1. A PROFESSORA E A PESQUISADORA: O QUE FALTA, O QUE
1.4 O Mestrado Profissional em Letras: PROFLETRAS
Para desenvolver esta pesquisa, resolvi participar da seleção do Programa de Mestrado Profissional em Letras (PROFLETRAS) ofertado em rede nacional que conta com a participação de instituições de ensino superior públicas, coordenado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e que objetiva formar professores de Língua Portuguesa, da rede estadual de ensino, da Educação Básica, que possam refletir sobre usos da linguagem da sociedade contemporânea, considerando princípios da construção de uma educação linguística que vise a práticas sociais do uso da linguagem.
Em Salvador, o PROFLETRAS tem como sede a Universidade Federal da Bahia (UFBA) que elegeu, como trabalho final, a escrita de um memorial autobiográfico, visando uma reflexão sobre o caminhar pessoal e profissional do professor. Vim em busca de novos olhares, novos conhecimentos e reflexões que me proporcionem ampliar meu conhecimento e internalizar embasamento para a minha práxis pedagógica. É um mestrado constituído de uma única área de concentração: Linguagens e Letramentos à qual se vinculam duas linhas de pesquisa: Teoria da linguagem e ensino e Produção textual: diversidade social e práticas docentes na qual me insiro por focar, também, em estudos sobre educação inclusiva.
Tive conhecimento sobre o Mestrado Profissional em Letras (PROFLETRAS) em 2014 e resolvi participar do processo seletivo. O exame nacional é composto de 20 questões objetivas e uma redação. Fui aprovada, porém não classificada devido ao critério de desempate de idade. No ano seguinte não tive interesse em participar do processo seletivo, já no ano de 2016 resolvi submeter-me ao processo seletivo novamente e, quando soube da minha aprovação, fiquei feliz e ansiosa para iniciar esse novo caminhar na minha vida pessoal e profissional; afinal, faria um Mestrado que melhoraria minha prática pedagógica.
Quando fiz a prova de acesso ao Mestrado Profissional em 2016, a concorrência foi de 263 candidatos para 22 vagas. Desses 22 aprovados, lista divulgada em 12/12/2016, apenas 20 mestrandos começaram a cursar, já que dois tinham passado também no mestrado acadêmico, fazendo a opção de
seguir esse caminho. Na quarta turma do PROFLETRAS, da qual faço parte, foram disponibilizadas bolsas de estudo para 30% dos aprovados, ou seja, apenas seis cursistas que contemplaram os critérios estabelecidos pelo Programa, dentre eles distância do polo sede de aula presencial, foram selecionados. Quanto à liberação de parte da carga horária, todos que deram entrada tiveram seus pedidos indeferidos.
Logo de início começavam a aparecer dificuldades para cursar o Mestrado: conciliar trabalho de 40 e/ou até 60 horas com as demandas exigidas pelas disciplinas. Em primeiro lugar, negociar com a gestão para flexibilizar o horário de trabalho; Em segundo lugar, fazer as leituras e trabalhos solicitados por cada disciplina; Em terceiro lugar, conciliar aulas, nos dois primeiros semestres, todas as segundas e terças das 13h30min às 17h30min e das 18h às 21h30min e nos outros dias da semana ministrar aula em dois turnos de classe regular de ensino.
Em Maio de 2017 aconteceu a aula inaugural do PROFLETRAS na Universidade Federal da Bahia (UFBA). A aula começou com a apresentação de professores pela coordenadora local do Programa, professora Suzane Lima, assim como nos deu uma visão geral do curso e explicou que um dos objetivos era promover uma reflexão sobre a prática em sala de aula com o desenvolvimento de uma proposta de intervenção que buscasse transformar a forma de ensinar. Em seguida, foi passada a voz à professora do instituto de Artes que abordou o tema “Arte no Currículo”. A professora, em sua abordagem, defendeu que Arte é uma disciplina que ajuda na formação do ser.
Depois da aula, tive contato com alguns colegas da turma. Senti que essa experiência me traria um grande crescimento profissional e pessoal.
