“Não me surpreendeu a proclamação da República. O modo como se efetuou é que se constituiu uma indigna cilada, um erro, um crime, fonte de tamanhas desgraças, só remediáveis com a restauração.” (CELSO, 1901: 128).
O 15 de novembro foi inserido na historiografia e no imaginário social como um acontecimento fundador do que somos como brasileiros, podendo ser visto como um lugar de memória e como um marco significativo de nossa história nacional. A explosiva combinação entre a perda de apoio da monarquia por parte de setores influentes, como os grandes proprietários de terras e de escravos, bem como os descontentamentos militares e a inabilidade política do governo imperial para lidar com interesses tão diversos colaboraram para a instauração do novo regime republicano. Encontrando-se minada a base da monarquia brasileira, encontrava-se bem pavimentado o ideário republicano quando o golpe militar fez ruir o estado imperial (NEVES, 2010: 26-30).
Affonso Celso afirma que a República começou mal, “(...) trazendo em si o germe da morte; começou pela traição42, pela violação de princípios que não perdoam violações.” (1901: 138). O modo como foi feita, “Constituída pelo exército e a marinha, em nome de uma nação bestializada43, repugnou a todos os meus princípios. Considerei-a inversão irremediavelmente funesta de normas imprescritíveis.” (1895: 320). Os poucos cidadãos que teriam apoiado o levante militar contra o Império teriam o feito para conquistar posições políticas e para satisfazer ambições pessoais.44
Segundo este autor, não caberia aos militares, detentores das armas, atuar diretamente na esfera política: “A espada não se afaz ao eixo do carro do Estado”. (1895: 321). Não caberia às forças armadas organizar ou derrubar governos, mas sim assegurar o cumprimento da lei e obedecer fielmente às autoridades legitimamente instituídas, com o intuito de assegurar a paz interna e defender a honra e dignidade nacionais contra os inimigos externos: “O exército e a esquadra, sob pena de se aniquilarem e sacrificarem a
42 A traição a que se refere Affonso Celso é atribuída a Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, homens que
eram tidos como de confiança por D. Pedro II e pelo chefe do último gabinete imperial, o Visconde de Ouro Preto (1895: 321).
43 A referência à conhecida frase de Aristides Lobo, em que afirmava o povo ter assistido aos acontecimentos
de novembro de 1889 de forma bestializada, é encontrada em diversas passagens de distintas obras de Affonso Celso, como em Guerrrilhas, Contraditas Monarquicas (1896: 3), Oito Anos de Parlamento e Sexta
tese.
44 “Não é exato que uma parte do povo, mínima que fosse, interviesse no levante de 15 de novembro, -
73 Pátria, não podem ser republicanos nem monarquistas, nem liberais, nem conservadores, nem positivistas, mas só e unicamente brasileiros.”(CELSO, 1896: 72).
O regime republicano brasileiro para Affonso Celso apenas preponderaria graças às classes armadas na base do terror. Um governo com estas características estaria fadado ao fracasso, uma vez que “As classes militares são temidas, mas a história demonstra quão efêmero é qualquer regime originado pelo terror.” (Idem). O exército teria se sublevado contra a monarquia e a deposto, sendo explorado pelos republicanos radicais em um momento oportuno, alegando que sua classe era perseguida e desconceituada pelo governo imperial (1895: 281; 1901: 137).
Estes elementos teriam gerado a repugnância por parte de diversos compatriotas, bem como teria sido a origem de diversos males da administração republicana, atribuídos ao levante militar e o advento da nova forma de governo. Como vimos anteriormente, Affonso Celso defendia a adoção da forma republicana de governo por vias legais, mediante reformas. Segundo sua perspectiva, “se a república era realmente a aspiração do povo brasileiro, não houvera sido difícil consegui-la de maneira nobre, e de consequências menos funestas para o Brasil, como se conseguiu a abolição.” (1901: 138).
A Constituição Política do Império do Brasil de 1824, mesmo que outorgada, é apresentada por Affonso Celso como mais liberal, aberta e prática do que a Constituição de 1891. Em seu art. 178, inserido no “Título 8º - Das Disposições Gerais, Garantias dos Direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros” consta que “É só constitucional o que diz respeito aos limites, e atribuições respectivas dos Poderes Políticos, e aos Direitos políticos, e individuais dos Cidadãos.” (BRASIL, 1824). O dispositivo ainda afirma que tudo o que não é considerado pela Carta como constitucional pode ser alterado e reformado pelas casas legislativas ordinárias, não sendo necessárias mais formalidades (CELSO, 1895: 169).
