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O MODELO TEÓRICO DE ACOPLAMENTO ESTRUTURAL

4 QUE QUADRO TEÓRICO RECORREMOS PARA FUNDAMENTAR O NOSSO ARGUMENTO NO ÂMBITO DA GESTÃO?

4.3 O MODELO TEÓRICO DE ACOPLAMENTO ESTRUTURAL

A Teoria de Autopoiese de Humberto Maturana e Francisco Varela tornou-se um interessante estudo para as Ciências Políticas devido a quatro aspectos: (a) explicação sobre processos de sistemas e de gestão; (b) compreensão autopoiética da gestão68; (c) classificação das chamadas estratégias de gestão e (d) uso como estratégias de pesquisa para a formulação de hipóteses sobre as condições de gestão, sobre sua implantação e sobre os seus efeitos, tanto no modelo-empírico quanto no modelo-teórico. (GÖRLITZ; BURTH, 1998, p. 223) Ela tem, como já dissemos no início deste capítulo teórico, a função de fornecer axiomas para o

Theoriemodell Struktureller Kopplung (Modelo Teórico de Acoplamento Estrutural),

desenvolvida pelos cientistas alemães Hans-Peter Burth e Axel Görlitz.69 Em outras palavras, o Modelo Teórico de Acoplamento Estrutural se baseia nos axiomas da Teoria de Autopoiese. Bergmann (2000, p. 203-204) especifica esses axiomas. O Modelo Teórico de Acoplamento Estrutural é um construto teórico axiomatizado, que se fundamenta nos três teoremas:

68 A razão pela qual a Teoria de Autopoiese encontrou ressonância nas Ciências Sociais tem a ver exatamente

com o fato de que ela une dois aspectos de autonomia de auto-organização: a autonomia processual e a autonomia cognitiva. (GÖRLITZ; BURTH, 1998, p. 205 e 229)

69 O termo Modelo Teórico descreve um modelo integrativo de teorias e explicações científicas. (BURTH;

STARZMANN, 2001, p. 59-60) Nesse caso, precisam se integrar, por exemplo, teorias de ação, teorias de motivação, teorias da psicologia social. Vale ressaltar que os termos teoria e modelo são utilizados conforme a linha empírico-analítica da ciência. Ao contrário do modelo, o conceito teoria é definido como um conjunto de frases analíticas e empíricas. Uma teoria se refere diretamente aos fenômenos reais.

(1) Teorema de acoplamento: a percepção de cada sistema social é determinada pela estrutura, pelos interesses e pelas próprias capacidades e, por isso, exige, e, ao mesmo tempo, condiciona os acoplamentos.

(2) O teorema da dinâmica: esses acoplamentos, por sua vez, influenciam as capacidades do sistema social, como também suas mudanças de comportamento.

(3) O teorema da gestão: a percepção estruturalmente determinada, os interesses, as capacidades e os acoplamentos com o meio condicionam o desenvolvimento estrutural, ou seja, eles condicionam tentativas de gestão que precisa, por isso, que o conhecimento volte para ela continuamente, ou seja, que cada ato seja um ato recursivo.

No primeiro teorema aponta-se a importância dos acoplamentos estruturais, porque apenas através de acoplamentos estruturais o sistema estruturalmente determinado e operacionalmente fechado está sensível para mudanças no seu meio. No que diz respeito ao meio social, é importante distinguir entre condições sociais que são produzidas externamente e as coordenações de comportamento que são produzidas internamente. Essas coordenações, ou seja, as relações internas de um sistema social podem influenciar ou até produzir condições sociais. (BERGMANN, 2000, p. 203- 204)

Se a relação entre sistema e ambiente acaba por desencadear uma mudança ou não depende da estrutura do sistema e/ou da estrutura do interlocutor localizado no ambiente. Por isso, um modelo de gestão precisa abrir mão da visão que se deve encaminhar estímulos para determinar o comportamento do outro. A visão não tradicional de gestão não pode ser mantida:

