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Perspectivas sobre a argumentação

1.5. O modelo interaccional

Christian Plantin inscreve o seu modelo interaccional da argumentação no quadro geral da pragmática linguística. Segundo o autor, a argumentação só se desenvolve num contexto de interacção linguística. Esta constatação leva-o a defender que o cariz dialógico é inerente à argumentação. Assim, a perspectiva teórica adoptada nasce do conceito de que qualquer situação argumentativa, para ter lugar, tem de articular discursos contrários. Por esta razão, a argumentação só surge quando se produz efectivamente uma situação dialógica. O modelo interaccional concebido goza, não obstante, de uma amplitude que não o faz coincidir apenas com as situações puramente dialogais, entendidas como um conjunto de trocas verbais com orientação argumentativa, que decorrem face a face. Abarcando os conceitos de polifonia e de intertextualidade, o autor defende que esta concepção dialogal da argumentação pode estender-se também ao «discurso monolocutor»17 (2005: 54), que se estruturará a partir de pontos de vista antagónicos, inserindo-se, portanto, num conceito dialógico da argumentação:

«On parlera de «modèle dialogal» de l‟argumentation pour couvrir à la fois le dialogal proprement dit, le polyphonique et l‟intertextuel, afin de mettre l‟accent sur un aspect fondamental de l‟argumentation, celui d‟articuler deux discours contradictoires» (2005: 54).

17 Esta possibilidade de construção da argumentação ficará bem patente na forma como alguns alunos elaboram os textos pertencentes aos corpora 1 e 2, onde se assiste a um diálogo interno ao próprio texto, que, deste modo, evidencia características polifónicas. Cf. Capítulo 4, sobretudo, pp. 174-182.

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Para Plantin, a existência de um confronto linguístico é um elemento sine qua non para a produção de argumentação. Este confronto consiste na colocação em dúvida de um determinado enunciado apresentado por um locutor:

«La mise en doute est définie comme un acte réactif d‟un interlocuteur qui refuse de ratifier un tour de parole. Cette situation interactionnelle oblige l‟interlocuteur à argumenter, c‟est-à-dire à développer un discours de justification.» (2005: 53)

Plantin concebe a argumentação como um processo que se desenvolve em diferentes estádios: inicialmente, um proponente avança uma determinada proposição; de seguida, esta mesma proposição vai gerar uma oposição por parte de um opositor; num terceiro momento, surge, então, a questão, fruto do confronto de posições verificado anteriormente; por fim, surgirão os argumentos avançados pelo proponente, que terá o ónus de defender a sua conclusão. O discurso argumentativo é, assim, construído de modo a incluir, de forma explícita ou implícita, os seguintes elementos:

Questão  Argumento  [Conclusão = Resposta à questão]

(2005: 58, tradução nossa) O conceito dialógico da argumentação vai implicar também a existência de papéis argumentativos, que serão desenvolvidos por um conjunto de actantes, elementos fundamentais, também eles, para a existência de uma situação argumentativa. Serão eles o Proponente, o Oponente e a figura do Terceiro, que o autor define como «tous les membres du public témoin intéressés par l‟échange» (1996: 27). Este último actante corresponde à figura que duvida, que está indecisa e que, de certa forma, regula a produção de argumentação e contra-argumentação por parte do proponente e do oponente. Segundo Plantin, ela poderá corresponder, por exemplo, à figura de um juiz

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(2005: 65). A situação argumentativa é, deste modo, concebida como uma situação discursiva trilogal (2005: 64).

No quadro da argumentação interaccional, Plantin não vai desenhar concretamente uma tipologia de argumentos, vai antes definir como ponto de partida o facto de que a análise da argumentação se pode centrar em diferentes pontos de vista: «toute argumentation doit être analysée selon des paramètres d‟objets, de langage, d‟interaction» (1996: 39, destaque nosso). Será partindo desta óptica que o autor vai abordar uma série de itens que poderão ser tidos em consideração na análise do processo argumentativo no âmbito de cada um dos pontos de vista assinalados. Neste contexto, Plantin define três grandes enfoques a desenvolver em torno da argumentação: a argumentação manipula objectos e relações entre objectos; a argumentação sofre os constrangimentos da linguagem na qual se desenvolve; a argumentação é um processo interactivo. Esta proposta vai no sentido de contemplar três abordagens distintas, mas não incompatíveis: o conteúdo do próprio discurso argumentativo na sua relação com o mundo e com o contexto no qual é produzido; o plano linguístico propriamente dito no que pode encerrar de argumentativo; a pragmática e, mais concretamente, a interacção discursiva, em relação com o discurso argumentativo.

