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Durante a década de 1970, gestaram-se no Brasil os novos movimentos sociais e o novo sindicalismo, trazendo "novos personagens" à cena nacional (Sader, 1991)24, no bojo da luta contra a ditadura militar e pela democratização do país.

A expressão novos movimentos sociais designa os sujeitos sociais organizados fora das estruturas institucionais de poder e representação política conhecidas (partidos, governo, estado) e dos grupos de interesse e as classes sociais: "sua originalidade residia no fato de organizarem-se para expressar o desejo de integrar-se a uma outra esfera de poder, aquela que pertence à ordem da cidadania e dos direitos (...)" (Paoli, 1995:27).

No processo de constituição dos novos movimentos sociais no país, no período contemporâneo, combinaram-se movimentos semelhantes aos que haviam eclodido nos países centrais, como o movimentos feminista, e movimentos orientados para a reivindicação da democracia e de necessidades básicas de sobrevivência, como as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), vinculadas à Igreja Católica na sua vertente progressista, e os movimentos de favelados (Santos, 1994:172).

Foram movimentos heterogêneos, que reuniram grupos sociais diversos com identidade e perspectivas próprias. Com suas particularidades, contribuíram para desvendar a complexidade da sociedade brasileira e dos conflitos que a atravessam, além de renovar a prática política: "rechaçando a política tradicionalmente instituída e politizando questões do cotidiano dos lugares de trabalho e de moradia, eles 'inventaram' novas formas de política." (Sader,op. cit., p.20). Ao mesmo tempo, inseridos na luta pela democratização do país, permitiram que a idéia de democracia que se esboçava extrapolasse a concepção da democracia formal, representativa. Foram movimentos que chamaram a atenção da sociedade para a singularidade de diferentes condições sociais, até então não percebidas como dimensão política. Por isto mesmo, eles

"desvendaram um processo que se refere, intimamente, à experiência democrática: a existência de conflitos múltiplos cuja legitimidade forma a própria possibilidade de uma democracia real." (Paoli, op. cit., p.31).

Como parte desse processo, muitas mulheres brasileiras mostraram-se à sociedade, reivindicando o seu reconhecimento como sujeitos. Nesse sentido,

24 Para Sader, tais movimentos constituem sujeitos coletivos. O sujeito coletivo compreende "uma coletividade onde se elabora uma identidade e se organizam práticas através das quais seus membros pretendem defender seus interesses e expressar suas vontades, constituindo-se nessas lutas" (op. cit., 55). O autor recusa o sujeito histórico privilegiado que se situa no centro dos acontecimentos graças ao seu lugar na estrutura (como na concepção do proletariado destinado a fazer a transformação social), visualizando "uma pluralidade de sujeitos, cujas identidades são resultado de suas interações em processos de reconhecimentos recíprocos, e cujas composições são mutáveis e intercambiáveis." (id. ib.)

afirma Souza-Lobo (1991), "o movimento operário que se organizou nos anos 70 é seguramente o ator mais importante neste cenário, (mas) os movimentos de mulheres constituem a novidade." (p.269).25

A diversidade do movimento de mulheres no Brasil, naquele período, é expressa pela imagem construída por uma de suas protagonistas: "os movimentos de mulheres emergem nos espaços e franjas do tecido social brasileiro, com a heterogeneidade de um patchwork que combina desenhos e cores variados."

(Souza-Lobo, 1991:220). Foram muitos os espaços ocupados e construídos pelas mulheres: lutaram por anistia política aos presos, exilados e desaparecidos da ditadura militar, criaram inúmeras entidades de mulheres e grupos feministas, realizaram encontros próprios, entraram nos sindicatos.

Nos movimentos populares urbanos as mulheres foram maioria, reivindicando políticas públicas para questões que incidem sobre seu cotidiano: o alto custo de vida, escolas e creches, centros de saúde, água corrente, transportes, eletrificação, moradia, legalização de terrenos. Em fins dos anos 1970, lideraram dois grandes movimentos sociais: o Movimento Contra a Carestia e o Movimento de Luta por Creche. As mulheres dos bairros também se mobilizaram intensamente em apoio à luta das oposições sindicais e às greves que eclodiram a partir de 1978, configurando-se, no período, uma grande articulação entre o movimento operário e sindical, majoritariamente masculino, e os movimentos populares, onde as mulheres eram protagonistas de destaque. Mas a luta pelas questões relativas ao cotidiano na cidade extrapolou a reivindicação. Como afirma Souza-Lobo (1991), "as mulheres se mobilizaram a partir de questões referentes à reprodução, mas ao mesmo tempo, essa mobilização fazia delas sujeitos sociais," (p.66).

