CAPÍTULO II – O MITO DO DADO
1.2 O Mito do Dado e a Tradição
Em linhas gerais, a idéia tradicional é de que o conhecimento direto não deve ser obtido via inferência, reflexão, associação de idéias, evocação de memórias ou utilização de outro processo cognitivo construtivo. O que se exige é simplesmente a existência de um fato e a atenção da pessoa a ele a fim de que então tal fato se torne conhecimento para esta pessoa.
Nestas condições, isto é um dado. O conhecimento restante deve ser construído a partir do dado, utilizando os processos cognitivos mencionados há pouco. Aqui, o conhecimento direto
54 Há estados mentais que são atitudes proposicionais e estados mentais que não são. Exemplos de atitudes proposicionais: Acreditar que a grama é verde; Desejar ganhar na loteria; Saber que dois e dois são quatro.
Exemplos de estados mentais que não são atitudes proposicionais: Sentir-se triste; Ter medo de ratos; Sentir calafrios. Somente atitudes proposicionais podem justificar afirmações de conhecimento.
55 Uma sentença é incorrigível se não for possível corrigi-la por ou com base em outras crenças.
deve ser não inferencial e o conhecimento do dado não é epistemologicamente mediado por outro conhecimento, ele é independente de qualquer outro. Deste modo, parece natural determinar que, se vamos ter algum conhecimento, parte dele deve ser dada. Então, se a proposição p3 é indiretamente justificada pela proposição p2 e se p2 é por sua vez conhecida indiretamente, então, deverá existir alguma p1 que justifique p2. Deste modo, ou:
(a) a cadeia de justificações não termina. Aí temos o regresso infinito da justificação, porém, p3, para a qual buscávamos justificação, permanecerá refém dessa infinitude; ou (b) a cadeia de justificação, de forma circular, retorna a si mesma. Neste caso temos a aplicação de um argumento circular, que também é considerado insatisfatório; ou
(c) a cadeia da justificação segue até alcançar uma proposição que, embora seja justificada, não seja inferencialmente justificada: Aqui temos uma parada a partir do anúncio de um conhecimento auto-evidente, uma proposição que é conhecida sem o auxílio de outra proposição para justificá-la. Esse recurso evitaria que nos remetêssemos infinitamente a outras proposições. Este tipo de proposição cumpre o papel de dado.
A idéia de independência epistemológica é um dos focos da crítica de Sellars.56 Mas a epistemologia tradicional considerou que o dado não era somente a base para o resto do conhecimento, mas também seu ponto de partida. Em princípio, um dado poderia ser conhecido, mesmo que o conhecedor não conhecesse mais nada (talvez no caso do surgimento do conhecimento em uma criança). Mas, que tipo exatamente de coisas são dados? Sellars diz:
“De muitas coisas se tem dito que estão dadas: conteúdos sensoriais, objetos materiais, universais, proposições, conexões reais, primeiros princípios e inclusive o caráter mesmo de dado” (SELLARS, 2008). No entanto, as sensações comumente têm feito o papel de dado, tornando-se o maior alvo dos que atacam a idéia de imediatidade.
O mito do dado surge no contexto do problema do conhecimento do mundo exterior. Se vamos adquirir algum conhecimento sobre a realidade extramental, deve existir alguma interface entre o mental e o extramental. Mas, no contexto da tradição a mente foi considerada como um espaço encerrado em si mesmo e que utiliza para dar fé do conhecimento apenas o que está no âmbito do seu próprio reino. O objeto externo aparece na forma de um rastro deixado pela própria mente. Esta pista sensorial terá que fundamentar todo nosso conhecimento dos objetos externos, porque não há recepção fora da mente para desvelar os objetos externos ou sua relação conosco. Ainda que surjam inúmeras questões sobre a adequação da nossa
56 O argumento contra o dado centra-se na idéia de que a discriminação é condição causal para o conhecimento, não base para o mesmo. Sellars apóia a idéia de que o conhecimento de conceitos e particulares depende do conhecimento de proposições, na medida em que para as crenças terem conteúdo, devem ser relacionadas inferencialmente. Assim, a idéia de crenças que não requerem justificação e que são base do conhecimento se desbarata. Ser não-inferencial é suficiente para forma adequada de imediatidade.
