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1. O MONAQUISMO NO OCIDENTE

1.2. O MOSTEIRO DE SÃO BENTO E A REGRA BENEDITINA

São Gregório Magno foi o primeiro biógrafo de Bento de Núrsia, escrevendo a obra intitulada Diálogos76 por volta do ano de 594. Nela o autor enumera os milagres realizados pelo fundador do mosteiro beneditino com informações sobre a vida do monge fornecidas pela tradição oral. Sua obra tornou-se amplamente divulgada e seus milagres foram reconhecidos, encontrando um grande número de devotos que passaram a seguir as orientações de Bento de Núrsia.

O autor da biografia de São Bento, também consagrado santo pela Igreja Católica, foi considerado um grande restaurador da disciplina eclesiástica e reformador da liturgia romana. Ele teria pertencido à família senatorial romana, mas manifestava vocação para seguir a vida religiosa, o que ocorreu com a morte de seu pai. Ele então empenhou sua herança na construção de dois mosteiros e trocou as vestes aristocráticas pela túnica monástica. Seu trabalho de evangelização passou pelo desejo de converter a Bretanha que ainda conservava uma população

76 A obra de Gregório Magno é constituída por quatro livros intitulada: “Diálogos sobre os Milagres dos Padres Italianos”. A mensagem é em forma de diálogo entre, Gregório e o interlocutor Pedro, diácono e amigo de juventude.

O segundo livro dos ‘Quatro Diálogos’ é dedicado exclusivamente a São Bento. NIGG, Walter. Bento de Núrsia.

Braga: Editorial A. O., 1979, p. 11.

pagã. Com esse intuito obteve a autorização do papa, mas com a morte de Pelágio, ele assumiu o lugar do pontífice, o que o levou a delegar essa missão para outros missionários.

Na função que ocupou durante 13 anos (590-604), teve sua biografia escrita por Paulo, historiador dos lombardos e compilada pelo diácono João, autores que expõem uma série de milagres realizados também por ele, enaltecem sua humildade, mesmo na condição importante que ocupava. Gregório Magno compôs ofícios e cantos eclesiásticos, instituiu uma escola para essas modalidades “em duas casas que mandou construir, uma ao lado da basílica de São Pedro, outra perto da igreja de Latrão, onde até hoje são conservados com veneração o leito em que ele repousava, (...) o chicote com que disciplina as crianças e o exemplar autêntico do antifonário”.77 O interesse em escrever a biografia de Bento de Núrsia teria brotado do contato que ele teve com a Regra, ao perceber que, no capítulo 42, o monge aconselhava à comunidade monástica que se fizesse a leitura da vida dos padres, conforme está registrado:78“(...) se for época em que há jantar, logo que se levantem da refeição, sentem-se todos juntos e leia um deles as Colações ou as Vidas dos Pais ou mesmo outra coisa que edifique os ouvintes”.79 Levado por essa indicação, Gregório dedicou-se à leitura das vidas dos padres do deserto, ao mesmo tempo em que se sentiu motivado a escrever sobre outros personagens – de épocas menos remotas, – elaborando a biografia de Bento de Núrsia. Assim,80ele dava continuidade ao hábito, que se configurava naquele tempo, de escrever sobre a vida dos santos, o que mostrava a estratégia utilizada pela Igreja para registrar sua história. A história da vida dos santos seria uma forma de dotar a Igreja de elementos que contribuíssem para o seu fortalecimento, conquistando novos adeptos, criando vínculos de cristandade tendo pessoas e lugares como referências.

77 VARAZZE.Op. cit, p. 291.

78 Esse preceito talvez tenha a ver com o costume medieval de ouvir histórias e narrativas nas horas das refeições. A história da leitura nos mostra que o ato de ler era praticado por um dos narradores de um determinado público. Essa perspectiva nos sugere também considerar que os monges, como homens de seu tempo, introduziram na vida monástica a lectio divina, mas que não se diferenciava do hábito da leitura dos outros, apenas na particularidade de ser específica sobre a vida dos santos ou dos pais da Igreja: “Reunir-se para ouvir alguém ler tornou-se também uma prática necessária e comum no mundo laico da Idade Média. Até a invenção da imprensa, a alfabetização era rara e os livros, propriedade dos ricos, privilégio de um pequeno punhado de leitores. As pessoas que queriam se familiarizar-se com determinado livro ou autor tinham amiúde mais chance de ouvir o texto recitado ou livro em voz alta do que segurar o precioso volume nas mãos. (...) Nas cortes, e às vezes também em casas humildes, os livros eram lidos em voz alta para familiares e amigos, tanto com a finalidade de instrução como de entretenimento. In:

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 138-139.

