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O modus operandi do jihadismo e a sua evolução

6. O ISLÃO RADICAL E O MOVIMENTO SALAFISTA JIHADISTA GLOBAL

6.2. Organização, tácticas e modus operandi das redes jihadistas salafistas

6.2.1. O modus operandi do jihadismo e a sua evolução

Como sublinhou Brian Michael Jenkins, ―a empresa jihadista é o protótipo das redes criminais e amorfas que dominarão o século XXI‖. Neste sentido, o Ocidente deve desenvolver ―as capacidades, instituições e relações que serão necessárias para conduzir uma guerra global contra actores não estatais‖ (Jenkins 2006, 119; Vegar 2008, 38).

John Gray considera que a ―Al-Qaeda é uma organização essencialmente moderna‖, não apenas devido à utilização de telefones via satélite, computadores portáteis e sites codificados na internet, mas sobretudo, porque os ataques desencadeados aos EUA, em 11 de Setembro de 2001, demonstraram de forma inequívoca que ―a Al-Qaeda compreendeu que as guerras do século XXI são recontros espectaculares em que a disseminação de imagens mediáticas é uma estratégia essencial‖, e a utilização da ―televisão por satélite para angariar apoio nos países muçulmanos faz parte da sua estratégia‖ (Gray 2003, 92).

A Al-Qaeda também é moderna porque tem uma organização moderna e evoluída, pois ―assemelha-se menos às estruturas de comando centralizado dos partidos revolucionários do século XX do que às estruturas celulares dos cartéis de droga e às «esvaziadas» redes das empresas de negócios virtuais. Sem domicílio fixo e com membros activos praticamente de todas as partes do mundo, a Al- Qaeda é «uma multinacional global» ‖ (Gray 2003, 92).

Neste sentido, o teatro de operações iraquiano foi considerado por muitos analistas como um

verdadeiro campo de formação e preparação de terroristas jihadistas e alguns até o apelidaram de

―universidade de terrorismo‖.111 Seguidamente, descrevem-se algumas tácticas e modus operandi

utilizados pelos grupos insurgentes associados à Al-Qaeda, e que porventura poderão ser ―exportados, melhorados e potenciados‖ noutros locais, nomeadamente em solo europeu.

Os teatros de operações do Iraque e a região do Afeganistão/Paquistão, também conhecida por Al-qaedistão (Santos 2009, 215) têm sido excelentes centros de formação e treino dos militantes do movimento salafista jihadista global, onde têm aperfeiçoado e desenvolvido o seu desempenho em

―tácticas assimétricas‖, tais como armadilhas,112 engenhos explosivos improvisados e a realização de

ataques bombistas suicidas, designados operações de martírio nos meios jihadistas (Reuter 2005, 18).

111 El Confidencial Digital. 2007. ―Irak se ha Convertido en el Laboratorio de Pruebas Terroristas que ―Exporta‖ Al Qaeda: Bombas Radioactivas y Explosivos Caseros con Cloro‖, 24 de Abril, http://www.elconfidencialdigital.com/Articulo.aspx?IdObjeto=11572, (consultado em 03/04/2011).

112 Os insurgentes também utilizam animais, como burros, para atingirem os seus objectivos. Para mais informação, cf. Michael Evans. 2009. ―Donkey ‗Suicide‘ Bombing is Latest Tactic Against Patrols‖. The Times (Londres), 30 de Abril, (actualmente apenas disponível por subscrição em

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Estas operações de martírio tiveram o seu renascimento no início da década de 1980, no conflito entre o Irão e o Iraque, durante o qual dezenas de milhares de jovens iranianos, levando presa ao pescoço uma chave que lhes permitia o acesso ao paraíso, investiam contra as posições do exército

iraquiano em nome de Allah e do Ayatollah Khomeiny, o líder carismático da revolução iraniana que

mobilizou os antiquíssimos mitos sacrificiais do Islão xiita com êxito, restaurando o conceito de auto- sacrifício como arma de guerra. Este conceito que causou inúmeras vítimas sem ter alcançado grandes sucessos militares, tornou-se um produto de exportação de sucesso através dos Guardas Revolucionários Iranianos (os Pasdaran) que o exportaram para o Líbano, auxiliando os xiitas libaneses a construir o Hezbollah (Reuter 2005, 18).

