Em 17 de agosto de 1927 a mãe pede o desligamento dos filhos do Abrigo por dispor de meios para sustentá-los. Ao responder à solicitação de informação sobre os menores, o Diretor Geral do Povoamento do Solo comunica ao Juiz que Marcelo se evadiu do Patronato Arthur Bernardes. Ao que parece a mãe das crianças não chega a tomar conhecimento desta informação pois o pedido de desligamento se repete em 14 de novembro de 1933. Não consta no processo nada que esclareça o que aconteceu com essa família, nem sequer o pedido de seu arquivamento.

Indicando um certo descaso com processos desse tipo, o seguinte bilhete manuscrito é encontrado em meio a suas folhas:

Recebi estes autos em 5-2-1938, das mãos do funcionário Gastão Lori, que os encontrou no fundo de uma gaveta.

(desde o anno de 1935, estavam fora do arquivo) A encarregada.

Com o passar dos anos e o aumento da incidência de pedidos de internação51, muitos desses não são mais atendidos e encontramos processos “indeferidos por falta de vaga” e muitos outros em que no último despacho simplesmente lê-se “aguarde vaga”. O problema da

51 Ver nota 40 e BULCÃO, 2001.

falta de vagas para o encaminhamento de menores é referido em relatório do Juizado de Menores referente ao ano de 1936:

O Juiz de Menores, que esta desapparelhado para acolher todos os menores, precisa agir com criterio. De acordo com os meios que dispõe, limita-se a amparar aos mais necessitados que recorrem á sua autoridade, espontaneamente ou por intermedio de outrem, collocando-os sob o amparo da lei. No anno de 1936, sómente a metade dos pedidos de internação puderam ser atendidos. (LIMA, 1937, p. 12)

Chama a atenção também, a partir de 1937, o número de processos de internação em que as investigações não são mais realizadas. O último despacho é uma ordem do Juiz:

“Investigue-se” que, no entanto, fica sem resposta alguma. Pode-se supor que talvez isso tenha ocorrido dado o aumento no número de pedidos de internação e a manutenção do mesmo número de Comissários de Vigilância, responsáveis pelas investigações necessárias.

A partir de 1938 ocorreu uma mudança na constituição dos processos de internação e abandono. Começa a aparecer um formulário intitulado “Informações para instituir o pedido de internação e conseqüente declaração do estado de abandono do menor”, que deveria ser preenchido a partir dos dados coletados com o requerente da internação, geralmente a mãe.

Uma das últimas perguntas desta ficha é a de número “24o. – Affirma o responsável que o menor necessita de internamento por conta do Juízo de Menores e assim ser considerado como abandonado?”. A simples resposta a essa pergunta com um “sim” passou a ser suficiente para que o Juiz declarasse o abandono do menor, ficando dispensado qualquer outro tipo de investigação sobre a efetiva necessidade ou não de internação.

Um fato que chama a atenção nos processos pesquisados é que, com o passar do tempo, os processos de internação deixam de contar uma história. Os dos anos de 1937 a 1940 apresentam cada vez menos informações, compondo-se apenas da petição inicial e do despacho do Juiz, o que deixa sem saber, afinal, que fim levou aquela criança. Perguntas como: foi internada?, onde?, quanto tempo durou a internação?, foi dada à soldada?

permanecem sem resposta.

Esse movimento, além de refletir uma burocratização na forma de lidar com esse tipo de processo, pode também indicar a construção de outro espaço para tratar da assistência à infância, fora da alçada do Juizado de Menores. Ou seja, constata-se que esta “ausência de informações” pode estar indicando condições de possibilidade para a criação do Serviço de Assistência a Menores (S.A.M.), em 1941. O S.A.M. sistematiza e orienta a assistência a

menores internados em estabelecimentos oficiais e particulares, podendo-se perceber uma mudança no lugar de gerência das políticas públicas para a infância, saindo do espaço jurídico-polícial e entrando no da assistência social.

