5 ELABORAÇÃO DOS MODELOS SEMÂNTICOS E COMPARAÇÃO COM OS
5.2 As características de ambos os modelos discursivos
5.2.2 O modelo semântico do Movimento Pentecostal
Como dito anteriormente, este ponto da pesquisa é que traz menor surpresa ou novidade, tendo em vista que Silva (2006) analisou com grande detalhe e fundamentação as congruências entre o modelo pentecostal e a Renovação Carismática. Traçamos este percurso novamente, ressaltando as semelhanças e algumas pequenas nuances.
Assim como no modelo carismático, o discurso pentecostal tem como um de seus semas que podemos identificar como principal a ideia de /Oração/. Mas, assim como foi observado por Silva (2006), ocorre que, no Movimento Pentecostal, este sema não se opõe à /Ação/, pois não se trata de um discurso que substituiria a ação pela oração. Talvez, somente um tipo de comunidade discursiva de cunho monástico poderia cultivar uma oposição dessa natureza, ainda que, ali essa postura de oração poderia ser qualificada como uma espécie de ação.
Como ocorre no modelo carismático, o discurso pentecostal defende uma “ação por meio da oração”. E por oração, podemos entender aqui as ações que envolvem as manifestações “sobrenaturais” analisadas ao longo da presente tese, como a cura dos
179 enfermos e a expulsão de demônios. Como é inviável uma oposição entre /Ação/ e /Oração/, este último sema será colocado como em oposição ao sema /Secularização/. Dessa maneira, o modelo pentecostal desenvolve, com uma operação de interincompreensão, regulada por um simulacro, a oposição entre /Oração/ e /Secularização/, traduzindo o sema /Ação/ do modelo da TMI para dentro de sua própria rede de restrições semânticas. Dessa forma, instaura a polêmica com o conceito mais importante do modelo integral (/Ação/), mas relido como /Secularização/.
Estendendo o sema /Oração/ ao eixo do cristianismo, vemos serem produzidos outros semas, consonantes com aqueles que são característicos do modelo carismático. Entre eles, estão a /Santidade/ e a /Espiritualidade/. Aqui há uma pequena nuance. Enquanto no modelo carismático encontramos o sema /Devoção/, no modelo do Movimento Pentecostal este é reinterpretado como /Santidade/. Em sentido amplo, seriam sinônimos. Contudo, a palavra “devoção” não é de uso corriqueiro entre os enunciados produzidos por adeptos do modelo pentecostal, assim como o verbo “rezar”, que é substituído por “orar”, e que traz uma ideia de maior espontaneidade, ao contrário das rezas padronizadas como o Pai Nosso e a Ave-Maria. Dessa forma, substituímos, na construção do quadro que representa os principais semas do Movimento Pentecostal, /Devoção/ por /Santidade/.
Cabe ressaltar que, segundo o modelo pentecostal, todos os cristãos que frequentam assiduamente a igreja e que vivem segundo os padrões morais bíblicos (pessoas que não bebem, não fumam, não frequentam noitadas, não fazem sexo antes do casamento, não falam palavrões etc.) são vistas como “santos”. Por isso, há uma constante defesa da busca pela “santidade”, que no jargão católico poderia ser o equivalente à devoção, ainda que ambos os conceitos guardem grandes diferenças.
O sema da /Santidade/ guarda, quanto aos efeitos, grandes semelhanças quando comparado ao sema /Devoção/ no discurso carismático: buscar em primeiro lugar as “coisas do alto”, e não as terrenas; desenvolver uma intimidade com Deus e com o “mundo espiritual”, por meio da busca ao Espírito Santo, em oposição ao mundo material; viver os milagres e operações sobrenaturais como forma de relacionamento com Deus. Por outro lado, assim como no discurso carismático, a busca pelo sobrenatural visto como paradigma de comportamento do “verdadeiro” cristão lança automaticamente a um segundo plano o universo social, político econômico. Mas, ao contrário do que ocorre, em geral com o modelo carismático, a relação com o político é mais frequente, tendo em vista que cada vez mais adeptos do Movimento Pentecostal
180 têm ocupado cargos eletivos, ao ponto em que criaram a famosa “bancada evangélica”, que é, quase que em sua totalidade, composta por sujeitos que enunciam a partir do modelo pentecostal.