Se Khomeiny restaurou o auto-sacrifício, como arma de guerra e preparou o terreno para os atentados suicidas, enquanto táctica de combate, o Hezbollah aperfeiçoou-o, e a sua estratégia marcou de forma indelével as ―operações de martírio‖, como demonstraram, na manhã de Domingo, 23 de Outubro de 1983, em Beirute, quando um camião carregado de explosivos irrompeu pelo quartel- general dos marines norte-americanos e provocou 241 baixas. Cerca de vinte minutos depois deste ataque, a seis quilómetros de distância, outro ataque bombista destruiu um edifício de seis andares em Tiro, provocando 58 baixas, entre os pára-quedistas da Legião Estrangeira francesa que ali estavam aboletados e integravam as forças multinacionais de manutenção de paz (Reuter 2005, 18).

Após estes atentados, qualquer grupo guerrilheiro ou terrorista percebeu que poucas pessoas (nestes atentados foram cinco) dispostas a sacrificar-se, cinco camiões, algumas toneladas de explosivos, um bom planeamento e uma preparação cuidadosa, bastaram para que um pequeno movimento conseguisse fazer frente e ter sucesso, no confronto com duas potências mundiais, ―transformando o poder dos impotentes na impotência dos poderosos‖ (Reuter 2005, 27, 67-68).

Os engenhos explosivos improvisados (improvised explosive devices ou IEDs) são provavelmente a maior ameaça que as forças internacionais enfrentam nestes teatros, como se verifica no teatro afegão, onde até ao ano de 2009, causaram cerca de 80 por cento das vítimas dos EUA (Pincus 2009). De igual modo, no teatro iraquiano, a situação também foi preocupante, contudo a maioria dos dispositivos explosivos improvisados baseavam-se em granadas de artilharia, accionadas por meios electrónicos, enquanto no Afeganistão, são manufacturados com fertilizantes, principalmente nitrato de amónio, e as minas funcionam como detonadores (Pincus 2009).

O modus operandi do movimento salafista jihadista global, genericamente, reparte-se por quatro grandes áreas distintas: a guerra de guerrilha, os ataques terroristas em ambientes urbanos, a difusão

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de propaganda e know-how, principalmente e sobretudo através da internet, e os métodos de

financiamento das suas actividades (Ibáñez e Jordán 2007, 211).

Por vezes, como refere José Luiz Calvo, ―a guerrilha pode ser uma evolução do terrorismo, ou o inverso, o terrorismo pode ser uma táctica complementar‖, contudo, as circunstâncias podem determinar que as operações terroristas e de guerrilha se interliguem de tal forma que por vezes é difícil definir a natureza de algumas organizações que recorrem às duas tácticas, em acções que se complementam (Calvo, in Jordán 2004, 54-55).

No universo jihadista, a fronteira entre os dois métodos de emprego da violência é muitas vezes ténue, porquanto alguns grupos combinam emboscadas ou golpes de mão contra os seus inimigos com ataques suicidas ou o assassinato de reféns a sangue-frio através da decapitação, que foi muito usual na filial da Al-Qaeda no Iraque sob a liderança de Zarkawi (Ibáñez e Jordán 2007, 212).