(a) a idéia tradicional de gestão, como uma relação causal entre um sujeito de gestão e um objeto de gestão, é substituída por uma compreensão probabilística de gestão; (b) gestão não é mais entendida como uma relação unilateral, hierárquica, mas como processo de interação cuja realização empírica é aberta. (GÖRLITZ; BURTH, 1998, p. 242; traduzido pela autora)

4.3.1 Modelos de gestão

Parece oportuno esclarecer brevemente o que se entende sobre gestão, principalmente em relação ao termo governar, pois governar e gerir são dois termos semelhantes, porém não sinônimos. Governar pode ser entendido como o processo geral de execução do poder político. Gerir, conforme Mayntz (1987, p. 92), se limita a uma parte do processo de governar, isto é, a dimensão da sua realização. Em outras palavras, gerir se refere à realização técnico- temática da política. Comparando com a construção de uma casa, poderíamos imaginar o governo como arquiteto, que decide sobre o projeto que será implementado, e o gestor como

engenheiro, responsável direto pela execução. Isso, no entanto, não significa necessariamente que a política decide e a gestão apenas operaliza e realiza as decisões. Trata-se mais de decisões distintas, como reporta Luhmann (1971), que distingue entre o sistema político, que formula as premissas de decisões, e a gestão, que toma as decisões concretas. O conceito

gestão, não obstante, muda muito a depender da abordagem na qual é discutido. Há tantas

abordagens nas ciências políticas que não é possível se falar em uma única teoria de gestão ou uma teoria universal de gestão. É melhor se referir a várias vertentes de teoria de gestão. (GÖRLITZ; BURTH, 1998, p. 79)

Os modelos mais tradicionais, e ainda presentes, são modelos hierárquicos baseados justamente na idéia de que políticas e programas políticos podem determinar mudanças no comportamento de sistemas sociais. Esses modelos operam com a distinção entre interior e exterior, compreendendo os sistemas como sistemas abertos que mantêm processos de troca com seu meio. Talcott Parsons (apud JENSEN, 1980) chamou esse processo de relação entre

input e output, David Easton (1967) as especificou em wants, demands e supports.

Conceito tradicional de gestão política Input Sujeto da gestão Objetivo: mudança social Aplicação de instrumentos Output Sistema político Sistema social Objeto de gestão Reação à gestão Comportamento social determinado pela política

Fonte: GÖRLITZ; BURTH, 1998, p. 115; traduzido pela autora. Diagrama 9 – Conceito tradicional de gestão política

A gestão é compreendida como intervenção em um sistema social. O sistema do gestor – aqui o sistema político – percebe um input. Conforme esse input o gestor (sujeito) formula objetivos de políticas e escolhe instrumentos e a sua forma de implantação. Esses programas são o output do sistema político que pretende determinar o comportamento do seu destinatário (objeto da gestão), isto é, por exemplo, o sistema escolar ou a escola.

Mesmo que esse modelo tradicional, no decorrer do tempo, tenha ganhado uma forma circular, como mostra Diagrama a seguir, não houve mundanças no aspecto da intervenção.

Não mudou o presuposto de uma compreensão linear hierárquica da gestão. A gestão, também no modelo cíclico, está sendo analiticamente distinguida em fases de processos de soluções de problemas. O sistema político continua a ser o sujeito de gestão, porque é ele que inicia a gestão, que estimula seus objetivos e expectativas, que seleciona as estratégias e que as implementa e avalia. Nesse modelo, porém, é inserido um momento de feedback. A avaliação, tanto do resultado do programa político, como também do processo da gestão, contribui para a aprendizagem do sistema político. Todavia, mantém-se, também nesse modelo, a visão determinista.

Modelo do ciclo de policy

Aprendizagem política Iniciação Estimação Seleção Implantação Avaliação Processo político

Fonte: GÖRLITZ; BURTH, 1998, p. 145; traduzido pela autora. Diagrama 10 – Modelo do ciclo de policy

4.3.2 A visão não tradicional de gestão

O Modelo Teórico de Acoplamento Estrutural que se encaixa na linha dos modelos cibernéticos oriunda da teoria de sistemas de Ludwig v. Bertalanffy nos anos 40, leva, no entanto, em conta se um programa político e/ou uma estratégica de gestão são perceptíveis, se as pessoas são capazes de participar e se os resultados têm um efeito recíproco/recursivo para os gestores, ou seja, um retorno direto para a gestão.

