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2 O DIREITO TERRITORIAL DOS REMANESCENTES DAS COMUNIDADES DE QUILOMBO

2.1 A CONSOLIDAÇÃO DOS GRUPOS NEGROS NO BRASIL E NO PARÁ

2.1.1 O mercado de escravos no Brasil Colônia – 1500 a

A história da colonização do Brasil se inicia com a invasão9 destas terras em 21 de abril de 1500 com a chegada das navegações comandadas por Pedro Álvares Cabral que, em um primeiro momento, manteve um contato amistoso com os povos indígenas, sendo esta relação marcada principalmente pela prática do escambo o que diminuía a possibilidade de conflitos.

De acordo com Macedo (2009), a situação começa a se transformar a partir 1530 quando, então, os portugueses decidiram colonizar o Brasil, observando-se uma profunda modificação nas relações até aquele momento estabelecidas entre os invasores e os diferentes povos habitantes do continente americano.

De acordo com Klein e Luna (2010), as primeiras exportações comerciais do Brasil para a Europa ocorreram a partir do pau-brasil10 para a extração de pintura e, até este momento, eram justamente os indígenas que auxiliavam os portugueses na extração da madeira que geralmente era cortada por indígenas locais e enviada ao continente europeu.

Em relação aos povos ameríndios, a legislação deste período era considerada ambígua, pois ora se editavam tímidas normas cujo objetivo era proteção dos indígenas, ora se formalizavam ações que legitimavam a escravidão e o extermínio destes sujeitos.

Com relação aos negros, constata-se que os primeiros contatos com os europeus ocorreram também no século XV com as navegações europeias pelo oceano Atlântico, sendo que, de acordo com Thornton (2004), a navegação europeia iniciou a conexão entre o chamado Velho Mundo e os dois novos mundos, quais sejam o continente americano e a região centro-oeste da África.

9 Nos filiamos neste trabalho ao termo “invasão”, porém, ressalta-se que, de acordo com

Macedo (2009), os textos legislativos editados sobre esse momento histórico sempre se inclinavam na defesa dos interesses do colonizador português, sendo isto resultado de uma visão etnocêntrica baseada na ideia de que os indígenas eram seres inferiores e incapazes, o que demandava a legitimação da conquista destas terras.

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Embora esta tenha sido a primeira atividade desenvolvida na Colônia, destacamos o relato de Chiavenato (2012), segundo o qual, os portugueses primeiramente queriam ouro e especiarias, mas, como Caminha informou não foram encontrados metais preciosos, bem como os índios não realizavam atividades produtivas, de acordo com o olhar do colonizador. Assim, em 1501 foram realizadas outras expedições sendo iniciada em 1502 a exploração do pau- brasil.

A esse respeito, Luna e Klein (2010), afirmam que a chegada dos portugueses à costa atlântica subsaariana no começo do século XV alterou o comércio de sujeitos escravizados11 que já estava estabelecido naquela região por no mínimo seis séculos. Até aquele momento, o comércio marítimo objetivava a utilização dos africanos nos serviços domésticos no próprio continente europeu.

Ocorre que, com o início da colonização da América, houve uma reorganização no comércio de escravos, uma vez que estes passaram a ser enviados para as casas dos conquistadores na própria colônia.

De acordo com Chiavenato (2012), um dos elementos que fomentou a captura de negros na África está no fato de que tribos que vivam naquela localidade possuíam técnicas de agricultura, mineração e siderurgia superiores a dos portugueses, a esse exemplo, o referido autor destaca que em Gana e na Nigéria se utilizava enxadas de ferro muito antes que os portugueses soubessem o que era este esse instrumento.

Assim, em razão das habilidades dos africanos, principalmente, para lidar com metais, Luna e Klein (2010) informam que após 1500 o volume no tráfico de pessoas aumentou de algumas centenas anuais de cativos, na primeira metade do século, para mais de mil por ano na década de 1550 e 3 mil a partir de 1580.

