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1. A TRAJETÓRIA DO MOVIMENTO DE NATAL AO PROGRAMA DE EDUCAÇÃO

1.3. O Movimento de Natal como objeto de estudo

O Movimento de Natal constitui um importante objeto de estudo para a História Política e História do Catolicismo por várias razões, mas iremos elencar três: a) no contexto do Concílio do Vaticano II (1962-1965) a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) a elegem enquanto uma experiência piloto para a reorganização da Igreja do Brasil na forma da 'Pastoral de Conjunto'; b) a historiografia dedicada a Igreja e Política já rastreou neste mesmo recorte espacial manifestações da ligação entre o catolicismo e os movimentos de direita na década de 1930 o que já propicia uma análise comparativa; c) o Movimento de Natal oferece elementos que podem auxiliar a compreender a aproximação do catolicismo com a esquerda (PEIXOTO,2017:8).

O que atraí os estudiosos para o Movimento de Natal é a integração entre religiosidade e prática social. O Movimento foi o primeiro do gênero no Brasil a se preocupar com a miséria social e torna-la problema central dentro do cristianismo (FERRARO,1968). Além de construir uma chave explicativa das questões social a partir de uma leitura cristã fundamentada em uma abordagem sociológica (CAMARGO,1971). Outro elemento atrativo é a própria trajetória do Movimento que vai de um aspecto assistencialista conservador para um ponto mais reformista contestador das estruturas.

Dois autores concentraram suas forças nos estudos sobre a relação de política, religião, desenvolvimento e espaço tendo como objeto principal o Movimento de Natal no recorte temporal de 1943 a 1967. Alceu Ferraro em 1968 e Cândido Camargo em 1971 lançam obras homônimas, “Igreja e desenvolvimento”. Nosso objetivo é analisar a produção destas duas obras no contexto de interesses da Igreja, que naquele período estava preocupada em construir um arsenal teórico-metodológico que possibilitasse compreender a mudança social e criar novas formas de ação pastoral (CALDEIRA, 2017:1).

Ferraro e Camargo elegem o Movimento de Natal enquanto objeto de estudo pois ambos compreendem que se trata de uma experiência, um laboratório para a elaboração de um novo modelo de Igreja. Um Igreja distinta da tradicional e renovada em um compromisso com a mudança social, e não com a manutenção da ordem e do “status quo” de uma sociedade opressora. Em suas pesquisas eles desejam, cada um ao seu modo, aferir a potencialidade do Movimento de Natal como modelo a ser adotado no restante da América Latina. E se não fosse

possível ser exemplo, seu estudo serviria ao menos para entender onde se errou e reformular as diretrizes para sucesso vindouro.

Para compreender melhor os interesses pessoais e científicos que levaram Ferraro e Camargo ao seu objeto de estudo é válido fazer algumas considerações biográficas sobre eles.

O padre Alceu Ravanello Ferraro nasceu em 1935, no Município de Júlio de Castilhos, Rio Grande do Sul. Aos 33 anos era um dos poucos doutores da Igreja Católica Brasileira. Realizou seus estudos de graduação e pós-graduação na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, instituição vinculada à Companhia de Jesus. Passou alguns anos como professor- pesquisador na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS até conseguir passar num concurso público e ingressar em 1974 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul onde permaneceu até se aposentar em 1991. Suas pesquisas se concentraram no campo da Educação, onde é considerado uma grande referência em História da Alfabetização no Brasil. Cândido Procópio Ferreira de Camargo nasceu em São Carlos, São Paulo, em 1922. Foi no Colégio São Luís de São Paulo que cursou o primário e o secundário. Nesta escola Jesuíta ele foi introduzido ao pensamento católico, que o marcara no restante da vida. Logo após se formar em Direito (1945) ingressou no Noviciado dos Dominicanos, ficando por 6 meses como frei Clemente. Fez especialização em Filosofia na Sorbonne entre 1946-1947. Formou-se em filosofia bacharel pela Pontifícia Universidade Católica (1949). Fez o doutorado (1954) em filosofia pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Lá entrou em contato com as ideias de Jonh Dewey, que o influenciou na concepção do conceito de internalização, desenvolvido quando Camargo enfrentou a questão da ética diante da mudança social (HERRERA, 2004:87).