Fazendo uso de sua formação jurídica, Affonso Celso defende que graças à uma disposição tão ampla da legislação imperial, largas reformas poderiam ser alcançadas pelas vias legais. As propostas de reforma dos artigos constitucionais deveriam ser realizadas por escrito na Câmara dos Deputados e possuir o apoio de um terço dos membros da casa. Após ser lida e apresentada por três vezes, com intervalo de seis dias entre cada apresentação, os deputados deveriam debater e, caso a maioria dos membros concordasse, seria formulada uma proposta de lei que, “(...) expedida e sancionada e promulgada pelo Imperador, em forma ordinária, mandaria aos eleitores dos deputados para a seguinte legislatura que nas
74 procurações lhes conferissem especial faculdade para a pretendida alteração ou reforma.” (CELSO, 1895: 170). Na primeira sessão da legislatura seguinte, a matéria seria novamente proposta e discutida, e o que fosse decidido viria a prevalecer para a modificação ou adição à lei constitucional imperial, sendo juntada à Constituição e promulgada de forma solene. Este trâmite de reforma constitucional apresentado por Affonso Celso tem como base o disposto nos artigos 174, 175, 176 e 177 da Constituição de 1824.45
Devido a estas previsões constitucionais, onde Affonso Celso enxergava possibilidades de reformas de maneira simples e rápida “(...) até mesmo a república poderia ter sido pacificamente decretada, sem que nenhum obstáculo constitucional lhe embargasse a marcha triunfante, desde que, decidido, o povo a reclamasse.” (CELSO, 1895: 171). A única coisa necessária seria que o povo designasse representantes republicanos, ou ao menos interessados em consultar a vontade popular acerca da mudança de forma de governo, em número suficiente capaz de aprovar a lei e convocar uma nova constituinte capaz de resolver sobre a adoção, ou não, do regime republicano (Idem).
Contra o argumento dos radicais republicanos de que o Imperador faria uso do seu poder de veto, uma das prerrogativas de deu Poder Moderador, ao invés de sancionar e promulgar uma lei capaz de alterar a forma de governo, Affonso Celso lembra que a denegação do monarca possuía apenas efeito suspensivo, conforme o art. 65 da respectiva Constituição46. Desta forma, bastaria o projeto ser aprovado por duas legislaturas sucessivas para que fosse dispensada a sanção imperial. Logo, concluiu Affonso Celso, “(...) sob o sistema monárquico, era lícito o advento da república por via constitucional, mediante apenas um trato de tempo relativamente curto, tenacidade e convicção.” (1895: 172).
45 “Art. 174. Se passados quatro anos, depois de jurada a Constituição do Brasil, se conhecer, que algum dos
seus artigos merece reforma, se fará a proposição por escrito, a qual deve ter origem na Câmara dos Deputados, se apoiada pela terça parte deles; Art. 175. A proposição será lida três vezes com intervalos de seis dias de uma à outra leitura; e depois da terceira, deliberará a Câmara dos Deputados, se poderá ser admitida à discussão, seguindo-se tudo o mais, que é preciso para formação de uma Lei; Art. 176. Admitida a discussão, e vencida a necessidade da Reforma do Artigo Constitucional, se expedirá Lei, que será sancionada e promulgada pelo Imperador em forma ordinária; e na qual se ordenará aos Eleitores dos Deputados para a seguinte Legislatura; que nas Procurações lhes confiram especial faculdade para a pretendida alteração, ou reforma; Art. 177. Na seguinte Legislatura, e na primeira Sessão será a matéria proposta e discutida, e o que se vencer, prevalecerá para a mudança, ou adição, à Lei fundamental; e juntando-se À Constituição será solenemente promulgada. ” (BRASIL, 1824).
46 “Art. 65. Esta denegação tem efeito suspensivo somente: pelo que todas as vezes, que as duas Legislaturas,
que se seguirem àquela, que tiver aprovado o Projeto, tornem sucessivamente a apresentá-lo nos mesmos termos, entender-se-á, que o Imperador tem dado a sanção. ” (Brasil, 1824).
75 Para este intelectual, a Carta Constitucional de um país é um instrumento que deve ser respeitado, mesmo por seus opositores. Seu peso e valor derivam, sobretudo, de seu uso e das tradições que carrega consigo: “Para nós, a forma do instrumento e a sua natureza íntima influem de maneira decisiva sobre a sua aplicabilidade e as respectivas vantagens”. (1895: 166). Apesar de preservar e sustentar o governo monárquico, a Constituição de 1824 possuía, dentre seus elementos essenciais do sistema, as ferramentas capazes de autorizar a mudança da forma de governo; elementos representativos de correntes liberais, mesmo que originadas de uma Constituição outorgada pelo Imperador e não redigida por representantes diretos da nação (CARVALHO, 2012: 84; COSTA, 2010: 144). Desta forma, os militares, ao realizarem o levante armado que pôs fim à monarquia no dia 15 de novembro de 1889, rasgaram a velha Constituição de 1824, instrumento capaz de garantir o advento do regime republicano de forma legal e legítima, segundo Affonso Celso (1895: 271). Esta é a primeira crítica elaborada pelo autor contra o novo regime republicano brasileiro. Passemos à seguinte.