Esse modelo implica três aspectos indispensáveis, isto é, a perceptibilidade, a dinâmica e a circularidade/recursão. Ele rompe com a visão determinista. Gestão significa uma mudança perceptível no meio que exige reações dos outros que vivem nesse meio. Porém, essas reações não podem ser previstas. Conforme o Modelo Teórico de Acoplamento Estrutural, trata-se de um processo interativo, em que os sistemas acoplados influenciam-se mutuamente. A maneira como essa influência acontece produz efeitos recíprocos, ou seja, como os impulsos são percebidos e trabalhados por um sistema produz efeitos diretos para o outro sistema. (BURTH; GÖRLITZ, 1998, p. 241-242)

Em cada situação de gestão formam-se diferentes tipos de interação e matrizes de relações entre o sistema e seu meio social. A Teoria de Autopoiese não especifica se essas relações representam necessariamente uma interação de pares iguais. Se as interações entre dois ou mais sistemas sociais acontecem simétrica ou assimetricamente, depende da situação empírica específica. (GÖRLITZ; BURTH, 1998, p. 242)

Quando surge um problema que os atores de um dado sistema social consideram relevante e que eles querem solucionar, eles diferenciam setores de interação entre si e sistemas do meio social para criar acoplamentos. É possível que esses acoplamentos se mantenham inconscientes e que talvez elas apenas se tornem conscientes para os participantes da interação devido a um observador externo, por exemplo, um sociólogo de organizações ou um analítico cientista político. (GÖRLITZ; BURTH, 1998, p. 242)

O Modelo Teórico de Acoplamento Estrutural, introduz, conforme a Teoria de Autopoiese, mais um aspecto novo de sistema, isto é, o fato que o sistema é operacionalmente fechado. Vimos que isso não quer dizer que o sistema seja isolado, sem contato com seu meio. O conceito operacionalmente fechado implica que o sistema perceba esse meio conforme seu interior. Qualquer mudança partindo desse meio não consegue entrar no sistema em forma de um estímulo. Ela se torna uma perturbação e o fato se ela está sendo percebida e/ou trabalhada depende do próprio sistema, como mostra o Diagrama a seguir.

O gestor do sistema deve considerar que: (a) é bem provável que ele próprio não esteja consciente de todos os tipos de inter-relações e (b) os seus atos são percebidos pelos outros conforme a lógica deles. Um estímulo que ele mandou para conseguir uma desejada mudança nem sempre terá sucesso, porque a adequação ao estímulo não depende nem da qualidade do estímulo nem das condições ou da situação, mas sim da lógica dos receptores. Por isso torna- se tão importante ampliar o conhecimento sobre todas as pessoas envolvidas no processo de gestão: os que implantam e os que recebem.

As perguntas sobre como um acoplamento se torna estrutural é relevante para a gestão, porque algumas estratégias não funcionam ou provocam até contra-efeitos, enquanto outras estratégias são respondidas pelo sistema de maneira desejada. Se estratégias e gestão são bem- sucedidas ou não, num primeiro momento, não depende, como já sabemos, do gestor. Depende da estrutura do sistema que a percebe. Supõe-se que a probabilidade do sucesso aumenta se essas duas variáveis são combináveis às interações internas do sistema, porque elas precisam ligar-se às interações sociais já existentes. (BERGMANN, 2002, p. 206) Por isso, como já apontou Morgan (2006, p. 244), é importante conhecer não só os implementadores e os receptores das estratégias, mas também a lógica das interações

Fonte: Adaptada em GÖRLITZ; BURTH, 1995, p. 244.

Diagrama 11 – Gestão política no processo do acoplamento estrutural