CAPÍTULO 1 NA TRAMA DO TRABALHO INFANTIL AS IMAGENS DE
1.4 O MITO DAS CLASSES PERIGOSAS: OUTRO INGREDIENTE NA
Que destino têm os joões-ninguém, os donos de nada, em países onde o direito de propriedade já se torna o único direito? E os filhos dos joões-ninguém? Muitos deles, cada vez mais numerosos, são compelidos pela fome ao roubo, à mendicidade,
à prostituição. A sociedade de consumo os insulta oferecendo o que nega. E eles se lançam aos assaltos, bandos de desesperados unidos pela certeza de que a morte os espera.[...]. (GALEANO, 1999, p.19).
O processo não é simples. Precisa-se forjar modelos. O anjo e o demônio. Cada qual percorrendo itinerários diferenciados. Uns passam pela escola; outros, pelas ruas, casas de correção, reformatórios, hospícios, orfanatos, asilos, workhouses, rodas e tantos outros espaços de “preparação”. No dizer de Enguita (1989, p.105), “[...] sempre existiu algum processo preparatório para a integração nas relações sociais de produção, e com freqüência, alguma outra instituição que não a própria produção efetuou esse processo.”
Não bastou só institucionalizar, mas justificar essa institucionalização. Ontem e hoje. Esse processo preparatório para o ingresso na produção vem de longa data. A simbolização da idade infantil como a idade do não- trabalho é contraditada em páginas muito remotas da história, tendo como personagens constantes os filhos dos joões-ninguém, os quais são introduzidos muito cedo num mundo que não tem nada de infantil e é regido segundo as leis da compra e venda de mercadorias e, no caso especial, da mercadoria força de trabalho. Entre umas e outras imagens de infância, é possível ir desvendando o itinerário das crianças. Diferentes percursos: casa, escola, sem escola, rodas, ruas, trabalho. Ao refletir sobre a trajetória de algumas crianças, é possível perceber que esses percursos que fazem, fornecem outras imagens que não cabem mais nas imagens tão certinhas que se fez delas. As repetidas imagens romantizadas da criança, carregadas de pureza, ternura e inocência, mesclam-se com outras. Por que essas imagens vão se alterando? Deterioraram as imagens ou foram deterioradas as condições de viver a infância? Compreender melhor a infância implica compreender essas trajetórias concretas que vão sendo traçadas cotidianamente, há muito tempo.
Nessa direção, ao refletir para entender a economia política da violência, Barros (1980) traz contribuições interessantes sobre as disfarçadas campanhas da dramatização da criminalidade e o discurso das funções da insegurança encobrindo a delinqüência oficial e financeira, reforçando “os mecanismos de controle e de repressão seletiva, voltada, sobretudo, contra a classe trabalhadora (a classe perigosa) e os ‘inimigos internos’. Embora não trate especificamente da situação dos menores, o texto aplica-se a essa situação. Algumas conclusões do autor referem-se ao grande esforço empreendido para captar os aspectos sócioeconômicos do aumento da violência, embora o mesmo empenho não possa ser verificado quanto à necessidade de captar seus aspectos políticos-ideológicos. O mito das
classes perigosas, sempre composta por aqueles sobrantes, dispensáveis considerados como “fardo social”, como ameaça e perigo constantemente reforçados com os temperos das imagens divulgadas pela mídia, não deixa de destacar o pertencimento social dessas feras. Não negando o aumento da criminalidade e da violência, mas atrelando-a ao modo de produção capitalista, continua Barros (1980, p.9):
Violência, portanto aparece como sendo os crimes praticados pelos trombadinhas e não aqueles praticados pelos capitalistas selvagens. Violência, na linguagem oficial e da grande imprensa, é muito mais o caso do pobre diabo que atirou no guarda, ou do pivete que matou sorrindo, do que a exploração selvagem da força de trabalho, os acidentes nas fábricas, os manicômios. [...] A violência é sempre “despolitizada”, é sempre encarada pelo seu lado reacionário, é sempre divulgada como uma “fatalidade”, onde se conflita o “bem” (a polícia) e o “mal” (os bandidos). Os agentes dessa violência são os delinqüentes, os chamados “anti-sociais”, cujo estereótipo é o do homem humilde, do mulato, do embriagado, do operário estropiado, enfim, da quase totalidade da população brasileira. Esses delinqüentes [...] estão espalhados [...] nas imediações das fábricas, nos quarteirões proletários, nos bairros periféricos.
O exercício de reflexão feito pelo autor repõe a centralidade de repensar o que significa, de fato, segurança, insegurança e delinqüência e perceber a realidade escondida por trás dos mitos. Não há como descuidar da parcela de contribuição desses elementos na composição de uma determinada imagem de infância e justificar o discurso da necessidade do trabalho como antídoto à delinqüência.
Ao mesmo tempo em que divulga a imagem de infância-anjo, vitimizada, divulga a infância-satanizada. Todas essas imagens são utilizadas pelas classes dominantes em benefício próprio, aproveitando-se desse drama social que elas mesmas criaram. Quando se fala em aumento de violência, esconde-se o aumento do desemprego que esse mesmo sistema gerou.
