Ainda que se tente construir o paraíso na terra de exílio, o desejo de voltar à terra de origem assombra os exilados. Assim, esse desejo, que não se concretiza, é marca de muitos poemas. Mesmo que o retorno seja enfatizado como se já tivesse ocorrido, o desejo é o que permanece. Exílio não é só territorial; é possível sentir-se fora de casa mesmo dentro de casa. Portanto, o desejo de retorno também existe como no caso de “canto do regresso à pátria” (título escrito todo em letras minúsculas), publicado no livro Pau-brasil: cancioneiro de Oswald de Andrade (1925). O poeta subverte o individualismo dos românticos e faz uma paródia de “Canção do exílio” cheia de humor, retorcendo o sentido de palmeiras e de sabiás:
Minha terra tem palmares Onde gorjeia o mar Os passarinhos daqui Não cantam como os de lá (ANDRADE, 1974, p. 144).
A palavra “palmares” traz ao poema a escravidão e a violência e corrompe o sentido da lista de itens edênicos – bem simplificada nesse poema, por sinal – que se pode esperar. Irônico, o morador da metrópole segue parodiando até desconstruir a invocação de Deus:
Minha terra tem mais rosas E quase que mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra Ouro terra amor e rosas Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra Sem que volte pra São Paulo Sem que veja a Rua 15 E o progresso de São Paulo. (ANDRADE, 1974, p. 144).
O eu lírico quer tudo, mas é apenas um excluído. No corpo do poema, ele não menciona o exílio e, no título, cita a certeza da volta. É no poema que o “regresso à
pátria” se materializa, morada de uma nova concepção de literatura e de nação. Joana Meirim (2013) escreve que, valorizando ou depreciando a pátria, nesses poemas de exílio, subjaz a intenção do regresso, a vontade de identificação e de reconhecimento.
Esses são os sentimentos de “canto do regresso à pátria”. A novidade do poema é que o poeta faz questão de ser antirromântico tanto na forma – o poema tem a mesma métrica de “Canção do exílio”, mas não as rimas – como na valorização da velocidade e do agito da metrópole.
Em “canto do regresso à pátria”, rompe-se com o padrão romântico especialmente em relação à presença da natureza que não sobressai. No entanto, as alusões à urbanização e à industrialização dão um sinal de enviesado orgulho nacional. O item edênico que mais se destaca é o principal endereço financeiro do Brasil, a Rua 15 de Novembro, onde se localizam, desde o início do século XX, os principais bancos da cidade de São Paulo. Não é à toa que a última estrofe tem um ar burocrático. Esse é o meio de informar que não é possível cantar a pátria sem explicitar as mazelas e as contradições de sua história que começa na escravidão e desemboca no sistema financeiro.
É possível juntar o tempo da escravidão ao do presente, unindo-se, no mesmo local, os espaços que Gonçalves Dias contrapôs em seu poema. Em uma paródia mais recente de “Canção do exílio”, Alessandra Espínola faz questão de afirmar que esses espaços são as faces de uma mesma moeda identificada como “minha terra”.
O poema contém um exílio existencial com menção a uma natureza sem exuberância e misturada a elementos socioculturais. O exotismo fica por conta de uma natureza importada:
A minha terra tem garças, mangue, muito verde e galos a cantar a minha terra tem porco, boi, cavalo bosta seca, lama de se afundar a minha terra tem coqueiros, cajueiros imbiribas, araçás, cordel alegre de tristezas, tubarão, golfinhos, pescadores e lavadeiras na beira da ponte na beira do rio de
Quipapá.
A minha terra tem desgraças, fome que no couro come
e esse povo sabe o quanto há de correr pro bicho não pegar...
mas nem tudo é desmantelo, não senhor! Amanhã, tanto aqui como lá
o sol há de nascer como um repente! Também minha terra, me cantou um sabiá, é a terra do sol nascente.
(ESPÍNOLA, 2012, p. 65).
A ponte – ou o rio – de Quipapá une – ou separa – as duas estrofes, une – ou separa – duas situações antitéticas. O lado positivo de “minha terra” opõe-se ao “desmantelo” da segunda estrofe. A palavra “Quipapá”, nome de uma cidade pernambucana, talvez seja de origem africana como uma corruptela de “quipacá” (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2017), que significa refúgio ou asilo de fugitivos.
O significado de Quipapá permite dar uma identidade física e histórica ao exílio. O exilado no poema está asilado entre duas situações contraditórias. Os séculos XVIII e XXI convivem no poema. Simbolicamente, a beira do rio ou da ponte é o lugar onde ocorre esse exílio existencial.
A dicotomia espacial e ideológica que o poema de Alessandra Espínola traz também pode ser observada em “Poema sujo” de Ferreira Gullar:
nas palafitas da Baixinha, à margem da estrada de ferro,
onde não há água encanada: ali
o clarão contido sob a noite não é
como na cidade
o punho fechado da água dentro dos canos: é o punho
da vida
fechada dentro da lama Já por aí se vê
que a noite não é a mesma
em todos os pontos da cidade; a noite
não tem na Baixinha a mesma imobilidade porque a luz da lamparina
não hipnotiza as coisas como a eletricidade hipnotiza:
embora o tempo ali também não escorra, não flua: bruxuleia
se debate
numa gaiola de sombras. (GULLAR, 1976, p. 49-50).
O trecho citado ressalta a visão plural que o eu lírico tem da realidade, percebendo que uma situação pode ser vista de mais de um modo e, ainda, dependente de outra situação em que ela se insere, também dicotômica. “Poema sujo” e o poema de Alessandra Espínola abrem mão da visão simplificada da realidade.
O livro Exercício de olhar, publicado em 2012, de coautoria de Alessandra Espínola, onde foi publicado esse poema – sem título como os outros do mesmo livro – está organizado em seções. O poema está na seção “Esperança”. Parece possível supor que a esperança de futuro é anunciada pelo sabiá, metáfora do poeta, ao sugerir que o nascer do sol seria uma canção ou um poema. “Aqui como lá” são dois lugares simétricos, duas margens do rio, dois tempos históricos, dois lugares de penúria ou de riqueza. Entre os dois, o poeta que os aproxima por meio do poema – sua morada.