79 REGRA... 1999, p. 213.

80 Gregório teria tido mais o interesse em divulgar o exemplo de Bento como forma de inspiração não se detendo em particularidades da biografia do monge. Assim, a biografia por ele escrita difere das atuais no sentido de fornecer dados concisos sobre a pessoa e formação de Bento.

A obra de Gregório Magno é composta por quatro capítulos, sendo o segundo inteiramente dedicado aos milagres realizados por São Bento. A narrativa é construída a partir de diálogos que ele mantém com Pedro, seu amigo e diácono, refletindo sobre o lugar que os milagres ocupavam na história do cristianismo e da Igreja. A uma pergunta de Pedro sobre a possível razão da ausência de grandes santos no tempo em que estavam vivendo, Gregório responde: “Crê, Pedro, que também hoje não nos falta um grande número de tais homens, pois, por não fazerem tais milagres, não se segue que sejam diferentes; o verdadeiro valor da vida está na virtude e não nos milagres; muitos há que não fazem milagres, e, apesar disto, não são inferiores aos taumaturgos”.81

Diversamente da concepção do modelo de vida dos primeiros cristãos, o valor estaria na virtude do exemplo que o cristão apresentaria à sociedade, constituindo parte do conjunto de representações simbólicas que a Igreja instituía como legítima e que possuía o potencial de converter.82 Nesse sentido, a vida monástica, a partir da fundação cenóbios, onde seus integrantes viviam isolados da maldade humana, constituía-se um exemplo concreto do modelo de vida cristã. A Igreja necessitaria de um aliado forte e rigorosamente constituído para que a sociedade reconhecesse seu poder religioso.

A pedido do diácono Pedro, Gregório expôs os milagres realizados por Bento de Núrsia os quais teriam sido a ele relatado por diferentes pessoas. Ele se referiu ao milagre da reparação do crivo quebrado pela ama; ao sacerdote que levou alimento para ele na gruta; a resistência às tentações da carne; a quebra do cálice envenenado destinado a matar Bento; a quebra da campainha que deveria anunciar o envio de alimentos ao monge solitário na gruta; às tentações em fazer a guerra em ambiente hostil.

Dos mosteiros que Bento edificara na mesma região, três ficavam em cima de rochedos da montanha. Era, por isto, muito penoso aos irmãos descer sempre ao lago para buscar água, tanto mais que o declive do monte constituía grave perigo para todos aqueles que, cheios de medo, por ele desciam.

Reuniram-se, então os irmãos desses três mosteiros, e foram ter como o servo de Deus, Bento, dizendo: ‘É nos penoso ir todos os dias ao lago buscar água, e por isto é necessário mudar de lugar os nossos mosteiros’. Bento os consolou com brandura e despediu.

81 NIGG. Op. cit. p. 16.

82A teoria das representações sociais – na perspectiva de Ernest Cassirer – nos afirma que para uma idéia ser incorporada como real ela necessita de sua representação simbólica correspondente, seja em palavras, rituais ou sistema criados que sejam reconhecido e compartilhado pelos pares.

Na mesma noite, porém, com o menino Plácido (...) subiu ao rochedo do monte, e ali orou por muito tempo. Acabada a oração, colocou no dito lugar três pedras como sinal e, sem que os outros percebessem qualquer coisa, voltou ao seu mosteiro.