Para essa autora (1991), na origem das novas questões trazidas por essas mulheres estavam duas matrizes discursivas heterogêneas.

De um lado, situava-se a Igreja Católica progressista, espaço institucional que estimulou e abrigou a organização das mulheres dos bairros populares, através dos Clubes de Mães e das Comunidades Eclesiais de Base.26 O discurso da Igreja propunha integrar a mulher no mundo através das lutas sociais e da participação na comunidade, postulando a igualdade na família e o respeito ao invés da

25 Ver também Saffioti (1988), Sarti (1988), Goldberg (1989a), entre outros/as.

26 As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), surgidas no início da década de 1960, "são pequenos grupos organizados em torno da paróquia (urbana) ou da capela (rural), por iniciativa de leigos, padres ou bispos ... De natureza religiosa e caráter pastoral, as CEBs podem ter dez, vinte ou cinqüenta membros. ... São comunidades, porque reúnem pessoas que têm a mesma fé, pertencem à mesma Igreja e moram na mesma região. Motivadas pela fé, essas pessoas vivem uma comu-união em torno de seus problemas de sobrevivência, de moradia, de lutas por melhores condições de vida e de anseios e esperanças libertadoras. São eclesiais, porque congregadas na Igreja, como núcleos básicos de comunidade de fé. São de base, porque integradas por pessoas que trabalham com as próprias mãos (classes populares): donas-de-casa, operários, subempregados, aposentados, jovens e empregados dos setores de serviços, na periferia urbana; na zona rural, assalariados agrícolas, posseiros, pequenos proprietários, arrendatários, peões e seus familiares. Há também comunidades indígenas." (Frei Betto, 1985:16). Segundo Frei Betto, houve aproximadamente 80 mil CEBs no Brasil, nas quais participaram cerca de 2 milhões de pessoas.

submissão. Durante a ditadura militar, a Igreja Católica transformou-se num dos únicos canais de organização de demandas populares, através dos grupos citados e de outros como as pastorais (Pastoral Operária, da Terra, do Migrante, entre outras), Ação Católica Operária (ACO), Juventude Operária Católica (JOC), além do apoio aos movimentos populares surgidos em torno da luta por direitos sociais. Nos espaços de atuação abertos pela Igreja Católica formaram-se muitas lideranças no campo sindical, partidário e dos movimentos populares.

De outro lado, estavam as várias correntes do feminismo, colocando os temas das mulheres como pessoas iguais, porém, diferentes no seu corpo, na maternidade e subordinadas na relação com a sociedade e com os homens: "Os dois discursos interpelaram as mulheres individualmente, enquanto pessoas sexuadas que, por isso mesmo, vivem experiências que são próprias às mulheres, mas que são definidas na relação entre feminino e masculino. ... A novidade nessas trajetórias das mulheres nos anos 70 e 80 está não só no fato de saírem às ruas descobrindo seus direitos sociais, mas no fato de que tenham redescoberto seus corpos, suas experiências, seus direitos." (Souza-Lobo, op.

cit., p.250).

Assim, a participação nos movimentos populares que lutavam por direitos sociais e nos espaços de organização de mulheres patrocinados pela Igreja Católica coincidiu no tempo com a emergência do movimento de caráter feminista, contribuindo para que as mulheres, nos bairros, ampliassem sua percepção de si mesmas, podendo começar a questionar as relações de gênero vividas no cotidiano. Entre o discurso e as práticas dos/as militantes católicos/as e das feministas havia tensões e conflitos, principalmente em função da abordagem, pelo feminismo, de temas tabus para a Igreja Católica, como reprodução, sexualidade e aborto. No entanto, "criou-se uma relação ao mesmo tempo conflitiva e de solidariedade entre as mulheres das CEBs e as feministas, fazendo surgir um movimento de mulheres extensivo" (Soares e Delgado, 1995:87).27 Essa aproximação fez parte da estratégia de atuação das feministas junto às demais mulheres, com a perspectiva de ampliar o raio de influência do pensamento e das práticas que postulavam. Os primeiros grupos feministas foram criados na década de 1970 e buscaram aproximar-se tanto das mulheres dos bairros periféricos urbanos, reunidas nos grupos criados pela Igreja e nas associações de vizinhança, quanto das mulheres que se organizavam nos sindicatos e comunidades rurais, tentando mobilizá-las contra a opressão de sexo e de classe (Singer, 1980). As mulheres feministas fizeram a crítica dos papéis sociais dominantes de homens e mulheres, que orientou as denúncias de discriminações e de desigualdades entre os sexos na família, no trabalho, na política. Essa crítica orientou também práticas e proposições formuladas à sociedade por vários grupos autônomos, que se dedicaram à reflexão sobre temas ligados à vida das mulheres, à criação de uma imprensa feminista, à prestação de serviços às mulheres principalmente nas áreas de saúde e violência.

