4 O PERCURSO METODOLÓGICO
5 AS RELAÇÕES FAMILIARES NO PAIF: UMA ANÁLISE DAS PUBLICAÇÕES OFICIAIS E DOS RELATOS DE PROFISSIONAIS QUE O
5.1 UM BREVE HISTÓRICO DO PAIF
5.2.4 O modelo de valor em que se baseia o PAIF
Para se avaliar um serviço destinado às famílias é necessário ainda analisar o modelo cultural para atribuição de valor em que ele se baseia. Trata-se daquela dimensão do esquema AGIL indicada pela letra L (função de latência).
No caso de um serviço para a família, a partir da literatura especializada, é possível afirmar que a sua base deve ser um modelo cultural que reconhece e favorece os processos de valorização da relacionalidade, enquanto agir recíproco, reconhecendo a família como o lugar da humanização das pessoas e do tecido social. Um serviço como o PAIF deve ter como valor de base o florescimento daquelas relações orientadas ao bem-estar familiar.
As publicações oficiais sobre o PAIF parecem ir nessa direção ao afirmar que todas as famílias “possuem recursos e potencialidades que devem ser identificados e fortalecidos” (Orientações v. 1, p. 30) ou que “as dificuldades das famílias em responder às adversidades vivenciadas não podem ser utilizadas como motivo para desqualificá-las do importante papel que desempenham na vida de seus membros” (Orientações v. 1, p. 49).
Esse importante papel desempenhado pela família é identificado, na maior parte das vezes, com o cuidado e a proteção. Afirma-se, por exemplo, retomando a PNAS, que “a família é o espaço privilegiado e insubstituível de proteção e socialização primárias” (Orientações v. 2, p. 10).
Esse reconhecimento do valor da relacionalidade e da família como lugar de humanização aparece de algum modo nas falas de algumas entrevistadas, ainda que o relato da atuação prática não pareça confirmá-lo: “Pra mim família é fundamental, se você não cuida da família você não vai melhorar a sociedade, por mais que você queira” (Catarina).
Não se chega a reconhecer o valor social da família entendida como relação de plena reciprocidade entre sexos e gerações. Ao contrário, prevalece um tom de relativização, que já está expresso de algum modo no conceito de família proposto pela PNAS: conjunto de pessoas unidas, seja por laços consanguíneos, seja por laços afetivos e/ou de solidariedade. Ou seja, ignora-se o fato de que as diversas condições familiares contribuem de modo diferente para a humanização das pessoas e do tecido social.
As Orientações Técnicas falam, por exemplo que “é necessário romper com a imagem da família somente como espaço de proteção e cuidado mútuos, contemplando-a também como lugar onde podem existir conflitos e violências” (Orientações v. 1, p. 20) ou que “é indispensável que os técnicos ultrapassem o conceito da família ‘ideal’, assumindo a família ‘real’: lugar de cuidados e afeto, mas também de conflitos, diferenças, dificuldades e, por vezes, de violação de direitos” (Orientações v. 1, p. 27). É verdade que encontramos casos de violência, abusos e más condutas nas famílias, porém, como recorda Donati (2012a), é importante entender que estes fatos acontecem na família, mas não são o produto da família.
Em diversos momentos nas publicações oficiais sobre o PAIF é possível perceber a ausência daquela valorização da relacionalidade, do reconhecimento do bem-estar da pessoa como “um bem que emerge das relações que a pessoa tem com o mundo circundante” (ORLANDINI, 2016, p. 277-278), especialmente quando se trata do papel e da responsabilidade do Estado.
Tratando do acompanhamento familiar, as Orientações Técnicas afirmam que, ao iniciar o processo “é preciso que os profissionais que realizam o atendimento tenham em mente que as vulnerabilidades apresentadas pelas famílias são expressões de necessidades humanas básicas não satisfeitas, decorrentes da desigualdade social” e ainda que “é preciso redimensionar a lógica do trabalho com famílias na perspectiva dos direitos, coletivizando as
demandas e reafirmando que o caminho para a concretização da cidadania é via políticas públicas de responsabilidade do Estado” (Orientações v. 2, p. 65).
Em vários outros trechos das publicações é possível notar que o modelo cultural para atribuição de valor em que se baseia o PAIF não é aquele do florescimento das relações. Um exemplo é quando se afirma que
O princípio fundamental que deve nortear o acompanhamento familiar é o reconhecimento de que as famílias são protagonistas de suas histórias, mas que sofrem os impactos da realidade socioeconômica e cultural na qual estão inseridas, em especial as expressões da questão social que se manifestam no território. Tal compreensão é fundamental para negar a postura que individualiza os problemas vivenciados pelas famílias e as estigmatizam (Orientações v. 2, p. 70).
Nas falas das profissionais entrevistadas o acesso a serviços e direitos aparece com mais frequência do que o valor da relacionalidade:
eu acho que [o importante] é viabilizar o acesso de todos a todos os serviços que atendam a demanda de cada um, então é importante trabalhar com a família inteira para incluir a família inteira, não incluir só aquela pessoa que chegou ao atendimento do CRAS (Teresa). a gente sempre trabalha muito essa questão dos direitos mesmo, de reconhecimento, de você saber que existe uma ouvidoria, que você não pode ser maltrato num órgão público, então você se reconhecer enquanto sujeito de direito é o primeiro passo pra você alcançar seus direitos. Eu acho que é um ponto muito importante pra se trabalhar, dentro do PAIF, que num tem como você (...) Ah, você trabalha a questão protetiva da família! Sim, e como é que ela vai se proteger? Se ela não sabe que ela tem direitos, então eu acho que é o caminho (Catarina).
Fortalecimento de vínculos, eu bato muito nessa tecla, eu sempre falo de fortalecimento de vínculos com os familiares por causa da desestruturação familiar. A inversão de papéis da família, isso pra mim é muito chocante. Então seria um tema, é porque fica repetitivo, mas seria um tema que eu trabalharia em todas as reuniões, não só com os pais, mas também com os filhos, porque os filhos precisam tá vendo o papel deles na família (Rita).
Enfim, a análise das publicações oficiais sobre o PAIF demonstra que, apesar de tratar do fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários, a concepção do Serviço não se baseia na valorização da relacionalidade e no reconhecimento da família como lugar de humanização das pessoas e do tecido social. O que fica mais evidente nos textos é a ênfase no papel do Estado, apresentado diversas vezes como responsável pela proteção e atendimento às famílias, pela garantia do acesso a direitos e concretização da cidadania, enfim,
como protagonista do bem-estar social.
O tema do acesso a direitos é recorrente nas publicações. Já a questão das obrigações, das responsabilidades dos sujeitos para com a família, praticamente não aparece. Porém, para que se tenha a função protetiva e os vínculos familiares e comunitários fortalecidos é necessário que cada membro da família faça aquilo que lhe compete, seja nas relações conjugais, seja nas relações parentais ou intergeracionais.