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2.5 Os modelos educacionais de prevenção

2.5.4 O modelo do treinamento para resistir (Resistance Training)

São exemplos, o Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e Violência) em São Paulo (adaptado) e o original DARE (Drug Abuse Resistance Education) dos EUA.

O DARE é um programa criado em 1983 pelo Departamento de Polícia de Los Angeles, Califórnia, e chegou a ser apresentado ao DENARC (Departamento de Narcóticos da Polícia Civil do Estado de São Paulo), no início da década de 1990, que não o adotou, mas foi adotado pelas Polícias Militares com a denominação Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e Violência) em 1992. Consta de seus objetivos principais ministrar noções básicas de cidadania, prevenir o uso / abuso de drogas entre escolares e auxiliá-los a desenvolverem técnicas eficazes de resistência à violência fortalecendo a auto-estima da criança e apresentando sempre um modelo positivo de vida.

Os defensores deste modelo defendem que está presente em mais de 60 países e tem sido um sucesso em termos de resultado no Brasil, aplicado em todos os estados.

Entretanto, especialistas discutem o referido sucesso e a eficiência do modelo em questão que se estrutura em uma série de exercícios e atividades em classe visando a preparar os estudantes a recusarem ou se esquivarem e não cederem aos apelos da oferta de drogas, considerados pressões.

Estas pressões podem partir do grupo, da mídia e em alguns casos, até dos pais ou familiares.

O fato incontroverso é que a eficiência e a eficácia do Proerd não é passível de ser aferida.

O programa norte-americano consiste num currículo de 17 aulas com duração de 45 a 60 minutos, apresentadas durante uma semana, tendo como foco ensinar aos alunos como reconhecer e resistir às pressões sociais para o uso de drogas, acrescentando informações sobre estas substâncias, ensinando técnicas de como tomar decisões, edificar auto-estima e

escolher alternativas de saúde ao uso. Os policiais utilizam estratégias como leituras de textos, discussões em grupos, sessões de perguntas e debates, recursos audiovisuais, cadernos de exercícios e jogos.

No Brasil, as polícias militares utilizam em seus programas os seguintes pontos: - adquirir as habilidades e conhecimentos para reconhecer e resistir à pressão dos companheiros quando do oferecimento de álcool, cigarros ou outras drogas;

- aprender técnicas de como ser seguro;

- aprender alternativas positivas de combate ao uso de drogas; - aprender a lidar com o estresse, tensões e resolver conflitos; -aprender tomar decisões por si próprio;

- redução da violência;

- conseqüências dos atos de vandalismo e violência; - construir habilidades de comunicação;

- resistir ao envolvimento com gangues; - noções de cidadania, respeito e educação; - maneiras de dizer não às drogas;

-a escolha de amigos e o sistema de apoio.

Ennett, Ringwalt, Tobler27 e Flewelling (1994) noticiam que o DARE, à época, era adotado por 50% das escolas dos EUA e continuava se expandindo rapidamente, sendo ministrado por policiais treinados para ensinar sobre a prevenção ao uso de drogas nas escolas dos três níveis de ensino.

Os autores utilizaram a técnica da meta-análise para a avaliação deste método de prevenção e concluíram:

O resultado desta meta-analise sugere que o efeito nuclear do currículo do DARE no uso de drogas relativamente à instrução oferecida nas escolas é leve e à exceção do uso do tabaco, não é estatisticamente significante. Os estudos revelaram que as medidas dos efeitos do uso das drogas excedeu a revisão das diversas meta-analises de outros programas de prevenção ao uso de drogas destinados para adolescentes sugerem que o valor das medidas do efeito deste (DARE) é pequeno. O pequeno valor da eficácia no comportamento de uso de drogas pode refletir parcialmente a baixa freqüência de uso de drogas pelos alunos da escola de ensino elementar focadas pelo núcleo curricular do DARE. Entretanto, a comparação das medidas

27 Cf. também: TOBLER, N.S. Meta-analysis of adolescent drug prevention programs: results of the 1993 meta-

analysis. Disponível em < http://www.nida.nih.gov/pdf/monographs/monograph170/005-068_Tobler.pdf> em 21/04/2008.

dos resultados do DARE com os de outros programas de prevenção destinados a estudantes adolescentes da mesma idade sugerem que uma eficácia maior é possível para adolescentes mais adiantados. Comparado com os programas classificados por Tobler como interativos, os resultados do DARE para o uso de álcool, tabaco e maconha, tanto coletivamente como individualmente são substancialmente menores. À exceção do uso do tabaco os resultados do DARE são também menores em relação a outros programas mais tradicionais não interativos. [...] Sobre aqueles que ministram o programa e como ele é ministrado pode fornecer outras explanações possíveis para a eficácia limitada do DARE. (p. 1398-9).

