III. Risco e perigo: realidades semelhantes, conceitos distintos
III.1. Modelos explicativos do risco e perigo
III.1.1. O modelo ecossistémico
Criado por Bronfenbrenner em 1979, o modelo ecológico foi concebido para explicar o desenvolvimento humano, considerado como o produto das transacções entre um organismo e o seu contexto, ou o resultado da influência que a família, os pares, a escola e a comunidade tem nos acontecimentos da vida das crianças. Portanto este “desenvolvimento necessita de ser compreendido tal como ocorre no mundo real, ou na sua ecologia”, (Calheiros, 2006: 218). Sendo largamente usado na intervenção com famílias e na educação, este modelo foi adoptado pela OM em , permitindo “a interpretação do fenómeno dos maus-tratos enquanto realidade multifacetada que se expressa a diferentes níveis da vida dos cidadãos”19.
Igualmente inserido nesta perspectiva, Belsky desenvolve em 1980 o modelo ecossistémico, no qual tenta integrar os vários sistemas para assim explicar as condições potenciadoras do perigo para a criança. No seu artigo “Child maltreament: An Ecological integration”, elsky (1980: 320) afirma que “o mau trato infantil é determinado de forma múltipla por forças que actuam na família, no indivíduo, na comunidade e na cultura na qual esse indivíduo e família estão inseridos”. Este modelo conceptualiza o perigo para a criança como um fenómeno determinado por múltiplos factores que se agrupam nos três níveis identificados no modelo de Bronfenbrenner – microssistema, exossistema e macrossistema - acrescentando-lhe apenas um: o da história de vida do progenitor.
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Quadro III.1.
Modelo ecossistémico de explicação do perigo de Belsky (adaptado de Penha, 2000 e Calheiros, 2006)
História de vida
dos progenitores Microssistema (família)
Exossistema (sociedade) Macrossistema (cultura) 1. História de desarmonia e ruptura familiar (divórcio, separação ou morte dos progenitores) 2. História de rejeição emocional 3. História de maus-tratos (físicos e/ou psicológicos) e outras situações de perigo na infância 4. Ausência de experiência e exemplos em cuidar de crianças 5. Desconhecimento sobre as características de desenvovimento da criança e suas necessidades.
Mãe/ Pai Trabalho Sociedade
1. Situações de depressão, alcoolismo, toxicodependência 2. Depressão pós-parto 3. Estratégias deficitárias para ultrapassar problemas/ situações que geram stress familiar
4. Família monoparental 1. Desemprego 2. Falta de realização profissional 3. Tensão no trabalho (relações laborais conflituosas) 4. Excesso de horas de trabalho (ausência na família) 1. Atitude face à família, maternidade/ paternidade 2. Reconhecimento dos direitos das crianças e da importância da Infância 3. Atitude face à mulher 4. Atitude face à correcção física e à pressão psicológica como estratégias educativas 5. Atitude face à violência no geral e entre cônjuges/ casal 6. Crise económica Crianças Vizinhança/ Comunidade . Temperamento difícil . Prematuridade . Doença crónica . Dificuldades de aprendizagem 1. Isolamento 2. Falta de suporte social
3. Pouco recurso aos serviços/ instituições da comunidade
Nº de membros na família
. Filhos não desejados/ planeados
. Filhos de diferentes progenitores
Interacção mãe/ pai – crianças
. Relação conflituosa . Uso da correcção física . Uso de manipulação/ pressão psicológica
Relação conjugal
. Conflituosa/ Stress permanente . Violência e agressão (física e/ ou psicológica)
. Divórcio/ separação
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Será pertinente explicitar um pouco mais cada um dos níveis. a) História de vida dos progenitores