O processo no 3069, aberto em 15 de dezembro de 1938, e cujo último despacho do Juiz data de 16 de janeiro de 1942, é exemplar desse movimento de esvaziamento do processo como registro de uma história. Este processo é iniciado com a petição de “Yvone, solteira, tecelã, (...), [que] requer a V. Excia a internação dos menores Inácio e Deise, com 6 e 4 anos de idade, filhos da requerente e de Daniel, por falta de recursos para a manutenção dos menores e educação”, junta a este pedido o formulário “Informações para instituir o pedido de internação e conseqüente declaração do estado de abandono do menor”. No mesmo dia 15 o juiz solicita que seja feita investigação por um Comissário de Vigilância; no dia 26 de dezembro de 1938 o relatório do Comissário informa que os menores são

Filhos naturais de Daniel e de Yvone, brasileiros, solteiros; vivem maritalmente ha 10 anos; (...). Acontece porém, que, o pae dos menores, adoeceu gravemente – Ursula no estomago [sic]–

impossibilitado de trabalhar, embora sendo, motorneiro da Ligth, porém, só tem um ano na companhia razão porque, não tem direito a vencimentos e nem auxilio algum; a requerente é mãe não tem podido trabalhar tendo em vista o tratamento do homem como dos filhos.

Assim, tendo em vista o estado de falta de recursos materiais e economicos para ter e manter os dois filhos é a razão em que pede a internação em estabelecimento do Juízo.

Informado desta situação o Juiz despacha “Aguarde vaga”, em 27 de dezembro de 1938.

Em 16 de janeiro de 1942, Yvone volta ao Juizado e “requer a V. Excia. [Juiz] se digne de mandar devolver-lhe a certidão de registro de nascimento de seus filhos Inácio e Deise, com onze e oito anos, respectivamente, cujos documentos estão anexos ao processo de sua internação, que não foi efetuada”. Sem nenhum registro que indique o que ocorreu, aparece anexado no processo um formulário da Seção de Pesquisas Pedagógico-Sociais do Serviço de Assistência a Menores do Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Este formulário intitulado “Remessa” é datado de 13 de junho de 1946 e dele constam perguntas sobre a situação econômica e moral do menor que segue o seguinte roteiro:

SITUAÇÃO ECONÔMICA:

1o. – Quem sustenta o menor?

2o. – Qual o seu meio de vida?

3o. – Quanto ganha?

4o. – Quantas pessoas vivem com esse ganho?

5o. – A quanto monta a receita mensal?

6o. – A quanto monta a despesa mensal?

7o. – Tipo de habitação:

8o. – Conservação e higiene:

9o. – Condições em que dorme o menor:

10o. – Estado de saúde aparente do menor:

SITUAÇÃO MORAL:

1o. – Com quem vive o menor?

2o. – A Família do menor é legítima?

3o. – Vive em harmonia?

4o. – Se o menor vive com família estranha, mencionar pessoas que a constituem, organização, ocupação de seus membros, situação econômica, instrução:

5o. – Assistência prestada ao menor (boa, má, deficiente). Por que?

(Processo 3069/38)

No espaço destinado às conclusões, com data de 25 de outubro de 1945 e assinado pela Assistente Social Elvira Estrella, encontramos o seguinte relato:

A requerente mudou-se de residência

A requerente, mãe dos menores, compareceu ao nosso Serviço declarando-nos:

a) não dispõe de recursos para manter os filhos estando, no momento desempregada;

b) foi dispensada da fabrica por motivo indeterminado;

c) vive, de favor, com os filhos, em um barracão coberto de palha Verificamos o menor Inácio se encontra licenciado da Escola Quinze de Novembro desde agosto de 1944

O referido menor esta foragido da casa da mãe.

Em vista da falta de recursos, o caso da menor Deise, se nos afigura como um caso de internação urgente e o menor Inácio deverá ser apresentado a este Serviço.