Os africanos escravizados nesse momento eram objetos de propriedade valorizados pelo exercício de trabalhos essenciais ao desenvolvimento econômico da sociedade, assim, segundo Moraes (1998), é importante destacar que desde o início da escravidão, havia uma cumplicidade por parte da Igreja. A este exemplo se destacou o posicionamento do Frei dominicano Bartolomé de Las Casas que combatia o trabalho forçado dos indígenas, porém, aconselhava a introdução de africanos escravizados na colônia. Nesse contexto, o Padre Antônio Vieira, em 1661, defendeu que só

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A respeito da origem da escravidão, Pinsky (2004) ressalta que a esta prática não é recente na história da humanidade, pois já na Antiguidade verificamos sua ocorrência. No caso específico da escravidão no Brasil, não há registros de relações escravistas de produção nas sociedades indígenas, assim, Chiavenato (2012), ressalta que os índios não praticavam a escravidão, porque eles incorporavam às suas comunidades os prisioneiros que não eram executados. Ainda de acordo com o referido autor, Portugal já havia realizado experiências de escravização antes da colonização do Brasil, como ocorreu em 1441 quando Antão Gonçalves regressou de uma expedição ao Rio do Ouro levando meia de dúzia de azenegueses capturados na costa do Saara para o infante D. Henrique.

havia uma alternativa permanente à sociedade daquela época que ocorreria com introdução dos chamados escravos de Angola.

Chiavenato (2012) relata que a Igreja Católica decidiu pela proteção aos índios, pois firmou junto à Coroa portuguesa um acordo de receber 5% de comissão a partir da venda de pessoas escravizadas, assim, em contrapartida, a igreja permitia o resgate destes negros africanos e sua escravidão sob justificativa de que estes seriam catequizados. Contudo, com o valor excedente do comércio da cana-de-acúçar, a Coroa impôs à Colônia a importação de negros, o que gerou um comércio significativamente lucrativo.

Constata-se que havia uma relativa proteção aos indígenas, mas, de outro lado, fomentava-se o sistema escravagista constituído por africanos, pois estes tinham habilidades que interessavam ao desenvolvimento de atividades importantes à Coroa, como: a mineração e a agricultura.

É importante ressaltar que, segundo Klein e Luna (2009), a escravidão africana já era desenvolvida nas colônias espanholas do México, Peru, América Central e América do Sul antes da implementação desse sistema nas lavouras brasileiras.

No caso da colônia brasileira o crescente número de escravos era decorrente do fortalecimento do Brasil enquanto produtor, em um primeiro momento de açúcar, sendo que, de acordo com Chiavenato (2012), em 1550 o Brasil já era o maior produtor de açúcar do mundo.

Nota-se que neste período a colônia portuguesa se destacava pela produção de um objeto bastante demandando no momento e com alto valor no mercado europeu o que fomentou também o comércio de escravos, uma vez que estes eram a principal mão-de-obra.

De acordo com dados citados por Pinsky (2004), entre 1531 e 1575 a população de africanos desembarcados em portos brasileiros foi de 10.000 pessoas, número este que só foi aumentando e entre 1811 e 1820 a quantidade já correspondia a 327.700 pessoas.

Observa-se, assim que em 289 anos a população de negros apenas cresceu continuamente para atender às demandas do mercado internacional a partir do qual o Brasil produzia conforme as necessidades da Coroa Portuguesa.

Durante esses anos, a colônia foi muito importante para o desenvolvimento da economia mundial, pois, após o declínio da produção de açúcar, entre 1700 e 1770, a produção de ouro no Brasil correspondia à metade de toda a produção mundial contabilizada entre os séculos XVI e XVII, assim, de acordo com Chiavenato (2012), este país produziu em setenta anos metade de tudo o que foi comercializado em duzentos anos, de 1600 a 1800.