Muitas feministas participaram em partidos políticos de esquerda e da luta contra a ditadura militar e por democracia, vinculando feminismo e militância política e

27 Ver, a respeito, Nunes Rosado (1991).

provocando o que Goldberg (1989b) chamou de "um feminismo 'bom para o Brasil'". Assim, "as trajetórias e as práticas das feministas se confundem com o movimento de mulheres." (Souza-Lobo, 1991:244).

Pela multiplicidade de motivações e de espaços de organização das mulheres brasileiras, Cappellin (1989) defende "uma concepção ampla e renovada" (p.291) do feminismo que surgiu no Brasil a partir de 1975. Para a autora, o feminismo extrapolou as inquietações das mulheres das classes médias, que o originaram na sua contundência contemporânea, e chegou às mulheres de outros segmentos sociais. Entendendo que o feminismo não é apenas uma prática que se apresenta organizada à sociedade, mas também "uma corrente de pensamento, um caminho, um encaminhamento, enfim, um tipo de contestação"28, Cappellin ressalta na sociedade a emergência das lutas das mulheres na sua diversidade, expressando, em mulheres de diferentes segmentos da classe trabalhadora, "um potencial crítico que contesta as atribuições sociais da feminilidade." (id. ib.).

Uma interessante demonstração desse espraiamento do feminismo é o crescimento da participação de mulheres de bairros populares e de sindicatos no Encontro Nacional Feminista, fórum bianual de discussão, troca de experiências e vivências sobre temas de interesse das mulheres, que constitui, no Brasil, o evento mais importante do movimento feminista.29

A multiplicidade de formas de organização e expressão das mulheres urbanas e rurais que se desenvolveu em todas as regiões do Brasil, desde os anos 1970, também confirma a proposição de Cappellin. Vale a pena apontar, sucintamente, algumas referências.

Nos últimos anos, as mulheres negras emergiram no movimento autônomo de mulheres através de uma ação que conjuga denúncia e práticas de combate às discriminações racial e de gênero. Constituindo-se a partir do cruzamento das questões de gênero, raça e classe social, o Movimento de Mulheres Negras gira em torno de reivindicações gerais dos movimentos sociais, sindical e feminista -trabalho, habitação, legalização do aborto - e de questões voltadas a dar visibilidade às mulheres negras e a romper com as discriminações de gênero e de raça que incidem simultaneamente sobre essa parcela da população feminina: o

28 M. Maruani, apud Cappellin (op. cit, p. 292).

29 Os encontros nacionais feministas tiveram início em 1979. Foram anuais até 1987, a partir daí passaram a ocorrer a cada dois anos. Neles, realizam-se grupos de discussão, plenárias e oficinas sobre os mais diversos assuntos, como saúde e sexualidade, os rumos do feminismo, aborto, lesbianismo, violência, raça, trabalho, prazer, comunicação, cultura, políticas públicas etc. Destacam-se também pela utilização de novas formas de expressão no debate dos temas, como representação teatral, máscaras, mímica, dança e outras atividades corporais. Nos últimos anos, têm tido, em média, 700 mulheres. A partir do IX Encontro Nacional Feminista, realizado em 1987, em Garanhuns, PE, passou a chamar a atenção o aumento do número de participantes oriundas de organizações populares e sindicais. No Relatório do Encontro consta que estiveram presentes cerca de mil mulheres, das quais 70% vinham dos setores populares e 20% eram "feministas históricas". Desde 1981, realiza-se também, periodicamente, o Encontro Feminista Latino-americano e Caribenho, cada vez em um país do continente, em que se repete a mesma tendência de crescimento da participação das mulheres ligadas a movimentos populares, de bairros, sindicais, assumindo-se como feministas. Ver, a respeito, Teles (1993), Soares (1994).

combate à violência sexista e racial, a atenção à saúde da mulher negra, o combate à esterilização em massa das mulheres brasileiras, entre outras (Ribeiro et alii, 1995).30

As mulheres do campo, em meio ao conjunto de dificuldades que marcam a vida cotidiana na área rural, mantêm formas de organização bastante consolidadas, que têm tornado visíveis sua singularidade e suas reivindicações. Destacaram-se, nos últimos anos, ao lutarem pelo reconhecimento da mulher rural como trabalhadora e pelo direito à terra, unindo, em ações conjuntas, o movimento sindical, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra e o movimento autônomo de mulheres trabalhadoras rurais, espalhado pelo país.