Este primeiro ponto refere-se à história de vida dos indivíduos, além dos aspectos do seu desenvolvimento pessoal que determina a sua personalidade estrutural. Apesar de não ser regra, e Belsky adverte-nos para isso mesmo, muitas vezes progenitores/ cuidadores que maltratam, foram maltratados na infância. Aliás, esta é também uma advertência de Corby (2006), concluindo que apenas 30% das crianças maltratadas na infância, se tornam pais maltratantes, deixando, em parte, de lado a ideia da reprodução geracional dos maus tratos. Por outro lado coloca-se a questão de muitos pais não saberem identificar “quais as características específicas dos vários níveis de desenvolvimento infantil, não conseguindo captar, nem responder de forma adequada às necessidades da criança. Pelo contrário, estabelecem expectativas inadequadas e demasiado elevadas acerca das suas possibilidades” (Alberto, : 4 ). “Quando o filho real não corresponde às suas esperanças fantasistas, certos pais exteriorizam as suas desilusões profundas contra o seu «mau» descendente e então podem maltratá-lo” (Laury, 19 : ). “Uma outra razão dos maus-tratos é o sentimento dos pais de que o filho desiludiu as suas esperanças. De facto, o filho pode «desapontá-los» de duas maneiras: ou por ser anormal, ou por não ser ideal”, (Laury, 1970: 5). Não raras vezes também acresce que “a criança torna-se a responsável de um casamento prematuro ou infeliz, de uma ausência de vida social” e “revoltam-se contra os filhos cuja existência em si mesma os faz entrar à força nessa função não desejada. Deste ressentimento podem derivar os maus-tratos” (Laury, 1970: 26).
Um outro aspecto importante é o processo de parentificação. Os pais vêem os filhos como objectos das suas necessidades, e “compensam as suas frustrações e as tensões das suas vidas de todos os dias, batendo numa vítima próxima, fraca e inocente” (Laury, 1970: 26), perdendo a percepção da dimensão parental de cuidado. Vendo a criança como um objecto inferior, considerado “como sua coisa” (idem).
b) Família (microssistema)
Dentro do microssistema incluem-se, por um lado as características do adulto maltratante, e por outro as características da criança e do sistema familiar. “Certos pais que maltratam os seus filhos são doentes mentais e a criança pode tornar-se uma parte da sua realidade deformada e do seu sistema alucinado (…) Podem também tratar-se de alcoólicos ou de pais que sofrem de automatismo epiléptico”, (Laury, 1970: 26). São de referir também os pais que não conseguem lidar com os problemas, porque não encontram estratégias para os resolver, por falta de competências pessoais e sociais.
De acordo com Penha (1996), Pringle (1983) e Carneiro (1997) as características da criança que levam o adulto a maltratá-la e/ ou negligenciá-la são também potenciadoras do
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perigo: crianças hiperactivas, “teimosas, preguiçosas, não podem estar sossegadas, não querem obedecer ou escutar” (Laury, 1970: 25), crianças prematuras, que sofrem de determinada doença ou incapacidade física e/ ou psíquica (Belsky, 1993).
Também nos sistemas familiares caracterizados por uma relação violenta, conflituosa e agressiva entre o casal, há mais probabilidades dos progenitores lidarem da mesma maneira com os filhos. O recurso à punição física provoca nas crianças actos de desafio e provocação, promovendo um ciclo vicioso de violência e aumentando um sentimento de poder e/ ou condescendência por parte dos pais (Belsky, 198 ). “A violência é, muitas vezes, a manifestação de um abatimento extremo, de uma crise que se exterioriza para se resolver um problema latente, por vezes inconsciente. Neste caso a criança torna-se, consciente ou inconscientemente, a vítima. A violência não é, pois, necessariamente um fenómeno patológico individual.” (Plougmand, 1988: 12). Também a fraca comunicação entre pais e filhos propicia a tendência para o recurso à violência física e emocional. Wolfe (1985), refere ainda o pouco recurso a comportamentos positivos, a não estimulação táctil e auditiva, assim como a falta de manifestação de afecto nas interacções com os filhos, como características de algumas famílias maltratantes.