Camargo foi um dos percursores dos estudos da religião nas ciências sociais brasileiras. A excentricidade da religiosidade brasileira uniu os cientistas sociais que pesquisavam religião nos anos 1960. O percurso formativo diferenciado o destaca dos demais. De início seus estudos se centram na religiosidade urbana emergente (protestantismos, espiritismo e umbandismo). A sua grande colaboração ao campo da sociologia das religiões foi promover um estudo da religião em relação a sociedade global (HERRERA, 2004:104). Sua pretensão inicial era delimitar uma clara fronteira entre os estudos filosóficos, teológicos e sociológico. Ele constrói sua produção sobre um perfil bem analítico, que tem sua fragilidade central na concepção do processo de modernização como fatalidade inevitável.

Ferraro e Camargo são alvos de perseguição política no período pós-golpe de 1964. Ferraro era uma figura muito visada pelos militares por causa de sua ligação com a Teologia da Libertação. Ganhou a fama de subversivo justamente pelo período que ficou no Nordeste

brasileiro investigando o Movimento de Natal, ganhando a alcunha de padre comunista. Em 1969 uma das freiras de sua paróquia no Rio Grande do Sul foi obrigada pelos militares a entregar os catecismos que Ferraro lhe dava para distribuir. No momento em que ele soube ele foi tirar satisfação com o militar, que por sua vez tentou prendê-lo, mas graças ao apoio popular e do prefeito ele não foi preso (PEIXOTO, 2017:8). Mas acabou fichado o que impediu de renovar seu contrato com a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, só retornando a academia após conseguir o cargo de professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Com a publicação do Ato Institucional número 5 (1968) vários professores das Universidade de São Paulo acabaram tendo que se aposentar compulsoriamente, e alguns outros se desligaram da instituição, entre eles Camargo. Ele e outros ilustres colegas dissidentes acabam formando o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), que recebeu investimento inicialmente da Fundação Ford. Camargo presidia o setor de pesquisa de Sociologia das Religiões da CEBRAP. A perseguição que sofria por parte do governo militar acabou o reaproximando do catolicismo na figura do Cardeal Arns (HERRERA, 2004:118). Camargo era a ovelha desencantada que se avizinhava da igreja sem voltar a ser rebanho. Esta reaproximação acabou resultando na elaboração do texto São Paulo 1975: crescimento e

pobreza, pesquisa realizada a pedido do cardeal. O que teve forte represália com um atentado

ao prédio do CEBRAP.

Mediante a abertura do Concílio do Vaticano II (1962-1965), na década de 1970, a Igreja Católica, em especial no Brasil, abriu a porta para as ciências humanas e sociais. Isto ocorre devido a compreensão da Igreja de que estas poderiam municiá-la de instrumental teórico- metodológico que a possibilitasse compreender a sociedade moderna em processo de mudança, o que levaria a uma melhora das suas práticas pastorais (CALDEIRA, 2017:1). Este contexto foi fecundo para uma produção historiográfica caracterizada por ter sido elaborada por agentes pastorais imersos nas concepções teológicas da Igreja.

As obras que retratem a questão da igreja e política neste período no Brasil são intimamente ligadas a perseguição sofrida pelos autores durante o Regime Militar brasileiro, que escamoteou os avanços progressistas, levando a um verdadeiro retrocesso e dificultando a produção intelectual sobre o período. Livros foram queimados em sua maioria, os poucos exemplares restantes foram salvos clandestinamente. Há relatos sobre documentações que foram quase que completamente destruída. Produções que só estão sendo publicados agora, graças aos esforços da Comissão da Verdade, que entre seus objetivos tem o de resgatar a memória do período da Ditadura Civil-Militar no Brasil. Todas as obras aqui discutidas são

tentativas de resistência ao esquecimento das transformações sociais que o Brasil passou na década 1960 impulsionado pela Igreja Popular que estava surgindo. Compreender como o Movimento de Natal transformou fisicamente as comunidades se enquadra dentro os esforços de denunciar o retrocesso causado pela Ditadura Civil-Militar e as consequências disso na atual conjuntura política. E, pensar paralelamente como a ação da Igreja e dos que lhe estudavam na década de 1970 ofereceu resistência ao regime.

