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O mito como fortalecedor das origens

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CAPÍTULO 2 DEUSAS E O IMAGINÁRIO: UMA TENTATIVA DE

2.3. A mulher e o mito

2.3.1. O mito como fortalecedor das origens

Mythos, do grego, significa narrativa das origens, para que esse conjunto

imaginação coletiva continue a alimentar desses mesmos mitos e teologias arcaicas, independentemente da roupagem que vão adquirindo com o decorrer dos tempos. A narrativa cresce junto ao imaginário popular (MALINOWSKI, 1988), a uma linguagem da imaginação.

O mito grego é dado como verdadeiro, pois, quem narra, é pessoa fidedigna do povo. A autoridade do narrador vem do fato dele ser testemunha direta do acontecimento ou de receber a narrativa de outrem (CHAUÍ, 2003). Mister, de toda cultura, o mito fortalece a tradição, ao valorizar e eivar a sua origem no patamar divino (MALINOWSKI, 1988).

A função social do mito apresenta-se bem delineada por Sagrera (1967, p. 6- 7):

"Cada sociedad según su modo de ser, concibe de una manera peculiar su unidad, y al expresarla toma conciencia de su existencia;... Ni um rey, ni una bandera, ni ninguma otra cosa puede ser la encarnación de un grupo como lo es el mito." ..."el mito fue el símbolo unificador del grupo social en cuyo seno fue elaborado. Satisfacia en ese grupo la necesidad intelectual de saber y de compreender, y servia de base a la religión. El mito mantenia de esta manera una especie de disciplina social".

Malinowski (1988) acredita que o mito existe por força de profundas necessidades religiosas, anseios morais, servilismos sociais, direitos e mesmo as condições práticas. Além disso, o mito preserva e impõe a moralidade, reafirma a força do rito e aplica preceitos práticos para que se dê norte à vida humana. Da mesma forma podemos inferir ao modelo do mito de Malinowski (1988) o surgimento dos provérbios e a alusão ao imaginário.

Lévi-Strauss (1979) busca apreender o mito por um caminho diverso. Apesar das diferenças culturais, a humanidade faz parte do mesmo universo. Todos possuem as mesmas capacidades. O mito é uma máxima que parte da atitude

intelectual, e envolve o mundo, a natureza e a própria sociedade. Para Eliade (1972, p.11):

"O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do "princípio". Em outros termos, “o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais”, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma "criação": ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser".

Campbell (1992, p.12) traz um ponto de vista psicológico e, de certo modo, aprofundado em aspectos já abalizados, afirma que os mitos são “pistas” que nos auxiliam a buscar, “dentro de nós mesmos, a experiência de vida, isto é, a mitologia ensina sobre a própria vida”. Nos mitos de todos os povos, as imagens são as mesmas e falam dos mesmos problemas. Ainda acredita que:

"Todos os deuses, todos os céus, todos os mundos estão dentro de nós. São sonhos amplificados: e sonhos são manifestações, em forma de imagem, das energias do corpo, em conflito umas com as outras" (CAMPBELL, 1992, p. 41).

“O mito é o sonho da sociedade, a imagem antecipada do real” (JEUDY, 1990). Assim, o mito seria um sonho público, enquanto o sonho seria um mito particular, privado” (CAMPBELL, 1992, p. 41). A riqueza dos mitos não está em esclarecer ou desvendar algum tipo de acepção para a vida, mas o de ser um registro misterioso da própria experiência de estar vivo.

Para Heráclito, o logos é a eterna luta pela verdade, que faz com que as coisas sejam como são, que existam enfim o eterno fluir que se integra ao cerne do mito. Campbell, registra que o mito capta a vida nesse eterno fluir (1997, p. 29-35),

essa relação entre mito e logos traz o pensamento contemporâneo para o registro do misterioso e da própria vida.

A mitologia tem a ver com a sabedoria da vida. A cultura e suas especificidades integram o indivíduo numa sociedade que de certa forma, tem no mito um servo que se presta a ser a bússola do nosso consciente. A riqueza simbólica do mito, o seu conjunto, faz iluminar as suas múltiplas faces evocadas pela história. Se focalizarmos uma determinada sociedade, que seja concreta, que preserva sua mitologia, torna-se ainda possível captar outras dimensões do mito.