Talvez, esta seja uma das grandes diferenças entre o discurso da Renovação Católica Carismática e o Movimento Pentecostal. Como exemplificação, basta lembrar que não existe uma “Bancada Católica”, enquanto a Bancada Evangélica não só existe, como tem protagonizado atos que marcaram a mídia nos últimos tempos. Como ilustração, podemos citar a presença polêmica e marcante do deputado federal pastor Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos e nas discussões em torno da chamada “cura gay”. Outro exemplo é o próprio presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, membro da bancada evangélica, que tem desempenhado papel fundamental nas polêmicas em torno dos escândalos da Petrobras e nas discussões em torno do impeachment. Por esta razão, julgamos extremamente produtiva a análise do modo de constituição e funcionamento do modelo discursivo do Movimento Pentecostal, tendo em vista a presença marcante deste tipo de discurso no cenário político atual.
Quando passamos ao eixo do protestantismo, aplicando sobre ele o sema /Oração/, obtemos resultamos semelhantes aos encontrados por Silva em seu estudo do modelo carismático. Os semas em oposição obtidos são: /Submissão/ versus /Rebeldia/; /Humildade/ versus /Independência/; e /Hierarquia/ versus /Anarquia/. Alteramos alguns elementos identificados no modelo carismático, seja por uma distinção discursiva ou por uma adequação de vocabulário, mais afeito ao jargão pentecostal. Entretanto, não podemos ignorar que a seleção lexical possui importância em termos discursivos. Por isso, as diferenças entre os semas da Renovação Carismática e do Movimento Pentecostal são relativamente significativas.
Uma distinção fundamental com o modelo carismático é que, no universo pentecostal, não há uma centralização da Igreja com um líder único, o papa. Mas isso não impede que os semas /Submissão/ e /Hierarquia/ sejam claros e facilmente identificados. Em vez de uma obediência à Igreja Romana, no discurso pentecostal a obediência é mais voltada a Deus e ao padrão moral bíblico, ainda que este seja expresso na submissão ao líder humano imediato, seja o pastor da igreja local, o bispo responsável por uma região ou mesmo ao líder nacional de determinada denominação.
A figura do “pecador perdoado”, identificada por Silva (2006) no modelo carismático, pode ser encontrada no discurso pentecostal. Essa figura é categórica no
181 modelo, pois expressa o cristão protestante “verdadeiro” como sendo aquele que cultiva uma dependência de Deus, já que foi perdoado por seus pecados pelo sacrifício de Cristo na cruz. Por isso, ele é alguém que deve ser grato, humilde e submisso, pois reconhece ser incapaz de julgar o que é melhor para sua própria vida, dependendo totalmente do modelo bíblico para sua prosperidade e felicidade.
Reunindo todos os elementos, poderíamos colocar da seguinte maneira o modelo discursivo expresso pelos semas do discurso do Movimento Pentecostal:
Quadro 5: Submodelo semântico do discurso do Movimento Pentecostal
Eixos semânticos primitivos M2+ Oração M2- Secularização Cristianismo /Espiritualidade/ /Mundanização/ /Confiança/ /Descrença/ /Céus/ /Terra/ Protestantismo /Submissão/ /Rebeldia/ /Humildade/ /Independência / /Hierarquia/ /Anarquia/
Somente após a formalização de ambos os quadros, podemos ter uma clara expressão do interdiscurso que determina a formação do modelo da Teologia da Missão Integral e do Movimento Pentecostal. Com base nos elementos levantados acima, podemos compreender de maneira mais clara o modo como cada modelo desenvolve seu etos, seus traços de caráter e personalidade. Assim, criam uma “maneira de ser” que se mostra em direta dissonância com o modelo oposto, com o qual interagem de forma polêmica, buscando a legitimação de sua fala por meio da deslegitimação da enunciação alheia. Por esta razão, ao contrário do que fez Silva, optamos pelo etos como ponto referencial de nossa análise. Isso porque é um conceito com o qual guardamos maior familiaridade, assim como pelo fato de ser uma porta de entrada que abre margem e integra outros planos discursivos.