Buscando compreender mecanismos usados para produzir “certos modos de sentir, pensar, perceber e agir” em relação à violência urbana, Coimbra (2001, p.17-18) analisa aquilo que se denominou de “Operação Rio” 7, a partir de “diferentes falas apresentadas em notícias, manchetes, editoriais e cartas de leitores, em quatro jornais do eixo Rio-São Paulo”. Enfatiza que essas estratégias são tão competentes chegando ao ponto de provocar em grande
7 Ocupação das áreas fluminenses consideradas perigosas - principalmente favelas – pelas Forças Armadas, polícias militares e civis, com a justificativa de acabar com a violência e o narcotráfico no Rio de Janeiro (1994- 1995)
parcela da população “aplausos e apoios aos extermínios e chacinas, aos linchamentos, à pena de morte e às mais diferentes violações dos direitos humanos.
Embora o olhar da autora não seja voltado especificamente para a infância, ela aparece nessa pesquisa, por várias páginas confirmando que o atual momento também se apresenta como privilegiado na divulgação, pela mídia, de imagens satanizadas da infância. Por trás das imagens da criança inocente e idealizada, ou das imagens da criança-monstro escondem-se as condições reais nas quais essas crianças têm de viver seus tempos. Segundo a autora,
A modernidade exige cidades limpas, assépticas, onde a miséria – já que não pode mais ser escondida e/ou administrada – deve ser eliminada. Eliminação não pela sua superação, mas pelo extermínio daqueles que a expõem incomodando os ‘olhos, ouvidos e narizes’ das classes mais abastadas. (COIMBRA, 2001, p.58)
Nada é natural. A construção social da criminalidade acaba por desviar o foco de atenção dos inúmeros problemas que a geram e faz com que “[...] todos aqueles que se tornam supérfluos, deixam de ter valor humano.” (COIMBRA, 2001, p.63). A autora vai trazendo abundantes exemplos extraídos dos periódicos para mostrar o exercício cotidiano de culpabilização da vítima, forjando através da linguagem uma impregnação dessa imagem da periculosidade das classes pobres e que portanto, requer limpeza e higienização das cidades.
A higienização e limpeza das cidades não foram obras de séculos passados. Elas continuam, hoje, sutis, transmutadas na esterilização da população pobre, nas batidas policiais nos chamados “territórios de pobreza”, nas chacinas, nas ruas transformadas em verdadeiros espaços de guerras, afinal toda uma polícia criada e praticada contra os pobres, os desassistidos.
Castel (2003, p.22) ao tratar das metamorfoses da questão social, coloca a condição de assalariado como aspecto central para se poder “mensurar a ameaça de fratura que assombra as sociedades contemporâneas e empurra para o primeiro plano as temáticas da precariedade, da vulnerabilidade, da exclusão, da segregação, do desterro, da desfiliação.” Ao reconstruir o sistema das transformações de que a situação atual é herdeira, colocando o trabalho como suporte privilegiado de inscrição das pessoas na estrutura social8, num
8 O autor, entretanto, ressalta à pagina 25: “Esse esquema de leitura não faz exatamente o corte da estratificação social [...]e a dimensão econômica não é, pois, o diferenciador essencial, e a questão apresentada não é a da pobreza, ainda que os riscos de desestabilização recaiam mais fortemente sobre os que são desprovidos de reservas econômicas.”
momento em que assola o desemprego, a flexibilização e a precarização desfaz e explica o que de fato se esconde atrás do mito das classes perigosas. Aos “inúteis do mundo”, “inempregáveis” e “desfiliados” enumerados por ele, somam-se também os sobrantes, dispensáveis considerados como “fardo social”, como ameaça e perigo.
Ao mencionar as “legalidades” que legitimaram esses processos de constituição da sociedade salarial num quadro atual em que o inempregável é o substituto do vagabundo, este tendo o trabalho como uma imposição e o outro à margem das relações salariais, desvela faces das formas de “inserção” na sociedade salarial, porém privados de toda proteção e reconhecimento.
Com isso, o autor mostra que há homologia de posição entre ‘[...] os “inúteis para o mundo”, representados pelos vagabundos antes da revolução industrial, e diferentes categorias de “inempregáveis” de hoje”’ (CASTEL, 2003, p.27), e acrescenta enfático que “após ter sido um sucesso, a condição de assalariado novamente corre o risco de se tornar uma situação perigosa.” ( p.28).
Sampaio (1986, p.7-8), usando das categorias econômicas “estoque” e “fluxo”, mostra que, no Brasil, acumulou-se do passado um
[...] estoque de menores em situação de abandono, que é espantoso e o mais grave é que nós temos um fluxo que joga o menor abandonado todo o dia no mercado. [...]. Não adianta resolver problema de estoque. O fundamental é resolver o problema do fluxo [...] porque a cada sete meninos que a gente tira da situação de abandono, o sistema põe dezessete na mesma situação. [...] Como é que pára o fluxo? O fluxo quer dizer aquilo que jorra, hora por hora de menor abandonado [...]. Menor abandonado é um problema e está ligado fundamentalmente à distribuição de renda.
E como diz Castel (2003, p.45) “[...] as regulações tecidas em torno do trabalho, perde seu poder integrador.” E mais ainda, as ameaças de cisão dos laços sociais põem em risco não apenas os que estão fora da margem, mas também aqueles que se alojam no interior das “zonas de integração”. A cruzada discursiva reclamando para essas crianças seu lugar na escola não seria mais uma tentativa de regulação? Há realmente interesse na escolarização ou não seria esse discurso mais uma forma de aliviar a questão social colocada por Castel?