Nas universidades constituíram-se os núcleos de estudos sobre a mulher e as relações de gênero, interdisciplinares, como um desdobramento dos trabalhos de pesquisa sobre o lugar social das mulheres iniciado por docentes universitárias na década de 1960.31

No campo da política, cresceu, ainda que lentamente, o número de mulheres no parlamento e no poder executivo e iniciou-se a conquista de maior representação feminina em espaços públicos através da adoção de uma cota mínima de participação das mulheres, como medida de ação afirmativa para reduzir as desigualdades de representação de gênero.32 À época do Congresso Constituinte, as mulheres atuaram de maneira intensa e organizada, sob a coordenação do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, obtendo vitórias importantes no texto constitucional então promulgado.33 Atualmente, no Congresso Nacional, o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA) funciona como um eficiente lobby que acompanha as ações parlamentares relativas às mulheres e aciona os grupos e entidades feministas de todo o país, nos momentos em que se faz necessária uma pressão em defesa de seus interesses.

30 Sobre a organização das mulheres negras no Brasil, ver também Ribeiro (1994).

31 A primeira tese universitária sobre a situação das mulheres na sociedade brasileira, que se tornou um clássico dos estudos sobre o tema, foi de Heleieth Saffioti, em 1966, publicada depois sob o título A mulher na sociedade de classes, mito e realidade.

32 Pioneiro, o Partido dos Trabalhadores aprovou em 1991, no I Congresso do PT, uma cota mínima de 30% de mulheres nas direções. No segundo semestre de 1995, o Congresso Nacional aprovou a obrigatoriedade de uma cota mínima de 20% de mulheres nas listas de candidatos que os partidos políticos devem apresentar às eleições. A CUT, como já referido, aprovou as cotas em 1993. Ver a respeito, Resoluções do 1º Congresso (PT, 1992), Godinho (1991); Resoluções da 6ª Plenária Nacional (CUT, 1993).

33 As seguintes conquistas foram incorporadas à Constituição brasileira: homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações; licença-maternidade de 120 dias; licença-paternidade; direito às presidiárias de permanecerem com os/as filhos/as durante o período de amamentação; proteção ao mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos nos termos da lei; proibição de diferença de salários, exercício de funções e critérios de admissão por motivos de sexo, cor, idade ou estado civil; garantia de (alguns) direitos trabalhistas e previdenciários às/os trabalhadoras/es domésticas/os; concessão do título de domínio e a concessão de uso da terra ao homem ou à mulher,ou aos dois, independente do estado civil; igualdade de direitos e deveres referentes à sociedade conjugal; o planejamento familiar como livre decisão do casal e o papel do Estado de propiciar recursos educacionais e educativos para o exercício deste direito, sendo vedadas formas coercitivas por parte de instituições oficiais ou privadas. É preciso observar, no entanto, que nem todos estes direitos estão implementados. Alguns dependem de leis complementares, outros são desrespeitados na prática, embora consagrados na lei.

Generaliza-se a criação das redes feministas temáticas (Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Reprodutivos, Rede Nacional contra a Violência Doméstica e Sexual, por exemplo), integradas por diversas organizações, como forma de ampliar o debate e unificar ações do movimento de mulheres.

É preciso observar, também, que foi como resultado da pressão do movimento de mulheres que se criaram organismos públicos no âmbito federal, estadual e municipal, destinados a propor e implementar políticas públicas de enfrentamento das discriminações que incidem sobre as mulheres.34

Por último, vale lembrar que há incontáveis iniciativas de organização de mulheres urbanas e rurais que não se esgotam nessas tomadas como exemplo.

