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1. Revisão de literatura

1.3. Modelos pedagógicos e curriculares na educação pré-escolar

1.3.2. O modelo curricular do Movimento da Escola Moderna

O Movimento da Escola Moderna (MEM) surgiu em 1966. Inicialmente inspirado por Célestin Freinet que via o processo de aprendizagem entre o ensaio e o erro. Ao longo do tempo, foi evoluindo para uma conceção de aprendizagem baseada nas teorias socioconstrutivistas de Vigotsky e Bruner. Estes referem que a interação organizada, entre as crianças e entre as crianças e os adultos, é que desencadeia o desenvolvimento (Folque, 1999).

Nesta: perspetiva: a: escola: é: vista: como: “um espaço de iniciação às práticas de

cooperação e de solidariedade de uma vida democrática. Nela, os educandos deverão criar com os seus educadores as condições materiais, afetivas e sociais para que, em comum, possam organizar um ambiente institucional capaz de ajudar cada um a apropriar-se dos conhecimentos, dos processos e dos valores morais e estéticos gerados pela humanidade no seu percurso histórico-cultural”:(Niza, 2013: 144), ou seja, todos

juntos, em comunidade cultural e formativa ensinam e aprendem. O mesmo autor refere que desta conceção resultam três finalidades formativas, interdependentes, que:dão:sentido:à:ação:educativa:a:“iniciação às práticas democráticas, a reinstituição

dos valores e das significações sociais [e] a reconstrução cooperada da Cultura” (Niza,

2013: 144). Através de trabalho por projetos que as crianças vivenciam, apropriam-se do conhecimento.

Por sua vez, destas finalidades emergem sete princípios que orientam a ação educativa neste modelo:

• “Os meios pedagógicos veiculam, em si, os fins democráticos da educação;

• A atividade escolar, enquanto contrato social e educativo, explicita-se pela negociação progressiva dos processos de trabalho;

• A prática democrática da organização partilhada por todos, institui-se em conselho de cooperação, abrangendo toda a vida do contexto formal de educação;

• Os processos de trabalho escolar reproduzem os processos sociais autênticos da construção da cultura nas ciências, nas artes e no quotidiano;

• A informação partilha-se através dos circuitos sistemáticos de comunicação dos saberes e das produções culturais dos alunos;

• As práticas escolares darão sentido social imediato às aprendizagens dos alunos; • Os: alunos: intervêm: ou: interpelam: o: meio: social: e: integram: na: aula: ‘actores’: comunitários como fonte de conhecimento nos seus projectos”: (Niza: 1996: cit: por:

Marchão, 1999: 8).

Existem algumas condições para que um jardim de infância se reja pelo MEM. A primeira é que os grupos de crianças estejam organizados não por níveis etários, mas sim de forma vertical, integrando várias idades, para que se garanta o respeito pela diferença, a interajuda e a colaboração nas atividades em que decorre o processo educativo. As crianças mais velhas integram as crianças mais novas no grupo e na organização da sala. Uma outra condição diz respeito à atitude de valorização continua e respeito de toda e qualquer produção das crianças. Por fim, para este modelo é imprescindível permitir o tempo lúdico necessário que permita à criança interrogar-se, suscitando assim projetos de pesquisa, que podem também ser autopropostos ou provocados pelo educador.

Relativamente ao espaço educativo, encontram-se seis áreas básicas, distribuídas à volta da sala de atividades e no centro uma área polivalente para trabalho coletivo. As áreas, denominadas também por ateliers ou oficinas, são a biblioteca, a oficina de

escrita, a área das atividades plásticas e outras expressões artísticas, a carpintaria, o laboratório de ciências e a área: dos: brinquedos: jogos: tradicionais: de: sala: e: ‘fa-de- conta’. Nas instituições que não têm uma cozinha acessível às crianças, existe também

na sala de atividades a área da cozinha e educação alimentar. Na área central, polivalente, existem mesas e cadeiras suficientes para todo o grupo, uma vez que todos os momentos em grande grupo aqui acontecem. Todas estas áreas deverão ser o mais originais possível, utilizando materiais autênticos. As paredes das salas são utilizadas como expositores das produções da crianças e será numa destas que se irão

encontrar alguns instrumentos de trabalho que ajudam a ação e processo educativo, uma vez que requerem participação efetiva, responsabilização, negociação, entre outros: São: eles: “o Plano de Atividades, a Lista Semanal dos Projetos, o Quadro

