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2 LENTES TEÓRICAS E METODOLÓGICAS

2.2 O Conceito de Cidade em Disputa

2.2.1 O modelo hegemônico de cidade

Neste trabalho, o que chamamos de cidade não está na dimensão geográfica de município, mas na dimensão social de urbano, ou seja, um aglomerado complexo de processos sociais e formas espaciais em constante interação em determinado lugar (HARVEY, 2012; LEFEBVRE, 1999). De acordo com Castells e Borja (1996), a cidade não é somente o território que concentra grupos humanos e grande diversidade de atividades, mas também é um espaço simbiótico e simbólico (que integra culturalmente, dá identidade coletiva a seus habitantes e tem um valor de marca e de dinâmica com relação ao exterior). Como indica Rolnik (2000):

A ideia de cidade, a ideia de polis, a origem das cidades, surge do princípio da igualdade de diferenças: o fato cidade se funda na possibilidade de pessoas diferentes poderem viver em conjunto e estabelecer um contrato político entre elas. O milagre cidade se produz quando o homem, além de sua vida privada, de sua existência enquanto ser natural ou parte da natureza, cria uma espécie de segunda vida, uma espécie de bios político ou ser político que se concretiza vivendo em conjunto com outras pessoas (ROLNIK, 2000, p.3).

O modelo hegemônico de cidade que aqui apresentamos é o de Cidade Moderna. Como vimos em Laclau e Mouffe (2015), a hegemonia é a prática que representa a articulação de diferentes identidades e subjetividades por meio de atividades políticas para constituírem e disseminarem determinada ordem social. Assim, a cidade moderna é o produto dos processos históricos e revoluções que culminaram numa ordem social pautada pela modernidade, isto é, o triunfo da racionalização em detrimento da subjetivação (TOURAINE, 1994).

A ordem social hegemônica produziu, dentre outras coisas, conforme Simmel já afirmara em 1903, uma atitude blasé. O sujeito racional e calculista capaz de bloquear coisas. Para acomodar a vida cotidiana (falar com estranhos, a compra de alimentos, ou deslocamento para o trabalho), ele teve que exercer uma espécie de reserva mental. Uma maneira de

enfrentamento que as pessoas adotaram para lidar com as realidades da vida urbana e que ajudou a formar a sociedade moderna (SIMMEL, 2005).

Conforme Lefebvre (1999), a industrialização caracterizou a sociedade moderna. Isto porque, após a Revolução Industrial, transformações ocorreram na estrutura urbana com as cidades sendo fomentadas para terem uma infraestrutura que atendesse as demandas de escoamento de produtos, com a máquina, e não mais o homem, passando a ser a medida para o planejamento urbano. Em sintonia com a expansão urbana, o desenvolvimento da cidade transferiu-se para profissionais, os urbanistas. Teorias e ideologias começaram a substituir a tradição como base para o desenvolvimento. O modernismo teve enorme influência, com sua visão de cidade como máquina e com suas partes separadas por função (GEHL, 2013).

Em seguida, sob a égide do consenso keynesiano, a cidade passou a ser regida por necessidades mais gerais de acumulação e circulação do capital, cabendo ao planejamento (modernista) a tarefa da racionalização e funcionalização espacial, e agora, sob a égide do consenso de Washington, a cidade passa a ser investida como espaço direto e sem mediações da valorização e financeirização do capital (VAINER, 2013). Assim, a forma de urbanismo que perdurou durante o século XX, da visão funcionalista, calcada nas ideias de eficiência e progresso de autores como Le Corbusier ajudaram a produzir uma cidade maquínica, que concede a pressa e a exigência de um automóvel como condições inelutáveis ao homem do nosso século (CORREIA, 1996). Na qual, seus defensores preferem a privacidade sobre comunidade, a separação espacial sobre a contiguidade, conveniência sobre perfeição, e redes sociais dispersas sobre bairros tradicionais (ELLIS, 2002).