A experiência de luta de guerrilha contra diversos inimigos, ao longo de mais de 25 anos,

permitiu aos movimentos jihadistas elaborarem um importante acervo doutrinário sobre a guerrilha

jihadista, com as suas lições aprendidas (lessons learned) bem como, da recolha de técnicas e tácticas, extraídas dos diversos manuais das forças especiais dos exércitos, norte-americano e britânico, que as adaptaram às características idiossincráticas dos operacionais destes grupos jihadistas, e que Michael Scheuer descreve da seguinte forma (Scheuer 2006; Ibáñez e Jordán 2007, 213):

 Unidades de combate pequenas e flexíveis, entre 6 a 10 elementos, bem equipados e armados, com grande mobilidade e capacidade para desempenharem uma vasta gama de tarefas, tais como, acções de reconhecimento, emboscadas, ataques de surpresa a pequenas bases, raptos, entre outras e, simultaneamente, serem um alvo relativamente pequeno e

pouco remunerador;113

 Utilização de armamento facilmente disponível e de custo reduzido, principalmente de fabrico russo ou de países que pertenceram ao Pacto de Varsóvia, destacando-se a espingarda automática Kalashnikov AK-47, a arma por excelência de guerrilheiros e terroristas. Como medida de segurança, os manuais recomendam que cada equipa de combate possua vários pequenos depósitos de armamento, distribuídos pela sua área de operações;

113 Um comando do Lashkar-e-Taiba, composto por 10 operacionais, realizou uma operação com grande sucesso que paralisou Bombaim (Mumbai) entre 26 e 29 de Novembro de 2008, fazendo 173 mortos. Para mais informação sobre este atentado e o seu modus operandi, cf. Faria, José Augusto do Vale. 2010. Atentados em Bombaim. Lições a retirar do novo modus operandi jihadista. Pela Lei & pela Grei, Revista da Guarda Nacional Republicana, n.º 85, 86, 87 e 88. Este trabalho foi inicialmente publicado no site do Jornal Defesa e Relações Internacionais, em 25/04/2008, disponível em

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 A doutrina táctica da Al-Qaeda refere que numa subversão as principais tácticas de combate são as emboscadas, as armadilhas com minas e engenhos explosivos improvisados, assim como ataques contra bases militares, usando morteiros ou granadas-foguete (rockets);

 Os manuais jihadistas recomendam também outras medidas, como uma enorme paciência,114

porque a sua estratégia baseia-se numa guerra prolongada de desgaste e de atrito, e por outro lado, evitar, sempre que possível, que as acções armadas realizadas produzam baixas entre os civis, porque o apoio, activo ou passivo, da população é fundamental para terem sucesso, o que não é o caso da Al-Qaeda e dos seus filiados.

Como já referimos, os ataques terroristas e as operações de martírio constituem outro método de intervenção armada, típica do terrorismo de matriz jihadista, cujo objectivo final é transformar em capital político a ansiedade e o medo gerado pelos ataques. As modalidades de preparação e execução dos seus ataques são variadas e estão sujeitas a uma evolução contínua, revelando uma enorme capacidade de adaptação a todos os tipos de situações e ambientes, quer retirando ilações das lições aprendidas por outros grupos, quer através dos elementos de informação recolhidos na comunicação social quando reportam atentados e intervenções policiais, para além dos conselhos tácticos que os

próprios jihadistas partilham e difundem através de sites na internet, vídeos e textos (Ibáñez e Jordán

2007, 215).

Indiscutivelmente, cada ataque da Al-Qaeda é único quanto ao seu planeamento,115 selecção de

objectivos e até mesmo no seu desempenho, tendo como marca característica, o facto de ser executado, em simultâneo por vários bombistas suicidas, em vários locais, de preferência simbólicos, e com muitas pessoas, para provocar a maior quantidade de vítimas e estragos. Estas acções, pela sua espectacularidade, atraem a atenção dos órgãos de comunicação social que rapidamente difundem a

notícia pelo globo, reforçando a causa do movimento jihadista global e, deste modo, contribuem para

atrair novos militantes para a causa (Ibáñez e Jordán 2007, 216).