Paralelamente a isto, surge a alteração das rotinas diárias, com o aparecimento de problemas ou dificuldades que ao provocarem stress na família, aliado às suas características pré-existentes, ou factores de risco, influenciam a forma como lidam com as suas crianças. Entre eles podemos salientar o nascimento de outro filho que altera o contexto familiar e a relação do casal (Garbarino, 1977), podendo ser visto como causador de frustrações familiares, ou o pouco espaçamento entre nascimentos, potencial causador de dificuldades económicas (Penha, 1996; Carneiro, 1997; Pringle, 1983; Belsky, 1980). A fragilidade estrutural da família, assim como as disfuncionalidades na dinâmica familiar emergem nas famílias (des)protectoras.
c) Sociedade (exossistema)
Neste nível salientam-se os aspectos da dinâmica familiar e institucional. De acordo com Belsky (1980), estudos sociológicos têm realçado dois factores que, de forma positiva ou negativa, afectam a família: o mundo laboral (enquanto condicionante das condições económicas), e a comunidade/ vizinhança.
No que toca ao mundo laboral, explica-se que os pais afectados pelo desemprego, têm mais probabilidade de se tornarem maltratantes e negligentes, não só pela condição financeira, mas também porque paralelamente a isto, cresce um sentimento de frustração e de incapacidade de suprir as necessidades do agregado. Uma outra perspectiva apresentada por (Belsky, 1980:327) é que o desemprego leva a uma maior permanência do(s) progenitor(es) em casa, estando mais tempo com os filhos, o que, relacionado com os
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factores de risco já existentes, pode potenciar as situações de maus tratos. Não obstante, temos de lembrar dois factos importantes: nem todas as famílias com pais desempregados são maltratantes e negligentes; e também há famílias com estatuto sócio-económico mais elevado, com empregos bem remunerados e de qualificação elevada que são maltratantes e negligentes, em parte porque a exigência laboral, os horários tardios da presença em casa e a competitividade no emprego afectam de forma negativa as famílias quando atinge o extremo. Este é, aliás, um perigo pouco estudado: o da ausência, o do ter muito materialmente e ter pouco afectivamente.
No que respeita ao papel da comunidade percebe-se que muitas famílias maltratantes “estão isoladas dos sistemas de suporte formais e informais” ( elsky, 1980: 327), o que, “para além de lhe impedir o acesso a meios de escape - como interacções com amigos - em situações de maior stress, acarreta igualmente a perda de oportunidade de desenvolvimento de capacidades de interacção social” (Alberto, 2006:46). Causado por uma acentuada dificuldade de estabelecer ou manter amizades, este isolamento caracteriza-se pela ausência ou fraca existência de uma rede de relações sociais, sendo famílias que não estabelecem relações interpessoais (parentes, amigos, vizinhos) onde possam procurar apoio material, suporte emocional e elementos de informação quanto a formas de resolver certos problemas ou sobre formas de conduta (Penha, 2000).
d) Cultura (macrossistema)
Finalmente, no macrossistema incluem-se os aspectos do contexto social e cultural, ou seja, as referências culturais, os valores e crenças que, a par do contexto sócio-económico da família, podem potenciar o perigo. Há culturas em que a punição física é aceite como forma de educação legítima dos filhos (Garbarino, 1977; Gelles & Straus, 1979; Belsky, 1980; Belsky, 1993), assim como há culturas que aceitam e promovem o casamento de crianças com adultos. A criança é considerada, nestas culturas, propriedade da família (Gamboa, 2001) devendo submeter-se à sua autoridade, ficando esquecidos os seus direitos enquanto pessoa, ser único e livre. Assim, em cada macrossistema vemos situações permitidas que naquelas culturas não constituem risco/ perigo para as suas crianças mas que por outras são consideradas descuido, negligência, maus tratos ou até abuso sexual.
Portanto, a questão do perigo “é remetida para a existência ou ausência de suportes sociais amortecedores das disfunções familiares que lhes estão na base e analisa as situações de risco nos quatro níveis em interacção social” (Gambôa, 2001:308), considerando que a criança está em perigo quando os factores potenciadores de risco são dominantes face aos compensatórios ou protectores.
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