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3 A PROTEÇÃO AO MEIO AMBIENTE A PARTIR DA TEORIA DOS BENS

3.3 O Meio Ambiente e sua compreensão de bem comum

O processo multidimensional chamado globalização exige uma reflexão em torno da capacidade de suporte da terra e viabilidade biológica da espécie humana. A atual situação global aproxima o indivíduo humano a indivíduos de outras espécies em um contexto definido como estresse ecossistêmico, entende Dias (2010). Tendo em vista tal complexidade, Leff (2008) aponta para a gravidade e a amplitude desta problemática, pois hoje ocorre uma crise que não é só ecológica/biológica, mas

também social, econômica, política, cultural, e, isto tem influenciado a maneira como o ser humano percebe os outros, o mundo e o seu entorno. Com efeito, uma atávica interação e uma evidente interdependência pressupõem superar o paradigma de dominação que sempre caracterizou as relações do homem com o meio ambiente.

Na condição de sujeito contemporâneo, o homem sofre o impacto dos problemas ambientais, mas não necessariamente são implementadas ações para seu enfrentamento.São cada vez mais incisivas as evidências de que a sociedade contemporânea vivencia uma intensa crise ambiental, o que exige ações planetárias. Como alerta Capra (2006, p. 23), “Quanto mais estudamos os principais problemas de nossa época, mais somos levados a perceber que eles não podem ser entendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes.” Na verdade, a pouca compreensão crítica global do ambiente é insuficiente para desenvolver atitudes que permitam adotar uma posição consciente e participativa a respeito das questões relacionadas com a conservação e adequada utilização dos recursos naturais, para a melhoria da qualidade de vida e a eliminação da pobreza extrema.

A crise ambiental é a crise do nosso tempo. O risco ecológico questiona o conhecimento do mundo. Esta crise se apresenta a nós como um limite no real que re-significa e re-orienta o curso da história: limite do crescimento econômico e populacional; limite dos desequilíbrios ecológicos e das capacidades de sustentação da vida; limite da pobreza e da desigualdade social. Mas também crise do pensamento ocidental: da “determinação metafísica” que, ao pensar o ser como ente, abriu a via da racionalidade científica e instrumental, que produz a modernidade como uma ordem coisificada e fragmentada, como forma de domínio e controle sobre o mundo. (LEFF, 2006, p.15-16).

Apesar de diferentes tentativas de proteger o meio ambiente por meio de leis, decretos, princípios, convenções, as normas ambientais têm uma atuação insignificante (OLIVEIRA, 2009), porque não é dada a devida importância a sua aplicação como instrumento de efetivação da tutela do meio ambiente, garantindo-o para as futuras gerações. O homem, não diferente das demais espécies, modifica seu meio. Dessa maneira, interfere nos ecossistemas, embora, na maior parte das vezes, com significativos impactos ambientais, em função, principalmente, do atual modelo de desenvolvimento adotado pela maioria dos países. O atual padrão de desenvolvimento caracteriza-se pela exploração excessiva e constante dos recursos naturais e pela geração maciça de resíduos, além da crescente exclusão social.

A ação destruidora da natureza agravou-se em razão do incontido crescimento das populações e do progresso científico e tecnológico, que permitiu ao homem a completa dominação da terra, das águas e do espaço aéreo. Com suas conquistas, o homem está destruindo os bens da natureza que existem para o seu bem-estar, alegria e saúde; contaminando rios, lagos, com despejos industriais, contendo resíduos da destilação do álcool, de plástico, de arsênico, de chumbo ou de outras substâncias venenosas; devastando florestas; destruindo reservas biológicas; represando rios, usando energia atômica ou nuclear (GONÇALVES, 2011). O avanço técnico e científico dos séculos XVIII, XIX e XX possibilitado pelo capitalismo e o crescente processo de industrialização, seja nos países ricos, seja nos países pobres, nos capitalistas ou nos socialistas, vêm progressivamente interferindo, agredindo e alterando a natureza, em benefício dos interesses imediatos dos homens assevera Ross (2008). Assim, para produzir mercadorias e equipamentos, foi necessário instalar extensos complexos industriais, e para alimentá-los foi exigida a extração de matérias-primas e a exploração de fontes energéticas do mundo todo. É em torno das áreas de concentração industrial que a economia gravita e, para alimentar esse complexo sistema, o homem destrói a natureza.

