1. Os paratextos
3.4 O “Momento de Conversão” A Virtude da Obediência Evangélica
O caminho espiritual da protagonista, a partir da Quaresma do ano de 1626, com a idade de vinte e um anos, no perfil de beata, é marcado por um estado de doença, o qual teve a duração, aproximadamente, de quatro meses. Sobre esta passagem, momento comum na vida do grupo destas mulheres, torna-se importante referir a perspetiva recolhida por William de Sousa168, do estudo desenvolvido por Lígia Bellini, sobre as narrativas de devoção elaboradas por religiosas professas em Portugal. Salientando o rigor de análise que a mesma aplicou aos textos que foram objeto do seu estudo, “em que aplicou mesmo métodos quantitativos”, a estudiosa desenha uma estrutura discursiva assente num quadro seletivo de virtudes como arquitetura de um modelo narrativo, que vai conferir a esses relatos padronizados um topus de “perfeição religiosa”. Nessa estrutura, a mesma distingue três momentos fundamentais, os quais classifica como “relatos de conversão”. Uma análise que esquematiza seguindo a evolução da personagem, a evidenciar nos primeiros anos da infância atributos espirituais excecionais, interpretados como indícios de futuras mulheres devotas. Um segundo momento, a que corresponde a categoria do “momento de conversão”, evidenciado por “doenças e tensões familiares”, protagonizados por tais mulheres devotas, as quais, afastando-se do núcleo familiar, repensavam e reorganizavam a sua vida espiritual em uma outra esfera de devoção. E, por último, a escala do momento da morte que culminaria com a revelação de milagres e “outros acontecimentos extraordinários, de um caminho espiritual caracterizado pela busca da perfeição”169.
Ad rem ao caso concreto português, que serve de objeto ao nosso estudo, o “momento de conversão” da biografada é coincidente com a sua primeira doença – um período delimitado por quatro meses e interrompido por uma convalescença, seguindo-se um segundo momento que vem enfatizar o agravamento do estado da sua doença, cuja duração de treze meses é simbolicamente representada por o mistério de um número, na cifra de prenúncio de “morte e nascimento”170
, a derradeira
168
William de Souza Martins, «Modelos e Práticas de Santidade Feminina no Novo Orbe Seráfico do Frade Antônio de Santa Maria Jabotão», TOPOI,v.12, n.22, jan-jun.2011, pp.44-46.
169 Ibidem. 170
Sobre a simbologia do número treze, cf: “Treze: Morte e nascimento, mudança e reatamento depois do final”. Juan Eduardo Cirlot, Dicionário de Símbolos, 2000, p. 268.
“perfeição” pela regeneração da morte.
Esses momentos particulares protagonizados por “homens e mulheres virtuosas” sob o efeito de doenças, é também interpretado por Jacques Gélis como uma “etapa de aperfeiçoamento espiritual”, acrescentando que, “no combate permanente travado entre a alma e o corpo, tudo o que enfraquece o corpo só pode elevar a alma”171.
Da asserção do autor, torna-se possível extrair uma leitura, cruzando-a com outras leituras que fomos transportando por alguns dos fragmentos do Compendio que analisámos. Estes momentos revelaram-se, aparentemente, convergentes e um campo de indícios, um “mistério”…Na tutela de um outro e grande “mistério”, acautelado pelo reverendo Mestre Espiritual, desde a primeira doença de Maria de Brito, elegendo as mesmas cinco mulheres para suas “companheiras”. E, delegando- lhes no gráfico de uma escala hierárquica uma função tutelar, para a tratarem, assistindo-a a partir da sua primeira doença, acompanhando-a até ao último suspiro que precedeu a sua morte.
“Como esta Serva de Deos ser a que temos visto até agora, ninguém o sabia, tirando as duas, com quem seu confessor lhe tinha mandado comunicasse as cousas da sua alma: com tudo era necessária manifestallo ao mundo: e Deos o começou a fazer por hum modo verdadeiramente admirável, tomando por meio huma doença, que lhe durou quasi quatro mezes; de modo que se não podia esconder o que viram aquelas pessoas que a curavam e tratavam”172.
Neste formato, cremos ser possível afirmar que a estrutura desenhada por Lígia Bellini sobre as narrativas de devoção escritas por religiosas portuguesas foi adaptada pelas autoras à arquitetura do Compendio, porém, adstrita de um outro elemento que identificamos como um tópico misterioso a rodear a doença da protagonista e a confundir-se com a “grande maravilha” da sua morte. “Momentos de conversão” a que adicionam um momento de tensão e autoridade popular, no
171 William de Souza Martins, «Modelos e Práticas de Santidade Feminina no Novo Orbe Seráfico do Frade Antônio de Santa Maria Jabotão», TOPOI, v.12, n.22, jan-jun.2011, pp.44-46.
perfeição, intermediado pelo confessor173.
Na qualidade de confessor, o Mestre Espiritual Bernardino das Chagas exerce paralelamente a função de testemunha, coadjuvado por as duas companheiras: Anna Cordeira e Apolónia da Natividade, acompanhando a sua doença e avaliando alguns momentos, os quais “aquelas pessoas”, essas cinco mulheres, acompanharam a cada hora, de vigília, para a curar, tratar e servir, pensando que iria expirar, mas em seu parecer, considerava ele “que não estava morta, com a alma feparada do corpo; fe não extática”174.