Foram quatro disciplinas no primeiro semestre, duas de fundamentação e duas obrigatórias: Elaboração de Projetos e Tecnologia
Educacional, ministrada pela professora Alvanita Almeida Santos; Alfabetização e Letramento, ministrada pela professora Simone Bueno; Texto e Ensino, ministrada pelo professor Júlio Neves Pereira e a disciplina Fonologia, Variação e Ensino, ministrada pela professora Juliana Ludwig.
A disciplina Elaboração de Projetos e Tecnologia Educacional nos levou a elaborar o primeiro esboço da proposta de intervenção – tema,
problemática, objetivos, metodologia, fundamentação teórica, cronograma. Qual a relevância social da proposta? Sobre o que seria a proposta? Com qual turma seria aplicada? Qual o resultado esperado?
A professora da disciplina propôs uma reflexão crítica acerca do problema a ser resolvido; indicou leituras sobre metodologias de pesquisa e elaboração de um pré-projeto. As aulas abriram debates e ampliaram olhares para a pesquisa acadêmica e a intervenção ligando, assim, minha ação de professora e de pesquisadora.
Ao propor um estudo sobre o caminho da pesquisa, a disciplina levou- me a refletir sobre qual tipo de pesquisa é voltada para a população estudada e sua transformação social. Para essa transformação acontecer, precisei me transformar primeiro: mergulhei no cotidiano da comunidade escolar, conheci melhor meus alunos e meus colegas de profissão. Foi nesta disciplina que, primeiro, demonstrei meu interesse em trabalhar com alunos surdos e o ensino da Língua Portuguesa como segunda língua.
Na disciplina Alfabetização e Letramento pude ampliar/ aprender sobre os conceitos de alfabetização e letramento que contribuíram para pensar o ensino de Português como segunda língua para alunos surdos.
De acordo com Magda Soares (2000), em seu livro Letramento: um
tema em três gêneros, os conceitos de alfabetização/letramento resultam em
práticas diferentes: o primeiro, supõe a aprendizagem da leitura e escrita, o domínio da decodificação e codificação da língua escrita; por outro lado, o segundo pressupõe estado ou condição de quem, não apenas sabe ler e escrever, mas utiliza socialmente a leitura e a escrita adequadas aos contextos sociais. A alfabetização em Língua Portuguesa é fundamentada na relação som/fonema inacessível ao aluno surdo, levando a inferir que a metodologia utilizada para alfabetização de ouvintes, na qual a oralidade é requisito fundamental ao domínio da escrita, não funciona com os alunos surdos. O ensino de Língua Portuguesa para surdos deve pautar-se em uma metodologia que não enfatize a relação letra-som, mas sim numa metodologia que valorize estratégias visuais e a língua de sinais. (FERNANDES, 2006, p. 132-133)
A partir das leituras sugeridas nesta disciplina, comecei a me indagar sobre quais seriam as formas de “letrar” os alunos surdos e desenvolver a
competência leitora a fim de possibilitar uma inserção ativa desses sujeitos no mundo letrado. Segundo Ângela Kleiman (2005, p.5) “... a escrita está por todos os lados, fazendo parte da paisagem cotidiana”, ou seja, não está restrita ao ambiente escolar e nada melhor para trabalhar esses usos da língua do que a perspectiva dos gêneros discursivos.
A escolha dos gêneros sempre era feita por mim, usando critério de gosto pessoal ou da necessidade para um saber formal. As discussões e leituras realizadas na disciplina levaram-me a perceber a necessidade de democratizar a escolha dos gêneros a serem trabalhados com meus alunos.
Na disciplina Texto e Ensino, o professor, Júlio Neves, propôs uma atividade de análise de um texto, fazendo-nos refletir sobre a construção do sentido numa abordagem sociointeracionista que considera o sujeito, o contexto histórico, as condições de produção, a ideologia presente no texto. Também estudamos sobre a concepção de língua como código que Marcuschi (2008, p.60) afirma ser uma visão ingênua e uma perspectiva pouco útil, mas muito adotada, em especial pelos manuais didáticos, ao tratarem da compreensão textual.