No momento em que o discurso pentecostal constrói, por meio de sua enunciação, o etos do “homem de Deus”, se assemelha grandemente ao conferido ao fiador do discurso carismático, conforme identificado por Silva. Trata-se de um
182 enunciador que faz entrar em jogo o sema da /Espiritualidade/, já que se coloca como alguém em constante busca por intimidade com Deus e por acesso ao mundo espiritual. Além disso, é um enunciador que se coloca como em obediência às autoridades superiores, de modo que enuncia a partir de um tom submisso, humilde e espiritual. É por esta razão que, assim como no discurso carismático, valoriza o gênero “pregação”, de modo que sua enunciação, ainda que por escrito, simula a “pregação em praça pública”.
Trata-se, assim como no discurso carismático, de uma enunciação que traz frequentemente um tom profético e fortemente retórico. Quanto às práticas, há algumas distinções com o modelo carismático. Não encontramos, obviamente, a devoção a Maria, a veneração dos santos ou a valorização de sacramentos como a Eucaristia e a Confissão. Podemos dizer, entretanto, que as práticas que caracterizam o modelo pentecostal são “equivalentes” àquelas encontradas no modelo carismático. Há a valorização da oração, da busca pelo “fogo do Espírito”, por intimidade com Deus, pelo contato com o sobrenatural em meio aos louvores.
O grande ponto em comum é a valorização da Bíblia. Ainda que existam diferenças entre os textos contidos na Bíblia Católica quando comparada à Bíblia Protestante (que contém menos livros), o texto das Escrituras é visto como a inerrante palavra de Deus. A Bíblia é, em geral, abordada como infalível, e como direta expressão da vontade de Deus para a humanidade. É abordada, literalmente, como um texto sagrado. Ambos os modelos são, em suma, atrelados a uma “vida de oração”, e este é o aspecto que os torna mais semelhantes.
Em outra vertente, o modelo da Teologia da Missão Integral traz consigo a construção de um outro “modo de ser”. Em vez de ser caracterizado pelo “homem de oração”, o enunciador integral é caracterizado, exatamente como no modelo da Teologia da Libertação (SILVA, 2006, p.38), como o “intelectual cristão”, que está sempre pensando numa forma de melhorar sua luta contra a opressão do pobre por uma elite que o explora, seja por meios econômicos como por meios “teológicos”. Dessa forma, os semas /Ação/ e /Luta/ estão em direta dissonância com o que entendem ser uma atitude passiva por parte dos pentecostais, que são preocupados com a alma, mas ignoram o corpo, segundo a tradução que fazem. Por isso, agindo como um intelectual cristão engajado, aliados à sua valorização da coletividade e de seu repúdio a uma hierarquização rígida, os gêneros mais comuns são os congressos e artigos acadêmicos.
183 Ao contrário dos encontros pentecostais, em que alguns falantes de destaque trazem mensagens de Deus à comunidade, no modelo integral todos podem, em geral, ter direito à palavra, Por isso, são comuns as votações, consultas, plenárias e dinâmicas de perguntas e respostas. Agindo assim, se assemelham grandemente à forma como o modelo da Teologia da Libertação organiza suas reuniões.
Em termos de intertextualidade, utilizam, como os pentecostais, a Bíblia. Contudo, como vimos, privilegiam textos do Antigo Testamento, mais especificamente aquilo que caracteriza o “Profetismo Hebraico”. Ou seja, são textos que narram histórias de profetas do antigo Reino de Israel que defendiam os excluídos de sua exploração pelas elites. É com base nesses textos que constroem, como vimos, o dispositivo “denúncia”, que caracteriza a enunciação da Teologia da Missão Integral. Dessa maneira, a seleção dos textos vistos como válidos passam por sua rede de restrições semânticas, mais especificamente naquilo que diz respeito à libertação do oprimido. Assim, mais uma vez, o discurso da TMI guarda grandes semelhanças com aquele que é característico da Teologia da Libertação, segundo estudado por Silva.
Como vimos, seu discurso possui duas modalidades: o anúncio (a pregação ao oprimido, conclamando a fugir da alienação e tornar-se consciente de sua condição degradante); e a “denúncia” (a pregação voltada ao dominador, acusando-o por seus maus feitos e alertando-o sobre o juízo divino). Essas modalidades são expressões dos semas que compõem esse discurso, principalmente /Ação/, /Libertação/ e /Resistência/.
Podemos concluir, portanto, que o discurso da Teologia da Missão Integral guarda grandes semelhanças com aquele que caracteriza a Teologia da Libertação. Além disso, identificamos que o discurso da TMI funciona diretamente com base na rede de restrições semântica que caracteriza essa comunidade discursiva, resumido no quadro acima.