habilidade de inferir de modo razoável a existência de objetos externos com base nas pistas que eles produzem, não parece que de fato, se tenha duvidado da nossa capacidade de identificar estas pistas – sensações e suas propriedades – independentemente de algum conhecimento do mundo exterior. Enquanto o mental e o não-mental forem entendidos como ontologicamente distintos, a interface entre eles será interpretada como pré-determinada. Parecerá natural assumir que há um modo particular em que o não-mental pode afetar o mental – os sentidos – e que as coisas conhecíveis diretamente são um conjunto pré-determinado que não é receptivo a mudanças conforme o nosso conhecimento cresça ou se desenvolva.
Outra característica do dado é a eficácia epistemológica. Se houvesse coisas conhecíveis independentemente de tudo o mais, se este conhecimento não pudesse e não tivesse que funcionar como suporte para outro conhecimento, seria até possível apontá-lo como um dado, mas então ele não desempenharia o papel designado tradicionalmente ao dado. Apresentamos abaixo, um esquema dos traços que podemos identificar como sendo comuns às diversas formas que poderia assumir o dado:
(1) O dado é um elemento dado na experiência57 que tem uma situação epistemologicamente positiva simplesmente em virtude de se dar nesta experiência.
(2) Certeza, independência, infalibilidade ou incorrigibilidade, embora não sem algum debate, são características que têm sido atribuídas ao dado;
(3) é epistemologicamente independente, ou seja, sua situação positiva no conhecimento não é derivada de outro tipo de conhecimento; e
(4) é epistemologicamente eficaz, ou seja, ele dá fundamento epistemológico para outros elementos da rede de conhecimentos ou aumenta a credibilidade destes elementos.
Existe algo que cumpra as características que seriam próprias do dado? Sellars dirá que não. A sua crítica às epistemologias fundacionistas é parte da “crítica geral a toda estrutura da dadidade” (SELLARS, 2008) em que se insere também a chamada ‘visão recebida’, alvo contemporâneo da crítica de Sellars.
Depois da crítica feita por Sellars, a noção de dado foi, por muitos, considerada obsoleta.
A posição não é unânime, inúmeros filósofos tentam rever a noção de dado (Alston 1998, Chisholm 1986, Bonevac, 2002). Suas objeções têm um ponto comum, atacam a tese de Sellars de que as experiências imediatas58 não podem justificar as crenças observacionais. Creio, no entanto, que é possível conceder que as experiências imediatas desempenhem algum papel causal na justificação das crenças observacionais e ainda assim, não é o caso que elas sejam a
57 O termo ‘experiência’ é interpretado em sentido amplo. Não se limita a uma experiência sensorial; pode ser a intuição de uma idéia; a apreensão de um universal etc.
58 Seguindo a terminologia de Sellars, as experiências imediatas podem ser appearings ou lookings: para fins de simplicidade, na introdução, me referirei a todos como experiências imediatas.
fundação autônoma para justificar as crenças empíricas e afirmar o fundacionismo epistemológico.
A questão focada por Sellars é: o que ocorre antes que as experiências participem da justificação do conhecimento empírico? As explicações sobre acesso privilegiado e prioridade epistêmica59 não são suficientemente desenvolvidas em Empirismo. Como resultado, estes dois temas da epistemologia sellarsiana foram atacados e a sua importância foi relegada ao segundo plano. No entanto, creio que a tese epistemologicamente mais forte levantada na primeira parte de Empirismo é que há outros estados epistêmicos que devem ter lugar antes que a experiência possa participar da justificação e que tais estados são epistemicamente anteriores à ‘experiência imediata’. Espero que a apresentação que se segue, torne clara esta afirmação.