O quadro que se segue apresenta, de forma sintética, um conjunto de tipos de argumento inseridos em cada uma das perspectivas propostas pelo autor:

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A argumentação manipula objectos e relações entre objectos

Causalidade

Exemplo Causa Efeito

Consequência Peso das coisas “Pente glissante” Indício Analogia Definição A argumentação sofre os constrangimentos da linguagem na qual ela se desenvolve Transformação de enunciados Quase-paráfrase argumentativa Contrários Metonímia A argumentação “na língua”

O “sentido” das palavras Os conectores

A argumentação é um processo interactivo

Estrutura de interacção

Argumentação pela força Argumentação pela ignorância

Representação do discurso do outro no próprio Partilha de enunciados Implícito Enunciados comunitários Valores e interesses Crenças de terceiros Argumentação sobre a pessoa Contradição Ataque pessoal Argumentação de autoridade (1996: 40 – 93)

No âmbito do primeiro plano de análise, a argumentação manipula objectos e relações entre objectos, Plantin explora essencialmente três tipos de argumentos: a causalidade, a analogia e a definição. Considerando a casualidade uma ideia intuitiva que consiste em julgar que o evento A produz, determina o evento B ou que o evento B

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acontece porque A, o autor distingue dois tipos de argumentos: os argumentos que estabelecem uma relação de causa, entre os quais considera o exemplo; os argumentos que exploram uma relação de causa, entre os quais inclui a causa, a consequência e o efeito (cf. 1996: 41 e seguintes.)

Refira-se, porém, que o grau de minúcia introduzido na elaboração da proposta anterior leva a que as fronteiras entre alguns dos tipos de argumentos considerados pelo autor nem sempre fiquem claras. De modo particular, consideramos que a distinção entre efeito e consequência é de difícil aplicação, pois os conceitos a eles associados sobrepõem-se. Plantin define efeito do seguinte modo: «si une cause est régulièrement associée à un effet de façon biunivoque, si l‟effet est constaté, alors on peut affirmer la cause» (1996: 43). A argumentação pela consequência é associada pelo autor à argumentação pragmática e à sua refutação pelos efeitos perversos. Plantin ilustra esta forma de relação causal por meio do seguinte exemplo:

«Question: Faut-il légaliser la drogue ?

Proposant : - Oui. La légalisation de la drogue permettra de réduire les mafias liées à la drogue (argument pragmatique).

Opposant : - Non. La légalisation de la drogue augmentera le nombre des drogués (réfutation par l‟effet pervers)» (1996: 44).

Considerando os conceitos associados aos dois mecanismos, fica claro que ambos apontam para uma relação de tipo A  B, sendo que a consequência é um tipo de efeito B provocado por A.

O segundo pólo de observação, a argumentação sofre os constrangimentos da linguagem na qual se desenvolve, desenvolve-se em torno da noção de que «la langue contient des schémas argumentatifs préconstruits qu‟il n‟est pas facile de réduire à des schémas formels» (1996: 56). Neste plano serão considerados, por um lado, a transformação de enunciados, que inclui a possibilidade de argumentação através de uma reformulação da própria conclusão, a quase-paráfrase, a argumentação através da

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junção de contrários, segundo a fórmula “A é P” e “não-A é não-P”, e ainda a argumentação que explora relações entre continente e contido, no âmbito da metonímia. Por outro lado, será nesta óptica de análise da argumentação que Plantin considerará, na senda de Ducrot e Anscombre, a existência de palavras que sinalizam a orientação argumentativa de um enunciado e a função de alguns conectores ao serviço da estruturação argumentativa de um texto (cf. 1996: 66- 68).

Por fim, Plantin considera a argumentação como um processo interactivo, tendo em vista essencialmente a dinâmica associada à interacção discursiva. É neste plano que surgem os argumentos pela força ou pela ignorância, a importância do implícito nas trocas verbais e na construção de argumentação e, ainda, a argumentação sobre a pessoa ou a argumentação de autoridade (1996: 72-93).

Em síntese, a proposta desenvolvida por Plantin tem a virtualidade de integrar diferentes pontos de vista na análise da argumentação, desde um plano estritamente linguístico, passando pela relação entre língua e realidade representada, até ao domínio da interacção linguística. Todos estes domínios são considerados como definitórios da argumentação enquanto actividade verbal.