Ao apresentar a proposta da teoria dos bens fundamentais, Ferrajoli (2011) refere que mesmo reconhecida como imprescindível a afirmação dos direitos e das respectivas obrigações e proibições para sua tutela jurídica, tal afirmação é insuficiente, e exige mais, exige a garantia desses bens, pois é pela introdução e observação de tais garantias que depende a efetividade dos direitos fundamentais. O crescimento da consciência ecológica e a preocupação com a degradação do meio ambiente, retirando o equilíbrio do planeta, levam a erigir-se a proteção do meio ambiente como um valor fundamental, revestindo-se, assim, de um caráter comunitário, difuso e essencial para as gerações presentes e futuras. Disso decorre reconhecer que todos os seres que compõem o ecossistema planetário têm a sua dignidade própria devido ao papel que desempenham e à função que lhes cabe no equilíbrio ecológico. Nesse grande cenário, os sistemas vivos partilham do respeito que se dá e se deve à vida, porquanto o fenômeno da vida, tal qual a conhecemos no Universo, é prerrogativa da Terra (MILARÉ; COIMBRA, 2013).

A devastação do meio ambiente provocada pelo desenvolvimento industrial, que se junta ao fato dos países mais ricos desfrutarem indiscriminadamente dos recursos naturais, o que ameaça causar uma “destruição irreversível dos bens e dos

recursos vitais para o gênero humano” fez surgir a temática dos bens comuns, refere Ferrajoli. Os bens comuns “são os bens de todos - aqueles que os romanos chamavam de res comunesomnium– como o ar, o clima, a água, as órbitas, os satélites, as bandas do éter, os recursos minerais das profundezas marinhas, a assim chamada biodiversidade” (FERRAJOLI, 2011, p. 67), bens universais porque pertencem a todos e cuja acessibilidade também a todos deve ser garantida.

É na caracterização dos bens comuns onde com maior nitidez se mostra inadequado o uso exclusivo da linguagem de direitos fundamentais (FERRAJOLI, 2012). Isto porque, apesar da proteção aos bens comuns como o meio ambiente ser interesse vital de todos, os indivíduos, as pessoas singulares não têm consciência de sua relevância, mesmo na condição de titulares dos respectivos direitos fundamentais. Para a proteção do meio ambiente de suas agressões mais corriqueiras, como a poluição do ar e dos mares, a redução da biodiversidade, a destruição de espécies da flora e da fauna, bem mais apropriada do que as técnicas de garantia existentes para os direitos fundamentais é a proteção normativa de tais bens como bens públicos, que é a garantia de muitos bens comuns adotadas em ordenamentos jurídicos.

Em vista disso, não se pode esquecer que os reflexos da Revolução Industrial, quando o processo de degradação da natureza se intensificou, chegaram hoje aos avanços tecnológicos que permitiram ao homem a completa dominação da terra, das águas e do espaço (ROSS, 2008). Ao lado dos interesses do mercado que fomentam a exploração irracional dos recursos, levaram a uma incomparável degradação ambiental, degradação que acaba por ameaçar a capacidade de suporte da natureza, prenunciando uma tragédia ambiental de proporções globais, e em seu mais danoso reflexo, colocando em risco a viabilidade biológica da espécie humana. Uma inevitável interdependência pressupõe superar o paradigma de dominação que sempre caracterizou as relações entre o homem e o meio ambiente, pedindo um novo modelo de organização planetária. Nesse sentido, é urgente respeitar e cuidar da biosfera, conservar a vitalidade e a diversidade do planeta, minimizar o esgotamento dos recursos não renováveis e gerar uma estrutura possível para a integração entre desenvolvimento e conservação.

A esse respeito, observa Ferrajoli:

Quando se envenena o ar de uma cidade ou se coloca em risco uma praia ou se abate uma floresta, os habitantes do lugar não pensam estar sendo privados de uma propriedade comum, mas consideram-se

apenas como usuários, consumidores ou possíveis beneficiários de futuros loteamentos. Ainda menos vital e para a maioria das pessoas totalmente irrelevante e até incompreensível é, além disso, o interesse pela proteção do clima e dos equilíbrios ecológicos, que diz respeito até mesmo às futuras gerações cujos direitos são futuros e que somente podem ser resguardados protegendo os bens comuns e deixando-lhes de herança um planeta habitável. (FERRAJOLI, 2011, p. 68)

Neste caso, Ferrajoli aponta para a manifestação de uma grave aporia da democracia política, pois a mais grave ameaça ao futuro da humanidade, representada pelos efeitos catastróficos das emissões de gás estufa, que provocam um crescente aquecimento global, é uma ameaça totalmente ignorada pela opinião pública mundial e, como consequência, pelos governos nacionais, que não costumam colocar tais assuntos em suas agendas políticas.