Semanal: de: Distribuição: das: Tarefas: (): o: Mapa: de: Presenças: e: o: Diário: do: grupo”:

(Niza, 2013: 151). A utilização destes instrumentos permite ao educador partilhar o poder de decisão e a avaliação com as crianças.

A organização do espaço e os instrumentos referidos anteriormente são definidos e definem a organização do tempo neste modelo. Para os seguidores do Movimento da Escola Moderna, o dia no jardim de infância organiza-se em dois grandes blocos: a manhã, que se centra em atividades sugeridas pelas crianças situadas nas diferentes áreas, e a tarde, onde o tempo é normalmente dedicado a atividades culturais que, dependendo do dia da semana, são dinamizadas pelos educadores, crianças, pais ou outros convidados da comunidade educativa. A rotina é indispensável para existir um ambiente seguro onde o envolvimento cognitivo possa acontecer. Assim, durante a manhã acontecem o Acolhimento, a Planificação em conselho, Atividades e projetos, uma Pausa, de cerca de meia hora para uma pequena refeição de fruta e recreio livre e as Comunicações de aprendizagens feitas. Após o Almoço seguem para as Atividades de

recreio orientado e para o período de repouso, as crianças que precisam e fazem a

sesta autonomamente. De seguida juntam-se na área polivalente para a Atividade

cultural coletiva e terminam o dia com o Balanço em conselho. O conselho de sexta-

feira é o grande momento de regulação da semana, uma vez que é neste momento que se faz a leitura de instrumentos como o diário do grupo. É neste conselho que os primeiros planos para a semana seguinte acontecem. As atividades culturais coletivas são de grande importância, uma vez que para os seguidores deste movimento a criança é vista como um todo, pertencente a um meio social, emocional e cultural que é diferente das outras crianças. Neste movimento, num dia da semana, os pais, familiares ou outros convidados pertencentes ao meio sociocultural da criança são convidados a participar e partilhar as suas experiências. Para Niza (1989, cit. por Folque, 1999: 11-12): “se a educação negligencia o passado da criança, inibe a sua

aprendizagem”::

Normalmente a meio da semana, o grupo sai ao exterior com o educador a fim de recolher dados para problemas encontrados ou a serem tratados em projetos de estudo. Esta é uma das formas de garantir uma ligação e assegurar a colaboração da comunidade educativa no processo educativo das crianças. Estas saídas são também uma oportunidade para devolver os resultados de alguns projetos de estudo e das soluções a alguns problemas encontrados pelas crianças.

Neste modelo, os adultos, educadores de infância, assumem-se:como:“promotores

da organização participada; dinamizadores da cooperação; animadores cívicos e morais do treino democrático; auditores ativos para provocarem a livre expressão e a atitude critica”: (Niza: 2013: 158). São os educadores que estimulam a autonomia, a

responsabilidade e o desenvolvimento cognitivo de cada criança durante todos os momentos em que se desenrola a ação educativa. A regulação da comunicação é feita

também por estes profissionais que ajudam as crianças a situarem-se no grupo, a ouvirem os outros e a colocarem as suas próprias experiencias no contexto coletivo (Folque, 1999). São estes agentes que avaliam as crianças e ajudam à sua autoavaliação:permitindo:“uma verdadeira avaliação cooperada, integrada na ação e

nas aprendizagens”: (Niza, 1993, cit. por Niza, 2013: 158) e uma monitorização do

processo ensino-aprendizagem.