O Recife nasceu de uma pequena vila de pescadores que conviviam com alagados, mangues e rios. O rio Capibaribe serviu de guia para os flagelados do sertão, que vinham para a capital se instalar, procurando uma vida melhor. Ao redor de suas margens, surgem os mocambos que eram construídos em áreas alagadas, construções feitas com as palhas e madeiras
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do próprio rio, que também oferece aos moradores os caranguejos que alimentaram gerações de pessoas na chamada, por Zélia Gominho,
Mucambópolis52.
As usinas estimularam esse fluxo à medida que não ajudaram na formação de uma massa de consumidores. Na realidade, geraram uma mão de obra reserva. À substituição dos trabalhadores por máquinas e a sua perda de espaços para plantar culturas de subsistência somaram-se os baixos salários, que chegavam a 1$500. Tal população via na capital uma possibilidade de trabalho, uma vez que, no início da década, existiam pouco mais de mil empresas de diversos portes e áreas de atuação no Recife, por exemplo, a indústria têxtil chega a empregar mais de cinco mil pessoas.
Segundo números da época, a proporção desses casebres chega a assustar. Existiam no período 23.869 prédios e 23.210 mocambos, portanto, um número quase igual de construções. Os bairros de Poço, Várzea e Graças passam a ser locais de maior concentração das habitações. Nesses bairros, havia muitos sítios e os proprietários faziam o arrendamento das terras. Chegavam a receber o foro de mais de setecentos inquilinos. A população, quando chegava aos terrenos, realizava a drenagem dos mesmos, cavando a terra e colocando a lama para secar. Os terrenos nos quais se instalavam, ainda forneciam a carne de caranguejo que alimentava os adultos e dava caldo para as crianças.
Em termos higiênicos, as habitações eram tão arejadas quanto as casas da Av. Beira-Mar; contudo, havia uma grande proliferação de insetos. No inverno, a situação se agravava, era necessário trocar “as cobertas de palha das casas de barro armado” 53
. Além disso, o encharcamento do terreno poderia levar ao desabamento das áreas. Essas moradias geravam a disseminação de doenças como “tuberculose, sífilis, difteria, disenteria, sezão, lepra, febre amarela e de mortalidade infantil” 54
.
Alternativa de moradia eram os cortiços do centro do Recife que se localizavam em antigos sobrados na Rua da Praia. Seu valor era equivalente
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GOMINHO, Zélia de Oliveira. Veneza Americana x Mucambópolis: o Estado Novo na cidade do Recife (Décadas de 30 e 40). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1997.
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Idem, p. 20.
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ao de um mocambo, somando-se a possibilidade de ir trabalhar a pé e economizar a passagem de bonde. Mas eram locais pouco higiênicos e o que acabava disseminando doenças entre a população, notadamente, a tuberculose55.
Embora o incômodo com a Mucambópolis já date de momentos anteriores à década de 1930, foi nesse período que a luta foi sistematizada. Mais ainda, ganhou ares de luta social contra a miséria, identificada transferência de moradores para regiões mais higiênicas. Carlos de Lima Cavalcanti, em 1934, decretou uma série de medidas visando diminuir o volume de mocambos na capital. Proibiu a sua construção, reconstrução e licença de conserto. Além disto, até o ano de 1936, a prefeitura tentou deslocar os moradores mais pobres do centro para outros bairros como Areias, Afogados, Cabanga e Caxangá. No seu governo, julgava ser necessário fazer dos bairros centrais o espelho para o progresso urbanístico, assim como ocorreu no Rio de Janeiro.
Todos os tipos de miseráveis passaram a ser combatidos diante dessa luta, identificada até mesmo como uma guerra nacionalista:
mendigos, prostitutas, alcoólatras, toxicômanos, vaga- bundos, delinquentes, doentes mentais, ambulantes, entre outros, eram considerados os tipos „degenerados‟ que deviam ser removidos do centro. O importante para o governo era „limpar‟ o centro da cidade56.
Os bairros circunvizinhos ao centro deveriam ser os locais onde haveria uma maior expressão da cultura civilizada. Foram gastas enormes somas de dinheiro para empréstimos de aquisição da casa própria. A ocupação dos bairros circunvizinhos facilitaria a mobilidade dos habitantes. A Predial Nordeste S.A. foi uma empresa que atuou, intensamente no ramo, buscando incentivar os empreendimentos para a família branca e de um extrato social melhor.
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Para aprofundamento nessa discussão, indicamos a leitura de SANTOS, Elaine Maria Geraldo dos Santos. A face criminosa: o neolombrosianismo no Recife da década de 1930. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2008.