Na década de 1960, na região Nordeste, há a confluência de muitas forças que estão atuando e disputando aquela região. Ali se tinha ações da igreja, do Estado e até mesmo forças internacionais atuando (CRUZ, 2000:55). Naquele momento acabara de ter ocorrido a Revolução Cubana (1959) que causava um furor comunista na área de influência estadunidense. O temor que o comunismo se alastrasse pela América Latina era imensa. Era então de interesse dos estadunidenses e aliados a manutenção do sistema capitalista naquela área e evitar o avanço comunista.

Dentro desta lógica se formulou a hipótese de que a vitória do comunismo em Cuba só se dera por causa do estado de miserabilidade daquele país. Os especialistas, americanos em especial, acabaram identificando outras áreas em situações de degradação social e econômica similares a cubana e acabaram indicando o Nordeste brasileiro como um lugar propicio para a infestação comunista.

É nesta conjuntura, que Alceu Ferraro e posteriormente Cândido Camargo, são convidados a produzirem suas obras. Ferraro entra em contado com o Movimento de Natal por meio de Dom Eugênio de Araújo Sales, principal articulador do Movimento, que participa ativamente do Concílio do Vaticano II em Roma, onde Ferraro estava se doutorando (PEIXOTO, 2017:9). Nas conversas entre o bispo e o padre, o peixe do Movimento de Natal vai sendo vendido. Ferraro tem vívido interesse em pensar um novo modelo de Igreja e se encontra entusiasmado com o maior evento da Igreja Católica do século XX. D. Eugênio por sua vez tem interesse de publicizar a ação desenvolvida por ele, a qual considerava como uma alternativa eficiente frente ao comunismo ateu e ao capitalismo liberal. O bispo garante ao padre uma rede de apoio, financiamento e informações que o possibilita escrever “Igreja e

Desenvolvimento – O Movimento de Natal”.

Enquanto a obra de Ferraro é resultado do seu esforço de doutoramento, a de Camargo é parte de um programa de estudos das funções do catolicismo em áreas subdesenvolvidas financiadas por duas instituições internacionais, o Instituto de Ciências Sociais de Haia (ICSH) e a Federação Internacional de Pesquisa Sócio Religiosas de Lovaiana (FIPSRL), uma com sede na Holanda e na Bélgica respectivamente (CAMARGO, 1971:6). A ICSH surge em 1952 tendo

como proposta a pesquisa interdisciplinar sobre desenvolvimento voltado para o auxílio a áreas subdesenvolvidas. A FIPSRL é ligada à Igreja e às suas pesquisas de sociologia religiosa. Ações em confluência com o contexto a que me referi no começo desta seção. “Igreja e

Desenvolvimento” (1971) recebem também o apoio de Dom Arns ligado a resistência à

Ditadura Civil-Militar. Os laços com D. Arns são tão fortes que Camargo é convidado a assessora-lo no plano pastoral de São Paulo e acaba assumindo lugar na pastoral de Justiça e Paz (HERRERAS, 2004:120).

Ferraro divide sua obra em três partes: origem e evolução do Movimento de Natal; Serviço de Assistência Rural (SAR) e desenvolvimento – verificação da empiria; relação entre funcionalidade e atitude e entre temporal e religioso, que totalizam doze capítulos. Já a obra de Camargo é composta de sete capítulos: introdução; para uma tipologia do catolicismo brasileiro; métodos e técnicas de pesquisa; História e Estrutura do Movimento de Natal; Ideologia; Estratégia; Mudança Social.

O objetivo da investigação de Ferraro era aferir a funcionalidade ao desenvolvimento da ação de Natal e o caráter inovador dela ao se motivada por valores cristãos de orientação profética que resultaria numa possível desaculturação e crítica as estruturas sociais. Camargo por sua vez objetivava a construção de um aparato teórico-metodológico que possibilite aprimorar as pesquisas sociológicas que estudem as funcionalidades da religião em áreas em vias de desenvolvimento; construir uma tipologia do catolicismo com base na empiria e por fim realizar uma pesquisa de caso que possibilite compreender as funcionalidades da religião em espaços subdesenvolvidos.

