O modelo estrutural das instituições onde adolescentes cumprem medidas socioeducativas repete quase que exatamente o modelo prisional, pois sendo uma estrutura de privação de liberdade, ela se diferencia das prisionais apenas pelas atividades que promove, claro, mediante legislação que torna obrigatória a oferta de educação, esporte e cultura nestas instituições. Entretanto o modelo prisional é representado também nesse cenário, principalmente em unidades de regime provisório. Ao contrário do confinamento celular e solitário dos primórdios do sistema penitenciário (RUSCHE; KIRCHHEIMER, 2004) e é interessante refletir um pouco acerca da palavra penitência, como se fosse o ato do pecador que cumpre uma pena e se purga por seus pecados, atualmente, a maioria das prisões brasileiras e também das unidades socioeducativas se caracteriza pelo aprisionamento em grupos, o que se pode perceber na caracterização do sistema prisional que é conhecido cada vez mais por sua superlotação.
É importante refletir sobre como funciona uma instituição privativa de liberdade que tem por prerrogativa legal oferecer formação para sujeitos em desenvolvimento e ainda precisa sancioná-los devido ao ato ilegal que cometeram. Desse modo, é importante compreender como funciona o espaço e a estrutura de uma unidade socioeducativa, parte do seu cotidiano e suas relações internas para assimilar como funciona a educação no seu interior e também onde essas instituições estão localizadas. De acordo com Hachem (2012), existiam em Minas Gerais, no ano de 2012, 15 centros socioeducativos distribuídos por todo o estado mineiro. Existem atualmente em Minas Gerais 24 unidades socioeducativas, sendo nove dessas localizadas em Belo Horizonte. Verifica-se, assim, um aumento vertiginoso dessas instituições nos últimos cinco anos14. As unidades socioeducativas estão localizadas, em sua
maioria, na região central do estado e, destas, a maioria na capital. A única para adolescentes do sexo feminino está também localizada em Belo Horizonte. Esse dado é importante de ser decomposto e descortinado pois, levando-se em consideração essa concentração geográfica das instituições, é possível supor que boa parte dos(as) adolescentes em cumprimento de medida de internação podem não ser oriundos da cidade de Belo Horizonte. Assim estariam sujeitos ao modelo educacional oferecido dentro das unidades, diferente do modelo que estão acostumados em suas regiões de origem. Esse pressuposto leva a pesquisadora, não de forma neutra, mas ciente do trabalho científico que realiza, a posicionar-se diante dele, pois o que define o ECA (BRASIL, 2008) no artigo 123, inciso VI é que o adolescente cumpra medida socioeducativa em local próximo à sua região de origem e tenha direito de receber, periodicamente, a visita de familiares. Sendo assim, estaríamos provavelmente num modelo que viola direitos, pois uma parte importante desses adolescentes está distante de seus familiares e, mesmo tendo direito às visitas, não as recebem devido à distância entre a moradia da família e o local onde estão privados de liberdade, e, claro, devido à dificuldade financeira desses familiares para arcarem com os custos da viagem necessária para fazer essas visitas.
De um modo geral, as unidades socioeducativas possuem várias equipes em seu interior: Equipe Técnica composta por trabalhadores da Saúde (médicos/as, auxiliares de enfermagem. Enfermeiros/as), Judiciário, Assistência Social e Educação (Pedagogos e Professores) e as Equipes de Segurança, que são várias, divididas em plantões de 12h por 36h de trabalho ou equipes fixas que têm uma carga horária de 40h semanais com descanso nos sábados, domingos e feriados. A Equipe Técnica, no que tange à escolarização (pelo menos em MG assim se configura) é vinculada à Secretaria de Defesa Social, pedagogos que são funcionários permanentes na Unidade Socioeducativa, e os professores que são vinculados à Secretaria de Educação e atuam nas unidades. Hachem (2012) traz a importância tanto de trabalhadores da pedagogia quanto da Psicologia para a escolarização, pois os mesmos acompanham essas atividades diariamente.
Pedagogos e psicólogos, por terem espaços de atendimento individual com os adolescentes são imprescindíveis nessa relação, pois é nesse espaço que, junto com os eles, constroem o Plano Individual de Atendimento (PIA), relatório que traça a trajetória do adolescente em privação de liberdade e suas expectativas e implicações no cumprimento da medida socioeducativa, que evidentemente se relaciona com o tempo educacional vivido por ele nessa instituição. Esse relatório é enviado ao Juizado perante o qual o adolescente irá apresentar-se para as audiências; no caso do regime provisório ele participa geralmente de três
audiências, no período em que ali permanece, até que o(a) Juiz(a) lhe dê ou não uma medida a cumprir15.
Outra questão importante a ser verificada e refletida de forma aprofundada é a rotina de uma unidade socioeducativa. Haja visto ser uma instituição total, mesmo que trazendo características distintas de um modelo prisional ou manicomial de adultos, por exemplo, a unidade socioeducativa carrega vários desses regramentos e modelos de ações advindas desse modelo. Se ela não está totalmente organizada num modelo asilar ou prisional, ainda assim é “refém” de uma série de ações cotidianas e corriqueiras que reproduzem esse mesmo modelo. No caso da internação provisória, provavelmente com um rigor ainda muito forte no regramento institucional, por estarem os adolescentes ainda sem sentença judicial. Nesse sentido, de acordo com Goffman (1961, p. 42), é comum nas instituições totais que, no período inicial da internação, o regramento e as sanções sejam fortemente impostos como também meticulosamente permeiem as atividades diárias, para que os sujeitos se “acostumem” ao modelo totalizante, ou seja, incorporem as regras e as sanções como algo cotidiano e aceitem os regulamentos “sem pensar no assunto”.
Ou seja, se a vida do adolescente era movida por um certo regramento social e familiar em liberdade, ao estar submetido à internação ele terá que adaptar-se às várias formas de mudança em seu cotidiano, nos pormenores mais simples e subjetivos, como banho, utilização de sanitários, aulas, atividades lúdicas, etc. Todo o dia desse adolescente institucionalizado estará sujeito ao regramento da unidade, às equipes de trabalho de segurança, pedagogia, saúde, educação, judiciário, assistência social, etc. Nenhuma ação do adolescente será feita por vontade própria ou de forma autônoma. Em Goffman (1961), é possível inferir os detalhes do cotidiano de várias instituições totais, desde estabelecimentos para pessoas portadoras de sofrimento mental até freiras em um convento e jovens aprisionados. Em um dos depoimentos apresentados pelo sociólogo, os jovens relatam a automatização e a mecanicidade das tarefas de trocar de roupa e arrumar as camas sob a interferência de voz e o olhar sempre presente dos instrutores.
É importante refletir, no caso da institucionalização de adolescentes, sobre a “liberdade” com que eles tratam várias das ações de seu cotidiano quando não estão sob tutela de nenhum aparelho estatal, seja escola, unidade socioeducativa ou qualquer outra instituição que possua esse tipo de regramento, e dessa forma tentar perceber o quanto pode ser invasiva
15 Informações obtidas a partir de conversas com técnicos das unidades no tempo de trabalho como arte educadora e na observação de conversas com adolescentes.
a presença contínua de pessoas adultas, nas mais variadas atividades que eles venham a realizar, e como isso interfere em sua formação social.