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O MODELO AMERICANO DE ENCARCERAMENTO NO SÉCULO XIX

3 DA ADAPTAÇÃO À PRISÃO À (DES)ADAPTAÇÃO À VIDA LIVRE:

3.2 O MODELO AMERICANO DE ENCARCERAMENTO NO SÉCULO XIX

A penitenciária como se conhece atualmente, embora tenha seus primórdios nos modelos correcionais das Workhouses e do Rasphuis dos séculos XVI e XVII, consolidou-se enquanto política de controle social nos Estados Unidos na passagem do século XVIII para o século XIX. A hipótese que justifica o nascimento do sistema penitenciário foi a falência dos modelos correcionais das Workhouses dado seu caráter antieconômico. As soluções possíveis seriam ou “encontrar um sistema mais econômico de administração, ou aumentar a produtividade do trabalho institucional” (PAVARINI, 2006, p.186).

Os EUA também se utilizaram de modelos punitivos semelhantes ao suplício, sendo o Estado da Pensilvânia pioneiro na aplicação das penas mais humanas, lembrando que desde o início os primeiros colonos já marcavam a ferro quente a letra inicial do crime cometido nos transgressores, demonstrando ser a reputação e o senso de honra valores bíblicos religiosos fundamentais tão importantes quanto a pena de morte.

Até 1683 “prevaleciam as penas corporais, em primeiro lugar a pena de morte” (idem, p.159), quando William Penn, líder da seita Quaker na Pensilvânia, promoveu uma reforma penal instituindo a house of correction, inspirada no modelo do Rasphuis, destinada a transgressores que não recebiam a pena de morte, sanção reservada para crimes de alta traição ou homicídio doloso.

Dentre outros fatores, como a inspiração europeia e o desejo de emancipação política das colônias norte-americanas, há uma forte influência moral religiosa da seita Quaker, que

mesmo com a reintrodução da legislação inglesa após a morte do idealizador da reforma W. Penn, mantém revogada as execuções para o caso de crimes contra a propriedade, como o furto, que correspondia a dois terços do total dos delitos praticados no início do século XVIII (PAVARINI, 2006).

A estrutura econômica deste país era, até a última década do século XVIII, essencialmente agrária, pois “os Estados Unidos era ainda um país com menos de quatro milhões de habitantes e não possuía sequer uma cidade com mais de 50.000 pessoas” (idem, p.166). Entre 1820 e 1860 há um surto industrial, tornando-o o segundo país mais industrializado do mundo graças à indústria têxtil algodoeira, seguida da de vestuário e de máquinas e utensílios de lã, somando ao final deste período mais de um milhão e meio de operários industriais.

Neste contexto de industrialização, urbanização e formação do proletariado, surge também um problema de ordem social, o pauperismo decorrente dos processos de mobilidade interna em busca de trabalho, nem sempre correspondido, posto que neste período “o percentual de força de trabalho empregada de forma estável nunca superou 5% do conjunto da população ativa” (idem, p.179).

O controle dessas classes marginalizadas coloca-se como problema político por considerar-se que o bem-estar e a prosperidade estariam ao alcance de todos. Se a República desenvolvia-se economicamente possibilitando o trabalho, a pobreza tornara-se um problema de natureza individual e o estatuto de indigente e carente, tolerado no período colonial, adquire caráter desviante e criminoso.

A partir de 1820, o antigo sistema assistencial colonial é substituído pelo internamento nas farm-school e workhouses acompanhado do trabalho compulsório, especialmente para jovens ociosos. Da mesma forma o doente mental é visto como desagregador da ordem social justificando seu internamento compulsório, medida tomada pela autoridade pública no intuito de preservar a ordem, a disciplina e a hierarquia necessária à nova sociedade.

Os mecanismos tradicionais de resolução de conflitos, a religião e a família, são substituídos pelo poder público, dado que “as confissões religiosas, da mesma forma que a instituição familiar, sofrem uma profunda crise de autoridade, sobretudo entre a classe operária urbana, e não oferecem mais nenhuma garantia de operar como instrumentos eficazes de socialização e de controle social” (PAVARINI, 2006, p.183). Nesse quadro histórico nasce a prisão como solução ao desvio criminal.

Contraditoriamente, na medida em que a política de controle social aumenta o internamento nas casas de correção o trabalho interno torna-se improdutivo, o aprisionamento

oneroso para o Estado e o encarceramento transforma-se na pena em si, demarcando a invenção punitiva do sistema penitenciário.

Inicialmente prevalece o modelo mais econômico administrativamente, construído no Estado da Pensilvânia dominado pelo puritanismo da comunidade Quaker, a prisão como pena a ser cumprida por determinado tempo no confinamento da cela, do silêncio e da oração, inspirada no modelo de controle do Panóptico de Bentham, que tinha por princípio o fato da vigilância ser visível mas inverificável, isto é, visível porque a cela delimita o espaço e permite o controle visual sobre o encarcerado, e inverificável porque “o detento nunca deve saber se está sendo observado; mas deve ter certeza de que sempre pode sê-lo” (FOUCAULT, 2011, p.191).

Encarcerar o indivíduo é isolá-lo da sociedade a fim de impedi-lo de cometer novos crimes. Porém, outro aspecto que justificaria a privação da liberdade, segundo o sacramento cristão da penitência, seria o isolamento social necessário à reflexão, uma quantidade de tempo necessário à purificação, que neste caso não teria a função de ser uma penalidade, senão um meio eficaz de arrependimento.

O princípio básico do confinamento solitário seria confrontar o preso com seu caráter delinquente levando-o a este arrependimento. O trabalho, também individual, era improdutivo, do tipo artesanal e terapêutico, não educando o preso para a inserção na atividade industrial nascente, quando posto em liberdade. Embora este modelo fosse mais eficiente administrativamente, com a necessidade por demanda de mão de obra verificada no século XIX e o elevado nível salarial, se tornara economicamente caro para o Estado (PAVARINI, 2006).

A fim de não desprezar os aspectos positivos do sistema penitenciário da Pensilvânia, e ao mesmo tempo ajustar-se às necessidades do capitalismo industrial, surge a penitenciária de Auburn, conjugando o confinamento noturno do silêncio e da oração com o trabalho comum diurno produtivo. O modelo nova-iorquino de Auburn é mais adequado às finanças

públicas e à transformação do delinquente num indivíduo socialmente útil. O modelo disciplinar do trabalho fabril substitui a simples vigilância como punição,

considerando-se a maior facilidade em “estimular os internos ao trabalho através da expectativa de ‘privilégios’ do que através de ameaças de ‘punição’” (PAVARINI, 2006, p.191).

A execução penal estrutura a noção de tratamento penal ideologicamente sobre o condicionamento comportamental, “este critério serviu de inspiração, por exemplo, ao instituto da commutation, de acordo com o qual todos os prisioneiros condenados a penas

superiores a cinco anos de reclusão podiam obter a redução de até um quarto da pena por boa conduta” (idem, p.192). A introdução da variante da participação econômica do preso- trabalhador tem por objetivo indireto a imposição ao detento da forma moral do salário como condição da própria existência.

3.3 AS FORMAS DE EXPLORAÇÃO DO TRABALHO CARCERÁRIO NO SISTEMA