Os objetivos se distinguem porque os interesses também diferem. Camargo está circunscrito em um momento onde a academia brasileira está saindo de uma sociologia religiosa (praticada por religiosos) para uma sociologia das religiões que se pretende fundamentada em claros princípios sociológicos desinteressados. Ele está preocupado em construir os parâmetros de sua área, como de fato consegue fazê-lo se tornado até os dias atuais uma referência no campo da sociologia das religiões.

Ferraro, por outro lado, enquanto padre, está interessado em pensar a espiritualidade do evento. Apesar de se apropriar de toda a linguagem sociológica e construir uma metodologia ligada a ela, as discussões da última parte da obra entregam sua intenção de enquanto homem da igreja pensar a espiritualidade emergente no Movimento de Natal. Interesse este que também é partilhado por D. Eugênio que ressalta o caráter pastoral da ação da Arquidiocese de Natal e compreende que a luta por mudança social se enquadra na missão evangelizadora da própria Igreja.

Como ambos os autores bebem de uma sociologia de raízes americanas ligadas à demografia e a estatística, muito mais próximos das ciências naturais, a metodologia adotada por eles se assemelha. Eles optam por fazer um estudo comparado entre as comunidades trabalhadas pelo Movimento e as não trabalhadas. Para tanto os dois se esforçam em procurar localidades que possuam características sociais e geográficas em comum que partilhem apenas como diferença a participação ou não nas ações arquidiocesanas.

A escala das comparações também defere uma vez que Camargo compara sedes municipais (São Paulo do Potengi e Lajes), comunidade rural (Serrote), município (Gameleiras – que segundo o autor ainda possuía estrutura de comunidade rural) e Ferraro investe nas comunidades (duas por municípios, sendo exceção o terceiro par que são de municipalidades distintas mas que guardam semelhanças). A opção pela escala comunidade se deu principalmente devido à presença de outros agentes de mudança que atuam na municipalidade, o que dificultaria precisar o impacto do SAR. O golpe de 1964 também influencia a metodologia adotada pelo padre, como o mesmo explica neste trecho:

Mesmo assim dada a pluralidade de atividades, a extensão da área atingida e a limitação dos recursos financeiros de que dispúnhamos, impusemo-nos outras limitações. Na I parte distinguimos duas fases rurais do Movimento: uma voltada para o desenvolvimento de comunidade, entendida como pequena cidade, a vila, o povoado, o sítio, a fazenda; a segunda, extrapolando já o limite da comunidade, voltada para a “luta pela mudança de estrutura”, entendida está especialmente como mudança nos sistemas tradicionais de fidelidades políticas e de relações de trabalho. Tendo iniciado nossa pesquisa poucos dias após a Revolução de 31 de março de 1964, não víamos, pelo exposto no Capitulo IV, parágrafo 316, condições de levar a bom termo uma pesquisa de

amostragem que visasse verificar empiricamente o impacto desta “luta pelas mudanças de estruturas”. Para uma tal verificação a área propicia seriam as grandes fazendas, onde – tudo nos indicava depararíamos com a desconfiança dos patrões e o retraimento dos moradores. Daí termo-nos orientado, seja na escolha da área, seja na elaboração do questionário, especialmente para uma avaliação do programa de ação comunitária, típico da I fase Rural. (FERRARO, 1968:111).

O próprio contexto histórico trata de impor seus limites as pesquisas, não podendo a obra fugir de seu tempo. Daí a importância da análise historiográfica não se prender ao conteúdo, mas lê-lo em seu contexto de produção para melhor compreende-lo, o seu impacto e recepção ao longo do tempo (CALDEIRA, 2017:15).

Pelo que podemos aferir do texto, duas áreas de atuação são comuns a análise dos autores, as comunidades de Serrote no município de Nova Cruz e a sede de São Paulo do Potengi. Chegando os autores em conclusões similares sobre as áreas e destacando o sucesso da empreitada do SAR em Serrote, comunidade que apresentou mais níveis de desenvolvimento em relação a mudança comportamental aferida pelos autores.

Ambos fazem usos de técnicas de pesquisa qualitativas e quantitativas, com aplicação de questionários e entrevistas, um minucioso levantamento estatístico e detalhada descrição geográfica das áreas estudas, uma vez que tais fatores são parte do critério de seleção para o estudo. Fazem uso com vigor de tabelas e gráficos comparativos, compatíveis com o rigor cientifico que empregavam na iludida tentativa de não se envolver com o objeto de estudo. Camargo e Ferraro também usam o argumento técnico para superar a posição ideológica.