Na visão dos pesquisadores referidos, as avaliações demonstram certo ganho significativo imediato no que se refere à questão do conhecimento transmitido e na redução do padrão de uso de drogas. Tardiamente, porém, nas avaliações (pós-testes) realizadas um ou dois anos após, não se verificou redução do uso de drogas e, ao contrário, constatou-se aumento do uso de drogas (p. 1398).

A eficiência deste modelo de prevenção mostra-se polêmica mesmo no país de origem e em contraposição à pesquisa de Ennet et al, protestou Gorman (1995), aludindo à inadequação do procedimento aplicado, a meta-análise para aferir a eficiência de modelos de prevenção, à comparação do DARE com outros programas conceitualmente diferentes e que poucos deles cuidam especialmente de resultados referentes ao álcool e maconha. Ilustra que os programas de resistência combinam programas de prevenção mais populares nos anos 70 que reforçavam a auto-estima com o treinamento das habilidades para tomadas de decisão aplicadas nos anos 80. Aludiu também que o estudo realizado incluiu oito tipos de programas: quatro eram do modelo afetivo, três dos quais destinados para professores e não para estudantes, dois eram programas de treinamento para resistência e um programa de treinamento de técnicas sociais.

Houve tréplica dos pesquisadores, na mesma publicação, que reforçaram as razões pelas quais os programas interativos de prevenção ao uso de drogas são mais eficientes que o DARE, contradizendo a Gorman no ponto relativo ao número de programas, afirmando que este é muito maior que o que esse supõe. Também, que as diferenças conceituais e operacionais entre programas não invalidam as conclusões encontradas porquanto a finalidade preliminar da pesquisa realizada foi de examinar a eficácia relativa de tipos diferentes de programas de prevenção com base em medidas comuns de resultados e também porque o DARE (Proerd) compartilha elementos conceituais e operacionais de programas de treinamento de habilidades de cunho afetivo e social e as medidas dos efeitos do DARE (Proerd) foram comparadas em separado.

A questão se põe, portanto, sobre a viabilidade de se aplicar ou não modelos de treinamento para resistir, tendo em vista que são polêmicos e seus resultados aferidos evidenciam clara ineficiência a médio e longo prazo.

2.5.5. O modelo da pressão de grupo positiva

A pressão do grupo é um fator importante para a inserção num comportamento ligado ao abuso de substâncias psicoativas entre jovens. Este modelo sugere a aplicação do processo inverso, utilizando-se lideranças jovens nos programas de prevenção.

A atuação dos adultos ficará restrita ao contato com os jovens que liderarão, no objetivo de oferecer-lhes condições para tratar com a situação.

Integra este modelo a estratégia de incentivar festas nas quais não existam drogas, as chamadas drug free parties e a união entre organizações de ajuda aos jovens.

Para se perceber a importância desta modalidade de lazer, é oportuno exemplificar o que ocorre nas modalidades contrapostas, ou seja, reuniões de jovens invadidas pelas drogas psicoativas e, como ilustração, muito interessante a narrativa28 de Velho (1998, p.53):

Os convidados começaram a chegar por volta de 10h. Havia uma preocupação especial, naquela noite, com as roupas [...] De início, foram-se formando pequenos grupos pelo apartamento, tanto no salão como em outros cômodos. Fora preparada uma mesa, num canto do salão, com salgadinhos, sanduíches, doces e bebidas, principalmente uísque escocês e vinho. Um pouco antes da meia noite, alguns convidados começaram a dançar. O sistema de som foi elevado, e à uma hora da manhã a festa estava chegando ao seu auge, com quase todas as pessoas dançando animadamente. Num dos quartos, tinha sido cuidadosamente arrumada uma quantidade razoável de cocaína – “pó“. Depois soube-se que neste setor a festa tinha custado perto de mil dólares. A maconha, o “fumo”, circulava livremente por toda a festa, parte fornecida pelos donos da casa e parte trazida pelos convidados. Só alguns “cheiravam pó”, embora a maioria soubesse que havia. De qualquer forma, isso não era anunciado com estrépito.

Ainda, no livro mencionado observa-se claramente o delineamento da pressão do grupo e do papel da droga como um “passaporte” para a integração em seu meio29:

28 Gilberto Velho narra o uso de drogas em festas que é colocado como uma característica do estilo de vida de

um grupo analisado. A identificação deste tipo de evento é do autor.

29 Estende-se para este fragmento a mesma observação. O fato da pressão negativa exercida pelo grupo e a

Embora o assunto não fosse comentado com maiores detalhes, havia uma certa tensão ente os que não tinham tomado ácido. Parecia haver uma sensação de certa vergonha de não ter coragem de tomar ácido, no caso dos que explicitamente colocavam o seu medo, e uma sensação de exclusão generalizada (p.52).