Como salientou Bruce Hoffman, ―nos anos mais recentes, a arte da comunicação terrorista evoluiu para um ponto no qual os próprios terroristas podem agora controlar todo o processo de produção: determinando o conteúdo, contexto e meio sobre o qual a mensagem é projectada e

114Segundo Antonio Elorza, quer ―para o Profeta Maomé como para José Estaline, a paciência constituía uma virtude revolucionária‖, e actualmente, ―a Al-

Qaeda prossegue rigorosamente este critério‖ (Elorza 2005).

115 O planeamento de qualquer actividade, na tradição cultural árabo-muçulmana, não é muito usual, porque os Muçulmanos tendem a invocar a sorte e o destino, ao invés da acção humana, terminando geralmente qualquer discussão com Inshallah (oxalá Deus queira). Ora, esta ―implicação do fatalismo, significa o desprezo pelo planeamento detalhado, porque para a mente árabo-muçulmana, planeamento significa falta de confiança em Allah‖, e devido a esta característica idiossincrática, muitos árabes duvidaram se os atentados de 11 de Setembro de 2001 foram uma acção da Al-Qaeda, porquanto foram executados com extrema precisão‖ (Klein e Kuperman 2008, 32).

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direccionada de modo preciso para a audiência‖ (ou as múltiplas audiências) alvo‖ (Hoffman 2006, 197-198; Vegar 2008, 10).

Apesar desta matriz identitária, os jihadistas também executam acções de terrorismo selectivo,

como os assassinatos individuais, com armas de fogo ou mesmo armas brancas, sendo o caso do cineasta holandês Theo van Gogh, talvez o mais mediático.

Omar Bakri Mohammed descreveu e caracterizou, as operações de martírio realizadas pela Al- Qaeda, como sendo ―operações em grande escala‖. Para Omar Bakri, ―o texto divino é claro quanto à necessidade de provocar ‗o máximo dano possível‘. O operacional tem portanto de certificar-se de que mata o maior número de pessoas que pode matar. Se não o fizer, espera-o o fogo do Inferno‖ (Moura 2004, 31).

Quanto ao local do atentado, ―a Al-Qaeda deixa sempre uma impressão digital: uma pista, como um carro com um Alcorão ou uma cassete, para ser encontrado pela Polícia‖. Relativamente ao seu modus operandi, ―os ataques são feitos em dois ou três lugares ao mesmo tempo‖, a que se segue a difusão comunicacional da operação, através de um comunicado, e nestes ―basta ler uma frase para se reconhecer o seu rigor teórico: não há nenhum sinal de nacionalismo, não se dizem árabes, nem palestinianos, apenas muçulmanos. Falam sempre do martírio, da morte‖ (Moura 2004, 31).

Yussef al-Qaradawi publicou em 2000, uma fatwa denominada ―As Operações de Martírio na

Palestina Ocupada representam uma das maiores formas de Jihad por amor de Allah‖, que era o elo

que faltava para ser ultrapassada a proibição do suicídio pelo Alcorão, pois sendo a alma dada por Allah, não pode ser tirada por um acto unilateral de um crente mortal. Al-Qaradawi reconheceu o consenso entre a maioria dos juristas muçulmanos, considerando que ―os ataques quase-suicidas realizados por um homem contra um grande número de inimigos, são permitidos quando o autor acredita que tem uma boa hipótese de permanecer vivo, ou se acredita que pode causar perdas substanciais ao inimigo, apesar de a sua morte ser quase certa‖ (Israeli 2003, 95).

Yussef al-Qaradawi termina esta fatwa alertando para o facto de este tipo de operações serem erradamente designadas suicidas, o que considera ser uma descrição errada e enganosa, porquanto, são operações heróicas e de sacrifício. Como operações de martírio, são totalmente separadas do conceito de suicídio, pois o suicida é alguém que está desesperado consigo e com Deus e tira a sua

própria vida, ao invés do mártir, que cheio de fé e da misericórdia de Allah mata pela causa da sua

religião e nação (Israeli 2003, 95).