O professor da disciplina sempre levantava provocações a fim de nos fazer refletir sobre a teoria e a prática. Essas provocações contribuíram para a formulação da minha proposta de intervenção. Pensar no texto como lugar de interação entre leitor/ escritor. A disciplina sugeriu leitura de Koch, Bakhtin, Marcuschi e Dolz, Noverraz e Schneuwly que foram essenciais para a elaboração da minha intervenção.
A disciplina Fonologia, Variação e Ensino abordou a diferença entre fonética e fonologia e sobre o ensino das variedades da língua. Para aprendizagem pessoal foi muito proveitoso, mas, como envolve a relação som/letra, não pude usar na minha proposta de intervenção.
No segundo semestre cursei mais quatro disciplinas, sendo três obrigatórias e uma optativa: Gramática, Variação e Ensino, ministrada pela professora Daniele Oliveira; Aspectos Sociocognitivos e Metacognitivos
da Leitura, ministrada por professor Júlio Neves Pereira; Leitura do texto Literário, ministrada pelo professor Márcio Muniz, e a optativa, Produção de Material didático para o ensino de Língua Portuguesa, ministrada pela
Na disciplina Gramática, Variação e Ensino, abordamos a teoria sociointeracionista e qual gramática melhor se adequa a essa teoria. As aulas foram desenvolvidas por meio de seminários e ao final produzimos, em dupla, um material didático, para socialização com o grupo, acerca do ensino de gramática pautada na abordagem sociointeracionista.
Em Aspectos Sociocognitivos e Metacognitivos da Leitura, tive acesso de forma mais profunda aos estudos das Estratégias de Leitura de Isabel Solé e aos estudos de Ângela Kleiman sobre Oficinas de Leitura que contribuíram para a compreensão da formação de leitores competentes. Solé (1998) afirma que leitura é uma atividade individual que precisa ser ensinada a depender do objetivo da leitura. Muito do que aprendi nesta disciplina – com seminários, debates com o grupo e com o professor – serviu de norte para meu projeto de pesquisa do ensino de leitura para alunos surdos.
Na disciplina Leitura do Texto Literário, começamos com a escrita sobre o que é texto literário, quem é o leitor de texto literário para reformular concepções de literatura e seu ensino. Nas discussões, em sala, ficou evidente nas falas dos colegas que o ensino da literatura ainda é muito incipiente nas escolas públicas. O professor sugeriu leituras acerca do ensino de literatura nas escolas, por que ler os clássicos, o que é considerado literatura gerando acaloradas discussões. O professor proporcionou, também, o contato com duas especialistas: professora Suzane Lima que abordou o ensino da literatura indígena – Lei 10.639/03 e a professora Denise Carrascosa que abordou a literatura africana e afro-brasileira – Lei 11.645/08.
Na disciplina optativa Produção de Material Didático para o Ensino
de Língua Portuguesa começamos com uma reflexão sobre educação a
partir do documentário “O invasor americano (2015)”. Fizemos, coletivamente, um paralelo entre a nossa educação pública com a educação de países como Finlândia, Portugal, França. Nesse documentário fica claro que a educação deve ser atrativa e de qualidade para todos.
Cursei, no terceiro semestre, aulas somente às terças- feiras das 13h30min às 17h e das 18h às 21h30min, mais duas disciplinas optativas:
Literatura Infanto- juvenil, ministrada pela professora Mônica Menezes e Estratégias do Trabalho Pedagógico com a Leitura e a Escrita, ministrada
Na disciplina Literatura Infanto-Juvenil aprendi sobre o que é literatura infantil e sua história, a literatura juvenil e sua história, as questões de gênero, sexualidade e aspectos étnicos-raciais presentes na literatura infanto-juvenil, por que estudar literatura, entre outras questões. Segundo Jacinto do Prado Coelho (1976, p. 46), a literatura não se faz para ensinar: é a reflexão sobre a literatura que nos ensina. E a professora levou-me a refletir, a partir da análise de textos infanto-juvenis, sobre as questões ideológicas e culturais presentes nas obras analisadas e discutidas em sala.