Com essas informações fica impossível recompor o que aconteceu com Yvone e seus filhos. Sabemos que Yvone continuou solicitando a internação de seus filhos, só que desta vez ao S.A.M., porém, apesar do relatório acima recomendar a “internação urgente” de Deise, não sabemos se isso ocorreu, nem se Inácio chegou a se apresentar ao Serviço.

As informações disponíveis permitem concluir que uma solicitação de internação foi feita em dois momentos distintos a dois órgãos diferentes, a primeira em 1938 ao Juizado de Menores e a seguinte em 1945 ao S.A.M.; ambas indicam a falta de recursos como justificativa para o pedido, porém o destino dado aos menores, que deveriam ocupar o centro da atenção, fica inacessível pela leitura desses documentos.

Pude perceber que a investigação antes realizada pelo Comissário de Vigilância passa a ser executada pela Assistente Social, pois ambos pesquisam a vida, os hábitos e as relações entre a família e o menor. Essa mudança da responsabilidade sobre a investigação acerca da família e do menor pode ser relacionada com o fato de não termos encontrado, no corpo dos processos, material para analisar, nas práticas discursivas dos técnicos-especialistas do Juizado, a emergência de discursos ‘psi’.

Uma possibilidade para entender esta ausência é que a produção desse tipo de informação passou a ser de responsabilidade de assistentes sociais e psicologistas, que trabalhavam no Laboratório de Biologia Infantil – órgão subordinado ao Juizado de Menores que funcionava em prédio próprio – e tenha ficado arquivada em outro lugar que não nos processos.

Encontrei reforço para essa hipótese nas pesquisas realizadas por Eliane BRENAL (2004). A autora buscou suas fontes de pesquisa nos arquivos da FEBEM em São Paulo e utilizou prontuários de crianças encaminhadas para internação entre os anos de 1938 e 1960.

Reunidos nestes prontuários ela encontrou, entre outros documentos, exames como “Síntese Psicopedagógica” e relatórios ou pesquisas sociais. Ou seja, as poucas fichas do L.B.I.

encontradas nos processos também podem ser um reflexo da construção de um outro espaço para o arquivo das informações referentes ao estado de saúde, à vida pregressa dos menores e às expectativas para seu futuro. Leonidio RIBEIRO (1939) se referia ao L.B.I. como “uma verdadeira clínica especializada no diagnóstico das doenças gerais da infância” onde se pode realizar “uma observação rigorosamente científica e completa (...) do ponto de vista físico e psicológico” (p. 124), e ao descrever o funcionamento dos vários setores do Laboratório reforça a hipótese levantada, pois diz que:

Cada assistente faz um resumo do resultado de suas pesquisas, em fichas especiais estandartizadas e numeradas, das quais guarda uma cópia, no seu serviço, enviando as restantes à Diretoria, onde são estudadas, confrontadas e reunidas, em um dossier geral, depois de fixadas as conclusões biológicas, médicas e psico-pedagógicas são classificadas nos arquivos centrais. Resumo das conclusões gerais dos exames e os conselhos e planos de tratamentos pedagógicos, assim como o boletim de identidade, são enviados ao Juiz de Menores, acompanhados de um relatório, que é sempre muito minucioso quando há interesse da Justiça em conhecer pormenores do caso em julgamento. (p. 125).

Esse relato dos procedimentos do Laboratório associado à pequena freqüência com que encontrei as referidas fichas e ao fato de não ter lido nenhum “relatório minucioso” podem indicar a falta de interesse do Juiz em ter essas informações anexadas ao corpo do processo.

No artigo citado acima, Ribeiro, ao afirmar que as fichas que constituem o dossier de cada menor são classificadas nos arquivos centrais, deixa uma pista de que talvez essa documentação tenha sido incorporada aos arquivos do Instituto Sete de Setembro, posteriormente englobado pelo Serviço de Assistência a Menores (S.A.M.).