Segundo esta perspectiva teológica, al-Qaradawi refere que Israel é uma sociedade militar, porquanto homens e mulheres podem ser mobilizados para o serviço militar, a qualquer momento e,

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por conseguinte, constituem um alvo legítimo. Se porventura, uma criança ou um idoso for morto nestas operações, isso não é intencional, mas sim acidental, constituindo acções normalmente proibidas, mas que a guerra permite (Israeli 2003, 95).

Al-Zawahiri no seu livro publicado após o 11 de Setembro de 2001, ―Cavaleiros sob a bandeira do Profeta‖, justificou a necessidade de uma escalada das técnicas e tácticas terroristas,

recomendando o seguinte modus operandi aos militantes jihadistas (Gunaratna 2004, 350-351; Al-

Zawahiri, in Mansfield 2006, 223):

 Todas as operações devem infligir o máximo de vítimas ao inimigo, porque esta é a única linguagem que o Ocidente compreende, independentemente do tempo e esforço que estas operações demorem;

 Concentrar todos os esforços e enfoque nas operações de martírio que constituem a forma mais bem sucedida de infligir dano ao inimigo, pois é o modus operandi, que menos baixas causa no lado mujahidin.

 Os alvos, bem como o tipo e método de armamento utilizado, devem ser escolhidos para causarem impacto na estrutura do inimigo e travá-lo o suficiente para conseguir dominar a sua brutalidade, arrogância e desprezo por todos os tabus e costumes.

 A concentração no inimigo apenas no seu país não é possível nesta fase.

Raphael Israeli, cunhou uma expressão para definir as operações suicidas ou de martírio, características deste tipo de terrorismo, designando-as ―Islamikaze‖, por analogia com as operações kamikaze realizadas pelos japoneses na 2ª Guerra Mundial (Israeli 2003, 99-119). Para além do simbolismo que representam, as operações de martírio realizadas pelos militantes jihadistas, tornaram- se uma espécie de ―bomba inteligente‖, por terem a capacidade de seleccionar o alvo e, determinarem o momento, o local e o modo de executar o ataque. Além disso, este modus operandi simplifica a fase de planeamento, pois não requer a preparação de qualquer retirada (geralmente é a fase mais complexa e arriscada de qualquer acção terrorista convencional) e, os seus efeitos são devastadores (Ibáñez e Jordán 2007, 217).

Segundo um estudo realizado por Robert Pape, realizaram-se 315 ataques suicidas durante o período 1980-2003, os quais representaram apenas 3% do número total de atentados produzidos em todo o mundo, mas causaram 48% das mortes por terrorismo (sem contabilizar as baixas dos atentados de 11 de Setembro de 2001), fazendo com que a média de ataques terroristas suicidas seja doze vezes mais mortal do que as outras formas de terrorismo (Pape 2005, 3-5).

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Outro padrão característico do terrorismo jihadista é a procura de alvos simbólicos cuja

destruição fique indelevelmente gravada na memória do Ocidente. Nesta perspectiva, os ataques a alvos ocidentais visam principalmente afectar o cidadão comum e a sociedade, englobando símbolos

nacionais (como o World Trade Center), sistemas de transporte (aviões, comboios, metro, navios de

cruzeiro, ou outros). Outra táctica muito utilizada com grande impacto nas sociedades ocidentais, e que multiplica o efeito psicológico dos atentados, são os assassinatos cometidos a sangue frio, como o caso da decapitação brutal do jornalista Daniel Pearl e outros reféns no Iraque e na Arábia Saudita (Ibáñez e Jordán 2007, 218).