Podese concluir, portanto, como propôs Cappellin (1989), que o feminismo -entendido como concepção e como luta pela mudança das relações de gênero nos diversos espaços da sociedade - espalhou-se pelo país nas últimas décadas, tornando-se familiar a um contingente diversificado de mulheres que, em movimentos próprios ou nos movimentos e instituições mistos, empenham-se na conquista da visibilidade e do respeito às mulheres e às suas demandas.

Desenvolvem uma luta que, por diferentes caminhos, contribui para construir e consolidar uma visão das relações sociais atravessada pelo gênero e uma mudança nas desigualdades que definem, predominantemente, as relações de gênero na sociedade brasileira.

O feminismo e as mulheres trabalhadoras

A situação das mulheres trabalhadoras tornou-se tema discutido por diversas instituições, na passagem dos anos 1970 para a década de 1980. Segundo levantamento do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM, s.d.), entre 1978 e 1986 realizaram-se 92 eventos cujo temário girava em torno do trabalho assalariado feminino urbano e rural, organizados por sindicatos, centrais sindicais, entidades governamentais, organizações autônomas do movimento de mulheres e (apenas dois) por entidades empresariais.35 Do total, 33 foram organizados por sindicatos ou centrais sindicais. Na listagem do CNDM constam, ainda, alguns encontros em que não há referência às entidades patrocinadoras.

Finalmente, soma-se uma infinidade de outras atividades de e sobre as mulheres

34 A primeira iniciativa surgiu em São Paulo, em 1983, com a criação do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, espalhando-se por vários estados. Em 1985 foi criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, subordinado ao Ministério da Justiça. A partir de 1988, prefeituras administradas pelo Partido dos Trabalhadores assumiram a implementação de organismos que diferenciaram-se dos conselhos por conterem uma proposta executiva e não de órgãos de representação dos movimentos. De maneira geral, as áreas de maior atuação desses organismos têm sido a saúde, a violência e, mais recentemente, o trabalho. Ver, a respeito, IBAM (1991), Bittar (org., 1992), Schumaher e Vargas (1993).

35 Alguns eventos referiram-se à mulher trabalhadora de forma genérica; outros foram organizados por categoria profissional, aí incluídas bancárias, gráficas, ferroviárias, jornalistas, empregadas domésticas, médicas, costureiras, advogadas, trabalhadoras rurais, comerciárias, químicas, metalúrgicas, telefonistas, geólogas. Algumas entidades governamentais participaram da organização de vários encontros de trabalhadoras rurais, como os conselhos estaduais da condição feminina e a EMATER/EMBRATER. O Conselho da Condição Feminina de São Paulo coorganizou também alguns eventos sobre o trabalho feminino urbano.

que provavelmente se referiram à situação da mulher no trabalho assalariado, ao abordarem outros assuntos.

O trabalho feminino constituiu ponto de pauta dos encontros e congressos organizados pelo movimento autônomo de mulheres na virada das décadas de 1970 e 1980. "Mais ágil que os sindicatos, o feminismo desnudou a realidade das mulheres trabalhadoras. Deu-lhes visibilidade e apontou a aliança entre exploração de classe e opressão de sexo" (Delgado, 1989:15). O I Congresso da Mulher Paulista, em março de 1979, contou com a participação de operárias e elegeu a creche como uma de suas principais reivindicações, numa clara preocupação com a dupla jornada das mulheres que trabalham fora aliada à crítica ao fato da responsabilidade com o cuidado das crianças na família recair exclusivamente sobre a mãe. O II Congresso da Mulher Paulista, no ano seguinte, teve alguns sindicatos entre as 52 entidades organizadoras e, além de temas como sexualidade, aborto, métodos contraceptivos, lesbianismo, violência, educação e situação da mulher negra, também debateu creche, trabalho doméstico e discriminação no mercado de trabalho (Teles,1993).

Ao denunciar as discriminações de gênero nos locais de trabalho, a dupla jornada de trabalho das mulheres assalariadas, o significado do trabalho doméstico gratuito realizado pelas mulheres no âmbito da família e a omissão masculina face às tarefas domésticas e ao cuidado dos/as filhos/as, o movimento autônomo de mulheres contribuiu para fomentar em muitas trabalhadoras, em particular naquelas que estavam inseridas no movimento sindical, o desejo de impulsionar nos sindicatos uma ação dirigida ao enfrentamento desses problemas e ao incremento da participação sindical feminina. A aproximação entre as sindicalistas e as feministas favoreceu a introdução no espaço sindical do que se pode denominar o ponto de vista de gênero na abordagem e compreensão da situação da mulher.