A relevância assumida pela colônia para a manutenção de Portugal se deve às riquezas naturais existentes, ou seja, no primeiro momento foi a madeira do pau-brasil; em seguida, as terras produtivas para a produção de açúcar e depois os metais preciosos com destaque para o ouro.

Nesse contexto, segundo Klein e Luna (2010), na primeira metade do século XVIII, na crescente busca por ouro, a população escrava se expandiu principalmente em Minas Gerais12 vindo preponderantemente da África. Assim, em uma amostra dos censos no começo do século XVIII, os africanos compunham mais de 90% da população escrava naquela província.

Segundo Freitas (1980), o sucesso desse sistema teve como fundamento a exploração de grande quantidade de pessoas que foram submetidas às piores condições possíveis de que se tem notícia na história dos tempos modernos.

Compartilhamos do posicionamento apresentado acima, uma vez que os relatos sobre esse período demonstram a precariedade das condições as quais os negros eram colocados, sendo inclusive considerados como objetos pela sociedade da época.

Ao adentrarmos no caso específico da Amazônia, de acordo com Salles (2004), o negro também teve uma importante atuação na formação da sociedade paraense. Nesse sentido, a entrada de africanos escravizados na localidade foi intensificada, principalmente, a partir de 1755 com a implementação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão na regência da administração pombalina.

Ainda segundo o autor acima citado, a mão-de-obra negra foi utilizada principalmente nos canaviais e lavouras de arroz, sendo interessante destacar

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Segundo Klein (1987), Minas Gerais era praticamente despovoada até o fomento da exploração de ouro e, posteriormente, diamantes que foram a base para este fenômeno ocorrido no século XVIII.

que esse sistema de plantation se consolidou mais às margens dos rios Guamá, Capim, Acará, Moju e Igarapé-Miri.

De todo modo, destacamos que em diferentes regiões do Estado do Grão-Pará já havia atenção da Coroa com relação à gestão de terras e o incentivo à extração de produtos agrícolas para a comercialização, sendo importante precisar caso do Marajó a partir da exposição de Bezerra Neto (2011, p. 147-149):

Em 23 de dezembro de 1665, a Coroa portuguesa doava a Capitania de Ilha Grande de Joanes ao súdito português Antônio de Souza de Macedo, sendo a sua primeira povoação denominada de Monforte ou Joanes. Quase um século depois, em 29 de abril de 1754, a dita Capitania reverteu ao domínio da Coroa. Nesta época, entretanto, a conquista e ocupação portuguesa da Ilha de Joanes ou Marajó, antigamente chamada Ilha dos Nheengaibas, já havia sido iniciada, destacando-se o trabalho missionário dos jesuítas junto aos índios Aruá ou Aruac, notadamente o padre Antônio Vieira. No Marajó, contudo, a presença dos jesuítas não ficou restrita à catequese indígena, uma vez que os ditos religiosos desde cedo tornar-se-iam senhores de grandes quantidades de terras. (...). Na verdade, havia também outras ordens religiosas detentoras de terras e escravos na região do Marajó, igualmente dedicando-se à criação de gado, ao cultivo de cana-de-açúcar, entre outros produtos agrícolas, além da coleta das drogas do sertão. No século XVIII, por exemplo, nas fazendas carmelitas e mercedárias havia “grande número de escravos negros”. (...). Não é à toa, portanto, que sendo desocupadas pelas ordens religiosas, após a sua expulsão da Colônia, e transferidas em grande parte pela Coroa para a posse de particulares, particularmente as antigas propriedades jesuíticas, “essas fazendas acabaram por tornar-se a base econômica para famílias política e socialmente eminentes como os Bezzera, os Chermont, os Lobato, os Miranda e os Montenegro. Por outro lado, a obtenção de títulos de sesmarias, por parte dos colonos, demonstra- nos que o processo de formação de grandes propriedades de terras, no Marajó, já encontrava-se em curso na segunda metade do século XVIII.