A autoridade do Diretor Espiritual surge como uma fonte histórica que as autoras trasladam na forma de discurso direto, fazendo convergir a oralidade com a escrita, através de uma mancha gráfica distinta, no tecido da narrativa. Esta “costura” do texto pensamos corresponder à pena de uma das companheiras, provavelmente de Anna Cordeira, uma testemunha e reprodutora da voz do religioso franciscano materializada por uma escrita a mando do confessor, cuja presença foi anotada por nós no início deste estudo, ainda que ausente numa perspetiva de cotejo.
Também a descrição que se sucede, contemporizada com o tempo da escrita pela pena destas religiosas, vem completar o efeito de prodígio desta vida, visualmente representada e interpretada por um coletivo anónimo, sob o voto de obediência.
“ (…):foi coufa maravilhofa que vifivelmente fês o efpirito, que a tinha transformada, hum movimento, em que todos viram que fe ia defcobrindo a orelha direita de modo, que não parecia que movia a cabeça, fe não o ouvido até o defcobrir, e inclinar todo para a parte, donde feu confeffor lhe falava, fem lhe verem fazer movimento algum com o corpo. Muito fe admirou a gente toda defte prodigio; e muito mais de a verem viva: e todos louvavam a Deos, chorando muitas lagrimas”175.
173 “E para que conftaffe ao povo o como ella eftava; e que o Ceo a tinha dado por filha a efte Padre, excitou-o Deos a que lhe diceffe em voz alta o que fe fegue: Já que Voffa mercê, por imitar a feu Efpofo
CHRISTO JESUS, que obedeceu até á morte, me quiz dar a obediencia da fua alma, mando-lhe que, fe por ventura eftá viva, me dê a orelha da obediência, para que me ouça. E obedeça ao que lhe quero mandar. (…)”. Compendio, cap. XVIIII, p. 135.
174 “Levantou a gente toda grandes louvores a Deos, por verem com feus olhos tão grande maravilha. E parecia-lhe a todos que a ferva de Deos eftava morta: mas feu confeffor conheceu que não eftava morta, com a alma feparada do corpo; fe não extática. (…)”. Compendio. Idem.
o voto de “obediencia Evangélica”176, a “virtude da obediência” que se deverá ter aos Prelados. Uma virtude subentendida em “acontecimentos extraordinários”, na revelação de milagres, emitida por um sinal do Céu, na forma de uma cifra e cujo significado este entendera.
Na linha discursiva que preenche um dos relatos com ligação ao “myfterioso morrer” da Serva de Deus, assertivamente comentado pelas autoras, “para que dahi por diante foffe fó Christo feu viver”, ressalta a intenção de sobrepor o conteúdo de uma verdade, que atestam como confirmação de um milagre.
“E em confirmação defta verdade fucedeu que tornou efte Padre a pegar no Chrifto para lho tirar; e não podendo, pedio a todos os circumftantes, mandando chamar alguns mais pertinazes, e obftinados, e viffem como aquelle Senhor eftava fixo em dous dedos daquella virtuosa donzela, fem fe lhe poder tirar; a qual eles tinham por morta: elle lhe mandou por obediencia largaffe o Chrifto, que nos dous dedos tinha pregado. Ditas eftas palavras, fe começaram os dous dedos a affaftar da cruz, fem fazer movimento algum, fe não com eles, por hum modo, que bem fe deixava ver era milagrofo; e que não era aquella creatura, que os movia, fe não o Creador, que nella obrava, para nefte acto moftrar a virtude da obediencia, que se ha de ter a Prelados, a qual muitas vezes fe ha de largar a Deos por obedecer aos feus mandados”177.
A virtude da obediência representada por uma maiúscula, a mandado divino, concedida a “Prelados”, reproduz-se no desenho de um ato de obediência entre a Serva de Deus e o Mestre Espiritual, observado como um episódio “ extraordinário” e interpretado como um milagre. Uma mediação a mandado divino, signatária do ato de obediência que deverá ser seguido por leigos através da obediência evangélica do ouvir.
Esta nova terminologia, como acrescento da virtude da obediência, destacada por uma grafia diferente e na forma de discurso direto, pensamos tratar-se de uma transcrição do manuscrito do Mestre Espiritual, a confiar na frase exclamativa que conclui a emoção do autor.
176 “E confiderando bem feu Padre efpiritual o que efta maravilha do Ceo fignificava, diffe (falando com Deos, e derramando muitas lagrimas) Bemdito fejais, Senhor, que tão vivo e claro exemplo eftais
moftrando da obediência Evangelica, que os fubditos ham de ter a feus Prelados! Não ha duvida que
nefte ponto acabou de morrer efta ferva de Deos de todo a fi mefma; e que nefte myfteriozo morrer efteve todo o feu lucro, para que dahi por diante foffe fó Christo feu viver. (…)”. Compendio. Idem.
Chagas a Anna Cordeira da Conceição, parente de Maria de Brito e sua primeira companheira, excecionalmente a única a quem a Serva de Deus deveria prestar obediência, a mando e na ausência do confessor. A mesma que também a acompanhou durante toda a sua vida, ouviu e escutou os diálogos, os monólogos e os oráculos para deles dar conta por intermédio da sua escrita.
E, em nosso entender, com ligação a outros momentos que encontrámos no texto, protagonizados pelos mesmos actantes, mas indiciadores de uma nítida consciência da protagonista que se debate, por um efeito de conflito interior.