1 INTRODUÇÃO 23 1.1 QUESTÃO NORTEADORA
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 SAÚDE MENTAL E REFORMA PSIQUIÁTRICA BRASILEIRA
2.1.4 O Mito da neutralidade cientifica na Saúde Mental
O campo da saúde mental, mais especificamente o hospital psiquiátrico, foi tema de reflexões de Michel Foucault em diversas obras, sendo que em algumas delas, o debate se voltou mais especificamente para a questão do saber atrelado ao poder enquanto relações estabelecidas neste campo. Para o autor a ideia de desrazão associado ao sujeito dito louco foi o pano de fundo dos alienistas, empreendendo um papel de dominação e de controle destes sobre os sujeitos “insanos”. Isso porque o hospital foi concebido não como espaço de saúde e de cuidados, mas para cumprir uma função social, regida por questões político-ideológicas da época, na perspectiva do movimento de progresso capitalista configurado a partir da revolução francesa.
Nesta perspectiva, para Foucalt (2007), o avanço da ciência positivista como método estava longe de ser uma postura neutra. Do contrário, trata-se de uma “ferramenta" ideológica que não poderia ser descolada do contexto histórico e cultural onde estava inserida. Para o filofoso, toda estrutura político ideológica busca perpetuar-se ao longo do tempo, e para isso ela se utilizaria de todos os mecanismos possíveis para manter seu status. Compreende que a ciência empírica acabou por colocar suas ações a serviço desta busca por manter um dado regime de poder ideológico. Neste sentido:
A influência da ideologia sobre o discurso científico e o funcionamento ideológico das ciências não se articulam no nível de sua estrutura ideal (mesmo que nele possam traduzir-se de uma forma mais ou menos visível), nem no nível de sua utilização técnica em uma sociedade (se bem que esta possa aí entrar em vigor), nem no nível da consciência
dos sujeitos que a constroem; articulam-se onde a ciência se destaca sobre o saber. Se a questão da ideologia pode ser proposta à ciência, é na medida em que esta, sem se identificar com o saber, mas sem apagá-lo ou excluí-lo, nele se localiza, estrutura alguns de seus objetos, sistematiza algumas de suas enunciações, formaliza alguns de seus conceitos e de suas estratégias; é na medida em que, por um lado, esta elaboração escande o saber, o modifica, o redistribui, e, por outro, o confirma e o deixa valer; é na medida em que a ciência encontra seu lugar em uma regularidade discursiva e, por isso, se desdobra e funciona em todo um campo de práticas discursivas ou não. Em resumo, a questão da ideologia proposta à ciência não é a questão das situações ou das práticas que ela reflete de um modo mais ou menos consciente; não é, tampouco, a questão de sua utilização eventual ou de todos os empregos abusivos que se possa dela fazer; é a questão de sua existência como prática discursiva e de seu funcionamento entre outras práticas (FOUCAULT, 2004, p.207).
No que diz respeito ao campo da saúde mental, a ideologia positivista dominante utilizou-se de estudos e pesquisas da área para justificar ações que tinham na "superfície um respaldo científico”. Abaixo desta superfície eram o discurso positivista era utilizado para justificar ações de cunho político-ideológico que acabam por distorcer estas pesquisa, de forma a legitimar tais ações (FOUCAULT, 2007).
Sabe-se que a medicina do século XVIII tinha como referência epistemológicas a botânica, sendo esta uma ciência natural. A medicina utilizou-se tanto quanto possível do método desta ciência. Isto permitiu a aplicação dos conceitos, métodos e formas de analises ao novo “objeto" de pesquisa, o “louco” e a “loucura” (FOUCAULT, 2004).
Os conceitos que balizaram as verdades científicas da botânica passaram a ser utilizados para pesquisar o homem. Contudo, esse era muito diferente do objeto das ciências naturais. Para o autor:
No sistema epistêmico ou epistemológico da medicina do século XVIII, o grande modelo de
inteligibilidade da doença é a botânica, a classificação de Lineu. Isto significa a exigência da doença ser compreendida como um fenômeno natural. Ela terá espécies, características observáveis, curso e desenvolvimento como toda planta. A doença é a natureza, mas uma natureza devida a uma ação particular do meio sobre o indivíduo. O indivíduo sadio, quando submetido a certas ações do meio, é o suporte da doença, fenômeno limite da natureza. A água, o ar, a alimentação, o regime geral constitui o solo sobre o qual se desenvolvem em um indivíduo as diferentes espécies de doença. De modo que a cura é, nessa perspectiva, dirigida por uma intervenção médica que se endereça, não mais à doença propriamente dita, como na medicina da crise, mas ao que a circunda o ar, a água, a temperatura ambiente, o regime, a alimentação, etc. É uma medicina do meio que está se constituindo, na medida em que a doença é concebida como um fenômeno natural obedecendo a leis naturais (FOUCAULT, 2007, p.107).
Foi esse sistema epistemológico, que transposto da botânica para a medicina, balizou ideias como o isolamento do meio para que o "objeto" não sofresse influencias pelo ambiente. Com isso, acabou por reduzir a pessoa à experiencia do seu sofrimento e ao seu conjunto de sintomas. Esta visão epistemológica provocou a fragmentação do “objeto" (pessoa) e delegou ao médico o status de agente que cura interferindo nos fatores naturais que agem sobre o objeto (FOUCAULT, 2007). Ao objetificar a pessoa, todos os aspectos singulares desta são desconsiderados e, muitas vezes, visto como fatores a serem controlados ou eliminados. Neste contexto, o médico detém o papel de protagonista da delimitação dos percursos em busca da “cura”, e, portanto, dotado de capacidade de fazer as melhores escolhas e guiar os processos desta ordem.
A partir do olhar de Michel Foucault, podemos dizer que toda ciência é ideológica, não em si mesma, mas a partir do uso que se faz dela. Michel Foucalt não cria uma teoria geral do poder, considerando que não se trata de um objeto natural. Entretando, descreve o poder enquanto prática social constituída historicamente, que se manifesta tanto em macro como em micro relações entre sujeitos e Estado (MACHADO, 2007).