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Ménard (2004) argumenta que três dimensões devem ser contempladas ao formar-se um mecanismo de governança: a capacidade de equalizar os riscos contratuais, de arbitrar adequadamente a divisão da renda gerada e a capacidade de garantir que as regras internas aos arranjos sejam cumpridas. Um dos mecanismos que pode contemplar todas as dimensões apontadas por Ménard (2004) é o mecanismo contratual. Mas, em determinadas situações, os contratos não conseguem, sozinhos, prover toda a coordenação necessária para que as transações ocorram. Para Ménard (2004), quando isso ocorre, outros mecanismos são necessários para complementar a composição da governança das transações em arranjos híbridos.

Antes de seguir para a discussão de cada dimensão e dos mecanismos apontados por Ménard (2004), deve-se esclarecer que o autor vê a governança híbrida como a somatória destes mecanismos, em que a presença de um não implica a exclusão de outro. Em seu modelo, os mecanismos completam-se, sendo que em determinadas situações um dos mecanismos é usado mais intensamente que os outros, podendo ser apontado como principal.

Outro ponto importante para a compreensão do modelo de Ménard (2004) é de que o autor valoriza a característica relacional26 dos contratos e de seu uso como estrutura básica (framework) na negociação e formatação dos arranjos. A seguir serão discutidas com mais detalhes cada uma das três dimensões27 apontadas por Ménard como desafio a ser resolvido pelos mecanismos de governança.

3.3.1 Equalização do risco contratual nas relações híbridas

O contrato é o primeiro instrumento a ser indicado para reduzir riscos processuais na coordenação e diminuir a possibilidade de comportamento oportunista dos agentes. Contratos definem especificações técnicas sobre a qualidade e quantidade dos produtos transacionados, além de conectar os agentes num cronograma comum. Os contratos ajudam a selecionar os participantes do arranjo, diminuindo a possibilidade de participação de free riders28, além de indicarem o número máximo e mínimo de participantes do arranjo. A duração dos contratos influi no horizonte da relação dos agentes e abre espaço para consideração de self-

enforcement29.

Além dos contratos, Ménard (2004) indica o mecanismo de reputação como uma possibilidade de lidar com as dificuldades de adaptação e oportunismo. Para Ménard (2004), a reputação também influi na escolha dos integrantes dos arranjos e coíbe o oportunismo dos agentes no longo prazo devido a eventual perda de valor que um agente incorreria caso resolvesse se comportar como um free rider e fosse descoberto: ele teria sua reputação destruída.

26 Conforme discutido em detalhes na seção 2.2.4.

27 A capacidade de equalizar os riscos contratuais, de arbitrar adequadamente a divisão da renda gerada e a

capacidade de garantir que as regras internas aos arranjos sejam cumpridas.

28 Free rider é um termo usado para se referir ao agente econômico que pratica ações oportunistas sobre um

grupo de que participa, expropriando valor (BAUMOL, 1952).

3.3.2 Divisão da quase-renda

Conforme discutido anteriormente30, a alocação de pay-offs é um dos grandes desafios dos arranjos híbridos. A dificuldade intrínseca de se observar a contribuição exata de cada participante do arranjo para o objetivo final da organização pode ser um grande problema. Ménard (2004) explica que os contratos conseguem lidar bem com situações em que existe a possibilidade de observar-se a contribuição de cada agente sobre o resultado final produzido pelo grupo, mostrando-se alinhado à visão de Alchian e Demsetz (1972) apresentada na Seção 2.4. Um exemplo disso nas relações de franchising seria o uso de royalties31, neste exemplo uma porcentagem sobre o valor total vendido parece retratar de forma fiel o esforço do franqueado.

Em casos em que a observabilidade do esforço e contribuição dos agentes é baixa, Ménard (2004) sugere outros mecanismos para arbitrar a distribuição dos pay-offs. O primeiro deles é a própria reputação de cada agente. Neste caso, o valor da reputação irá minimizar a possibilidade de uma atitude oportunista diante da situação em que não se pode efetivamente medir o desempenho de cada um. Uma segunda possibilidade é a indicação de poder discricionário para que alguém decida a melhor forma de resolver a questão. Esse tipo de dinâmica pode ocorrer de duas formas. A primeira delas é a indicação de delegados por parte dos integrantes do arranjo para negociar a melhor solução entre si. Comitês e assembleias seriam bons exemplos disso. A segunda forma é a criação de uma entidade para decidir os rumos do investimento conjunto. Neste caso, a situação é a em que os participantes do arranjo cedem direitos a uma entidade formal que passa a ter o poder de decisão (autoridade) sobre os investimentos e os rumos da atividade conjunta do arranjo. Como exemplo, pode-se citar a formação de joint-ventures para gerir parcerias emtre empresas.

Ménard (2004) utiliza o termo private government para referir-se a estas instituições (ou mecanismos) com capacidade de coordenar a ação dos agentes, devido à autoridade que lhes é conferida. Por serem entidades provenientes do próprio arranjo (cujo poder de coerção não

30 Na seção 2.3.2.2.

provém do Estado), elas são classificadas como instituições privadas (private). Por terem autoridade, são capazes de exercer controle e governança, daí o termo private government. Ménard (2004) está alinhado à forma como Brousseau e Raynaud (2006) definem instituições privadas (private institutions); nesta visão, os mecanismos de governança indicados são endógenos ao arranjo e complementam a coordenação exercida pelos contratos, conforme visto anteriormente, na Seção 2.6.3.

3.3.3 Salvaguardas (enforcement issues)

A terceira dimensão apontada por Ménard (2004) é a capacidade de garantir o cumprimento do acordo firmado. Para tanto os mecanismos têm que ser capazes de monitorar as atividades e, quando necessário, punir os indivíduos que não respeitarem ’as regras internas do jogo’. Contratos podem ter clausulas que salvaguardam o acordo, mas em alguns casos isso não é suficiente. Ménard (2004) explica que, em situações de grande interdependência entre os agentes e forte risco de oportunismo, é mais adequado contar com a ajuda de outras instituições de governança (private government) munidas de autoridade para disciplinar os integrantes dos arranjos.

Ménard (2004) apresenta quatro possibilidades de mecanismos capazes de promover

enforcement além dos contratos. Dois deles atuam por meio de autoridade, e os outros dois

por meio de poder de exclusão. Os que atuam por meio de autoridade são: as Instituições de Governança Formais (formal government), ou seja, entidades formais criadas pelos participantes do arranjo como no exemplo dado das joint-ventures; e a Liderança (leadership), em que uma dada empresa pode exercer influência sobre o grupo (como no caso de empresas líderes em cadeias de suprimento), estando munida de poder discricionário para tanto. Redes de Relacionamento (relational networks), ou seja, um conjunto de normas formais adotada por um grupo e a Reputação (denominada pelo autor como: Trust), são os mecanismos que atuam por meio de seu poder de exclusão para disciplinar os agentes.