Eu lembro da análise da obra “A Lagartixa verde” de João Paulo Vaz aparentemente fácil para leitura de jovens mas que, após as discussões orientadas pela professora, verificamos as várias interpretações que são permitidas. Outra leitura que causou muito debate, na turma, foi a leitura de
”O Abraço” de Lygia Bojunga que trata de temas polêmicos como a morte, o
estupro, o perdão. Apesar de não contribuir de forma direta com minha proposta, as discussões proporcionadas pela disciplina foram muito proveitosas. Para avaliação final a professora solicitou a produção de uma sequência para trabalhar o texto literário Infanto-juvenil com alunos do Ensino Fundamental.
E na disciplina Estratégias do trabalho pedagógico com a leitura e a escrita, começamos a (re)analisar a obra de Dolz, Noverraz e Schneuwly ( 2004) sobre Sequência Didática já trabalhada na disciplina Texto e Ensino. A professora proporcionou debates sobre o ensino da leitura e da escrita na escola, relação entre prática de ensino real e subsídios teóricos, a formulação de um conceito de problema e, para avaliação final, a elaboração, em dupla, de uma proposta para o tratamento de um problema de língua portuguesa.
Não posso deixar de falar que, além das disciplinas cursadas, ainda passei por um exame de proficiência em língua estrangeira, logrando aprovação em Janeiro de 2018. Em Maio deste mesmo ano, soube da obrigatoriedade de submeter meu projeto de pesquisa ao Comitê de Ética e que só poderia aplica-lo após aprovação que ocorreu em Outubro/2018.
Em Junho de 2018, a banca de qualificação contribuiu de forma muito significativa com a minha pesquisa, meu agradecimento ao meu orientador Prof. Dr. Júlio Neves Pereira e às professoras Nanci Bento e Simone Assumpção.
Aqui, outra colega abandona o PROFLETRAS. Não conseguiu conciliar a pressão com as demandas pessoais. Mais uma baixa no nosso grupo. Relembro, aqui, também, que pensei em desistir, pois estava tendo crises de ansiedade, indo parar no hospital em uma dessas crises, mas minha família (esposo, filho e meus pais) e amigos e colegas me incentivaram e deram força para eu continuar. Graças a eles e a Deus superei mais essa fase.
Todo esse refazer do meu percurso de formação docente, deixa claro, para mim, de como cada leitura, cada pessoa com as quais convivi contribuíram para minha renovação pessoal e profissional. Esse percurso não se encerra com o PROFLETRAS que me forneceu a consistência teórica para refletir sobre qual concepção de língua devo fundamentar minha prática pedagógica e quais teorias validam meu projeto de intervenção. Inúmeras pesquisas na área educacional demonstram a necessidade de projetos que tomem como ponto de partida a prática escolar (“como é feito”) e projetos centrados no “como fazer”. Como afirma Sanchez Vásquez (2007, p. 78), a teoria em si não transforma o mundo, mas pode contribuir para sua transformação, desde que assimilada por aqueles que vão fazer, com seus atos reais, efetivos, essas transformações.
A teoria só se concretiza na materialidade da prática e, nessa pesquisa, tento clarificar experiências significativas para a minha formação e ascensão profissional. O memorial de formação serve como instrumento para meu autoconhecimento, como minhas crenças, valores, modo de pensar, minhas concepções e escolhas, minhas experiências e vivências influenciaram meu percurso profissional acadêmico, minha história como processo de “pesquisa-ação-formação”. Já dizia Paulo Freire (2002, p.68) “Ninguém nasce educador ou marcado para ser educador. A gente se faz educador, a gente se forma, como educador, permanentemente, na prática e na reflexão sobre a prática.”
Aproveito para finalizar o capítulo falando da importância da formação continuada para nós, professores. Freire (2001, p.43) destaca que “[...] na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática”. É com esse pensamento
que me motivei a participar da seleção de Mestrado: formação continuada para atualizar meus saberes e aprofundar meu conhecimento prático buscando embasamento teórico sobre o ensino de português como segunda língua para alunos surdos atendidos no Atendimento Educacional Especializado.