Quanto à estrutura urbana, essa cidade máquina fomentou a automobilidade que já discutimos. Quanto à agência, ocorre a ascensão da racionalidade neoliberal. Pela qual, se dá a diluição do direito público em benefício do direito privado e a figura do “cidadão” investido de uma responsabilidade coletiva desaparece pouco a pouco e dá lugar ao homem empreendedor. Este não é apenas o “consumidor soberano” da retórica neoliberal, mas o sujeito ao qual a sociedade não deve nada, aquele que “tem de se esforçar para conseguir o que quer” e deve “trabalhar para ganhar mais” e que enxerga suas “contribuições” no recolhimento de impostos para direcionar despesas coletivas e seu “retorno” em parâmetros individuais (DARDOT; LAVAL, 2016).

O neoliberalismo afirma que o bem-estar humano pode ser melhor promovido por meio da maximização das liberdades empresariais dentro de um quadro institucional caracterizado por direitos de propriedade privada, liberdade individual, mercados e comércio livres. No qual

o papel do Estado é criar e preservar um quadro institucional apropriado a estas práticas (HARVEY, 2007). E que, segundo Harvey (2007, p. 2), “se tornou hegemônico como tipo de discurso, disseminando-se pelos modos de pensar e pelas práticas político-econômicas a ponto de se incorporar ao senso comum com o qual interpretamos, vivemos e compreendemos o mundo”. O que explica sua defesa pelos grupos que não querem mudanças no espaço da metrópole.

Modelo que não está livre de críticas por propiciar diferentes impactos negativos para as cidades. As metrópoles latino-americanas, por exemplo, condensam consequências sociais do esgotamento da versão periférica do modelo fordista de desenvolvimento e das orientações neoliberais responsáveis pelo recuo do Estado no que concerne a sua responsabilidade na implementação de políticas urbanas abrangentes. A efervescência consumista que alterou o ritmo das grandes cidades, decorreu da financeirização da economia urbana, da monetarização de todas as relações sociais e da ênfase, quase que exclusivamente, em intervenções na materialidade que objetivam o embelezamento de áreas privilegiadas e a circulação confortável para somente alguns segmentos da população urbana (RIBEIRO, 2006).

Com isso, criam-se cidades em que alguns concentram as riquezas e tem acesso às oportunidades oferecidas, os espaços premium1 de Graham e Marvin (2001), mas a maior parte padece com uma série de problemas urbanos (congestionamentos, insegurança pública, contaminação do ar e da água, déficit habitacional e de serviços básicos). Além disso, em decorrência, as pessoas e os lugares vão sendo deixados de lado. Andar de um lugar a outro se tornou arriscado, e a qualidade amigável das ruas começou a desaparecer. Ao longo dos espaços onde as pessoas costumavam reunir-se mutuamente, vias impessoais passaram a dominar. A cidade foi ficando esvaziada, servindo apenas para passagem. O que antes era a essência da comunidade se perdeu na confusão de tráfego (PROJECT FOR PUBLIC SPACES, 2008).

Os espaços de fluxos vão dominando a cidade, e os espaços de lugar vão desaparecendo (CASTELLS, 2004). Para ele, as cidades são estruturadas e desestruturadas simultaneamente pelas lógicas concorrentes do espaço de fluxos e o espaço de lugares. O que significaria a morte das cidades, em seu sentido original, pela modernidade que vai transformando todos seus

1 Segundo Graham e Marvin (2001), os diversos regimes políticos e regulamentares que apoiaram a implantação

de redes de infraestrutura (RI), energia, transportes, comunicações, ruas e redes de água em direção ao objetivo retórico da ubiquidade padronizada estão, em muitas cidades e estados, vendo essas RI serem "desagregadas" e "estilhaçadas” como resultado de um movimento generalizado para a privatização e liberalização. O resultado disso foi o surgimento de paisagens urbanas compostas de camadas de espaços de redes premium, construídos para usuários socioeconomicamente influentes e corporativos, que são cada vez mais separadas de espaços de marginalidade (espaços onde até conexões básicas com outros lugares e os direitos fundamentais para acesso as RI são cada vez mais problemáticos).

espaços em não-lugares no sentido dado por Augé (2005), ou seja, sem identidade e sem historicidade onde a cidadania se perde em nome de valores individuais.