Talvez por ter permanecido mais tempo em campo e ter tido contato direto com o Movimento e o apoio interessado de D. Eugênio, Alceu Ferraro é o que mais faz uso de fontes históricas em seu texto, com grande variedade documental, relatórios dos SAR, notícias do Jornal Diocesano “A Ordem”, decretos e cartas de D. Eugênio. Já Camargo limita-se às fontes mais oficiais e genéricas do Movimento de Natal, tais como falas de D. Eugênio em eventos nacionais, documentos emitidos pela CNBB, entre outros.

As narrativas dos autores se assemelham em personagens e eventos. D. Eugênio e o SAR são protagonistas da narração. A escrita de Ferraro é mais detalhada e emotiva, enquanto a de Camargo é mais sintética e analítica. O ponto de virada na narrativa dos autores diverge, para Camargo é a seca de 1958 que marca a consolidação do Movimento de Natal. Já para Ferraro a I Semana Rural é o ponto de viragem onde as ações isoladas da Igreja de Natal passam a se integrar em torno de um Movimento. Ambos concordam que o início do seu objeto é o desmantelamento da base estadunidense de Natal após a II Grande Guerra Mundial.

Uma importante divergência entre os autores é a interpretação sobre a influência das Ligas Camponesas na Sindicalização Rural promovida pela Arquidiocese. Para Ferraro não há uma relação entre um movimento e outro, tendo em vista que o contexto do Rio Grande do Norte era muito particular, daí a originalidade do sindicalismo rural promovido na área. O autor parece se preocupar com uma “pureza” do movimento que atende às demandas internas da igreja e externas da própria sociedade rio-grandense sem ser atingido pelas ações da esquerda ligada ao comunismo.

Camargo, por outro lado, defende que o processo de sindicalização foi uma resposta direta ao avanço das Ligas Camponesas no Nordeste. Acerca disto D. Eugênio afirma:

Com sua ideologia e os métodos, as Ligas Camponesas produziram reações motivadas pelo medo de mudanças radicais. Houve uma grande resistência por parte dos latifundiários a qualquer tipo de união dos trabalhadores rurais. Com o advento das Ligas agressivas, surgiu também mais abertura entre muitos proprietários para um sindicalismo democrático. Dentro da Igreja, muitas pessoas abriram seus olhos para a sua obrigação de dá uma resposta cristãs justas reivindicações dos trabalhadores. Ela se envolveu no apoio e na orientação dos sindicatos cristãos, com enorme sucesso. E é irônico o fato de os marxistas terem assim motivado tanto o trabalho construtivo, oposto ao que eles tinham em mente (AMMANN; GUERRA; SANTANA, 2015:115)

Fica assim claro que a tese formulada por Camargo é a mais próxima da concebida por D. Eugênio. Os Sindicatos Rurais católicos mesmo de forma indireta se relacionam com as Ligas Camponesas enquanto concorrentes.

Os autores em seus livros trabalham muito com a perspectiva do espaço em escala numa relação centro-periferia bem complexa. Ferraro se esforça pra mostrar que a experiência de Natal está sintonizada com a influência que esta recebe da Santa Sé que durante o período que vai de 1930-1960 começa a se voltar progressivamente para o social. Camargo de maneira mais engenhosa mostra que esta relação do centro-periferia é mais reflexiva e ativa, ao demostrar que o Movimento de Natal influencia o poder local e nacional, por exemplo, com a criação do Movimento de Educação de Base (MEB) e outras políticas públicas. Mas também que o mesmo é resultado direto do influxo da doutrina social da Igreja Católica e dos conhecimentos científicos gerados pelas pesquisas na área social.

Alceu Ferraro formula três hipóteses a serem testadas:

I HIPÓTESE: As atividades temporais empreendidas pela Igreja, através do SAR, no meio rural da Arquidiocese de Natal, demonstram- se funcionais ao desenvolvimento, seja 1) conformando concepções e atitudes com padrões mais funcionais ou mais compatíveis com os objetivos e o processo de desenvolvimento, seja 2) conformando com idênticos padrões o comportamento dos indivíduos atingidos e , em consequência e na medida