No dia seguinte, tendo os irmãos voltados à sua presença para tratar das dificuldades da água, assim lhes falou: ‘Ide, e cavai um pouco o rochedo no sítio em que achardes três pedras sobrepostas; Deus todo-poderoso é capaz de fazer brotar água até naquele cume de montanha, para poupar-vos o cansaço de tão grande caminhada’. Ora, indo eles à pedra do monte indicada por Bento, encontraram-na já gotejante. E, quando nela praticaram uma cova, esta logo se encheu de água, que brotou com tanta abundância que ainda hoje corre em quantidade, e serpeja desde o pico até as faldas da serra. 83

De acordo com os dados biográficos, Bento de Núrsia iniciou seus primeiros passos na vida cenobítica nesse tempo de profunda crise no Ocidente, decorrente do esfacelamento do Império Romano, da invasão dos povos germânicos e de graves problemas climáticos que provocavam doenças, fome e devastação. Para os biógrafos de Bento de Núrsia, é fundamental desenhar o cenário em que se inscreve a pessoa do monge. Nascido no ano de 480, no seio de uma família da alta nobreza de Núrsia, e como grande parte dos jovens daquela época, foi enviado a Roma a fim de estudar. Em contato com a sociedade romana ficou amargurado com a imoralidade que se alastrava e beirava à decadência generalizada. Esse quadro de aguda crise o levou a buscar a solidão do deserto no sudeste da Itália, permanecendo algum tempo em uma pousada sob os cuidados maternais de sua ama Cirila.84

Bento permaneceu isolado em Subiaco, no sul da Itália, até ser descoberto por pastores que o tomaram como um animal no fundo da gruta. A partir de então, tiveram início as peregrinações ao local por visitantes e por uma comunidade de monges próximos que havia solicitado que ele se tornasse seu abade. No entanto, tal experiência se revelou traumática pelo relaxamento dos costumes de seus integrantes, bem como a tentativa de envenenamento, mas que não ocorreu porque o frasco que continha o veneno quebrou-se. Esse acontecimento o levou a voltar para a gruta, mas nesse ínterim já a ele se pronunciava a vocação cenobítica.

O monge beneditino discordava das organizações ascéticas que não apresentavam um rigor no cumprimento de um programa específico e defendia a importância da vida comunitária.

83 MAGNO, Gregório. Diálogos. Vida e milagres de são Bento. Rio de Janeiro: Lúmen Christi, 1986, p. 44-45.

84 Logo nos primeiros tempos de solidão, ele realizou o primeiro milagre ao consertar um crivo quebrado pela ama, restituindo-lhe a alegria. Fiel à sua escolha, ele decidiu permanecer na solidão do deserto e para isso separou-se da ama. Passou então a viver em Subiaco, local abundante em águas frescas e cristalinas. Nessa região, em uma gruta aberta no monte Calvo ou Taleo ele permaneceu, aproximadamente, três anos em profundo retiro. Só era conhecido por um monge chamado Romão que o socorria fornecendo-lhe o pão em uma cesta que fazia chegar por uma corda, do alto do penhasco, à abertura da gruta. Esse mesmo monge também lhe entregou uma vestimenta escura como forma de reconhecimento de sua escolha e manifestação da sua vocação monástica.

Esta concepção foi colocada logo no início da regra por ele criada, indicando os procedimentos para orientar as ações dos religiosos que deveriam seguir o estilo de vida idealizado pelo fundador:

É sabido, há quatro gêneros de monges. O primeiro é o dos cenobitas, isto é, o monasterial, dos que militam sob uma Regra e um Abade. O segundo gênero é o dos anacoretas, isto é, dos eremitas, daqueles que (...) já estão seguros para a luta isolada no deserto (...) o terceiro gênero (...) é o dos sarabaítas (...) o quarto gênero dos monges é o chamado dos giróvagos, que por toda a sua vida se hospedam nas diferentes província (...).85

Bento discordava e chegava a criticar os outros estilos, como os eremitas (giróvagos) que vagavam pelos desertos muitas vezes sujeitos aos vários tipos de perigos, como assaltos, bem como as constantes mudanças que impediam o desenvolvimento da espiritualidade. Ele acreditava que só depois de uma longa estada num mosteiro, os vocacionados poderiam receber autorização para viver na solidão.

Assim como os monges de outros tempos e lugares, deslocou-se para o noroeste da Itália, nas proximidades de Roma, onde, lentamente, atraíram companheiros vocacionados para uma vida de oração, trabalho e estudos das Sagradas Escrituras. A vida comunitária teve início com os jovens postulantes – Mauro e Plácido – e outros procedentes das famílias de nobres romanos.