Uma das características marcantes da tradição oral (FIORIO, 1995; maneira milenar de repercussão do mito e dos provérbios) é que ela é transmitida através da memória das pessoas, a memória é a guardiã da história, da “tradição” (HOBSBAWM, 1997) e da continuidade do mito. Para Magnoli (1997, p. 290-1) a manifestação do mito é ponto contribuinte para o processo histórico:

“Um mito não é uma mentira, ou uma falsificação. A produção da mitologia ... opera pela seleção e hierarquização dos eventos e processos históricos. Desse esforço emerge uma leitura - uma interpretação ou uma tradução - que se apresenta como narrativa histórica... atribui aos eventos e aos homens do passado responsabilidade por aquilo que está realizando: a fundação imagináriae simbólica da nacionalidade. A crítica da narrativa mitológica só pode ter sucesso se, antes de tudo, for capaz de definir adequadamente o seu objeto, que é um relato historiográfico”.

O poder do mito habita justamente na força do imaginário, na repetição das narrativas, que por fim são introjetadas como relatos verdadeiros, exibindo a ordem das coisas que é estabelecida pela tradição. Essa pode ser a face perpétua do mito.

Aristóteles já dizia que não poderia ocorrer nenhum processo mental sem as imagens (imaginário), que são a base da memória. Assim o narrador, embora

respeitando a temática central da história, introduz imagens e situações novas, além de comentários que ele próprio elaborou.

A memória tenderá sempre a fazer do mito um aparelho de defesa e validação das condutas que têm como garantia a sustentação do sistema de poder vigente.

Poderia dizer que um mito é uma história que se refere “pedagogicamente a uma realidade ainda misteriosa”, a uma experiência singular que explica um estado de coisas existentes no cosmos ou nas relações estabelecidas pela sociedade humana (MESLIN, 1978, p. 229s).

O mito gerado nas zonas mais profundas do ser, além da linguagem é uma rica fonte de informação real, espiritual... Ao ser nomeado deixa-se impregnar pela história e incorpora aos desejos humanos. Na vida social oferece uma base sólida para a tradição, ao mesmo tempo em que atua como força cultural, revolucionária ou conservadora.

O histórico do mito não é uma passagem exemplar (pois é imaginária), mas o fato do humano querer interpretar a forma da conexão com o mundo metafísico dos Deuses, está refletida no relato positivo da imagem contínua do feito primordial (CROATTO, 2001).

A mulher-deusa está inserida na seção do mito e da história, assim acrescenta-se a essa frase o pensamento de Croatto (2001, p. 301), que declara:

“O mito pretende ser ‘história verdadeira’, como dizia Rafael Pettazzoni (...), assim como todos os fenomenólogos da religião. Acontece que o mito não está localizado no plano dos acontecimentos contingentes, que são estudados pela historiografia. Sabemos que imagina um acontecimento primordial, que evidentemente nunca existiu do ponto de vista da história fática e, portanto, não é um acontecimento recuperável por meio dos monumentos culturais, entre eles, a escritura. O mito pertence a um tempo e um espaço diferentes (...), que não correspondem a (sic) historiografia

determinar. O que o mito narra é um transacontecimento que tem a função de ser o modelo exemplar de acontecimentos históricos”.

Croatto assegura que “o mito é um relato sobre uma ação ou acontecimento dos deuses, que se dá no princípio (do mundo físico ou da história) e expressa o sentido de uma realidade, instituição ou costume do presente” (CROATTO e outros, 1985, p. 42) declaração similar a de Pixley: “criação (...) não é um mero começo das coisas em um passado distante. No rito da criação o mito se faz uma experiência presente” (1971, p. 50).

Nesse sentido, Campbell (2005) declara que as imagens do mito mostram o desígnio de uma atitude, o espelho de uma posição, um caráter de vida, onde regras ou formas não podem ser abandonadas, pois, corre o risco da mitologia dissolver, e, com a mitologia, a vida.

Cada mito está configurado para dizer algo sobre o presente, não sobre o passado. O passado do mito é o sentido do presente vivido (CROATTO, 2000, p. 15- 16). Nas palavras de James (1973, p. 108-110), “a mitologia surge a partir das realidades concretas do presente” e ainda:

A função do mito consiste em consolidar e estabilizar a sociedade; sobre a base da psicologia da massa e a lealdade inquestionável a um chefe ou a um grupo, dotados de uma autoridade sobrenatural ou quase divina, cumpre seu objetivo como uma força cultural ou uma carta constitucional sociológica (JAMES, 1973, p. 110).

Doravante, esta é a imagem que repercute da mulher–deusa proverbiana, pois a sua realidade concreta está na prática dos rituais de leitura, no exemplo imitado, no ideal, no desejo de replicar tais ações do seu talento e da sua força. Todos os alicerces em que se aprofunda a consciência mítica, tanto em sua variante inicial

quanto em seus estudos metafísicos, são, destarte, atos de declaração de valores comumente aceitos (KOLAKOWSKI, 1981).

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