As nações ricas como as grandes responsáveis pelas mudanças climáticas que provocam desastres e devastações e atingem de maneira gravíssima os pobres do mundo, ainda que elas tenham condição de mudar essa situação, regulando os termostatos e aumentando os estoques de alimentos, denuncia Ferrajoli (2011). É perceptível, então, que o desenvolvimento técnico-científico-econômico dos países ricos sustenta-se na equação terrível (ISTVÁN, 2010) da exploração irracional dos recursos naturais e mesmo do homem pelo homem, moldando a geopolítica mundial na antítese Norte/Sul. A esse respeito, refere Freitas (2012):

De nada serve cogitar da sobrevivência enfastiada de poucos, encarcerados no estilo oligárquico, relapso e indiferente, que nega a conexão de todos os seres vivos, a ligação de tudo e, desse modo, a natureza imaterial do desenvolvimento. A natureza não pode ser vista como simples capital e a regulação estatal se faz impositiva para coibir o desvio comum dos adeptos do fundamentalismo voraz de mercado, que ignoram a complexidade do mundo natural. (FREITAS, 2012, p.51).

Destaca Ferrajoli (2011) a importância dos bens comuns, integrantes do patrimônio ecológico, alertando para o que chama de ameaça mais grave ao futuro da humanidade, que é o aquecimento global e seus efeitos danosos, como a redução da biodiversidade, a desertificação de áreas crescentes do planeta, entre outros. Denuncia o autor italiano que essa ameaça é desprezada pela opinião pública mundial, com os privilégios dos países ricos no desfrute dos recursos naturais, e o deslocamento desse tema para as margens de suas agendas políticas. Todas as devastações e catástrofes já causadas foram provocadas quase que exclusivamente

pelas nações ricas, mas têm atingido de forma muito intensa as populações mais pobres do planeta, agravando a situação atual por comprometer sua capacidade de produção, e impedindo qualquer possibilidade de desenvolvimento.

Evidencia-se a premência da superação do paradigma moderno no qual o ser humano detém toda a autonomia, na busca da construção de um novo paradigma, voltado para a sensibilidade ecológica. Disso decorre que os direitos fundamentais precisam corresponder ao fato de que o indivíduo opera não só num ambiente social, mas também num ambiente natural (BOSSELMANN, 2010). A necessidade e a urgência de serem protegidos os bens comuns, portanto, é compromisso de todos e aproxima a humanidade inteira numa interdependência ecológica, como adverte Ferrajoli:

Para além de todas as diferenças políticas e culturais, das desigualdades econômicas e dos inumeráveis conflitos que atravessam e dividem a humanidade, a ameaça que hoje paira sobre os bens ecológicos adverte a todos que se trata de um patrimônio comum que nenhuma política nacional ou de liberalismo econômico poderá jamais confiscar ou privatizar: o planeta Terra com seus mares e sua atmosfera, que todos compartilhamos e que é do interesse de todos preservar (FERRAJOLI, 2010, p. 73).

Surge, então, a necessidade de uma nova dimensão do constitucionalismo e do garantismo, “para além da lógica individualista dos direitos e da miopia e do estreito localismo da política e das democracias nacionais” observa Ferrajoli, (2011, p. 70), alertando para o fato de que não estão sujeitos a limites e vínculos legais dois tipos de poderes, ambos não estatais, que são de um lado, os poderes econômicos privados, tradicionalmente chamados de liberdades e de outro, os poderes extra ou supraestatais, políticos ou econômicos que atuam no mundo globalizado, fora das fronteiras estatais e são os grandes responsáveis pelos desastres ecológicos, cujo enfrentamento é imperativo.

Urgente, portanto, a criação de um constitucionalismo de direito privado que consiste, segundo Ferrajoli (id.ibid.) em “um sistema constitucional de regras, de limites, de vínculos e de controles supraordenado a tais poderes econômicos privados, além de sê-lo aos poderes políticos”, para limitar sua ação predatória causadora de danos muitas vezes irreversíveis à saúde e ao meio ambiente, afrontandoa dignidade

da pessoa humana46 e atingindo também os bens comuns, como o ar e a água,

imprescindíveis para a sobrevivência do planeta e dos indivíduos que nele habitam. É imperativo o desenvolvimento de um constitucionalismo de direito internacional, pois as agressões aos bens comuns ambientais já atingem dimensão planetária, exigindo que seu controle se dê também na mesma dimensão, o que exige uma forma especial de proteção, mais adequada do que as técnicas de garantias aos direitos fundamentais, proteção esta que se constitui na específica proteção normativa dos bens comuns do ambiente como bens públicos, defende Ferrajoli (2011).Torna- se imperioso, então, para o arrefecimento ou mesmo a cessação da destruição dos bens comuns, o surgimento de uma esfera pública global hábil em conter os poderes selvagens do mercado e em garantir a proteção ao ambiente,observaFerrajoli, o que se pretende abordar na próxima seção.

3.4 A necessidade de uma esfera pública global à garantia da proteção ambiental

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