Nesse momento ocorreram importantes mudanças na organização político-administrativa da colônia, uma vez que, de acordo com Klein (1987), o Rio de Janeiro despontou em protagonismo frente às demais províncias em razão do eficiente transporte marítimo e comércio internacional, chegando a comportar naquele período uma população de 50 mil habitantes, ultrapassando, assim, a relevância da Bahia como centro político da colônia, havendo, então, a mudança da capital da colônia de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763, uma vez que a Coroa havia reconhecido a nova realidade configurada.

A respeito da escravidão negra no Grão-Pará, Bezerra Neto (2001) informa que durante grande parte do século XIX o principal porto para entrada

de africanos escravizados na região amazônica ocorria através da cidade do Pará ou Belém, sendo solicitada à Câmara de Vereadores de Belém medidas mais eficazes quanto ao fornecimento de negros para trabalharem nas roças e lavouras. Assim as pessoas escravizadas foram inseridas nessa localidade por meio da chamada Companhia de Comércio do Maranhão a fim de atender também às demandas dos colonos da capitania do Grão-Pará.

Nesse mesmo sentido se posicionam Marin e Castro (2004) ao afirmar que os moradores do Estado do Grão-Pará e do Maranhão haviam tido inicialmente pouco sucesso na implementação da mão-de-obra negra na Amazônia, o que somente veio a mudar a partir da metade do século XVIII, em que o comércio passa a se tornar mais intenso na região através da atuação da Companhia do Comércio do Grão-Pará e Maranhão.

Ainda nesse contexto, com a vigência da Lei de 6 de junho de 1755 que determinava a liberdade da população indígena na Amazônia, sendo posteriormente regulada pelo ato de 3 de maio de 1757, houve uma maior carência de mão-de-obra fomentando a aquisição de africanos facilitada pelos incentivos fiscais da Coroa para o tráfico entre as praças africanas e a região amazônica.

Marin e Castro (2004) destacam que a partir de 1765, os espaços rurais de Belém, capital do Estado do Grão-Pará, já apresentavam transformações como aumento demográfico a partir da intensificação da colonização e implementação dos negros africanos, sendo que as denominadas freguesias campestres de São Domingo de Boa Vista, Rio Acará, Rio Moju, Rio Bujaru e Rio Capim concentravam 62% da população total.

Dessa forma, houve um grande adensamento populacional em latifúndios e fazendas através do primeiro sistema de concessão territorial na colônia que se constituía a partir das sesmarias com base na Lei das Sesmarias de 1375 criada em Portugal para combater a crise existente na Europa.

É relevante destacar que os primeiros passos no sentido de abolição da escravidão negra ocorreram ainda no Brasil-colônia e, segundo Bethell (2002), no começo do XIX, quando a Grã-Bretanha começou a fortalecer o discurso contrário à utilização de negros escravos no comércio, Portugal era o

que mais que despontava como o maior comercializador desse tipo de mão- obra.

Em 1807 já se apresentavam os primeiros sinais de que a abolição da escravidão seria um marco necessário para consolidação de um novo sistema econômico que não mais comportava a exploração da força de trabalho dos indivíduos sem uma contraprestação pelo trabalho.

De acordo com Chiavenato (2012), a vinda da família real para o Brasil em 1808 representou um marco histórico nesse período, sendo que já nessa época se observavam revoltas em diferentes províncias, como o caso dos hauças da Nigéria e do Níger que junto com os nagôs do sudoeste de Daomé juntaram-se em uma rebelião e fugiram de seus senhores em janeiro de 1809, na Bahia.

Contudo, destacamos que desde a invasão do Brasil por Portugal se estabeleceu na colônia portuguesa uma dinâmica socioeconômica baseada na distribuição de terras para a produção de materiais que atendessem ao mercado europeu, sendo estas atividades desenvolvidas principalmente com a utilização da mão-de-obra escrava que fomentou o mercado de negros africanos, o qual durante 1500 a 1822 apresentou uma linha contínua de crescimento nas Américas.