Contudo, nos últimos tempos e fruto de diversos factores, como a eliminação e detenção de

diversos líderes, o movimento jihadista tem orientado o seu esforço para ―alvos mais fáceis‖, devido

aos constrangimentos inerentes à sua protecção, pela sua natureza ou quantidade. Inicialmente, a Al- Qaeda e os seus grupos associados, procuravam atacar embaixadas, consulados e instalações militares, mas com a crescente protecção e defesa destes locais, direccionaram o seu esforço para alvos mais simples e acessíveis, tais como restaurantes, cafés ou discotecas, assim como hotéis que são excelentes substitutos das embaixadas, porque são menos protegidos, acolhem muitas vezes empresas estrangeiras, além de turistas, jornalistas e empresários ocidentais, constituindo um

objectivo remunerador e com óbvias vantagens tácticas e simbólicas (Ibáñez e Jordán 2007, 218).116

Como também já referimos, as células unipessoais ou jihadistas solitários, são uma estratégia adoptada pela Al-Qaeda, detectada após os serviços de informações terem descoberto e analisado um

manual publicado on-line, onde eram vertidas orientações para os líderes da organização e para a

formação de operacionais jihadistas, com o objectivo de funcionarem em pequenas células, espalhadas pelo mundo (The National Terror Alert 2008).

O manual designado, ―Método para a Construção da Personalidade de um Terrorista Mujahid‖, incentiva os jihadistas a deixarem de se concentrar em ataques de grande escala, como os do 11 de Setembro de 2001, passando a executar ataques de menor escala mas com grande impacto. Se por alguma razão a missão falhar, o jihadista não a deve abortar, mas sim, actuar isoladamente, como um elemento de uma célula (The National Terror Alert 2008).

Este manual recomenda e incentiva a execução de assassinatos a tiro, envenenamento e armadilhas com engenhos explosivos improvisados, telefones móveis e computadores. Além disso, os alvos devem ser seleccionados e hierarquizados por categorias, tais como ―alto perfil‖ que designa presidentes e primeiros-ministros. Os recrutas são também aconselhados, a organizar acções com

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cartões de crédito (furtar, falsificar e clonar), assim como assaltar postos policiais para aquisição de armamento (The National Terror Alert 2008).

Este código de conduta destina-se prioritariamente às células adormecidas e, especialmente aos ―lobos solitários‖ ou células unipessoais nos Estados Unidos, mas é útil para qualquer militante islamista em qualquer parte do globo, com as devidas adaptações (Bakier 2008). Entre as suas

orientações e recomendações, destaca-seo domínio das proveniências árabes e islâmicas, para a sua

aparência não revelar as suas origens, mas se porventura, for mais conveniente ser hispânico, é preferível, aprender espanhol e usar pseudónimos hispânicos, além de possuir documentos de identidade falsos para utilizar na compra de munições, armas ou outro equipamento (Bakier 2008).

A escolha do local de residência também deve ser meticulosa, evitando bairros acentuadamente multiculturais ou zonas frequentadas por traficantes de droga, para evitar a fiscalização da polícia e

especialmente operações da Drug Enforcement Administration. O operacional deve ainda aprender

artes marciais e ter capacidade de auto-protecção, dominar as tecnologias de informação, informática e internet e tornar-se um especialista em vigilância, contra-vigilância e reconhecimento, assim como possuir o know-how para preparar cinturões explosivos e cargas explosivas para armadilhar automóveis (Bakier 2008).

Anwar al Awlaki, o líder da Al-Qaeda para a Península Arábica que está actualmente no topo da agenda terrorista transnacional, devido ao atentado falhado em 25 de Dezembro de 2009, no voo transatlântico para Detroit, publicou um artigo, com um novo conceito operacional, apelando aos jihadistas para executarem ataques simples contra uma variedade de alvos ou objectivos, o que poderá

estar a ganhar popularidade entre os jihadistas de base (Stewart 2010) e que têm vindo a ser

difundidos on-line através da sua revista ―Inspire‖.

Esta revista ―Inspire‖, publicou no seu sexto número (Verão 2011), um artigo de Abu Musab Al- Suri, onde são explicitados os princípios gerais a considerar, do ponto de vista prático, na acção