Nessa comunidade, os monges praticavam o hábito de alimentar corvos e por essa razão costumava-se dizer que essa ave teria sido o símbolo da presença divina no santo, permanecendo ainda hoje a tradição de domesticar os corvos na região de Monte Cassino.

Reunindo adeptos, ele consolidou a formação dos mosteiros beneditinos por volta do ano de 529, em Monte Cassino, em meio às constantes guerras, particularmente entre vândalos e bizantinos. Talvez por essas circunstâncias e pelas experiências de Pacômio no Egito, afirma-se que os mosteiros se constituíam um entreposto de paz tanto para peregrinos, pobres, escravos, como para cavaleiros, reis e nobres que buscavam essas casas como hospedarias para curar males, repousar das fadigas e saciar a fome. Esse costume de abrigar os peregrinos e oferecer repouso aos guerreiros colaborou para fazer de alguns mosteiros verdadeiras casas de repouso ou hospedaria, com possibilidade de rendimentos para seus administradores.

Mas como era organizado o mosteiro beneditino no século V ?

85 REGRA...1999, p. 21-25.

Os preceitos de Bento voltados para a vida comunitária tornaram-se peculiares, e diferenciavam-se de outros estilos seguidos por muitos grupos. Inicialmente, considera-se que, para Bento, a vida cenobítica deveria ter como fundamento a estabilidade, assim como os monges do tempo de Pacômio. Isto significava que seus integrantes deveriam escolher um lugar que atendesse às necessidades básicas das pessoas e possibilitasse a prática das virtudes inerentes ao desenvolvimento espiritual e nele permanecesse compromissado com sua comunidade. Bento defendia que “o mosteiro deve ser construído, se possível, de tal forma que todo o necessário – quer dizer, a água, o moinho, o jardim e os vários ofícios – [tenham condições de] exercer-se no interior do mosteiro, de modo que os monges não sejam obrigados a correr para todos os lados lá fora, pois isso não é nada bom para as almas”.86

Entretanto, o modelo cenobítico pregava a solidão da cela e a vida comunitária, mas mantinha constante contato com a sociedade, de maneira geral.87 Os monges deveriam ser rigorosos em suas escolhas de isolamento no que tange aos interesses pessoais. Porém, os mosteiros permaneceriam abertos para hóspedes, peregrinos, noviços e representantes da sociedade que buscassem se inspirar num modelo de virtude e de desenvolvimento espiritual.

Jacques Le Goff, ao se debruçar sobre o significado dos monges e religiosos na Idade Média, expressa certo estranhamento por essa características do monaquismo: eles se isolavam do mundo mas permaneciam em contato com seus habitantes: “A fuga do mundo (fuga mundi) é um tema recorrente da retórica monástica medieval, mas sua prática concreta tomou formas diversas, indo do retiro propriamente dito em lugares isolados a uma ruptura mais figurada, permitindo aos monges que não deixassem os centros de habitação e as relações sociais”.88

O modelo de vida orientado pelo monge fundador foi explicitado na Regra Beneditina que ele possivelmente escreveu para a primeira comunidade que com ele se formava. A primeira versão foi escrita em latim por volta de 529, quando Bento tinha, aproximadamente, 49 anos. Os preceitos da regra não são totalmente originais, sendo que para redigi-la ele serviu-se de orientações anteriores, entre as quais está a Regra do Mestre sem autoria definida; inspirou-se no legado dos Padres da Igreja, cujas obras se tornariam leituras obrigatórias para os integrantes da

86 ROUCHE, M. Alta Idade Média Ocidental. In: ARIÈS, P.; DUBY, G. História da Vida Privada: do império romano ao ano mil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 418.

87 Ao estudar o monaquismo cenobítico chama atenção que a opção pela vida monástica vem da vivência no deserto (eremita) o que era praticado pelos anacoretas em completa solidão. No entanto, paradoxalmente, como afirma Jacques Le Goff, o monaquismo passou a identificar os ascetas, solitários, mas que viviam em comunidades.

88 LFE GOFF. Op. cit, 2006, p. 225.

comunidade. A regra escrita por Pacômio, por exemplo, teria chegada ao Ocidente e se perdido, mas foi conhecida porque são Jerônimo havia feito uma cópia e conservado para as comunidades posteriores.