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SANTOS, Elaine Maria Geraldo dos Santos. A face criminosa: o neolombrosianismo no Recife da década de 1930. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2008, p. 62.
Mas, é de fato, a partir de 1937, que haveria medidas mais efetivas contra as habitações dos pobres, que iriam culminar com a formação da Liga Social Contra o Mocambo, em julho de 1939. Havia uma união entre a causa urbana e social, ao ponto de se imaginar que a erradicação dos mocambos resolveria o aspecto social da cidade e também ajudava a causa nacional.
O urbanismo, a engenharia e a arquitetura surgem nesse século com grande importância. Diversas cidades passam, até mesmo, a serem administradas por engenheiros, e Recife, em 1931, foi governada por um, Antônio de Góis Cavalcanti. Como portadores da modernização, Vargas regulariza a profissão e Agamenon quase duplica os salários em Pernambuco.
A prefeitura contratou Nestor de Figueiredo que realizou estudos em torno do urbanismo, além de Roberto Burle Marx que se encarregou dos projetos de paisagismo e de arborização. A cidade ganhou uma larga avenida chamada 10 de novembro (atual Av. Guararapes) que era uma vitória da racionalização sobre as construções antigas com suas ruelas e becos, basicamente, compostos de uma série de estabelecimentos não higiênicos.
Suas metas eram ambiciosas, entre elas, extinguir aquelas construções, dando aos moradores casas populares e de fácil aquisição. Houve no período uma série de abusos e destruição dos mocambos e a maior parte não recebia uma nova casa em compensação. Segundo números do período, entre 1939 e 1944, foram demolidos pouco mais de 12 mil mocambos e construídas por volta de 7.500 habitações57.
Os poucos que receberam novas habitações, contudo, viviam em casas de alvenaria, contendo toda uma estrutura moderna, como “iluminação, energia, água, transporte e escolas” 58
. Esses moradores passavam, então, a ter dentro de seu espaço privado, a possibilidade, mesmo que remota, devido ao valor aquisitivo, de acessar bens que os mocambos com sua estrutura precária inviabilizavam. Os rádios, geladeiras e fogões passaram a ser uma das probabilidades de consumo dessas pessoas, que também tinham à sua disposição um sistema de créditos para aquisição. Embora a Liga tenha tido
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Ver maiores detalhes em WEINSTEIN, Flávio. O movimento e a linha: presença do teatro do estudante e do gráfico amador no recife (1946-1964). Recife: UFPE, 2007.
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GOMINHO, Zélia de Oliveira. Veneza Americana x Mucambópolis: o Estado Novo na cidade do Recife (Décadas de 30 e 40). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 1997, p. 67.
uma grande atuação, não conseguiu eliminar o fato existente, pois não seria suficiente apenas resolver a questão da moradia, mas sim de toda uma relação com o problema social. A prova disso são as palafitas que até hoje subsistem em certas áreas dos bairros dos Coelhos e de outros do Recife.
Aos construirmos o capítulo, procuramos, então, realizar um trajeto no qual pudéssemos compreender melhor as transformações pelas quais a cidade passava e que reflexos o processo gerou para as representações sobre a energia elétrica e, consequentemente, sobre as moradias. Normalmente, as empresas e seus anúncios pregavam a necessidade desse meio tecnológico, enfatizando a sua importância para uma vida feliz e confortável. O Sr. Kilowatt personificou as qualidades do meio tecnológico em um papel cada vez mais ubíquo.
Depois, analisamos as modificações que as representações sobre o progresso sofreram na cidade e no mundo, dando destaque para a iluminação elétrica e para a velocidade. Os anos 1930 foram aqueles em que o progresso surge como uma necessidade inerente das sociedades, muito em decorrência da crise do liberalismo, com a crise de 1929 e com as crises políticas após a 1ª Guerra Mundial.
Diante do medo da falência das instituições, os debates internos sobre os rumos do país foram estabelecidos na Revolução de 1930 e no golpe que instituiu o Estado Novo em 1937. Nesses movimentos, solapar a antiga república corrupta veio acompanhado por um desejo de eliminar as minorias étnicas para fazer uma limpeza racial no Brasil. Por outro lado, eliminar os mocambos, focos de doenças e miséria, passou a constar entre os principais objetivos do período. Os poucos moradores que receberam casas de alvenaria, dispunham de energia elétrica entre os ganhos, e junto com ela, havia uma possibilidade enorme de consumo de objetos elétricos, que é, justamente, o alvo dos capítulos seguintes.