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O PODER NO ANTIGO REGIME

1.3. O MORALMENTE JUSTO

A pesquisa com a documentação da justiça camarária demonstrou que os conflitos e as rivalidades entre indivíduos ou grupos e as lutas pelo poder foram bastante comuns na Curitiba setecentista, porém também mostrou que a justiça local era reconhecida pela comunidade como um instrumento privilegiado para a resolução destes mesmos conflitos sempre a serviço do bem comum, finalidade última daquela mesma justiça. Ou seja, a justiça local não era tida como a manifestação apriorística de um poder absoluto, mas antes como uma justiça que visava sobretudo a manutenção dos equilíbrios sociais tradicionais. Podemos caracterizar a justiça ordinária como manifestação de um poder local cujo objetivo último era tido e reconhecido como a manutenção de uma determinada ordem vigente e tida pela comunidade como justa e eqüitativa. A ação judiciária estava inserida numa ordem jurídica pré-absolutista, “caracterizada pela sua estrutura particularista – ou seja, pelo fato de o direito particular (o privilégio) se impor ao direito geral (a lei)”.59

No plano doutrinal, a ação judiciária das câmaras encontrava sua justificação na já referida concepção corporativa de sociedade, fundada na autonomia harmoniosa das partes em

58 Ibidem.

59 HESPANHA, Antonio Manuel. Poder e instituições na Europa do Antigo Regime. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 1984. p. 64.

relação ao todo. No plano do direito era-lhe conferida grande capacidade de auto-regulamentação, como pode ser observado a partir do capítulo 65 do primeiro volume das Ordenações Filipinas. No plano prático, pela escassez de meios de controle, tanto materiais quanto humanos, ao dispor do poder régio. Além disso, a autonomia jurisdicional das comunidades locais alicerçava-se na efetividade de seus próprios sistemas políticos, ancorados no poder econômico e simbólico das elites locais tradicionais, muito capazes de estabelecer limites e formas de resistência ao poder central e ao direito oficial.60 Ao mesmo tempo o poder da elite local era limitado e contraposto por uma tradicional noção de direitos e costumes da população em geral.

A expressão „justiça‟, no período colonial, era entendida de modo bem mais amplo que o atual. Justiça podia estar se referindo à organização do aparato judicial, mas podia também ser utilizada como sinônimo de lei, legislação e direito.61 O dicionário de Antonio Moraes e Silva, datado da segunda metade do século XVIII, define justiça como “a virtude de obrar conforme as leis, e o que é direito, principalmente dando a cada um o seu.” Direito é definido como o “moralmente justo, a lei, a faculdade moral concedida pela Lei natural, civil, das gentes, divina” e lei define-se como “a norma prescrita pelo (...) poder legislativo legítimo, e fundado em Direito, ou na força e coação.”62

Na definição acima, podemos distinguir claramente que a noção de lei se fundamentava na idéia de um poder formal dotado de força e coação, enquanto que a noção de direito é muito mais ampla, podendo indicar tanto o direito formal no qual se baseia a lei, como o direito socialmente praticado e informal, que toma por base o “moralmente justo”, pois, a noção internalizada de direitos e a percepção da população sobre uma dada ordem moral estabelecida, é fundamental para entender os mecanismos de ação das comunidades locais. E. P. Thompson utilizou a noção de “economia moral” para estudar os motins de fome

60 HESPANHA, António Manuel. A Arquitetura dos poderes. In: MATTOSO, José (dir.). Op. cit. p.

464-465.

61 SALGADO, Graça (coord.). Fiscais e Meirinhos: A administração no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p. 73.

62 MORAES E SILVA. Antonio. Dicionário de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro : Litho-typografia Fluminense. 1922. Edição fac-simile da segunda edição de 1813.

na Inglaterra setecentista e entender a firme defesa que a população fazia de seus direitos e costumes tradicionais, ou seja, os motins não eram causados apenas pela privação de comida, mas também pelo desrespeito aos pressupostos morais. “É possível detectar em quase toda ação popular do século XVIII uma noção legitimadora. Por noção de legitimação, entendo que os homens e as mulheres da multidão estavam imbuídos da crença de que estavam defendendo direitos ou costumes tradicionais; e de que, em geral, tinham o apoio do consenso mais amplo da comunidade.” 63 Nas sociedades do Antigo Regime os cânones do poder tinham um caráter bastante específico. Eles encontravam sua base no condicionamento pelos sentimentos – desde os sentimentos domésticos até as virtudes da moral clássica e cristã - transformados em deveres jurídicos pela estrutura absorvente do direito comum.