Ao considerar sua finalidade, constata-se que a Regra possuía um teor de aplicabilidade, à medida que se destinava a organizar a vida comunitária que estava sendo constituída.

Considerando a versão que chegou aos dias atuais, cujos princípios sobrevivem daquele tempo, verifica-se que ela pode ser entendida em duas dimensões fundamentais: uma orientada para a formação e crescimento da espiritualidade dos monges; outra para atender à materialidade das necessidades da vida cotidiana, o que remete a um cuidado com o futuro da comunidade, no sentido de se investir no crescimento patrimonial e gerenciamento administrativo. Essas duas dimensões foram sintetizadas pelo fundador em duas palavras-chave fortes, curtas de fácil compreensão: ora et labora.

A quem desejasse entrar no mosteiro, em busca da formação espiritual, a tradição monástica impunha uma vida bastante austera, exigindo-se de todo candidato a pobreza, obediência e castidade, sendo que essas duas últimas eram mais observadas que a primeira, porque os monges não eram donos de nada individualmente, mas trabalhavam coletivamente para a riqueza da Igreja. Assim, aceitavam doações, tesouros e fortunas; incluíam em suas fileiras pessoas das camadas aristocráticas, não sendo diferente a ordem criada por São Bento. Também os candidatos levavam seus bens e possuíam servos, até dispunham das mesmas as honras da vida secular, sem grandes diferenças, a não ser o isolamento espacial.

No sentido de orientar o postulante na sua formação monástica, a Regra recomendava no quarto capítulo, “Quais são os instrumentos das boas obras”, arrolando 78 indicativos que poderiam ser comparados aos Dez Mandamentos, porém mais extensos e detalhadamente explicados: “Primeiramente, amar a Deus de todo o coração [...] depois amar ao próximo como a si mesmo (...), não matar (...) reconfortar os pobres (...)não ser apegado ao sono (...) não ser murmurador (...) não gostar de falar muito (...) não gostar do riso excessivo ou ruidoso (...) não satisfazer os desejos da carne (...)”.89 Ainda no que diz respeito à vivência das virtudes observa-se que a obediência, a humildade e o silêncio ocupam um enfoque particular: “O primeiro grau da

89 REGRA... 1999, p. 47-63.

humildade é a obediência sem demora (...) Pois são esses mesmos que, deixando imediatamente as coisas que lhes dizem respeito e abandonando a própria vontade (...) ”.90

A virtude evangélica da humildade seria talvez a mais evocada, sendo pensada em graus:

do primeiro, que aconselha ao monge que ponha diante dos olhos o temor de Deus, ao décimo segundo em que o praticante adquire o ideal da perfeição na humildade. Esses cuidados vinham acompanhados de outros indicativos que exigiam uma constante atenção do monge em relação ao dormir, comer, beber e vestir, e às observações que deveriam ser impostas em relação às faltas mais graves.

De igual importância, a Regra orientava a organização da liturgia e dos rituais de extrema importância no campo teórico das representações simbólicas, pois reforçava o ideal do fundador e explicitava suas concepções, testemunhando ao público o seu significado religioso. Assim para atender à primeira palavra-chave ora havia referências para as práticas individuais e coletivas:

faziam partes da vida de oração de um monge: a lectio divina que seria a leitura das Sagradas Escrituras e da Vida dos Padres da Igreja; os ofícios em que se incluíam a salmodia, isto é, a recitação dos 150 Salmos durante a semana, pois pela oração, o monge intercede junto de Deus por ele e pelos outros. Esse aspecto foi bastante explicitado na Regra, determinando os ofícios divinos para as noites, para os dias, o número de salmos que deveriam ser ditos em cada hora, em que ordem eles deveriam ser ditos:

Nos dias comuns, porém, a solenidade das Matinas seja assim realizada, a saber: recita-se o salmo recita-sexagésimo recita-sexto recita-sem antífona, um tanto lentamente, como no domingo, de

Nos dias comuns, porém, a solenidade das Matinas seja assim realizada, a saber: recita-se o salmo recita-sexagésimo recita-sexto recita-sem antífona, um tanto lentamente, como no domingo, de