Da piedade familiar surgiam os deveres e direitos jurídicos (dominica potestas) dos patresfamílias em relação aos seus familiares e dependentes, incluindo os escravos. Da gratia (ou liberalitas, caritas) surgia a mercê (ou benefícium), eventualmente o direito à mercê. Da misericórdia surgia o perdão, eventualemnte o direito ao perdão. Da fraternitas (ou simplesmente da amicitia) surgia a compositio ou compromissum, eventualemtne o dever de entrar em compromisso amigável, de resolver as questões per dimidiam (de cortar as diferenças pelo meio).64

O poder local está imerso neste mundo de direitos que exerceu papel fundamental no constante diálogo travado entre os atores sociais. Tal diálogo tinha por objetivo manter a ordem estabelecida e garantir a manutenção do equilíbrio dos poderes. É preciso ter em vista que o conceito de ordem era entendido desde o princípio da Idade Moderna como os vínculos horizontais de associação, tutela e manutenção de um determinado estado de equilíbrio em meio às múltiplas forças atuantes no seio da sociedade, ou seja, manter a ordem era o mesmo que manter os equilíbrios sociais, o que, ao fim, equivalia a fazer justiça.

Carla Maria Junho Anastásia apontou a quebra da ordem tradicional como fator causal das revoltas coloniais na primeira metade do século XVIII. Da mesma forma, percebeu a pequena incidência desses distúrbios na América Portuguesa comparativamente à América Espanhola. A autora argumentou que tal fato se deveu à “noção de direitos internalizada pelos atores coloniais”, pois, “a possibilidade mais efetiva de os colonos se beneficiarem com os

63 THOMPSON, E.P. Costumes em comum – estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo : Companhia das Letras, 2005. p. 152.

64 HESPANHA. Depois do Leviathan. Op. cit. p. 59.

limites impostos ao exercício do poder da Coroa Portuguesa contribuiu para a redução do número de revoltas.”65

A construção de uma tipologia das revoltas coloniais deve estar baseada nas diferentes motivações para o colapso das formas acomodativas que se desenvolveram na América Portuguesa entre colonos e Metrópole. Por formas acomodativas, entende-se um tipo de interação entre dominantes e dominados, caracterizado por uma resolução temporária dos conflitos que são, por princípio, inerentes a essa mesma interação. Essa possibilidade de acomodação derivou de acordos implícitos firmados a partir de obrigações mútuas que existiriam entre atores coloniais e metropolitanos e de limites colocados ao poder do rei.66

Nesse sentido, as câmaras, enquanto órgãos políticos, administrativos e judiciários locais, eram interlocutoras privilegiadas entre os anseios da população e as instâncias superiores do Império Português. Elas eram o fiel da balança no estabelecimento do equilíbrio dos poderes, muito sensíveis em apontar qualquer ruptura nas relações tradicionais mutuamente estabelecidas entre poder local e poder central.

Havia a percepção de que as comunidades tinham deveres para com a Coroa, inclusive o pagamento de impostos. Todavia, esses deveres eram regidos pela noção internalizada de direitos derivada da economia da graça, ou seja, o que era considerado moralmente justo.67 Esse balizamento delicado entre o justo e o abusivo, estabelecia os limites da ação do Estado Português sobre as comunidades locais. A quebra da ordem gerava revolta.

Os motins na América Portuguesa tanto quanto na Espanhola derivam do colapso das formas acomodativas, ou melhor dizendo, do rompimento de acordos implícitos delineados no quadro das relações metrópole-colônia a partir de limites e obrigações mútuas interpostos entre dominantes e dominados, isto é, apesar da posição subalterna da Colônia, há de se perceber que as relações entre dominantes e dominados estavam pautadas por convenções que respeitavam os limites colocados ao exercício do poder metropolitano tanto quanto eram respeitados pelos vassalos os seus deveres para com a Coroa.68

Em geral, o apaziguamento dos motins estava ligado ao restabelecimento da antiga ordem e a concessão do perdão régio aos revoltosos. Essa solução contava com a vantagem de

65 ANASTÁSIA, Carla Maria Junho. Direitos e motins na América Portuguesa. Texto apresentado em seminário do Programa de Pós-graduação em História da UFPR. Curitiba, 2006. p. 1-2. (policopiado).

66 Idem. p. 2.

67 Sobre a economia da graça ver HESPANHA, António Manuel. La gracia del derecho. Madrid:

Centro de Estudios Constitucionales, 1993.

68 ANASTÁSIA. Op, cit. p. 3.

explicitar as virtudes do rei: clemência, misericórdia e graça.69 Segundo Pedro Cardim, a

“graça” era prerrogativa do rei e configurava uma forma de justiça distributiva que distribuía porções justas dos recursos sociais às partes, realizando, dessa forma, a equidade, a Iustitia. A graça foi, desde sempre, recurso previsto pelo sistema jurídico do Antigo Regime, no entanto, era recurso de caráter excepcional, pois estava ligada ao poder de imperium absolutum do monarca, que não deveria utilizá-lo para realizar objetivos próprios, mas para corrigir e complementar a ordem jurídica vigente no sentido de responder às solicitações dos súditos quando o sistema jurídico revelava-se ineficaz em responder às suas demandas. No século XVII, a faculdade da graça passou a ser mais utilizada para satisfazer os interesses régios.70